segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Copo do dia - Escrever sobre sorrisos

De vez em quando, a minha alma sente a necessidade absurda de justificar os momentos em que o teu sorriso deixa de ser o único. 
Bem sei que não és a única mulher no mundo. 
E poderia dizer outras tantas coisas que seriam razão para divórcio. 
Mas também seriam epítetos de pessoa pequena, a falar de coisas pequenas, como se as pessoas que somos, não fossem muito mais do que uma soma, quase uma multiplicação.

Estávamos sentados numa esplanada um dia destes. 
A ver o Sol, que já não sabe a que estação pertence, pôr-se ou fugir. 
A miúda que nos atendia era bonita. Bem bonita. Tinha aquele ar fofinho que eu aprecio. Era um peluche, como diria a tua afilhada. 
Mas o que a fazia sobressair era o sorriso. 
Um sorriso bonito, tipo Colgate, sem branqueadores artificiais!
Alguns momentos depois dizia-te eu próprio com um sorriso nos lábios, que me fazia lembrar o sorriso da Sofia. 
Não é verdade. 
Fazia lembrar o sorriso da sua mãe, isto é o teu sorriso quando me conheceste. 
Quando me convenceste que tu eras mais, do que tudo o que trazias.

Ela era bonita, como memória. Como tu eras, como és quando escrevo isto.

Estes sorrisos que me vão lavando os olhos, são momentos em que aprecio mais a beleza que me mostras às vezes. 
São aqueles instantes de acaso em que não sei bem o que o que vai acontecer, não porque vá dizer ou fazer algo anormal, mas porque o “normal” não faz parte da nossa vida.

Sempre que vou buscar as miúdas à escola, nem delas nem de ti sei o que esperar. 
E isso cansa-me. 
Desgasta-me. 
Faz-me sentir vivo. 
Faz-me aspirar todos os dias a estar mais perto de vocês.

Tenho saudades da Sofia, como tenho saudades do teu sorriso escondido.
Desde que ela foi para aquela missão solidária em S. Tomé, que não me perco sem olhar para o mapa e a aspirar saber o que ela está a fazer. Se olhamos para os mesmos astros e para o mesmo tempo.


Quase te peço para irmos ver a miúda, naquela esplanada, para ver o sorriso que está longe. 

Por outro lado, prefiro dar-te um beijo e ver-te sorrir. 
Um sorriso que me aquece por ser entregue com um abraço. 
Com um laço em forma de beijo. 
Um que me lembra a filha na mãe e a mulher que me convenceu.

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