Alberto passara a sua vida modo clepto. Por onde passava
deixava lugares vazios. Corações empedernidos outrora, eram postos na mão há procura
da caneta antiga, do retrato minúsculo ou do relatório de contas que estava
para ser entregue na manhã seguinte.
Alberto era um cleptómano completo, que levava democraticamente
a todos, de tudo um pouco.
Um dia aconteceu-lhe que, nos bolsos do seu casaco que
chegava a casa sempre mais pesado do que saía, encontrou um pequeno papel, um
post it, que dizia apenas: Devolve-me!
Como clepto-honesto que era, sempre que encontrava objectos estranhos passíveis de ser devolvidos (a sua colecção de colheres de café, dos
vários cafés por onde passava chegou a ser monstruosa, a ponto de ser forçado a ir devolvendo em caixas, aos estabelecimentos que suponha serem os
leais proprietários e servidores da mistela castanha de espuma dourada) fazia-o sem demora.
Mas era a primeira vez que encontrava declaradamente um objecto que fazia questão de ser devolvido, com todas as letras: Devolve-me!
O maior problema era perceber de onde saíra aquele pequeno
papel, que tinha como única característica definidora ser de um verde claro e
profundo, claramente roubado dos olhos do oceano.
Refez os seus passos nesse dia, revisitou todos os lugares, tendo
o cuidado de comparar esse papelinho, com todos os que com ele se cruzavam.
Um outro e novo pormenor na sua viagem, surgira: Antes de sair de
qualquer casa, de qualquer espaço, do trabalho, revirava os bolsos.
O que deles caia repunha nos seus lugares. Quem o via, (sabendo da questão que já lhes roubara muito) sentia apenas a atenção ser levada. E por obra e graça começaram a surgir os agradecimentos pelo acto simples de nada ter nos bolsos excepto um papel a dizer "Devolve-me".
O que deles caia repunha nos seus lugares. Quem o via, (sabendo da questão que já lhes roubara muito) sentia apenas a atenção ser levada. E por obra e graça começaram a surgir os agradecimentos pelo acto simples de nada ter nos bolsos excepto um papel a dizer "Devolve-me".
Mais tarde nesse dia, com bolsos leves pela ausência mas de
semblante pesado pela interrogação, entra em casa.
Fala com Maria, mulher fantástica que Alberto dizia ter roubado de uma vida triste como indigente professoral nos confins do inferno distante chamado interior e pergunta-lhe, se tinha ideia, vislumbre ou
hipótese sobre o pequeno papel que com ele correu o dia.
Ela sorriu-lhe.
Ele questionou o sorriso.
Ela simplesmente disse-lhe:
– Esse papel era somente destinado
a devolver, quem o trazia.
– Como? Devolver-me mim?
– Passaste os anos a levar recordações de todas as casa e
caminhos por onde passaste. Erguemos prateleiras para veres as ideias passadas.
E de todos esses objectos nenhum te fazia sorrir. Eram medalhas de uma guerra
que te fazia preencher o vazio de pessoa que não tem nada.
E eu? Também sou um desses pequenos momentos que roubaste. E
que levaste por momentos. E tenho saudades dele... Do Alberto que me levou.
Há uns dias decidi que era altura de te devolveres a mim.
Coloquei-te um pedido de devolução no bolso que menos vês.
Obriguei-te, assim, a correres os trilhos que tantas vezes fizeste.
A devolver os objectos para ficares com
as recordações. Ouvires as palavras e os olhares que abraçam.
E em cada momento que foi devolvido, ficaste com a memória
que faz anos, mas que não envelhece e te faz inteiro.
E quem me roubou, surge de novo.
Alberto, clepto-honesto, continuou a levar objectos até à
ombreira da porta de cada mundo onde passava. Passou a devolve-los nesse
bendito local, onde foi roubando a amizade de outros para si, trocando roubo
por roubo.
Todas as manhãs levava emprestado umas horas de espera até
voltar a Maria.
Alberto, nunca mais levou nada que lhe lembrasse.
Levava só o que não se lembrava.
Levava só o que não se lembrava.