segunda-feira, 17 de julho de 2017

Copo do dia - A Serra

O magnífico acto de de decidir no último instante o destino de umas férias de descanso, é que o inesperado acontece. Podem ser pequenos azares que levam a descobertas interessantes ou simplesmente o cansaço de respirar que condiciona o rumo.
Ir para serra tem duas virtudes, consoante a altura do ano. Ou está coberta por um manto branco ou por uma manta quente aconchegante que pode exagerar.

Ir para a serra com uma manta era estar lá no pleno verão em que nada acontece. Onde presas e predadores partilham os mesmos cursos de água, quando estes existem. 
E no topo da Serra, só onde a água brota pura, encontra-se outra cor que não o cinza do granito.

No meio de um deserto, ainda assim pejado de turistas, começaste a correr para mim, como se não me visses há mais de uma vida.

Era uma brincadeira, lenta, tua. A tua corrida poderia ser comparável à de um caracol em câmara lenta, mas os teus abraços vindouros, esses eram mais velozes que a luz.

Estava demasiado calor, no entanto, para consumares o abraço. Ficaste-te por um beijo fugidio. Não havia muito a fazer ali. 
Havia um pequeno oásis, uma represa de águas paradas, pejada de pequenos peixes. Local de má memória pela perda acidental de um para-sol que decidiu mergulhar nas águas sujas, reservadas para consumo humano.
Apelei-lhe ainda que mudasse de ideias, que flutuasse, usando o melhor vernáculo, que voltasse.
O destino decidiu doutra forma. Ficou rodeado de peixes, como se de uma estrela se tratasse. Concebo a minha falta de atenção como causa de separação...

Não longe, nem perto erguia-se um mercado, pejado também de peixes maiores, onde os "pescadores" que nos impingiam de casacos com "atençãozinhas" até comidas bizarras e estranhas, servidas e obrigadas pelo "Experimente"...É bom, não encontra melhor... Ui é cá de uma qualidade...E suave... Era presunto ou cannabis?  

Entre o calor e os vendedores, senti-me eu expulso. Era tudo demasiado...Demasiado assoberbante. 
Era como aquele local fosse um buraco negro comercial de onde ninguém conseguia sair sem comprar algo... Violámos as leis da física, porque te usei como desculpa. - Tenho de negociar com a menina o que vamos levar.

Tenho de negociar... É verdade contigo negoceio muito. Todos os beijos têm como contrapartida outros. Os carinhos idem aspas. Nada se faz sem uma contrapartida. Todos os amores, sobretudo aquele que faz nascer, precisam de uma. É um equilíbrio inescapável.

Corremos daquele antro. Fugimos. Escapamos com a roupa colada ao corpo. Bebemos para esquecer.

Corremos serra abaixo, como água que nunca vimos.
Vimos uma águia pousar à nossa frente, como se quisesse sentir à distância só o olhar nosso pousar.
Ou então ficar zangada por perturbarmos o seu rumo de férias e caça.

Era o vento. O calor. O teu abraço, encharcado. 
Foi um beijo separado no tempo.


Parámos no vale, esperando melhor tempo. Encontrámos a ribeira que nos escapava. As árvores que davam sombra e o fruto que nos queria. Ainda verdes, pequenas, bagas apenas, quaisquer coisas penduradas das árvores esperavam que a Serra lhes desse o conforto e o calor no momento certo.

Decidimos o caminho seguinte com a habilidade de quem olha para as estrelas... Mas era meio-dia e no céu, limpo e azul, demais quente, havia apenas um Sol.



domingo, 16 de julho de 2017

Copo do dia - A Angústia

Tenho em mim uma certa angústia pela vida que deixei para trás. Aliás não a deixei… Simplesmente desapareceu.
Deixei de fazer certas coisas e dediquei-me a outras. Deixei e lidar com pessoas. Passei apenas a lidar com ideias. E dei-me conta disso com um gesto que não fiz perante uma criatura inocente.
No meio de nenhures, um cachorro corre na tua direcção, já grandinho, tão ameaçador como uma bola de algodão. 
Agarra-se a ti na esperança de quereres brincar. 
E tu, olhas para ele, pensas mil e uma coisas, apetece-te dar-lhe a mão, brincar com ele e … nada.
Não fazes nada. A não sentires-te culpado pelo não teres feito.
Como cheguei a este ponto. 
A culpa é das pessoas. E de mim próprio que ainda me incluo nesse grupo. 
Vivemos demasiado uns para os outros. Demasiados egoístas e virados para querermos tudo sem nada darmos. 

E depois, um cachorro que pede uma festa, fazendo uma festa, nada obtém.
Sim, sinto-me chocado comigo. Com a minha falta de empatia ou excesso de sociopatia, se é possível haver excesso no que não é bom.  

Questiono-me por onde anda a minha alma. Aquela que me fazia arriscar um pouco mais.
Se calhar ficou-se pelos encontros à quinta-feira. Enclausurada num momento de liberdade semanal. 
E no resto dos dias, lido com o mundo que perde o rumo, como eu o perdi.
Onde estás tu? 
Pergunto-me todos os dias. Não se trata da banalidade questionada a um espelho ou o espaço físico onde os pés assentam. 
No universo, no meio de tudo, no espaço-tempo, onde estou eu?

Lido todos os dias com a violência de trabalhar no meio de seres que se digladiam para fazer o seu pior, fazendo o seu melhor. 
Tento manter-me à parte desse conflito pouco latente. Deixo de sentir. 
É isso! 
Deixei de sentir. 
É a defesa que criei. 
Não há raiva, nem amor, nem desejo. Há apenas a sobrevivência das 9 às 17 ou na minha realidade das 9 às 19.
Olho para os jornais, para as televisões e vejo o mesmo acontecer.
Estamos rodeados das mesmas pessoas, com nomes diferentes. Todos querem ser os maiores sem terem o mérito para tal coisa. Todos querem ser…
Custa-me voltar a sentir. E enquanto termino o que escrevo aqui é o que acontece. Demoro meio milhar de palavras a dizer que quero viver. 
Quero a dor, a saudade, mesmo a raiva e a tristeza. Quero voltar a sentir tudo. Com a intensidade que tinha antes.
Sim. Não se volta. Não há retorno. Há outros caminhos.
Mas a essência de tudo continua no mesmo sítio. 
No mesmo coração. Apenas tem de ganhar as mãos e a cabeça. 
Tem de perder o medo de fazer algo que seja sentir. 
Arriscar fazer uma festa a um cachorro que quer brincar. Esse acto tão perigoso.
Um que te faz ser humano. 
Que te faz amar. 
E perceber que por mais que o mundo esteja errado, tu estás mais ainda porque te deixaste conquistar. 

Porque é naquele instante que percebes que viver não é que tens feito, mas apenas uma aparência desse acto escolhido.