sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Copo do dia - Estar a fingir estar bem consigo

Sou um tipo bem-disposto. Gosto de sorrir. Mas finjo sorrir como quem respira. Gosto tão simplesmente de ver os outros felizes, na ausência dessa capacidade.
Mas tudo isso é uma forma simples como existo. Sempre em compensação. Sempre a evitar o caminho do confronto.
Uso o Humor como uma Maça de guerra.
E uso-o como almofada. É um colete salva-vidas furado.
Uma camisa que visto de manhã, que já está gasta e esforçada no fim do dia.
O humor é uma parede, quem impede de sofrer mais com as dores que não são dores, mas  apenas Vida.
Ouvi hoje, numa conversa misturada nos transportes públicos, que há pessoas que fingem estar bem com a vida, para que a sua vida passe sem questões.  
Creio que faço o mesmo. Só não finjo tão bem…
Disfarço.
Num esforço de auto-reflexão, evitando a piada fácil quem me afasta, procurei nos confins das memórias que entendo esconder, mas não esquecer, o último momento em que amei.
Terá sido aquele momento em que foste para acama com um livro para o lermos, juntos?
Ou quando chego à cama e tu meia a dormir me abraçavas?
Cada vez que discutíamos a cor de uma coisa qualquer, desde um cortinado até ao prato decorativo que estava em cima da mesa… Ou nunca esteve…
Cada vez que fazíamos as pazes, depois dessas  trocas.
Ou simplesmente o tempo que passava a olhar para ti, vestida ou nua, com os mesmos olhos, com as mesmas formas, abraçadas nas minhas mãos, envoltas na minha boca, pousadas nos braços que se esticavam quarto e meio.
Deixavas-me embalar assim, à distância  com a música que passava no rádio, o corpo que não tocava.
Dançavas na minha mente, com os passo mais sublimes, tocando o chão que se levantava para te apoiar.
E…
Chamavas-me “parvinho”, com cada piada com a qual me tentava ajustar à realidade que mudou. Era um parvinho doce.  Um carinho misturado com advertência.
Fiquei eternamente nesse estado, quando simplesmente partiste naquele dia.
À minha volta diziam que parecia estar a lidar muito bem com a situação. Acho que quem olhava, não via. E achava anormal tal situação. O lidar bem com isso é diferencial. Não se ajusta ao ritmo da sociedade homogénea.
Para o mundo, o que se passou é sempre uma tragédia em três actos. E com muito azar em quatro.
Honestamente, agora sorrio. Finjo estar onde não estou. Agradeço o sorriso à piada seca que enche o desconforto do silêncio.
Assento o corpo, esperando assentar as ideias.
5 minutos ou dez anos depois de ti, ainda me abraças à noite, quando chego à cama.
É um abraço menos quente…Mas ainda é.
Ainda lá estás.

E eu finjo-o também.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Copo do dia - A Serra

O magnífico acto de de decidir no último instante o destino de umas férias de descanso, é que o inesperado acontece. Podem ser pequenos azares que levam a descobertas interessantes ou simplesmente o cansaço de respirar que condiciona o rumo.
Ir para serra tem duas virtudes, consoante a altura do ano. Ou está coberta por um manto branco ou por uma manta quente aconchegante que pode exagerar.

Ir para a serra com uma manta era estar lá no pleno verão em que nada acontece. Onde presas e predadores partilham os mesmos cursos de água, quando estes existem. 
E no topo da Serra, só onde a água brota pura, encontra-se outra cor que não o cinza do granito.

No meio de um deserto, ainda assim pejado de turistas, começaste a correr para mim, como se não me visses há mais de uma vida.

Era uma brincadeira, lenta, tua. A tua corrida poderia ser comparável à de um caracol em câmara lenta, mas os teus abraços vindouros, esses eram mais velozes que a luz.

Estava demasiado calor, no entanto, para consumares o abraço. Ficaste-te por um beijo fugidio. Não havia muito a fazer ali. 
Havia um pequeno oásis, uma represa de águas paradas, pejada de pequenos peixes. Local de má memória pela perda acidental de um para-sol que decidiu mergulhar nas águas sujas, reservadas para consumo humano.
Apelei-lhe ainda que mudasse de ideias, que flutuasse, usando o melhor vernáculo, que voltasse.
O destino decidiu doutra forma. Ficou rodeado de peixes, como se de uma estrela se tratasse. Concebo a minha falta de atenção como causa de separação...

Não longe, nem perto erguia-se um mercado, pejado também de peixes maiores, onde os "pescadores" que nos impingiam de casacos com "atençãozinhas" até comidas bizarras e estranhas, servidas e obrigadas pelo "Experimente"...É bom, não encontra melhor... Ui é cá de uma qualidade...E suave... Era presunto ou cannabis?  

Entre o calor e os vendedores, senti-me eu expulso. Era tudo demasiado...Demasiado assoberbante. 
Era como aquele local fosse um buraco negro comercial de onde ninguém conseguia sair sem comprar algo... Violámos as leis da física, porque te usei como desculpa. - Tenho de negociar com a menina o que vamos levar.

Tenho de negociar... É verdade contigo negoceio muito. Todos os beijos têm como contrapartida outros. Os carinhos idem aspas. Nada se faz sem uma contrapartida. Todos os amores, sobretudo aquele que faz nascer, precisam de uma. É um equilíbrio inescapável.

Corremos daquele antro. Fugimos. Escapamos com a roupa colada ao corpo. Bebemos para esquecer.

Corremos serra abaixo, como água que nunca vimos.
Vimos uma águia pousar à nossa frente, como se quisesse sentir à distância só o olhar nosso pousar.
Ou então ficar zangada por perturbarmos o seu rumo de férias e caça.

Era o vento. O calor. O teu abraço, encharcado. 
Foi um beijo separado no tempo.


Parámos no vale, esperando melhor tempo. Encontrámos a ribeira que nos escapava. As árvores que davam sombra e o fruto que nos queria. Ainda verdes, pequenas, bagas apenas, quaisquer coisas penduradas das árvores esperavam que a Serra lhes desse o conforto e o calor no momento certo.

Decidimos o caminho seguinte com a habilidade de quem olha para as estrelas... Mas era meio-dia e no céu, limpo e azul, demais quente, havia apenas um Sol.



domingo, 16 de julho de 2017

Copo do dia - A Angústia

Tenho em mim uma certa angústia pela vida que deixei para trás. Aliás não a deixei… Simplesmente desapareceu.
Deixei de fazer certas coisas e dediquei-me a outras. Deixei e lidar com pessoas. Passei apenas a lidar com ideias. E dei-me conta disso com um gesto que não fiz perante uma criatura inocente.
No meio de nenhures, um cachorro corre na tua direcção, já grandinho, tão ameaçador como uma bola de algodão. 
Agarra-se a ti na esperança de quereres brincar. 
E tu, olhas para ele, pensas mil e uma coisas, apetece-te dar-lhe a mão, brincar com ele e … nada.
Não fazes nada. A não sentires-te culpado pelo não teres feito.
Como cheguei a este ponto. 
A culpa é das pessoas. E de mim próprio que ainda me incluo nesse grupo. 
Vivemos demasiado uns para os outros. Demasiados egoístas e virados para querermos tudo sem nada darmos. 

E depois, um cachorro que pede uma festa, fazendo uma festa, nada obtém.
Sim, sinto-me chocado comigo. Com a minha falta de empatia ou excesso de sociopatia, se é possível haver excesso no que não é bom.  

Questiono-me por onde anda a minha alma. Aquela que me fazia arriscar um pouco mais.
Se calhar ficou-se pelos encontros à quinta-feira. Enclausurada num momento de liberdade semanal. 
E no resto dos dias, lido com o mundo que perde o rumo, como eu o perdi.
Onde estás tu? 
Pergunto-me todos os dias. Não se trata da banalidade questionada a um espelho ou o espaço físico onde os pés assentam. 
No universo, no meio de tudo, no espaço-tempo, onde estou eu?

Lido todos os dias com a violência de trabalhar no meio de seres que se digladiam para fazer o seu pior, fazendo o seu melhor. 
Tento manter-me à parte desse conflito pouco latente. Deixo de sentir. 
É isso! 
Deixei de sentir. 
É a defesa que criei. 
Não há raiva, nem amor, nem desejo. Há apenas a sobrevivência das 9 às 17 ou na minha realidade das 9 às 19.
Olho para os jornais, para as televisões e vejo o mesmo acontecer.
Estamos rodeados das mesmas pessoas, com nomes diferentes. Todos querem ser os maiores sem terem o mérito para tal coisa. Todos querem ser…
Custa-me voltar a sentir. E enquanto termino o que escrevo aqui é o que acontece. Demoro meio milhar de palavras a dizer que quero viver. 
Quero a dor, a saudade, mesmo a raiva e a tristeza. Quero voltar a sentir tudo. Com a intensidade que tinha antes.
Sim. Não se volta. Não há retorno. Há outros caminhos.
Mas a essência de tudo continua no mesmo sítio. 
No mesmo coração. Apenas tem de ganhar as mãos e a cabeça. 
Tem de perder o medo de fazer algo que seja sentir. 
Arriscar fazer uma festa a um cachorro que quer brincar. Esse acto tão perigoso.
Um que te faz ser humano. 
Que te faz amar. 
E perceber que por mais que o mundo esteja errado, tu estás mais ainda porque te deixaste conquistar. 

Porque é naquele instante que percebes que viver não é que tens feito, mas apenas uma aparência desse acto escolhido.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Copo do dia - O Pombo


Na sexta passada não fiz a minha estreia na feira do livro. 
Ou melhor fiz...

Não dei um único autografo para a obra que contribuí.

É verdade que sou 1/25 avos do livro… mas pelo menos merecia 1/25 avos dos leitores…

A estranheza com que olhavam para o livro, para o título, não me incomodou. 

Incomodou-me que um manual de agricultura tradicional fosse comprada por pessoas que nunca meteram a mão na terra e o mais próximo da natureza que estiveram, fosse a pasta de papel que constituía esse aglomerado de instruções.

Não me senti esquecido pela feira. Aliás insistiam em enfiar o meu nome nos ouvidos das pessoas,  de quarto em quarto.  
Até eu me fartei.
Aproveitei para escrever. Bastante.

Ah! Afinal gatafunhei, mas o bloco de notas.

Fui criando personagens reais, baseadas em factos fictícios. 
Fui criando um rumo, na realidade da calçada do Eduardo VII, apresentando um Livro de um Eduardo. 
E nesse curso apenas um Pombo teve coragem de se aproximar.
Estava curioso. Queria saber mais. Ainda lhe ofereci um autógrafo… Disse-me na sua língua que tinha deixado a carteira noutras penas. Olhou para mim. Inclinou a cabeça em descrédito pelo tema e bateu asas.
por seu lado, os humanos passavam.
Pequenos e graúdos. Olhavam para o dourado e negro do livro, esperando ver um título fofinho.
Mas não.
Era título sacana. Afugentador.
Acabei o meu turno de gatafunhagem.
Passaram patos reais a voar…
E autógrafos, foram três da banda em diante.
Faltou um bar…

Canalhas esses, andavam por lá… 
A espreitar os livros.

sábado, 15 de abril de 2017

Copo do dia - A última vez que fiz algo que nunca fiz

Comecemos pelo que faço todo o dia. 
Ando pelo Mundo a tentar mostrar que o mundo é maior a pessoas que apenas estão interessadas no seu mundo. 
Ando pelo Mundo a fazer o papel ingrato de me importar com o Mundo e não apenas pela visão que cada um tem dele.
Ando pelo Mundo a ser um parvo. A ser pequeno. 
A olhar para grandeza com a pequenez de quem acha que pode mudar o mundo com palavras.

A verdade é que ando na mesma vida de “corretor do mundo” com o mesmo grau de utilização que o corretor ortográfico nos jornais. E com o mesmo impacto.
Mas esta reflexão começa com a última vez que fiz algo que nunca fiz antes…

E sinceramente não me lembro. Não me lembro de fazer algo assim há tanto tempo quanto aquele que faço de corretor.

Acho que essa sensação que me assombra. Assombra-me tanto quanto a ignorância que se testemunha nas redes sociais e nos jornais cujo único interesse é vender a teoria de que tudo está mau e horrível. E sim tudo está mau e horrível. Porque isso tem mais “likes” quando te sentes ultrajado pelo caminho do mundo. Não interessa que essa pequena mentira caminha sobre pedras aguçadas, o ultraje traz “likes”.

A minha sobrinha Mariana aprendeu a andar de bicicleta hoje. Estou à espera que um dia ela aprenda a falar sem gritar. Que os pais aprendam que o telemóvel na mesa, a passar filmes é algo que não ensina nada e só mima. Que tirar o tablet como castigo não é chantagem é educação.
Estou à espera que as pessoas aprendam que o mundo não precisa de ser o que lhes vendem.

Hoje, até o pânico se vende em pacotes de 20 minutos, que é o tempo que uma peça jornalística sobre o fim do mundo, dura. Ou pelo menos sobre o fim do fim do mundo que nos querem vender. É bom para vender anti-depressivos. E Whisky! Muito. Ou para os bares ou discotecas…

O Almoço foi farto. Demasiado. Cheio de bebida, comida grelhada. Rodeado de família.
Crianças a correr. A Prender. A inventar.
Os adultos conversam. Bebem. Falam muito sobre nada e quase nada sobre as coisas importantes.

As pessoas adiam os caminhos, para ficarem no conforto. As verdades que temos como base da nossa existência são essenciais. Podem ser as maiores mentiras que contamos a nós próprios.
Acho que aquilo que eu não faço há muito tempo ou que nunca fiz, foi parar de mentir.
Mentir-me. Mentir-vos.
As vossas mentiras são odiosas, mas a minha ainda o é mais.

É que eu sei que estou a mentir!

A Mariana estatelou-se. Minto-lhe dizendo que não teve cuidado e por isso caiu. Na realidade foi uma questão de equilíbrio e a aplicação de uma das leis de Newton, possivelmente a Terceira.

Tudo está rodeado das pequenas mentiras que precisamos:
Água é boa? 
Isto faz bem? 
Não te preocupes...

Os miúdos estão a correr pela rua. Um deles tropeça. É normal. Esfacela o joelho. Levanta-se corre. Meia hora depois, com umas pedras cravadas diz que não consegue andar…
Álcool, Betadine ou bálsamos maravilhosos, curam a dor de alma da mãe e do miúdo. Ralha com ele. 
O tio afirma que tudo está bem quando acaba bem.
Eu observo ao longe, apesar de estar sentado ao lado. 
Analiso com frieza necessária se o miúdo precisa de ir ao hospital. 
Examino a ferida com o sentimento desapaixonado necessário.
Nada de importante. Fiz tantas como aquelas. 2 semanas e está curado.
Agora sim posso ser uma pessoa normal. Agora posso ser o Pai extremoso. Antes também o seria. Até seria mais. O pânico não resolve nada.  

Os americanos lançaram uma bomba. Os Russos dizem que têm uma maior. Os coreanos dizem que são os maiores. Os Holandeses gostam de bebidas e mulheres, mas não gastam dinheiro nelas. Os Portugueses estão felizes e endividados. O mundo acabou.


Esperem, ainda só vamos no intervalo. 
Amanhã o mundo acaba outra vez.

domingo, 19 de março de 2017

Copo do dia - As "Crónicas do Bar de Canalhas"

Na passada sexta feira, dia 17 de março, foi apresentado um livro, Crónicas do Bar de Canalhas, onde participam 24 autores, entre os quais, ando eu.

Dia 24, será feita uma apresentação no Porto na Associação do Porto de Paralisia Cerebral, para a qual revertem todos os direitos de autor.

Procurem-no e comprem-no.
De certeza que encontrarão motivos para o fazer.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Copo do dia - O perigo iminente

Como já não escrevo nem penso, apenas deixo que os dedos digam o que eu gostaria.
Tenho as mãos geladas. O dedo indicador está enregelado. Se o levantasse para facilmente acusar alguém de alguma coisa, cairía, com igual facilidade, no chão desfeito em mil impressões.

Os meus dedos acompanham o meu corpo. Acompanham os meus olhos nesta frente climática que me afasta de escrever.

Não, não acho que tenha perdido o jeito de me repetir por cada linha. Ou de ler o plágio que os autores fazem. Acho que simplesmente me sinto desalojado.

Adverbio as frases com facilidade. Tenho muitos mentes para dar.
A minha alma está anestesiada, pela tal falta de tecto, pela falta de calma. De propósito...

Aguento-me nas canetas, força nas pernetas, isto é o caos total. 

Penso na juventude perdida em frente a livros que tudo sabiam. Escritos por pessoas que sabiam ler, que sabiam perguntar. Agora os livros são escritos por quem tudo sabe. Pela razão absoluta e incontestável. E só por isso, estão errados.

Tenho frio...Pés e mãos. Cabeça quente, coração que só bate .
Já não me lembro de história. Nem do que jantei. 
Gostava que o Banco não embirrasse com o que nunca foi assunto.

Ao mesmo tempo gostava de ter o nome suficiente para que me chateassem com ofertas de papel moeda.

Leio um amigo que escreve a sua alma. Leio e sinto-me rico por o ter. E pobre por não escrever.

Perco-me no assunto. Nem sei qual é. Já não me lembro do que é estar meia hora sentado a escrever coisa alguma. 

Saber é um crime, já percebi. Não saber um crime maior. Crime capital é não perguntar.

Luto. Todos os dias. Na colina. Sempre a subir. E o topo dessa colina são os meus olhos, virados para o mundo.