terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Copo do dia - A rua cor-de-rosa

Fala-se sempre do bairro ou da casa com a luz vermelha, onde resistem as mães de muitos políticos. Mas da rua cor-se-rosa, dessa nunca houve ofensa que dela saísse enquanto rua. 
Apenas mais uma rua com bares, cafés diurnos e nocturnos, restaurantes. 
E em alguns dias da semana, vida demasiada para esse mesmo espaço.
Costumava parar lá todos os dias úteis. E os inúteis também. Cirandava, escolhia o local do costume, pendurava-me no balcão e pedia o Cimbalino só para, na minha mente, chatear! 
«Em Lisboa é Bica.» mil vezes me diziam... Até desistirem... Por pouco tempo... É o que dá ser gente de têmpera... 
A meio da ingestão do cafézinho ora quente, ora fervente, surgia sempre a vontadinha de um «cheirinho».
Acabava sempre por ficar com um brandy na mão e uma chávena na outra.
Mas confesso que não o fazia todos os dias. 
Trabalhar naquela zona tinha o adágio de me proporcionar tempo para o convívio com almas que eram de longe tudo, menos cor-de-rosa. 
Havia dias em que, para fugir às quatro mulheres que habitavam o «Domus Familiaris», ficava até mais tarde e ainda gozava um pouco dos poetas de rua, nessa rua cor-de-rosa, já escurecida pelo dia a passar..
Era giro ver os convencidos e os tímidos surgirem. Os olhos tolhidos gritarem. Os corpos bem delineados das donzelas ofendidas, que ofendem com a palavra, quem as deixou no altar da vida.
Mas mais do que isso, era elevar a alma. Sentir um bicho adormecido que me fazia martelar gentilmente o teclado da antiquada máquina de escrever uma cópia chinesa da Royal Quiet DeLuxe Portable de 1941, como a que Hemingway usava e que jazia no escritório como bibelot e centro de vida.
Hemingway... 
Tal como ele e o seu mundo, o resto do meu mundo andava três whiskys atrasado.

A Ana estava farta de me ver martelar naquela máquina. 
Não percebia o fascínio da antiguidade, quando tínhamos não um, mas dois portáteis excessivamente caros para servirem de pesa papeis.
Não sabia que escrevia o que alma me doía para escurecer os ruídos da vivência diária.
Para afastar a sua voz inquisidora dos meus destinos, os pedidos incessantes de leva-me ao Shopping, ou compra-me isto...Dá-me dinheiro...O Manel quer levar-me ao cinema...Posso?

Acedia a quase tudo, menos ao Manel. Supervisão paternal e um taco de Baseball fazem milagres aos mal comportados. Mas nunca o ameacei. Directamente... 
Apenas olhava para o Bastão...

Era a minha fuga diária... Assustar um pato marreco armado em cisne. Beber um copo e um café. Ouvir poemas de amor, escárnio e mal-dizer.  
Ouvir o amor da minha vida reclamar que já não o é. 
Sentir o desejo das minhas filhas em estar comigo... 
Ver a vida a passar, quando passo a vida com quem quero.

A verdade é que perco não muito mais de meia hora dos meus dias com estas iterações. 
Chego e brinco com as miúdas. 
Acabo e «brinco» com a Ana. 
Fazemos o que podemos para viver bem. E viver Juntos.
Beijamo-nos.

Escrevendo num dos pesa-papeis.
Fazendo algumas brincadeiras com a minha Royal. 

Já vou para o terceiro livro... 
Mais um não «best-seller»... 
Apenas «seller». 
Querem convencer-me a ser mais comercial. Querem mas não conseguem. 
Amo demais ser eu. 
Porque é desse eu que vem a Ana e as miúdas. A Royal. O cimbalino numa mão, o brandy noutra. Os poemas que oiço. As palavras que me caem dos dedos...

Os passos que dou na rua Cor-de-Rosa.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Copo do dia - Arco-íris no Retrovisor

No retrovisor vi um arco-íris do qual fugia,
Por entre as gotas de chuva que me passavam ao lado.

lembrei-me de nós.

Feitos de mil tijolos em mil cores feitas 7, deixados no horizonte.
Cada uma dessas, uma história que perdemos.
Um nome que foi correndo sem fim.
Cada cor perdida  para sermos quem gostamos.

Acabo assim por ser um arco cheio de cores,
num céu escuro de chuva por cair.
Frente a um outro arco com cores diferentes, 
partilhando o mesmo espaço.

Acho que vamos trocando cores antigas, 
ajustando e arrumando assuntos antigos.
Tornando-as alicerces invisíveis, lavados pela chuva,
Quando antes foram lavados por lágrimas ou o vento de quem corre.

Somos dois arco-íris,
Dois arcos num céu. 

Ou...
Se calhar somos apenas dois meios-arcos a encaixar o momento.

Copo do dia - Num copo de papel

Tínhamos o hábito estranho de beber o café num copo de papel. Mais por conveniência do que por gosto. Aliás mais por preguiça, dado que nem sequer chávenas tínhamos comprado.  

No chão do quarto jazia um colchão, morto pelo uso extremo. Pelo movimento contínuo do rebolar dormido, mas não pelo sexo selvagem que todos os colchões almejam evitar. 
Percorria esse quarto, embora por mão nossa, uma cadeira simples. De dobrar. Que fazia as vezes de bengaleiro, cómoda e mesa-de-cabeceira, para uma cama que ainda havia de chegar.

Mas bastava.

Pela sala, descansava um sofá, felpudo, gasto pelo excesso de uso, cuja única ambição era sentir, mais um dia que fosse, um traseiro bem torneado...

Para gáudio da cadeira que vivia nas suas iterações no quarto, só metade dos traseiros que sentavam no triste sofá configuravam esse desejo. 
Para agravar a desigualdade, na cadeira, ninguém se sentava. 
Talvez por isso se sentisse melhor, diferente, mais importante do que mero assento.

A televisão, que era apanágio das casas normais, era assento para livros, tendo em conta a sua antiguidade e dimensão... Isso e o facto de se ter avariado no segundo dia da nossa vivência juntos.
De imagens em movimento restavam apenas o reflexo dos nossos, que por vezes pareciam ser dignos de um daqueles filmes que passavam nos cinemas desaparecidos da Baixa e dos Restauradores. 
Tornou-se uma mera espectadora do espectáculo. 
Mas já não o seria por muito mais. 
Duraria o tempo necessário a que a casa se compusesse num reflexo da ideia que tínhamos. 

Quando tal aconteceu, a casa que mudara, para nosso contento, já não era a casa que queríamos ter. 

Já tínhamos cama, com colchão novo! 
O velho foi dado ou reciclado. 
A cadeira com múltipla personalidade tornou-se apenas um bibelot esquecido numa arrecadação. 
O sofá, triste e felpudo,  foi refeito e reformado. Agora é de uma bela pele negra, confortável, com todas as molas inteiras. 
Mas faltando algo... 
A televisão, essa, foi substituída por um magnífico ecrã panorâmico que faz tudo e até pipocas... 
Até já tínhamos chávenas e máquina para café...

E no entanto, sentados neste sofá, com estes «novos» móveis, todos eles já desgastados por três filhas, 2 gatos e o ocasional peixinho dourado ou hamster, lembrámos com o carinho de quem sabe o que tem valor, o desconforto que os outros pedaços de madeira, tecido e metal representavam e o amor que por eles tínhamos.
Eramos felizes com um pequeno mundo.

Agora somos felizes, sempre a correr para um mundo que muda todos os dias. 
Sempre à procura de outro sofá, outra televisão ou maquineta, que preencha o vazio...
O vazio que existe quando as nossas três filhas, 7 netos, 2 genros e meio (que um deles ainda não se declarou, mas falta pouco) não estão na casa. 

Se calhar por isso relembro o tempo em éramos só dois, um sofá, uma cama e uma cadeira.
Só dois a caminho de cinco. 
Agora somos quinze, quase dezasseis.
Há sempre mais um a surgir...

Dei-me conta, enquanto olho para ti como se fosse o primeiro dia, que cedemos o desconforto de um passado, para criar um futuro maior do que tínhamos.
Só ainda não o sabíamos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Copo do Dia - Um valor

Um Valor

Cheguei a casa. 
Sentei-me frente à televisão. Via protestos. Protestos contra o terrorismo. Protestos contra e favor da Liberdade de expressão. Protestos contra protestos que protestam. Via relatos de guerras oficiais. De guerras não oficiais. Tipos que começam guerras que outros terminam. Via pessoas a morrer. A nascer. Via romances que não interessam tornados a «raison d’être» das informações. Via romances tornados notas de rodapé.
Mas não me via.
Nem sequer como reflexo no écran.
Não via as informações que interessavam. A informação que ensina. Que esclarece.
Que faz de mim pessoa melhor.
E isso sendo notícia, só o era para mim.
Decidi avisar o Mundo de que o meu mundo era pequeno.
Tentei a janela. Ninguém olhou.
Tentei a ponte. Todos passavam por mim, como se fazer o que fazia fosse mero caminho.
Depois disso as linhas das estações de comboio. Do Metro. Do eléctrico Mas havia sempre outro que monopolizava a atenção.
Fui para a frente dos pasquins. Das televisões. De bancos de tudo o que fosse visível.
Mas era apenas vidro. Cristalino. Temperado pela indiferença.
Fui desistindo de me elevar.
Fui-me tornando ausência de notícia. Conformado com a vida que ia levando.
Um dia desses mais banais, cruzei-me com ela. Ela fazia o mesmo caminho que fiz. Meti conversa com ela, sabendo como sabia, que a alma que tem atenção, engrandece. Aprendi também que, a que dá atenção também cresce. Com o que conheci nesse momento, nesse instante mudou o meu pequeno mundo. Tornou-o maior que o Mundo que me rodeia.
Falámos, mais um pouco. Mais uns dias. Mais uns anos. Mais uns segundos.
Fiz-te compelida a jantar comigo.
Fiz-te sair do parapeito da ponte antes de saltares.
Sempre me dirás no futuro, que te salvei a vida.

Eu sempre te direi, que me deste uma.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Copo Partido - Eu ainda sou Charlie...

Eu ainda sou Charlie…
Nigeriano, morto por ser de outra tribo.
Sem casa, Mendigo de atenção que não quero.
Saudita Blogger, chicoteado por questionar.
Vítima da Polícia americana, por ser negro.
Dos armados em polícias do Facebook, 
Vigilantes da censura que não os censura.
Jornalista, que ainda investiga e questiona.
Eu ainda sou Charlie, mesmo depois de deixarem de ser todos os outros.
Sou europeu, branco, agnóstico que não percebe o ódio que poucos fazem passar a muitos.
Sou Mulher, Portuguesa ou doutra nacionalidade, que não percebe porque é que lhe batem.
Eu sou Humano e não percebo porque em nome da Religião se matam outros humanos…
O que eu não percebo é que se confunde Liberdade de Expressão com respeito, 
com censura, 
com limite. 
Quando esse deve estar no momento após e nunca antes...

Eu sou Charlie, porque não me limito.
E sou Charlie porque consigo dizê-lo sem ferir.
Mas por vezes é preciso espetar o lápis, ainda que levemente,
para que nos oiçam.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Copo do dia - O primeiro caminho do ano

Começa mais um ano. Mais um conjunto de promessas que se perdem no ar dos primeiros minutos de um dia, que para todos os efeitos apenas a necessidade de esperarmos que a próxima translação da Terra seja melhor do que esta última que passa. E no entanto tudo isto é uma mera ilusão concebida apenas para criarmos a esperança de nada é para sempre e que a nossa vida é apenas um rotação de 24 horas…
Se calhar devíamos mudar de planeta e procurar um onde as horas do dia encontram a necessidade de momentos. E os anos que passam são uma vida inteira ou um milénio inteiro.
Essa vontade de ver tudo terminar e recomeçar, para criar um propósito de um fim e de princípio nas vidas que nada significam sem isso, só faz sentido quando não temos tempo para tudo o que somos, para o que queremos ser e para o caminho que temos pela frente. Até para caminhar na vida é preciso tempo. Não daquele que se gasta no rumor do respirar ofegante de quem corre ou termina a maratona na cama, mas naquele que faz de todos nós iguais, quando acordamos, cegos pela luz, acabrunhados pelo frio da manha de Janeiro polar. O tempo em que ainda sem ver, vemos tudo. O tempo em que o sonho se dissolve na realidade.

É assim que me sinto todos os dias, ultimamente. A acordar do sonho para realidade. A acordar com a sensação desconhecida de companhia para a alma.
É uma sensação falsa.
Apenas resta uma almofada, que se remexe nas minhas mãos. Tu, o resultado de mais uma translação, partiste com a chegada da presença humana que dorme no outro quarto.
Nunca soube bem o que aconteceu. Num momento abraçava-te. No outro desaparecias no meu encerrar de olhos, provocado pela violenta pancada que um jipe vindo dos infernos, nos dava.
Não me lembro de muito mais… Dizem os que dizem muito sobre estas coisas, sobretudo por assistentes de espectáculo macabro que gritava por ti e por ela. Que não vos sabia…
Que não me sabia. Saí ileso e incautamente queria ver-vos. Encontrar-te como te encontrei, ao que consta dos contadores, causou-me tanto dano que não te ousei reconhecer. Dizia apenas que não eras…
Que a minha estava comigo no carro, a sair da cidade e que eram as horas que já foram, menos 4 que as que eram ali.

Perdi o teu tempo. Perdi-me na memória. Senti-me perdido no caminho…
Agora, 3 translações e meia, tenho uma boca para animar. Uma lembrança de ti. E de nós juntos. E uma almofada que nada me diz mais do que o caminho do acordar, da luz do sol que bate, já não esbarra na tua face e no teu nariz.
Nunca mais dormi com os estores semi-corridos. Coisa que fazia só para ver a tua sombra cobrir-me.
E agora escureço o quarto, tenebrosamente esperando o amanhecer.
Já não tanto. A nossa filha não gosta do escuro. As maleitas do acidente ainda se fazem sentir. Ia a dormir, na cadeira que a salva. Por ideia materna, impingida pela criança, colocou-se atrás da cadeira do condutor.
Salva por uma teimosia infantil.
Uma sabedoria que nos ultrapassa, quem sabe.
Agora tenho-a a ela. O caminho faz-se com as suas translações.
E em cada manhã, vejo nela o olhar que via em ti. E cada anoitecer que passa, vejo o olhar que se fecha que era o teu.
Não lamento ver-te todos os dias.

Lamento que não o possas ver todos os dias…