quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Copo do dia - Memórias de um dia livre

Olhei para o céu e não procurei a Terra. Nem procurei o destino da minha viagem. Busquei apenas o reflexo na janela, como se não visse mais ninguém há muito.
Faço uma viagem solitária na companhia de estranhos, quase como se estivesse sozinho. Mas estou só com os computadores portáteis que também fazem chamadas. Estou. Mas não estou.
Estou apenas de corpo. A mente viaja pelo desejo de abstracção. Procura nova residência, que o corpo não chega.
Perdi-me nos pensamentos. Os pés faziam o seu rumo e a cabeça ia passeando. O corpo perguntava-se pela comoção.
Não me imagino neste rumo. Nem o vejo senão nas palavras dos outros ditas com a inconsequência de quem sonham alto e a bom som.
Viver... Viver não cansa. Cansa lutar todos os dias. Fazer sentido dos caminhos perdidos que tomamos. Isso custa. Cansa. Desgasta. Faz olheiras. Tira o sono.
Faz parte do processo de viver. De reviver. Renovar.
Ainda procuro a casa onde me sinto bem. Procuro o canto onde me encanto. Procuro-me.
A minha história deixou de ser a aquela que imaginei, para ser aquela que nunca pensei.
Tudo deixou de estar certo. Passou a ser apenas, viver.
Disse-me que estava grávida. 2 meses... Oito semanas na contabilidade. Entre a euforia e o choque, nada disse. Com um olhar perdido na dimensão do sorriso, estava feliz e contente e mais assustado do que numa trincheira à espera do apito final.
Não era a primeira vez que passava por isto. Nem ela. Mas as perguntas óbvias escondem-se debaixo dos livros da mente que andam a ganhar pó num canto da secretária onde tudo escrevo. Ali, naquele recanto do cérebro que se diverte a fazer poemas e rimas infantis…
As perguntas fogem para ali, porque sabem que será o último sítio em que as procuro.
Pouca informação me adiantou. A sua mente corria numa passadeira da alma, fugindo do inevitável confronto com a realidade: pés inchados. Barriga gigante. Humores imprevistos e apetites inusitados.
Nada de chocolate. Ou café. Ou tabaco. Aliás o último nem problema era, não existia. Essa a verdadeira incoerência de quem vive a criação de uma vida.
É só juntar, uma semente, adubo e regar.

E daí tudo surge ao fim de uns valentes meses.



segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Copo do dia - Escrever sobre sorrisos

De vez em quando, a minha alma sente a necessidade absurda de justificar os momentos em que o teu sorriso deixa de ser o único. 
Bem sei que não és a única mulher no mundo. 
E poderia dizer outras tantas coisas que seriam razão para divórcio. 
Mas também seriam epítetos de pessoa pequena, a falar de coisas pequenas, como se as pessoas que somos, não fossem muito mais do que uma soma, quase uma multiplicação.

Estávamos sentados numa esplanada um dia destes. 
A ver o Sol, que já não sabe a que estação pertence, pôr-se ou fugir. 
A miúda que nos atendia era bonita. Bem bonita. Tinha aquele ar fofinho que eu aprecio. Era um peluche, como diria a tua afilhada. 
Mas o que a fazia sobressair era o sorriso. 
Um sorriso bonito, tipo Colgate, sem branqueadores artificiais!
Alguns momentos depois dizia-te eu próprio com um sorriso nos lábios, que me fazia lembrar o sorriso da Sofia. 
Não é verdade. 
Fazia lembrar o sorriso da sua mãe, isto é o teu sorriso quando me conheceste. 
Quando me convenceste que tu eras mais, do que tudo o que trazias.

Ela era bonita, como memória. Como tu eras, como és quando escrevo isto.

Estes sorrisos que me vão lavando os olhos, são momentos em que aprecio mais a beleza que me mostras às vezes. 
São aqueles instantes de acaso em que não sei bem o que o que vai acontecer, não porque vá dizer ou fazer algo anormal, mas porque o “normal” não faz parte da nossa vida.

Sempre que vou buscar as miúdas à escola, nem delas nem de ti sei o que esperar. 
E isso cansa-me. 
Desgasta-me. 
Faz-me sentir vivo. 
Faz-me aspirar todos os dias a estar mais perto de vocês.

Tenho saudades da Sofia, como tenho saudades do teu sorriso escondido.
Desde que ela foi para aquela missão solidária em S. Tomé, que não me perco sem olhar para o mapa e a aspirar saber o que ela está a fazer. Se olhamos para os mesmos astros e para o mesmo tempo.


Quase te peço para irmos ver a miúda, naquela esplanada, para ver o sorriso que está longe. 

Por outro lado, prefiro dar-te um beijo e ver-te sorrir. 
Um sorriso que me aquece por ser entregue com um abraço. 
Com um laço em forma de beijo. 
Um que me lembra a filha na mãe e a mulher que me convenceu.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Copo do dia - A virtude de uma palavra bem dada ou açoite bem dito.

Entrámos no Outono.
As estações enchem-se de água pisada. As pessoas comportam-se como se o Verão fosse apenas um calor que acabou de passar e o frio que sente na espinha não é mais do que um prenúncio.
É Outono.
Mais um que faz anos. Mais um vai ser pai. Mais um que não vai ser. Um que emigrou. Uma que emigrou. Um que se ofende por tuta e meia. Outro por meia tuta.
Há o bera que ignora quem lhe pede ajuda.
Há o bonzinho que ignora quem ajuda lhe pede.
Há a miúda petulante que irrita por ser jovem.
Há o velho que enoja por continuar a ser um miúdo atrás de saias.
Havemos de lá chegar!
Há de tudo. E não há muito a dizer.
É só uma passagem pelo corredor do centro comercial. É o estranho que ouve as tuas conversas. Mesmo que seja um conhecido, é estranho por ouvir a tuas conversas.
És um texto feito de pedaços.
Com cola de merda a junta-los. É a utilização descabida de vernáculo num texto limpinho, que nada de bom augura ao seu futuro, Fo…-se.
Este é um texto taxista, mas sem violência. É uma pequena viagem pelos ruídos. É um caminho dos mais indirectos para chegar ao “Amo-te!”. Ou ao “Odeio-te”. Ou “Irritas-me!”.
Ainda estou desalojado.
Já é Outono.
Queria um verão quente com ar condicionado. Vou ter um Inferno frio à procura de pouso. Sugeriram-me uma auto-caravana.
Agradeci.
Sugeri-lhes que tirassem a cabeça do traseiro.  
A petulância irrita-me. Inconveniência. Arrogância. Irrita-me. Reconheço-a à distância. É uma pequena vergonha para a Humanidade.
Já fui assim.
Escrevo bem, dizem. Não sei.
Falta-me a estima de pensar que sou o Número 1 do meu Top de Números 1.
Vejo pessoas que não têm esse problema.
Pior, sinto-lhes o cheiro.
É Outono. O Inverno está à espreita. Se o apanho dou-lhe uma coça. 
E depois, dá-me ele uma.
Amo-te! Já te disse isso hoje? Quero ter ter filhos contigo!
Hoje não. A preparação é boa. A execução problemática. Especialmente se for curta.
Depressa e bem, só o padeiro.
É uma chatice.
A tua Sobrinha fofinha vem cá dormir. Há-de ser um pedaço de mulher e causar cabelos brancos ao pai dela.
E aos namorados.
A mim, mata-me mais uma célula cada vez que berra.
Tem pulmão de cantora de ópera, como qualquer criança daquela idade.
Gostava de ter uma cópia dela.
Com botão de volume.
Há pessoas que deviam trazer um Botão “Mute”. Ou “self-destruct”!
Estou a ser cruel.
Afinal essas pessoas têm família.
Já pensaram que poderia ser um alívio?
É como ser do Benfica e ter um filho taxista. Demasiadas desgraças juntas. Uma espécie de Autoestrada para o inferno da Luz.
Bah, Tretas!
Deu bola.
Deu na bola.
Bate na bola.
Bate mal na bola.
Ou será da Bola?

Bah, tretas ao quadrado!


«As palavras são sempre pesadas. Mas algumas têm asas!»

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Copo Entornado - A essência de ficar calado.

Fica calado. 
É o melhor conselho que te dou. 
Quanto mais falas, mais conheces de ti.
Quanto mais discutes, mais descobres sobre os outros. 
Vais somando conhecimento sobre tudo, para descobrires que não estás a discutir convicções factuais, mas religião. 
Tudo é uma religião. 
Há o pároco do Futebol, o Bispo da Ciência, o Cardeal da Política e tudo isto é um exemplo de um só dos lados, porque nem sequer refiro aos Imãs, homens santos ou Xamãs.
Vemos o que queremos ver. E quanto mais paixão tiveres na tua argumentação, mais religioso és. E quanto mais fores, mais cego és.
O homem imbuído de factos só pode ser ateu, pois falta-lhe a fé e a convicção para lutar contra os demónios que assolam os religiosos, mas não a determinação de o fazer, que apenas é outra forma de fé!
No entanto também ele é um religioso, por ausência de religião explicita.
Nesta pequena deambulação resta apenas uma coisa: Calas-te!
Não dizes nada.
Ficas impávido e sereno quando tudo o que sabes pelos livros, pela ciência e por tudo o que investigaste é vergastado pelos “especialistas” da disciplina que fala do assunto assim-assim, mas ao lado.
E fazes isso porquê?
Porque adoras o preciosismo, do qual só resta sempre um vapor efémero, ou não fosse uma viagem solitária. Adoras pensar que saber é poder.
Mas não passas de um fanático.
E ninguém gosta de fanáticos.

Nem tu!

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Copo do dia - o cão das oito.

Às oito em ponto, Francisco de seu nome, começa a ladrar. É um Retriever Labrador, a quem o cuidador ou melhor o que se imagina seu dono, pôs o nome de um filho que ainda não teve.

Cisco, como o alcunhei (porque antropomorfizar um cão com um "Chico" é coisa que não faço), ladrava mais ou menos sempre à mesma hora. Às 8 horas da manhã.

Nunca me acordou, nem incomodou. Mas quase podia acertar o relógio por ele. Se já vi galos cantar em fusos horários diferentes daquele em que estão, naquele caso preciso, este cão era melhor que relógio suíço.

Claro que sei que esse ladrar se deve, apenas, à miúda de mini-saia, que ia passear o seu cachorrinho de colo, às 8 horas da manhã, nos últimos momentos em que ainda tem energia para o mundano.
Isto porque é mais ou menos a hora em que retorna do seu trabalho nocturno de "anfitriã" num dos bairros da alta lisboeta. De cabelo moreno, da cor do Cisco. Mas de tez pálida, por vezes morenada pelo sol das férias que terminam e ausência de trabalho.

Todas as manhãs,  quando chega, tenho o Cisco a avisar da sua chegada milagrosa. Vejo-a arrastar-se elegantemente pela rua, com as suas pernas torneadas pelo exercício constante de estar em pé, em cima de saltos, correndo e assistindo ao público que pretende passar pelo seu jugo. Mas ali, aguenta-se em pé, nada mais.

Ao longe a cara não é de poucos amigos, mas de nenhuns! A face maquilhada aguarda a almofada, amante e confidente, para escorrem as lágrimas já sem rímel. A noite é amante, nunca esposa. E o mesmo se aplica às mulheres.

Acabo sempre a pensar que a devia importunar com um acidental encontro de manhã. Mas o trabalho não perdoa e as contas não se pagam sozinhas.

Estou separado dela por um mundo de horários diferentes.

Na melhor das hipóteses seria uma relação à distância.
Eu no meio-dia.
Ela na meia-noite.




quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Copo do Dia - Os Patudos

Estou em férias. 
De férias. 
Imbuído delas. 
Recolhi-me a uma casa de família na província. 
Contesto esse epíteto. 
Também Lisboa é província dela própria. Não é mais cosmopolita por ter mais turistas. Sobretudo quando o tido como típico e tradicional é a música mais bimba, podenga e  brejeira possível. Provoca-me vernacularidade que isso seja vendido como o "ser" português. 

Estou na província.

Nas festas da cidade e do prato típico, onde apenas as crianças dançam ao som da música rascante e admiram-se de mais ninguém dançar. Em cima do palco, falta o talento, a coordenação e a imaginação.

São festas de aldeia ou de cidade de província. São as festas do Hipermercado, com os cantores plagiadores. Aqueles que são família, que concorrem para o mesmo mercado das filhas e mães mal-amadas pelos homens e pelas outras, que procuram conforto no mundo de contos de "fardas", em que tudo é para elas.

Somos um país provinciano. 
E a província ainda é mais provinciana. 
Vejo as pessoas ajudarem-se sem nada pedir. 
E mesmo quando pedem não ofende a honra e a justiça. Há entreajuda. Há famílias, mesmo que sejam uns chatos.

Os amigos, são amigos. Não são apenas para as ocasiões.

Lisboa, devia ser ainda mais provinciana.

Nas deambulações que fui fazendo, cruzei-me com as terras esquecidas e os benfeitores conhecidos, sem que o nome seja lembrado pelos metropolitas.

Acabei sem pensar muito por ser guiado pela "Casa dos Patudos", pertença antiga de um senhor desconhecido para muitos, E confesso que para mim também. Desconhecido na sua dimensão de homem da política e da cultura. 
Porque já esqueci mais do que gostaria (e isso é um problema, não de arrogância, mas de memória).

Entro numa casa desenhada por um arquitecto de renome (português), construída longe da capital, facilmente invejada por ela.
Foi habitada por gente de sangue Real, sem por isso deixar de ser republicana. Casa cheia história da família. De música. De livros. Conseguidos quando tinham valor. Quando apenas os melhores de nós chegavam ao prelo.
Casa cheia de tragédia. Cheia de arte. De todos os tipos de arte. 
Da mais simples travessa até aos monumentos da nossa história. 
A riqueza ali não é o ouro, nem sequer a pintura. É o amor.
O amor à arte também. 

Artistas de toda a Europa convergiram ali. E ali fizeram soar as letras e os acordes. No nosso mundo pequeno, os artistas de que nos orgulhamos, homens da cerâmica nobre, também fizeram sua aquela casa.

E de repente sinto-me pobre, porque pouco percebo de arte. Mas, apesar disso, sinto o bom gosto que um homem teve e quis reunir e proteger as obras de muitos séculos, debaixo da sua asa.

Sentei-me na sua cadeira. No seu escritório. Não senti o seu espírito apossar-se de mim. Senti a falta de, como ele, olhar para um quadro triste, de esperança e melancolia e trazê-lo comigo. 

Senti a falta de palavras. Daquelas com que escrevo agora. 

Falta de escrever as minha próprias palavras em vez de me reduzir a pequenas tiradas anti qualquer coisa.

É que não seja ser anti. Temos de ser por algo. Ser por... nós, pelo menos?

Visitar a "Casa dos Patudos", em Alpiarça. Casa de José Relvas. Homem de letras, de música. Político, Republicano. Homem que declarou a República como nossa. Que serviu o seu país cá e além-fronteiras. 
Deixou quadros e móveis e loiças. 
Deixou uma colecção. 
Mas não foi só isso que ele deixou ao povo. 
Deixou um dos seus amores.

Deixou uma grandeza que ainda não foi compreendida. 

"Não basta ter dinheiro ou ter bom gosto. Há que ter ambos para fazer o que ele fez."

Do homem, ficaram uns sapatos, uma bengala e um chapéu.

De Alpiarça, ficou um pôr-do-sol...

terça-feira, 28 de junho de 2016

Copo do dia - Afinal gritas

Afinal gritas comigo...
Nunca desconfiei de tal coisa.
Eram gritos pequenos, baixos,
Atirados com leveza.
Mas gritos...Levemente gritos.

Não falo dos berros,
Do choro sem fim,
causador de surdez,
Daquele que se aprende a ignorar.

Gritas comigo.
Docemente.
Levemente com a pungência,
De um faca afiada que corta a alma.

O teu grito é um corte limpo.
Sem sangue.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Copo Redimido - Verdade no bolso e o lamento de uma ponte...

Já há muito que não escrevo mais do que duas palavras ou abreviaturas num qualquer papel. Trata-se de mera preguiça pois simplesmente escrever sobre a banalidade dos dias não me satisfaz.

Nestes últimos dias, esse figurino mudou. Falei com amigos que escrevem, sobre escritores e sobre pessoas que vivem de fingir escrever. Ouvi o lamento rangido de uma ponte atravessada pela humanidade entre duas margens. Senti na pele a indiferença dos que não deveriam sê-lo e apercebi-me do pouco que posso fazer, para além de aguentar os momentos em que subsiste uma estranha forma de relacionamento entre pessoas.

Assumo uma vida pobre, cheia de eventos em que me perco pela excessiva raiva pela humanidade que trespassa.

Sou demasiado humano para estas pessoas que circulam em meu redor.
Sistemas solares que trazem planetas que lentamente vão sendo tornados inabitáveis. Queimados pela virtuosidade de quem se acha o centro.

Eu, por outro lado, sou um cometa gelado que passa por essas estrelas decadentes, desfazendo-se num rasto que lhe vai limpando a paciência e a força.

Torno-me mero observador das verdades absolutas vendidas como absolutos racionais. Nem se trata de ser algo com o que não concordo. É simplesmente incontestável.
Um dogma patriarcal.
Sinto-me cansado de passar a vida a lutar contra estes absolutos...

Há muitos anos, estava envolvido numa relação a três. A pessoa com quem vivia, estava, ela própria, com outro. Eu vivia na raiva de um abandono.

Bem, talvez não fosse uma relação a três…

Se calhar a seis.

Os meus filhos, abandonados pela mãe, mas à qual o tribunal ainda ousou ponderar dar a custódia (só perante factos inegáveis, de referenciada violência psicológica, foi possível convencer a tacanha juíza...), a filha dela (da minha amante), o amantes e nós. Pronto sete. Não esqueçamos a traição da minha antiga esposa...

Em todos os nossos momentos trazemos connosco o que faz-nos ser...o que somos. E se essa banalidade não chega, tomemos outra com um, ou dois, Gin tónicos. 
Somos filhos de quem somos. 
Se sujeitos a violência, somos violentos. 
Se amados, amamos.
Se ignorados, sociopatas.

Por volúpia ou drogas legais, Lara deixara-me a Catarina e o Daniel nas mãos.
 Uma tarefa difícil, pior para um homem que nunca se vira nem em papel social nem de perto como mãe e pai, o que no caso das mulheres é frequente.

Anos depois, saltaria de uma ponte para o desconhecido...
Nunca se encontrou nada da mulher que viveu comigo e que gerou duas crianças que são o meu olhar... Encontraram um corpo, algo geneticamente idêntico e mas desconhecido.
Os mesmos olhos, mas  alojados numa concavidade. Maçãs do rosto salientes, mas cheias de uma podridão inexplicável. Cabelos lavados pelo rio de tonalidades que não lhe conhecia. Dentição incompleta pela subnutrição. Braços que pareciam um coador...

Nem sequer sombra...

Entretanto Patrícia, que me partilhava com Alberto (embora não oficialmente, algo que viria a ser posto a nú, literalmente, num dia em que chego cedo demais...), aguentou o meu desvario, porque se o casamento acabou, a maternidade também, o que se sente pela pessoa que nos dá filhos, não.

Nesses seis meses, limitados no tempo por duas traições, andei perdido a tentar encontrar um rumo, ao mesmo tempo que segurava a vida de dois miúdos que culpa tinham de ser crianças felizes, apesar de tudo.

Restou–me pouco depois disso. E isso foi benéfico. Fez-me construir as fundações. Os caminhos. Construir um lar e uma casa. E não esquecer que duas almas, também elas perdidas pelos afazeres da pouca idade, contavam comigo para segura-los na rede que perdemos com os cabelos brancos.

Era fiel da balança. Ou melhor aprendia a ter a minha verdade apenas no meu bolso.


De vez em quando ainda atravesso a ponto, só para ouvir o seu lamento. Não oiço nome nenhum, murmurado pelo som metálico. Mas oiço os meus pensamentos a relembrar o caminho que já fiz e para o qual regressar é saltar de uma ponte.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Copo do Dia - I was a slammer, then I ran

I was a slammer, then I ran

I was slammer… Once upon a time, in a corner of a round world.

Um dia, voltarei a ser um “slammer”. 
Mas agora ganhei-lhe medo. 
São pessoas ferozes, cultas, vibrantes, capazes de atirar a palavra mais bela como um martelo e a mais feia como amor, contido e sincero. 
São actores da palavra, que representam no mínimo movimento dos dedos e dos olhos uma imensa quantidade de humanidade.
Eu também fui assim, só não tão humano. 
Era perfeito. 
E eles... Eles exalavam a imperfeição. Fosse pelo bafo fétido, com sabor a cerveja. Pelo perfume contido de uma qualquer fragrância que nos inebriava, absorvida pelo olhar.
Eu, perfeito, não me ajustava. 
Fui de todas as vezes com o medo inato de ser imperfeito. 
E fui perfeito! 
Dispondo de emoção apenas antes e depois. 
Fui o mais brilhante representante das máquinas que nos rodeiam, feito andróide de carne, osso e talvez sonhos.
Deixei de ir a esses encontros de egos. 
Descobri um, muito meu. 
Comecei a calar-me. 
A violentar a palavra. 
A fugir de tudo o que eles representam. 
Porque fujo dos melhores de nós, mesmo que sendo pulhas, são melhores. 
Assumem-se como pulhas, quando o são. 
Não temem sê-lo. 

Não o queria ser. 
Era…perfeito. 
Cuidadoso com as palavras, temente ao amor que já me custara rios.
Queria encontrar naquelas almas, a alma que faltava. 
E descobri-a. 
Noutra pessoa. Noutra admirável pessoa que nada deles tinha.
Imperfeita em todos os sentidos. Perfeita porque entrou no meu corpo como cirurgiã e desfez os nós, as marcas, as réstias arqueológicas de um passado recente.
Nela encontrei alma, ainda não a minha, que andando perto, parecia um felino cerrando a presa.

Assim cresci na noite de um beijo roubado.
Escrevi, na noite de um beijo tomado.
Levei um, como memória de um momento que passou.

Deixei de ser um deles, porque me tornei um deles. 
Ainda gatinho pelas páginas dos livros, desenho com os dedos as ideias que vão aparecendo.
Fica a voz que desponta com o amor que vai aprendendo…

Sim, porque descobri alma…no espelho.
Na voz de outra alma que se vai descobrindo.
Noutros ouvidos que encho com a música que vou encontrando.
Naquele poema, que vou escrevendo todos os dias.

Words will rise, and I will rise with them.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Copo do dia - Ou há moralidade ou...

Assoma-se o maior escândalo de corrupção que alguma vez assombrou o mundo depois da Torre de Babel.

Sim escândalo. Imenso investimento público aplicado em construção de um edifício gigantesco,com graves lacunas de engenharia, falta de comunicação e corrupção generalizada, uma vez que parecia que ninguém falava a mesma língua.

Nem vos falo de idoneidade, essa grande farsa do mundo moderno. Honra, essa,  só mesmo entre ladrões.

Assomou-se um político honesto e incorruptível às rédeas do poder. O facto inédito foi notícia. Era pobre e honesto, trabalhava para viver e dele nunca se ouviu falar de favor feito ou pedido. Não tinha afilhados, sobrinhos, de sangue ou de dinheiro, Não tinha padrinhos, tios cunhas ou cunhados. Este homem era uma espécie de profeta na política. Após ele nada seria como dantes.

Como chegou ele ao poder? 
Por engano. alguém se enganou no seu nome nos boletins de votos. Ou melhor, trocaram-no pelo de um outro político, esse já mais consentâneo com a tradição de pirataria.

Um só letra, uma inicial mudou o rumo da história desta nossa nação gloriosa.
Com a sua ascenção, os oprimidos honestos, aqueles que trabalhavam incessantemente pelos outros que vangloriavam da riqueza acumulada, tomaram eles próprio as rédeas do poder.

Primeiro trocaram os juízes e os juristas por quem tenha lido a lei e colocasse a ética da justiça acima da da lei. As condenações surgiram como um onda gigante devastadora. Não tardou que houvesse cada vez menos a guardar e mais a serem guardados.

Depois  substituíram os governantes, aqueles acima dos que trabalham e abaixo do que pensam que mandam. Acabaram-se os défices e a má gestão. Não tardámos a ser exemplos para o mundo.

A medida seguinte foi polémica. Emprego Universal. Ninguém mais recebe sem trabalhar. E os que não podem?
Podem, podem. Arranja-se trabalho, que não andamos para sustentar indigentes.

Entre a população começou a haver uma pequena revolta. Um ressentimento.  Afinal todos tinham alguém doente na família. Protestaram...

O homem, político honesto, ouviu. Também isso era uma inovação. Criou uma lei para que as pessoas que comprovadamente não podiam trabalhar, tivessem comida, roupa lavada e um rendimento para uma casa digna.

A arraia miúda louvou o homem honesto.

Mas não tardou que todos os que tinham e os que não tinham lhe viessem pedir algo. E um bom homem sabe negar e apoiar.
Tarde apercebeu-se do seu erro. Dera aos justos e os pecadores também queriam.

Menos de 12 meses, por um acto de boa fé, o bom homem, bom político, demitiu-se...

Ou há moralidade ou comem todos...

terça-feira, 29 de março de 2016

Copo do Dia - A trágica vida de uma ressaca.

Junte-se um garrafão, (sim, daqueles como se via ser vendido o vinho mais pulhento, capaz de te dar um coice à traição), a uma aguardente caseira. Misture-se um copo e uma boca sedenta. Desta mistura resultam várias coisas: Uma ressaca, um dos melhores desinfectantes da alma e ou uma noite agarrado ao trono de um reino que ninguém quer.

Há uma estranha noção de que no vinho está a verdade. Quem o disse nunca provou daquela destilação de um qualquer cereal, tubérculo ou coisa afim, límpida e cristalina, capaz de cegar em excesso e de nos dar visão em excesso, quando apenas molhados os lábios.

Sim, esta é uma ode à bebedeira, que um copo (ou muitos) trazem consigo. Nesse estado nada surge sem uma razão e tudo tem uma. O acto mais inusitado justifica-se por ele próprio.

A bebedeira que vários copos trazem, é um alteração do estado de consciência. Um estado mais liberto das restrições. Aquele momento preciso em que Universo fala contigo. No entanto esse milissegundo antecede uma acção de devolução a esse mesmo Universo, que se apanha alguém pelo caminho é mais uma manifestação de Karma.

Porque discorro sobre 5 litros de combustível líquido para a alma e para um motor de veículo multi-fuel?

Por nada. Talvez porque nunca apanhei uma bebedeira de caixão ao céu. Porque por mais que o meu fígado insista, o meu estômago regista protestos atrás de protestos.

Ernest Hemingway dizia que o mundo estava três Whiskys atrasado.  Eu sinto que estou 4. Detesto perder a capacidade de escrever coerentemente. Por outro lado o sonho e a imaginação de uma bebida branca fazem-me falta (não fosse este texto demonstração disso).

Uma alma torturada escreve melhor. 
Uma alma torturada e com 40% de álcool no copo, escreveria melhor ainda, se as palavras não saíssem entarameladas.

É cruel viver assim, sem sonhar o sonho da aguardente.
É cruel viver assim, com o sonho da aguardente.
Ter uma ressaca de meio dia. 
De meia vida...

quarta-feira, 23 de março de 2016

Copo do dia - Poeminha na caminha

Poeminha na caminha
Sonolência acordada
Virtude de olhos entre-abertos,
Funestos desejos.
O sexo dos dias,
Em posições mais pias.
Rezar pelo sono,
Ausência na mostra nua.
E o aconchego no monte.
Oiço o rio bater,
O revirar dos cabelos.
O vento que fazes quanto te moves…

Poeminha na cama,
Com calma,
Nas manias d'acordar

Um doce recordar 
Numa manhã.

JMM -22 - 23/03/2016

terça-feira, 22 de março de 2016

Copo do Dia - Pela União

(Toujours contre le terrorisme, pas selement un jour dans ma vie).

Nunca cheguei a ver o olhar perdido,
Por entre o pó levantado
Pela fé e a maldade dos homens, que
Invocam um direito divino de tirar a vida,
Quando estas nem a Deus pertencem.

Dedos cruéis que carregam no fim,
Das vozes infiéis  ao dogma,
Que vivem para deixar viver,
Que não morrem, por ficarem sem carne.

Corpos que matam,
defeitos no pó que não merecem,
Misturam vítimas e carrascos,
Numa massa ignóbil, inquinada pela mão do terror.

E a inocência fica derramada no chão.

Amanhã será dia de verter o meu sangue.
Porque este é um horror que nos faz companhia,
E hoje choramos,
amanhã continuamos.
Porque "La Union Fait la Force".

JMM - 22/03/2016



segunda-feira, 21 de março de 2016

Copo do dia - Um poema num dia de chuva...

Tenho um poema para ti.
Hoje é o teu dia.
Sabes bem que é!
No meio do tempo que faz e do tempo que passa,
Por entre o manto branco inesperado.
Mesmo a chuva feita pedra gelada,
toca com a delicadeza poética na lona dos chapéus.
Cai desamparada no chão que não seca…
E cada uma delas que toca, faz “tac, tac tap”,
Discorrendo sobre a sua existência curta neste mundo.

Chove no dia da Poesia.
No meio disto, escrevo uma, como já não sentia.
É preciso a cidade branca ficar coberta,
Para que a minha alma seja lavada dos pecados,
E as palavras voltem a cair como chuva!

JMM - 21-03-2016

Copo do Dia - Os inconsequentes...

Olho para o presente e vejo o passado. E isso faz-me apertar o coração.

Certamente começou o dia, como sempre. Folheou o último jornal impresso em papel (mesmo que seja e-paper) e percorreu-o até à página do obituário. Algo que lhe ficou dos tempos de misógino, decerto.

Sempre foi algo que me impressionou. As nossas conversas,  à volta desse assunto, são difíceis de esquecer. Corriam todas na direcção do mesmo mar:
— Já andas a ver os obituários? Ao menos espera até teres cabelos brancos...
— Epá! Isto agora virou moda?
— O quê? Morrer?
— Mais ou menos isso. 
— Mas estás parvo? Mas porque estás ver isso. É mórbido. E devias estar estudar para o exame de Anatomia II...
— Tenho tempo. Além disso nos enterros há sempre alguém a querer consolo - Dizia com um bizarro orgulho.
— Tu é mesmo um filho da mãe, ao dizeres tal coisa. É momento de respeito.
— Pá, eu vou atrás das vivas, não dos mortos... E os mortos, esses, não se ofendem. Até aposto contigo que se estiverem a ver, até gozam. Sempre seria prova de vida para além da morte.

Sempre fora assim. E pelo que presencio,  sempre seria.

No entanto a sua lógica, por muito falhada, era inatacável.
Ele entendia-o como um serviço público.

Ao fim de um tempo desistíamos de discutir e os rios separavam-se.
Havia que estudar. Tratar dos vivos.

As nossas conversas de café, foram sendo substituídas pelos jantares à base de sandochas no internato. 
Depois foram as especializações a construir barragens.
Os encontros cada vez mais espaçados e com menos tempo.
Estávamos ambos em cirurgia. Em especialidades diferentes.

Da última vez que o encontrei, contava eu já com três filhos dos quais mal sabia o nome e se tinham namoradas ou namorados. 
Tinha também três ex-mulheres, das quais só duas me levaram o couro, o cabelo e o carro da meia-idade.

Hoje, anos após, num dia como qualquer outro, encontrei-o. Na  sala comum.

Ele continuava, sentado a uma mesa, com um par de chávenas cheias de café, intocadas, à sua frente, a ver o obituário…

Vi-o tão velho como eu. Tão gasto como eu. Agarrado a um passado. Tantos anos e ainda se devia sentir um “servidor público”...

Chegara a casar, com uma rapariga que conhecera num funeral. Chegaram a ter filhos. Entretanto, ela morrera. Um deles também. Um acidente qualquer, numa estrada qualquer. Um atentado ou apenas uma incúria deixada da última guerra.

Estivemos todos no funeral. Ele também. Mas era como se não estivesse. Olhava incessantemente para o jornal. Mesmo ali. No funeral da família.

Não percebemos bem o que se passava e apesar da curiosidade, fizemos o oposto do que ele faria. Não o importunamos com isso. Há que haver respeito....

— Então, tantos anos passados e ainda contínuas a olhar para o jornal…

Não obtive resposta.

— Ele não lhe vai responder. — Lançou uma médica, novinha e tão bem feitinha que vontade dava de pecar.
— Então porquê? Já o conheço há anos...
— Ah. Fez o curso com ele. Desconfio que terá muito a contar sobre o meu pai.
— Pai?
— Sim. Francisca Pires – Disse sorrindo.
— Afonso. Afonso Lopes. – Retorqui, com os lábios a ladear dentes com o dobro da idade.
— E o Jaime, o seu pai…
— Fechou-se ao mundo no funeral do meu irmão e da minha mãe. Uma das últimas coisas que fez foi pedir aos meus avós que tratassem de mim. Que me criassem. Depois disso silêncio.
— E o jornal? Esse era um hábito antigo…
— Tem uma das últimas fotografias que tirámos, os quatro. Foi a foto escolhida para o obituário...
Devíamos ter ido. Os quatro. Ainda me lembro mais ou menos da conversa, mesmo sendo pequenina. Há coisas que nunca se esquecem:
— Jaime, tenho de ir a um funeral.
— Vais trocar-me?
— Não tonto. As pessoas morrem.
— Sim, de facto… Mas é algo que as pessoas fazem sem pensar…
— São umas inconsequentes… Já percebi que não vens. Aguentas-te com a pequena?
— Farei o que puder... E não te percas, ok?

A falecida era aparentada num grau tão infinitesimal, que apenas os meus avós sabiam quem era. 
Havia uma noção de que se deviam mostrar o respeito pelos mortos. Nunca soube bem porque o meu pai não foi.

— O seu pai achava tudo isso uma tolice. Que se deviam respeitar os vivos.
— Então continuamos vivos... Por isso... Não deixa de ter a sua ironia. Afinal os meus pais conheceram-se num desses "eventos"…

Senti vergonha…
Fiquei preso no mesmo passado.
Ele agarrado ao amor que partiu e que não podia largar.
Eu agarrado à ideia de um pulha, que afinal, morrera muito antes do que o seu amor.

Morrer é algo que as pessoas fazem sem pensar.
E às vezes respirar não é viver.



(Este texto não tem nada de pessoal, nem tem parecenças com a realidade. Bem... Isso não é bem verdade. Muitos dos melhores com os quais crescemos estão a desaparecer. Isso não quer dizer que não haja  agora ou que irão surgir. Só que estes são especiais...)

quarta-feira, 16 de março de 2016

Copo do Dia - Contrapeso e medida

Haverá, para um leitor, algo mais irritante do que um erro do escritor. E se desse pedaço de texto esperarmos ver o estado do mundo. Cada "jornalista", escritor ou emissor de palavras, mais tarde ou mais cedo cai no erro de errar. 

Mesmo na ofensa "vernacular", exige-se qualidade, o que nem sempre acontece. O uso do vernáculo exige um conjunto de capacidade que não está ao alcance de muitos. Há uma delicadeza a respeitar numa boa ofensa. De resto será apenas brutalidade, o que deverá ser sempre algo que deve repudiar. A ofensa é uma forma de arte. Exige interpretação e audácia...

Li, há dias, que "há que ter contrapeso e medida no que se faz na alimentação". 
Confesso o meu espanto pelo referido.
Afinal trata-se de uma nova expressão da alma. "Contrapeso e medida."
Algo que deturpa o verdadeiro o acto de medir o peso de algo. De avaliar. Ou seja, a expressão é de anulação.

Quando te conheci, em miúda,  de dois palmos de altura, ouvias tão bem, como falavas pelos cotovelos. 
Na inundação de letras que provocavas nada era mais evidente  do que a deturpação de alguns significados, sem no entanto o fazeres por insidioso engano. 
Eras uma inocente, com jeito para criares novas conjugações elementares e com significados obscurantistas. 
Talvez isso explique teres-te tornado uma autora de sucesso. Se um Nobel podia não escrever páginas inteiras com pontuação, tu não fazias sentido no que escrevias. E isso, de forma absurda faz...sentido. Escreves à medida do público que queres que te compre. O outro, o que lê horrorizado por não compreender o que se passa, esse, paga muito por pouco. 

Olha para a peso da palavra, não para sua leveza. 

Navegando no meio dos recifes perigosos que são as expressões "contrapeso e medida", "A galinha da vizinha é melhor que a vinha", "Uma andorinha não faz a primavera. Mas uma data delas fazem uma porcaria",  entre outras "delícias" ao fim de vinte anos, ainda não percebi se te perdes na imaginação ou o teu cérebro vê mesmo tudo assim. 

Nunca desisti de te entender... Mesmo quando casámos. Mesmo quando recriaste a tua infância em mais três pimpolhos, trigémeos, nascidos no meio de um tratamento de fertilidade.

Reproduziste neles, o teu hábito! "Mais vale um pássaro mão do que dois calhaus na rua."

Sempre me senti num quadro surrealista. Agora era tocado a 8 mãos em vez de duas.

Quando te foste embora da minha vida, deixando-me com a conta do caixão e do enterro virtual (isto porque querias ser cremada, ficando, pela tua expressão tostadinha como um Leite-creme, descobri uma verdade que nunca me ocorrera:

As frase inventadas eram uma forma simples de mudares o mundo, da essência banal que se resume a perdoar a ladrões, construir castelos nas nuvens e a pouco ou nada sonhar. 

Querias que eu sonhasse. Que criasse um rumo em direcção ao sol que podia ser o que tínhamos entre nós.
E sem me aperceber fui perdendo essa guerra. Não te percebia, aceitava a doidice pegada por ti, mas não a acolhia no coração.

Ia perdendo-te sem alguma vez o ter percebido.Porque não conseguia ver o mundo com as mesmas cores que tu. 

Eras uma daltónica literária. 
Como quem escreve deve ser.