Um Valor
Cheguei a casa.
Sentei-me frente à televisão. Via
protestos. Protestos contra o terrorismo. Protestos contra e favor da Liberdade de
expressão. Protestos contra protestos que protestam. Via relatos de guerras
oficiais. De guerras não oficiais. Tipos que começam guerras que outros terminam.
Via pessoas a morrer. A nascer. Via romances que não interessam tornados a «raison
d’être» das informações. Via romances tornados notas de rodapé.
Mas não me via.
Nem sequer como reflexo no écran.
Não via as informações que interessavam.
A informação que ensina. Que esclarece.
Que faz de mim pessoa melhor.
E isso sendo notícia, só o era
para mim.
Decidi avisar o Mundo de que o
meu mundo era pequeno.
Tentei a janela. Ninguém olhou.
Tentei a ponte. Todos passavam
por mim, como se fazer o que fazia fosse mero caminho.
Depois disso as linhas das
estações de comboio. Do Metro. Do eléctrico Mas havia sempre outro que
monopolizava a atenção.
Fui para a frente dos pasquins. Das
televisões. De bancos de tudo o que fosse visível.
Mas era apenas vidro. Cristalino.
Temperado pela indiferença.
Fui desistindo de me elevar.
Fui-me tornando ausência de
notícia. Conformado com a vida que ia levando.
Um dia desses mais banais, cruzei-me
com ela. Ela fazia o mesmo caminho que fiz. Meti conversa com ela, sabendo como
sabia, que a alma que tem atenção, engrandece. Aprendi também que, a que dá
atenção também cresce. Com o que conheci nesse momento, nesse instante mudou o
meu pequeno mundo. Tornou-o maior que o Mundo que me rodeia.
Falámos, mais um pouco. Mais uns
dias. Mais uns anos. Mais uns segundos.
Fiz-te compelida a jantar comigo.
Fiz-te sair do parapeito da ponte
antes de saltares.
Sempre me dirás no futuro, que te
salvei a vida.
Eu sempre te direi, que me deste
uma.
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