quinta-feira, 26 de junho de 2014

Copo do Dia - O último beijo a caminho da frente

O último beijo a caminho da frente,
Aquele que me deste pela janela do comboio,
Na partida para um fim dos fins, 
É a memória mais doce que tenho.

Uma réstia de esperança para onde volto nas noites turbulentas,
Entrincheirado nesta batalha, esperando regressar ao início.
Mas não se regressa.
Não se espera.
Continua-se atento às portas do inferno.
Esperando que a notícia feita bala atravesse o silêncio,
Tornado vento de peste e guerra.

E no entanto o melhor beijo dei. O melhor que recebi,
Segura e protege a minha ideia humana de ser.
Imagino-te nas tarefas diárias de uma batalha constante,
Aguardando o apito final da investida,
Que ressoa longamente na distância que nos separa.

Imagino-te na espera de uma ordem,
sem senso,
sem sentimento,
Resultado do maquinismo que nos faz lutar sem saber para onde.

Aguardo as notícias exageradas da minha morte.
Aguardo as notícias exageradas da tua partida.
Aguardo o fim.
O fim desta vala de lama, deste dia-a-dia acabrunhado,
Embrulhado no branco sanguíneo das ligaduras,
que acolhem os pedaços que fomos deixando pelo caminho...   

Imagino-te em paz. 
Embora no meio de um conflito.
Em paz,
Embora no caminho da perdição.
Em paz,
Esperando por mim.

Em paz,
Apesar da barragem de fogo e chumbo que se abate sobre o teu corpo.
E agarrando o último beijo, que foi o melhor que tivemos.
Esperando que seja apenas um mais de tantos outros.
Que o teu corpo seja alma de aço, impenetrável.
Sucumbindo apenas a mim.

Esta é a natureza desta nossa guerra, cuja a crueldade nos levará divididos.
Separados, um corpo feito quatro pernas e quatro braços, um coração, que bate em dois mundos.
Suspendo esta carta...Por agora.
Nunca a irei acabar sem que ela seja escrita com a tua mão também.
Será a mais longa carta de todos os tempos porque...
Porque não posso termina-la.

A ordem veio.

Mais uns minutos e subimos.
Far-me-ei blindado e resistirei.
O apito vai ressoar.
Até já, meu beijo...




quarta-feira, 25 de junho de 2014

Copo do Dia - Infinitudes

Infinitudes

Já me tinha dado conta, mesmo sem saber,
Que todos os momentos que tive contigo,
Foram sem fim, colados uns aos outros como
Vidas que se gastavam na procura de um sentido contido em si.

Dei-me conta que mesmo sendo a última de um percurso,
Que, no entanto, só agora começa,
Acabas por ser a primeira de todas que se cruzam e enrolam,
Que imbuem dos cheiros que me fazem sonhar.
Daí ter aprendido que um infinito pode ser maior ou menor,
Consoante o caminho que ele toma.
O que acaba por ser um poema em duas pernas que percorre
As ruelas esconsas deste corpo.

Amei-te.
Perdidamente. Infinitamente.
Pelo curto tempo em que partilhaste uma cama e o sexo,
Neste primeiros 20 anos dos meus últimos minutos.
Tiveste tantos nomes, tantos beijos doces, com tantos sabores diferentes.
Foste tantas pessoas ao mesmo tempo, em tempos infinitos diferentes.

Amei-te a ponto de morrer. Dezenas de vezes.
Amaste-me a ponto de facilmente me matares.
Assim só alguns tempos merecem ficar.
Por sem fim que sejam, só alguns são memória digna.
Só alguns são nomes que ficam no infinito que fomos.

E agora que faço?
Que outro infinto procuro?
Qual a essência que espero encontrar num Universo de infinitas possibilidades?
De infinitudes, umas maiores do que outras.

Sabes, tenho frio.
Os 40 graus à sombra não aquecem.
Nem se estivesse frio na pele, mais frio poderia ficar.
Ser infinito, também significa perder infinitamente.
Perder tudo, uma e outra vez.
Ficar sem nada para o tempo que dura o para sempre,
Neste físico em que o para sempre é relativo.

Acabo por entender sozinho, embora tenha sido uma compreensão lenta do infinito tempo que mediou a tua entrada naquela sala e o meu olhar cair em ti,
Que o tempo é o que queremos que seja.
Pode ser um beijo infinito, como tantas vezes descrito.
Emergir de uma nuvem do teu perfume humano,
Sugestão do teu sexo, do teu corpo e do teu olhar…
Por um tempo indeterminado por mãos humanas, mas único na dimensão…

Sim, o olhar também tem cheiro.
Tem o cheiro do mar, do ar, do sentir, doce…
Açúcar ou Pimenta.
Tem cheiro de revolta.
De carinho.
Cheiro a tudo o que o nariz cheira.
Inclusive o cheiro que passa, quando vejo a tua passagem.

Infinitude.
Infinito.
Sempre fui.
Nunca serei.
À espera de um momento que dure para sempre,
Durando apenas uma vida.
Ou um beijo teu.
Um beijo meu.

Um infinito maior que o outro.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Copo do Dia - Aprecio

Aprecio muito o ar que respiro,
Os sons que nele oiço,
O respirar que nele sinto,
O vento que fazes quando passas.

Aprecio muito a luz.
O calor que o Sol nos inflige,
A cor que traz consigo,
Ou o seu simples abraço.

Aprecio muito o amor que vejo,
Os sorrisos que faz,
A leveza que traz.
A ideia do insonhável, tornado real.

Aprecio o Impossível.
Aprecio que me digam ser.
Aprecio conseguir ir,
Ver que já é,
O que antes não acreditavam poder.

Aprecio apreciar o momento
Em que te vivo.
Em que te vejo a veres-me.
Em que estamos de qualquer forma,

Em que te conheço com cada toque.
Em que adoro encontrar-te na Luz,

Que tanto aprecio.