quarta-feira, 16 de julho de 2014

Copo do Dia - Delicada solidão

Delicada solidão

Vejo-te passar, confesso,
Nas ruas do meu sentir.
Cada vez que os meus olhos em ti tocam,
Quebra-se o escudo que te rodeia,
Pelo instante da flor que corre.
Tida girassol que procura,
O Sol que alumia a esperança.

Vejo-te de olhar baixo,
Percorrendo as pedras da calçada,
Como uma mãe cuidadosa,
Que evita pisar o chão,
Amostra de nuvem delicada.

Olhar perdido no tempo,
Relembrando o caminho que não é o que pisas.
Movimentos sóbrios, contidos pela delicadeza,
Com que cada passo se afasta do anterior,
Como uma pétala que se arrebata inteira,
Da flor que caminha…

Sim, confesso.
Vejo-te passar todos os dias em que estou perto,
E mesmo naqueles em que não estou.
Aguardo que a tua delicada solidão passe,
Se deixe ir com o vento que enlaça os teus cabelos.
Espero um dia ver-te a olhar em frente,
Olhares para mim, mesmo longe,
Em que o teu caminhar delicado,
Seja ainda assim, apenas passos num trilho,
Em vez da consonância triste de um destino sem fim.

Um dia destes apago da memória esse caminhar,
Apago com uma flor ou com a voz,
Até as pedras da calçada merecem ser caminhadas,
Com Alegria, pois é o seu destino sustentarem,

E nosso, o futuro.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Copo do Dia - E agora?

Lembrei-me dos dias passados, debaixo da sombra dos teus seios.
Sol obscurecido, em dimensão afável, que não impedia o cegar momentâneo.
A cabeça, minha, assente no colo, teu, deliciada com a visão de um olhar que aconchega.
Um momento de ternura que deixa desejo e toque que deixa saudade.
Assim estavam as nossas tardes, enredados dedos, pendurados num olhar...

E Agora? 

O meu pescoço moldou-se às tuas pernas.
Os meus dedos são o negativo dos teus.
O meu olhar é infinito porque não choca com o teu...
Até o meu sorriso tem fim, quando o pensamento se afasta de ti.

Rio...

Afinal de contas o meu corpo e o teu, são duas partes de nós.
Ajustados pela cama. Pelo abraço. por uma infinidade de assentimentos,
De zangas, com final feliz.

Os nossos corpos, que se tocam, nús,
Vestidos, sem pele, sem outro toque que não o sopro que respira,
Que arrepia, que faz correr aquela sensação de temor...
Pelo chegar da manhã que separa.

E agora?

Agora regresso ao teu colo.
Aconchego-me às tuas pernas.
Beijo todas as sombras,
Encosto as mãos no teu amâgo,
Oiço dois corações bater.

E penso, que amanhã, o meu abraço já não chega.
Porque o nós já é maior.
E não tarda,  mais um olhar.




terça-feira, 1 de julho de 2014

Copo do dia - A Desinvenção do Amor

A Desinvenção do Amor.

O amor não existe. 
Ou melhor existe.
Desde que foi inventado pelo teu amor.
Amor esse que não existe.
Pois não acredito em ti. 
Nem nesse...Amor... que me dizes ter.
Parece-me despropositado.
Afinal quem quer respirar o outro, todas as horas do mundo?
Sentir o vibrar da sua pele debaixo dos seus dedos.
Encontrar no olhar um abraço,
E num sorriso um regaço?

O amor não existe!
O teu amor não existe.
Não existe o trepidar de um coração, o salto de um compasso tolhido,
As lagrimas de alegria, a morte aparente após êxtase.
Nada disso existe.
Nada disso existe...

Óh meu amor...

Este amor que me falas sem nada me dizeres,
Essa ausência transposta em dor, 
pelos momentos breves em que nos separamos em dois corpos,
O ardor de um toque ausente,
Nada, mas nada disso, existe.

Nem sequer nós existimos nessa ideia,
Porque seríamos feitos dessa substância inaudita, 
Invisível,
Que parece poluir as mentes dos homens.
É a nossa sorte,
São palavras perdidas numa folha de papel...
E no entanto, 
há um sentimento perdido nelas.
Algo forte,
Algo que não consigo enunciar.
Mas com altivo porte.
Não sei...

A minha ausência de ti, 
Irá certamente aclarar as ideias que tenho.
Detesto perder-me na confusão dessa palavra. 
Detesto sentir-me acossado pela enxurrada de ideias,
Calorias energéticas que parecem correr o meu corpo.
Acho impossível sentir-me capaz de mais do que o possível,
Como se esse momento incerto desse força mirífica.
Enfim não percebo esta existência pautada por...isto.

Renego com todas as minhas forças essas quatro letras.
Não é possível.
Nem pode durar para sempre...
A pessoa hoje, amanhã já não é.
Amar não é desconhecer. 
É conhecer.
E se todos os dias conheces de novo, não amas. 
Apaixonas-te.

Paixão, sim, existe.
Pura química.
Puro deleite.
Puro eterno.
Porque tem de ser renovado todos os dias.
E Paixão renovada todos os dias é o que tu chamas Amor.

Por isso não existe o Amor.
Existe o acordar todos os dias, 
Ao lado da tua paixão.
Do teu desejo.
Não existe amor.
Existe Amanhã!