Vivo uma época de resignação
revoltada. Isto ao contrário dos resignados a serem revoltados. Vejo os campos
de futebol cheios. Vejo os cofres cheios. Vejo na televisão que tudo vai mal,
para ir bem, na notícia seguinte. Vejo um partido plantar candidatos. Vejo os
senhores do futebol serem acusados. Vejo-me resignado a ser um instrumento do
poder que finge ser benévolo.
Atiram-se cheques pela janela dos
fundos… Mas na montra estão ideias sem cobertura.
Estou resignado a ver tudo do
assento, em frente à televisão, em frente ao gira-discos herança nova de uma geração
saudosista.
Oiço, com a raiva, políticos a
falarem, pseudo-políticos afirmarem, pretendentes a deputados inventarem, todos
em simultaneamente gritarem “eu sou a cura de todos os males…”
Apetece-me espetar-lhes com tachas pequenas, um rótulo de "Banha da Cobra fresquinha"... Ou mesquinha!
Estou resignado a escrever num
teclado pequeno, grande ideias da minha mente que saem em letras pequenas, numa
espécie de contrato que faço com estas constatações. Uma espécie de contrato de seguros... Pagamos para nunca recebermos... Pagamos....Pagamos... E quando se trata de receber algo... Ah ainda tem de pagar... E ficamos resignados...
Ou revoltados.
Olho novamente para a televisão. Sinto-me
afogado, no meio do mar, a dar a mão a um irmão. Tem outra cor é verdade, não
diz nada que entenda. Mas também se falasse o que eu falo, eu entenderia ao
contrário.
Porque eu não quero que tudo
mude. Apenas o suficiente. Quero que as coisas mudem o seu turno, um milímetro para
o lado certo da rua. Que o rio se afaste um metro e deixe-me passar por entre
as gotas da chuva que falta.
Eu quero que olhar para o céu.
Olhar para ele sem temor. Olhar para um céu de promessas que se cumprem…Que por
isso não são promessas. Quero ver um sítio onde pagamos a conta do que se
esqueceu. Oferecemos o café ao que ainda não chegou. Um sítio em que olhamos
para um carro, como aqueles dos bons, ou novos e dizemos “ Um dia vou ter um
destes” e não “Sacana que deves andar a roubar…”
Oiço amigos e inimigos falarem de
mudar o mundo… Para que tudo fique na mesma…
Eu quero mudar tudo, mas só um
bocadinho…
E com ele mudar-me também… Só um
bocadinho.
Descubro com este texto, que mudarmos um pouco para sermos melhores, é mais difícil.
Mais difícil do que simplesmente
revoltar-nos.