Estou em férias.
De férias.
Imbuído delas.
Recolhi-me a uma casa
de família na província.
Contesto esse epíteto.
Também Lisboa é província dela
própria. Não é mais cosmopolita por ter mais turistas. Sobretudo quando o tido
como típico e tradicional é a música mais bimba, podenga e brejeira possível. Provoca-me vernacularidade que isso seja vendido como o "ser" português.
Estou na
província.
Nas festas da cidade e do prato típico, onde apenas as
crianças dançam ao som da música rascante e admiram-se de mais ninguém dançar.
Em cima do palco, falta o talento, a coordenação e a imaginação.
São festas de
aldeia ou de cidade de província. São as festas do Hipermercado, com os
cantores plagiadores. Aqueles que são família, que concorrem para o mesmo
mercado das filhas e mães mal-amadas pelos homens e pelas outras, que procuram
conforto no mundo de contos de "fardas", em que tudo é para elas.
Somos um país
provinciano.
E a província ainda é mais provinciana.
Vejo as pessoas
ajudarem-se sem nada pedir.
E mesmo quando pedem não ofende a honra e a
justiça. Há entreajuda. Há famílias, mesmo que sejam uns chatos.
Os amigos, são
amigos. Não são apenas para as ocasiões.
Lisboa, devia ser
ainda mais provinciana.
Nas deambulações
que fui fazendo, cruzei-me com as terras esquecidas e os benfeitores conhecidos,
sem que o nome seja lembrado pelos metropolitas.
Acabei sem pensar
muito por ser guiado pela "Casa dos Patudos", pertença antiga de um senhor
desconhecido para muitos, E confesso que para mim também. Desconhecido na sua
dimensão de homem da política e da cultura.
Porque já esqueci mais do que
gostaria (e isso é um problema, não de arrogância, mas de memória).
Entro numa casa
desenhada por um arquitecto de renome (português), construída longe da
capital, facilmente invejada por ela.
Foi habitada por gente de sangue Real, sem por isso deixar de ser
republicana. Casa cheia história da família. De música. De livros. Conseguidos quando tinham valor. Quando apenas os melhores de nós chegavam ao prelo.
Casa cheia de tragédia. Cheia de arte. De todos os tipos de
arte.
Da mais simples travessa até aos monumentos da nossa história.
A riqueza
ali não é o ouro, nem sequer a pintura. É o amor.
O amor à arte também.
Artistas de toda a
Europa convergiram ali. E ali fizeram soar as letras e os acordes. No nosso
mundo pequeno, os artistas de que nos orgulhamos, homens da cerâmica nobre,
também fizeram sua aquela casa.
E de repente sinto-me
pobre, porque pouco percebo de arte. Mas, apesar disso, sinto o bom gosto que
um homem teve e quis reunir e proteger as obras de muitos séculos, debaixo da sua
asa.
Sentei-me na sua
cadeira. No seu escritório. Não senti o seu espírito apossar-se de mim. Senti a
falta de, como ele, olhar para um quadro triste, de esperança e melancolia e
trazê-lo comigo.
Senti a falta de palavras. Daquelas com que escrevo agora.
Falta de
escrever as minha próprias palavras em vez de me reduzir a pequenas tiradas anti
qualquer coisa.
É que não seja ser
anti. Temos de ser por algo. Ser por... nós, pelo menos?
Visitar a
"Casa dos Patudos", em Alpiarça. Casa de José Relvas. Homem de
letras, de música. Político, Republicano. Homem que declarou a República como
nossa. Que serviu o seu país cá e além-fronteiras.
Deixou quadros e
móveis e loiças.
Deixou uma colecção.
Mas não foi só
isso que ele deixou ao povo.
Deixou um dos seus amores.
Deixou uma
grandeza que ainda não foi compreendida.
"Não basta
ter dinheiro ou ter bom gosto. Há que ter ambos para fazer o que ele fez."
Do homem, ficaram
uns sapatos, uma bengala e um chapéu.
De Alpiarça, ficou
um pôr-do-sol...