O ano começa com boas intenções.
Acaba de igual forma.
Mas nos outros dias todos temos outras intenções.
Para muitos o ano que passou é algo que já deveria ter acabado há muito.
Para outros deixa saudades de um tempo em que tudo foi bom demais para ser verdade.
Alguns perdem o cargo, poleiro ou a casa que sempre quiseram, enquanto há quem comece o caminho de outro sonho.
Neste instante, em que no calendário mudamos de ano, mudamos pouco ou nada do que somos, nem do que queremos ser. Apenas imaginamos uma fronteira onde o que fica, fica e o que se constrói serve de inspiração para o futuro.
Opto por hoje tomar outro caminho. O amanhã é o que fui construindo ontem. E por isso devo festejar o que passou, não o que aí vem.
Não temo os momentos desconhecidos mas agradeço os momentos que me fizeram.
Neste último ano escrevi. Pouco.
Fotografei. Pouco.
Viajei. Pouco. Menos que queria.
Mas fi-lo.
Comecei o longo trajecto de ser e fazer o que quero.
Recebi o meu primeiro Hate-mail.
Recebi os cumprimentos e o reconhecimento de quem importa e de quem não me conhece.
Vi o futuro desenhar-se na minha frente, cabendo-me apenas agarrar essa oportunidade.
Vivi aventuras e escrevi-as no tempo.
Li pouco... muito pouco.
Li por dia mais do que muitos lêem na vida. Mas o que li não me traz prazer, apenas trabalho.
Centrei-me nas amantes todas e na mulher que me faz companhia e com a qual negoceio o passo seguinte.
Neste ano que passou, os dias foram uma espécie de aventura a quatro mãos, duas objectivas e muitos quilómetros, sempre numa contínua descoberta de quem somos, de onde vimos e para onde queremos ir.
Deixei de escrever poesia. Pelo menos na forma de verso. Comecei a escrever quando podia, porque a mente não chega aos dedos, ocupados com a burocracia diária.
Preocupei-me com o dinheiro que preciso, para não ter de precisar dele. Preocupei-me em gasta-lo no que faz chorar e sorrir.
Deixei que todas essas banalidades que se vão fazendo no dia-a-dia, se tornem especiais.
E tudo se compôs....
Se vai compondo!
O ano que passa foi muito bom. E muito mau. Foi uma vida delimitada por 365 dias e seis horas.
E no entanto não chega.
Quero mais!
Se calhar neste ano que vem...
Qualquer conversa deve ter um copo ou mais na mesa. Todos os assuntos na mesa, devem ser discutidos com copos meio vazios, para que não corram o risco de se tornarem demasiado sérios. Juntem-se à conversa. Tragam o vosso copo. O conteúdo é por minha conta.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
terça-feira, 3 de novembro de 2015
Copo do dia - Humanidade à distância ( a ser revisto)
Humanidade à distância
Sempre imaginei que estar ao lado
de alguém permitia ver-lhe nos olhos, a humanidade que traz sempre consigo, mas
acabo por ver nos olhos de muitos, a que lhes falta.
Se a distância favorece a beleza,
por inverso, favorece o desprendimento. O "Longe da
Vista, longe do coração".
Um dia, não há muito, lembrei de
uma pessoa que já não faz nem vista, nem coração. Lembrei-me dela como quem se
lembra do sabor que as coisas tinham na infância. Como se tudo soubesse melhor
na memória do que na boca.
Mesmo a amarga existência
posterior, que durou o mesmo tempo que demora uma árvore a tornar-se adulta
(pensemos eucalipto, para apressar a coisa), não me fez mudar a ideia de que as
coisas sabiam melhor antes. Curiosamente, até esse amargo período se tornou
mais doce pela passagem do tempo. Afinal evoluímos nas direcções opostas
impostas pela vontade e pela virtude que é decidir.
As consequências disso nunca
serão claras. Só num qualquer livro de memórias, que apenas um terá de escrever
ou ditar. O outro fincará o pé no momento em que decidiu seguir a sua vida,
eliminando tudo o que mal o outro lhe fez… Excepto o pormenor que mais mal nos
fazemos do que nos fazem… (há excepções bem documentadas).
Maria, de seu nome. Mulher banal
como todas as mulheres, o que faz dela única, sentiu-se abandonada sem saber
bem porquê, pela filha do Sr. Dr. apelidada de Manuela, também ela Maria.
Esse amor desprendido entre duas
mulheres, que ora se envolviam no acto de fazer amor, como na discussão sobre
qual levava o vestido (felicidade e infelicidade de ambas vestirem o mesmo
número) preferido de uma e amado por outra, não se configurava na idealizada relação
em que havia sempre alguém que levava as calças… Ali eram ambas mulheres, ambas
bissexuais. E ambas queriam estar uma com a outra. Melhor eram fieis. A elas
próprias.
Amavam-se sem se prender.
Queriam-se sem se tocar. Desejavam-se na distância. Deliciavam-se na
proximidade.
Queriam ambas filhos. Ambas
família feliz. Ambas queriam isso, uma com a outra. E ambas queriam-no ao mesmo
tempo. O que gerava conflito. Uma delas queria mais do que a outra ser o início
do Sonho comum. E ambas queriam-no.
Apareci eu. Era um pobre
desalojado de emprego, sem casa emocional permanente, à procura de uma gaiola. De
uma prisão dourada, enganadora, facilitadora da felicidade.
Conhecia Maria e Manuela. Era
amigo de uma, nada à outra. Sempre soubera da inclinação sexual e sempre
tratara isso com o mesmo desprendimento com que se vira uma folha do jornal de
papel ou digital. Nunca fora coisa importante, para ser sincero.
Mas confesso que Maria era
desejável. Demasiado para a proximidade que tinha com ela.
Um dia, após uma das típicas discussões
do Eu quero mais que tu, Maria veio refugiar-se no pardieiro elegante que habitava
em Alfama.
Chorou o suficiente para alagar o
chão de tábua corrida. Soluçou o suficiente para abanar o piso por inteiro e a
mim.
Abrira o seu coração e com isso
fizera correr um rio no sentido oposto ao que queria.
Entre os olhos vermelhos, surgia
um fascínio que enfeitiçou. Disfarcei o desejo latente com palavras sábias,
quase como se quisesse afasta-la do meu regaço, onde se aninhara.
Maria olhou-me. Trespassou-me com
a vontade de um beijo que fica pendurado. E num intante de quase insensatez
quase que lhe fiz a vontade.
Era o desejo de ser desejada
versus o meu desejo de dela. Uma situação perigosa e com um fim previsto.
Evitei. Evitei quanto pude.
Acabou por ser ela a quebrar a barreira. E depois disso não houve mais nenhuma
a quebrar.
Maria, ficou.
Mais 6 meses. Mais um ano. Ficou
na minha pele.
Mas o corpo, esse, já preenchido,
partiu quando mostrou que podia ser o que sonhara.
Nunca mais a vi. Nunca mais soube
dela. Ainda tentei saber o porquê.
Esse soube-o hoje. Era pai.
Era, porque ela volta, num outro
momento de desejo perdido, procurar um conforto de uma tarde, que se tornou
desconhecida, para me dizer que lhe dera algo que não sabia, nem viria a saber.
Manuela fora com Teresa, o nome
de uma criança perdida nos seus 5 anos, para a escola privada onde esta
ensinava e um desvairado, armado de um super-desportivo, perde a mão e leva duas
vidas num passeio.
Ainda não sei bem o que dizer
disto.
Em 10 minutos e 5 anos perdi uma
tarde, uma mulher, uma filha e uma vida que não sabia.
Perguntei-lhe com razão de todos
os Deuses, porque me aparecia assim, à porta , com novas destas.
Com a vergonha da cara apagada
pela dor de quem perde tudo, para me fazer perder algo que nunca tive.
– Desculpa, desculpa… Nunca te
disse. Nunca quis muito. Sempre soube onde andavas. Mas nunca podia… Não podia.
Não podia? Mas…
Agarrei-lhe o braço com a delicadeza
que não merecia. Arrastei-a atá à sala, fechando a porta da rua com a doçura
que inventei naquele momento.
– Aquela noite deixou-me marcas
que carrego. Fiquei sempre com a dúvida. E hoje recorro a ti, por causa dessa dúvida.
Sim, tivemos uma filha. Sim, foi sempre minha. Mas amei-a como se fosse nossa.
– Nossa?
– Não me podes julgar pelo
caminho sem saberes porque. Traía o meu amor, com um amor que me exigia não
mais do que o momento.
– E julgas-me tu, que não te
podia querer mais do que uma noite?
– Não sei. Nada devia ter
acontecido. Nada era para acontecer.
Sentou-se, aproveitando a inércia
da queda de um anjo no inferno da perda.
– Mas aconteceu. Aconteceu uma
noite. E para mim muitas mais noites. Não consegui limpar o cheiro que deixaste
na boca, por mil vezes que a lavasse.
Recusaste todas as minhas chamadas. Ainda tentei saber por onde andavas.
Mas doía-me ver-te… Desisti. Desisti de
ti, porque senti, porque sabia que desististe de mim.
– Agora já não tenho nada que me
prenda. Perdi tudo. Perdi o meu amor que já não era, o meu amor que nunca foi e
o nosso amor, pela mão de um idiota.
Chorou, como o dia, quando a
notícia se espalhou. O telefone não parava de piscar, com as chamadas e as
mensagens. Do meu nem um pio.
Entrava no seu momento de luto. As
forças franquejam… As pernas, delineadas como no dia que deu azo a este
encontro, dobraram-se sem impedimento outro que não o meu abraço forçado.
E de novo, 5 anos depois, muitos
minutos depois…Muitas vidas depois, o meu olhar tocou o dela. E chorei. Chorei
5 anos numa lágrima.
Chorei uma filha noutra.
Aguentei o que pude, de novo,
quando ela, o amor que se fora, voltou…
Caída nos meus olhos, amparada
pelo assento do sofá que ainda a conhecia, fez o que podia no momento em que se
chora por ficar sem nada.
Atendi o telefone dela, quando a
Mãe, senhora que não via há mais anos do que os dedos, ligou.
Disse-lhe que estava aqui.
Ela respondeu-me: Então já sabe!
Sei.
Sei, alguma coisa
Acrescentou: Temos de falar. Tem de
perceber. Hoje todos perdemos alguém. Mesmo você…
domingo, 27 de setembro de 2015
Copo do Dia - Os fundamentos da beleza moderna ou Como pudeste comprar esse carro
É sabido que num qualquer casal há sempre a mesma discussão de novo
rico.
O homem gosta do novo Mercedes.
A mulher, da elegância do novo BMW.
Contentam-se
em comprar o utilitário, que os serve ainda melhor.
Passa-se o mesmo com casas,
mala, mochilas, camisas, calças e todos os outros momentos de consumo puro.
Cervejas, vinhos e, ocasionalmente, preservativos, escapam a
estas discussões.
Temos ainda de contemplar ou pomo de discórdia: A questão das cores.
– Azul - diz o Homem.
– Azul marinho ou bebé! Não, Azul cobalto! Oceano...
Não!
É azul macramé, feito por um miúdo de 5 anos, por acidente, numa aula de metalomecânica na Micronésia do sul, dada por um professor angolano.
É azul macramé, feito por um miúdo de 5 anos, por acidente, numa aula de metalomecânica na Micronésia do sul, dada por um professor angolano.
Inverosímil?
Sim
Assim como os 16 milhões de cores que surgiam nos anúncios
de monitores de PC… Nunca as vi e muito menos as contei.
Não me causaram confusão. Imaginava sabe-las ali.
Não me causaram confusão. Imaginava sabe-las ali.
Mas não. Na realidade de uma discussão em casal, isso não chega.
Juntemos agora a estas prementes questões de tons, automóveis:
– Já viste! É lindo. Quero comprar um Mercedes. Em prata…
– Em prata, mas somos ricos? (Além disso, naquilo nem cabe a minha mala de mão...)
– A cor. Eram os Flechas de Prata nos anos 30… (E a bagageira é gigante. Cabe lá um corpo.)
– Anos 30? Mas deste em revivalista? (Não cabe. Além disso nem sequer sabes de que mala falo. Nem eu. São tão "poucas"...)
– Então em que cor queres? (Só se for uma do teu tamanho.)
– O BMW? (Estás a chamar-me gorda?)
– O Mercedes? (Não. És o meu esguio amor.).
– Não tínhamos discutido isso em casa? É aquele. (Cama ou Sofá? Escolhe!)
– Olha para isso compro qualquer outro carro. Incluindo
aquele feio que nem tu, nem eu gostamos. (Olha que não embarco em ameaças veladas...)
– Já agora em Amarelo... (Nada aqui é velado...Estás a pedi-las)
– Sim... Para culminar o mau gosto. (Mas que queres que te diga...)
Ambos faxem uma birra... Atéque a cabeça fria de algum diz:
– Agora que já discutimos o que queremos, que tal falarmos do
que podemos ter? (desculpas-me? Passemos à frente?)
Entretanto, hoje vi um carro horrível, novo!
Em amarelo…
Parece-me que será de pessoa solteira.
(há gente com um gostinho...)
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Copo do Dia - Prazer de escrever
Há um prazer indescritível em
escrever com pena e papel.
Ou melhor, é descritível.
É descrito no próprio
acto. Embora agora a única caneta que toco é aquela que escreve com a
imaginação, imagino-a a borrar um pouco a página deixando-me algo desagradado
pelo imprevisto.
Por
outro lado, esse borrão obriga-me a reescrever noutra página imaginária, se
calhar, o que sempre quis.
A
caneta que escreve fá-lo sem pretensão, sendo apenas instrumento de génios (e
outros não...). Mas apenas o pretensioso acha que as palavras lhe pertencem,
que as domina e que o pulso delas, é o seu. Esta pessoa não escreve.
Demonstra, no papel, o seu ser.
Escrever não é isso. (Ou também é?).
Seja
pelo facto ou pelo imaginado, tudo o que se passa no bico de uma esferográfica
ou no aparo de uma caneta, é a visão de um mundo que temos atrás dos nossos
olhos. Esse mundo deve ser dado a conhecer, não imposto. Deve ser uma dádiva,
tanto para quem dá, como para quem recebe. E pelo qual não devemos esperar o
elogio.
Os bons escritores escrevem para tocar pessoas. Seja pelas histórias ou pelo que despertam. Não para imporem regras ou um rumo, mas para, pela imaginação, as tocar. E assim, sem pudor, somos o que fazemos: Pessoas.
Há quem escreva mundos e espere estátuas. Há quem escreva para o mundo e espere um sorriso.
Conheci muitos escritores, direi mesmo autores, na minha curta estadia. Li-os. Mas também falei com eles. Em todos os verdadeiros escritores, havia a preocupação de contar uma história, não para um futuro, mas para um passado. Se almejavam algum reconhecimento? Sim, um pouco!
Riqueza? Só de espírito!
Escrever com alma? Todos os dias.
Invejam
muitas vezes os técnicos da escrita. Aqueles que faziam páginas imensas de
texto, muitas vezes apenas para denegrir ou, nem sequer isso, apenas para fazer
palha para ser adquirida.
Não
invejavam a produtividade.
Invejavam a vida mais fácil.
Uma vida sem a constante
tortura de contar os tostões ou os minutos até os miúdos voltarem da
escola.
Não invejam as páginas cheias de tinta.
Apenas o tempo.
Nem
sequer o dinheiro, porque tal não era importante...
Essa tortura de alma, pela
inveja mais inocente que concebo, era o âmago da sua honestidade intelectual.
Sabiam que cada folha, repositório final da vida de um qualquer pinheiro ou
eucalipto, merece mais do que palavras saídas em raiva ou código de máquina de
escrever com coração empedernido, à procura da trama mais complexa para perder
o rumo de quem compra, mas não sente.
Os autores querem que quem os lê, sinta.
Porque só isso lhes dá sentido.
Porque
há um sacrifício no acto de escrever e cada letra é uma vida que se perdeu num
manto branco.
Escrever... É um privilégio.
domingo, 14 de junho de 2015
Copo do dia - Mensagens de pessoas que não existem
Maria
recebeu uma mensagem matinal dando-lhe conta do falecimento do Alberto.
O
único problema é que ela não conhecia Alberto algum.
Maria
era uma mulher curiosa. Tão curiosa como um cão perante uma caixa fechada. Assim,
armada em perdigueiro, tentou perceber quem era o Alberto. Não o fez pelo
caminho mais óbvio, que seria responder à mensagem da pessoa que lhe remetera
tal aviso. Não podia dar parte de fraca e como tal decidiu começar a telefonar
ao seu grupo inestimável de “amigas” do trabalho, uma verdadeira fonte de
conhecimento sobre as vidas alheias, sobre quem seria o Alberto.
Duas
horas de conversa, dez rumores novos, três possíveis gravidezes e dois romances
com uma chefia qualquer, salpicados com uma possível infidelidade e uma incoerência
qualquer em termos de trabalho, um trabalho qualquer que deveria ter sido feito.
A
verdade é que todos os Albertos estavam vivos… Aliás, apenas um, existia.
O
mistério mantinha-se. Maria, tentou lembrar-se se teria conhecido algum nas
suas saídas nocturnas… Se existiria algum nas suas conquistas… Não. Alberto era
nome que não a seduzia e quem o trouxesse consigo não faria nada consigo.
Maria
destacava-se do seu grupinho, por ser uma atípica mulher. Bem-feita, loira de
olho azul. Voz suja, digna de cantar um jazz qualquer mais soturno e pesado e
que, completando o estereótipo, tinha um enorme espaço para arrendar no topo do
pescoço…
Confessa
que o faz de propósito…
Não
sabemos bem se é verdade. A sua “entourage”, aquela que vive do chamariz que
Maria é, ou seja as morenas, todas elas mulheres completas e com mais charme,
acaba por viver as consequências da “Trash culture”…
É
bonito, vende-se! Não seduz num olhar, não presta.
Teresa,
uma das morenas, foi a primeira vítima do questionário de Maria. Depois foi a
Maria, a n.º 2, a Fátima, a Isabel, a Sofia, etc…
Nenhuma
delas sabia ou reteve os restos do tubarão
Maria que passava pelos homens, como pelas dietas milagrosas.
E
de todas elas ouviu o mesmo conselho. “ Se não sabes quem é, responde à
mensagem…”
Maria
ainda tentou falar com ex-paixões e conquistas que, por razões que lhe
escapavam, (mas não a eles) não queriam falar.
Sem
outro recurso, respondeu à mensagem, quase um dia depois…
A
resposta foi lacónica. Alberto fora o seu primeiro namorado. Aquele que ela
invocava ser o padrão de toda a sua existência amorosa…
O
problema foi o mais inverosímil. Não se lembrava do seu nome, apenas de que o amava.
Perdidamente…
Quando
tentou explicar tudo isto à sua melhor “amiga”, a Ana, esta olhou para ela como
se Maria fosse portadora de uma pestilência…
Não
lhe fazia sentido que um nome invocado mil vezes em mil dias fosse esquecido… A
não ser que fosse uma mentira… E havendo uma mentira, o isco que era Maria, deixava
de ser apetecível, para ser apenas fútil…
O
isco que se usa, determina o peixe que se apanha.
O
mundo de Maria perdia, ali, a sua primeira estrela.
As
outras não tardariam a perder-se…
E,
subitamente no escuro, trocando as companhias que atraí na noite, pela solidão
que sente com elas, o espaço vazio em cima da cabeça fica repleto das memórias
esquecidas…
E
no dia seguinte ao funeral, tardiamente, chega a uma campa rasa, onde perdura
um nome que amou e esqueceu, usando-o como desculpa para fugir da vida.
Maria
morreu no mesmo dia que Alberto. Não o sabia ainda. Morreu a “femme fatale”, a
caçadora, o tubarão em duas pernas…
E
nesse vazio, que é o fim, encontrou-se!
terça-feira, 2 de junho de 2015
Copo do Dia - O mínimo denominador comum.
Sempre achei que ao mudar de
país, como fiz tantas vezes, a base das amizades que se constroem acaba por ser
muito ténue. Partilhar um espaço, um gosto particular, uma comida preferida,
uma mulher imaginada ou mesmo, uma língua.
O que nos torna comuns aos outros
une-nos.
Por isso sempre fiquei perplexo
com a minha amizade com ela. Nunca nada nos uniu. Nunca nada foi um denominador
mínimo com ela. Mas ele existia.
Confesso até ao momento em que
nos separamos ao fim de dez anos de uma união sem razão, que nunca tinha
pensado nisso.
Parece ser uma daquelas situações
que o ser humano decide algo com base numa boa sensação, mesmo que do outro
lado insistam em atropelar os sentimentos… Se calhar como eu fiz tantas vezes a
mim, mas nunca aos outros.
Comecei a pensar que o que tínhamos
em comum era esta vontade de ignorar o que sentimos em detrimento do que
queremos sentir.
Fomos apenas amigos sem razão
para o ser. Partilhamos tudo e mais alguma coisa, porque éramos estranhos um ao
outro. Julgamos tudo e todos pela nossa bitola, que não era nossa, nem
julgamento.
Separámo-nos, mas nunca estivemos
juntos, éramos estranhos unidos pela mesma língua, pela mesma terra e pela
mesma vontade.
Voltei a casar anos depois, feliz
com alguém com quem partilhava a vida, com um rebanho de filhos, com uma casa
longe e um coração perto. Ainda assim nunca esqueci esse mistério que para mim
era estar unido ao desconhecido.
Não tive possibilidade de fazer
reviver essa relação, nem de a perceber. A morte, o único elemento comum,
apenas não no tempo, chegou-lhe primeiro.
Não sei se na realidade houve alguma
alteração no seu estado límbico. Nem sei
se a emoção sentida à sua volta foi de alguma forma alterada pelo seu
falecimento.
Decerto, e espero, que sim.
Tenho alguma dificuldade em
explicar à Maria, a minha primeira filha, que agora fez 18 anos, as verdadeiras
razões pelas quais me separei da Maria, a Minha falecida mulher, pouco tempo
antes dela se passar para outra vida.
Ambas as Marias nunca me
perdoaram esse momento de franqueza feito de fraqueza.
No único momento em que houve algo
comum entre nós, eu fugi.
O fim assusta sempre.
Pior ainda vê-lo na nossa frente…
Custa-me dizer à Maria, que a única
coisa que tinha com a Maria, a Mãe, era ela.
Mais ainda porque os nossos
caminhos jamais se teriam cruzado não tivesse sido uma noite, num qualquer
jantar em casa de amigos…
Deveria ter terminado tudo no
momento em que loiça caiu ao chão e em vez disso começou…
sábado, 30 de maio de 2015
Copo Político - Época de resignação.
Vivo uma época de resignação
revoltada. Isto ao contrário dos resignados a serem revoltados. Vejo os campos
de futebol cheios. Vejo os cofres cheios. Vejo na televisão que tudo vai mal,
para ir bem, na notícia seguinte. Vejo um partido plantar candidatos. Vejo os
senhores do futebol serem acusados. Vejo-me resignado a ser um instrumento do
poder que finge ser benévolo.
Atiram-se cheques pela janela dos
fundos… Mas na montra estão ideias sem cobertura.
Estou resignado a ver tudo do
assento, em frente à televisão, em frente ao gira-discos herança nova de uma geração
saudosista.
Oiço, com a raiva, políticos a
falarem, pseudo-políticos afirmarem, pretendentes a deputados inventarem, todos
em simultaneamente gritarem “eu sou a cura de todos os males…”
Apetece-me espetar-lhes com tachas pequenas, um rótulo de "Banha da Cobra fresquinha"... Ou mesquinha!
Estou resignado a escrever num
teclado pequeno, grande ideias da minha mente que saem em letras pequenas, numa
espécie de contrato que faço com estas constatações. Uma espécie de contrato de seguros... Pagamos para nunca recebermos... Pagamos....Pagamos... E quando se trata de receber algo... Ah ainda tem de pagar... E ficamos resignados...
Ou revoltados.
Olho novamente para a televisão. Sinto-me
afogado, no meio do mar, a dar a mão a um irmão. Tem outra cor é verdade, não
diz nada que entenda. Mas também se falasse o que eu falo, eu entenderia ao
contrário.
Porque eu não quero que tudo
mude. Apenas o suficiente. Quero que as coisas mudem o seu turno, um milímetro para
o lado certo da rua. Que o rio se afaste um metro e deixe-me passar por entre
as gotas da chuva que falta.
Eu quero que olhar para o céu.
Olhar para ele sem temor. Olhar para um céu de promessas que se cumprem…Que por
isso não são promessas. Quero ver um sítio onde pagamos a conta do que se
esqueceu. Oferecemos o café ao que ainda não chegou. Um sítio em que olhamos
para um carro, como aqueles dos bons, ou novos e dizemos “ Um dia vou ter um
destes” e não “Sacana que deves andar a roubar…”
Oiço amigos e inimigos falarem de
mudar o mundo… Para que tudo fique na mesma…
Eu quero mudar tudo, mas só um
bocadinho…
E com ele mudar-me também… Só um
bocadinho.
Descubro com este texto, que mudarmos um pouco para sermos melhores, é mais difícil.
Mais difícil do que simplesmente
revoltar-nos.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Copo do dia - "O Continente Desconhecido - Parte 2"
Hás uns dias, perguntando pela família desconhecida, o meu pai começou uma longa viagem até aos seus avós. Essa viagem longa tinha um motivo. Já raros eram, os momentos de lucidez e menores ainda os momentos em que a memória me traziam até ele.
Na maior parte do tempo eu era um desconhecido afável, em vez do herdeiro genético da maleita que o afectava. Mas isso não era coisa que me preocupasse para já. Queria-o lembrado da sua vida cheia.
Tinha metade da sua idade. Mais três filhas que ele. Mais possibilidade de lhe prover um vida sem preocupação, fosse no seu tempo perdido, fosse no tempo em que vivemos.
Lamentava ouvir repetidas as histórias do sorriso de granito vezes sem conta. Mas lamentava ainda mais não as ouvir nos momentos em que o olhar cheio, se tornava perdido pela doença.
Era um neto a falar com um filho, sobre uma ideia de uma pessoa que existira noutra vida antes de, ou quase, qualquer um de nós. Numa das visitas mais lúcidas, lembrou-se do casamento. Não do meu, mas do seu. Com a minha primeira mãe. Ou melhor a minha madrasta número 1. Contou-me essa memória, como se eu não a conhecesse. Era a primeira mãe que tinha, tendo a minha desaparecido na depressão e nas drogas legais, até se vaporizar na terra de ninguém de que todos somos feitos.
Anabela, a minha mãe de coração, não de sangue, acolheu-me como seu, num casamento em que todos estávamos. Tinha eu 8 anos. Criança pura, adulto em plano, sofrido como um velho.
Como um pai que vê o filho e não se lembra dele.
Foi um dia muito feliz. Para todos. Mas também iria acabar. Algo de que o meu pai não se lembra é das infidelidades. Anabela era fiel. Boa mulher. Excelente mãe. Mas era mulher que precisava mais do que apenas um homem... ou dois, sendo um deles pequeno. Queria ter aventuras. Viver o risco de uma vida. O meu pai fez por não ver as indiscrições. Fez por ignorar. Acho que por minha causa. Mas Anabela ia esticando a corda... Esticando cada vez mais. Até um dia, em que tudo rebentou. Tinha eu doze anos. Chegava da Escola (naquela altura os miúdos podiam ir sozinhos para a escola. E voltar sozinhos). Vejo Anabela a chorar, com as malas à porta. O meu Pai escondia lágrimas, mas levantava a mão como nos filmes, dedo indicador hirto, marcando o destino selado.
Voltariam a ser amantes, alguns anos depois. Mas jamais unidos na mesma casa.
Perdi-a uma segunda mãe, sendo a primeira. Foi duro...
Tive mais duas madrastas. Estas mais fieis ao meu pai. Mais tudo. Menos mães para mim. Era amigas. Mas não eram o apoio nem a mão disciplinadora.
Na verdade, uma delas nem amiga. Apenas uma mulher que se queria insinuar em boas famílias. Uma escaladora social. Enganava-se no poder que via. Apesar de um reputado economista, o meu pai insistia em não se ligar demais à política. E tendo influência, tinha por princípio não a usar. Dizia que o verdadeiro poder está naqueles que não o querem usar. Nunca percebi tal coisa. Mas também nunca tive esse poder.
Acabou por ascender na cama de um qualquer poderoso, após mais um divórcio.
Esta não voltaria a ser amante do meu pai. E em boa verdade, tornou-se amante de todos os outros pais, sem nunca chegar ao topo, escorregando sempre mais um degrau...
o meu pai, reformou-se contragosto da Universidade. Da minha Universidade. Ensinar gerações e gerações de almas os princípios da boa governação era um prazer. E uma responsabilidade. E por isso acho que nunca se perdoou ter dado passagem por favor a um tal marmanjo que fora o primeiro ministro a arruinar um país governando pelo uso da literatura económica. Acho que foi aí que o meu pai começou a ter problemas. Sentia-se culpado pelo mundo que ajudara a criar. sem que isso fosse realmente culpa dele. E queria esquecer essa responsabilidade.
Disse-lhe mil vezes que nada disto era previsível. Que um gesto de boa venturança não poderia ser causa de tanto mal. Respondia-me que não há boa acção que não tenha um castigo associado.
No seu último ano de ensino, visitava-o mais. Quando podia. Preocupava-me. Já me tinha formado. Seguia-lhe as pisadas no ensino. Era Assistente do curso de Gestão. Era um puto de fato. Bem apessoado, mas imberbe e convencido de ter a verdade no bolso. Num desses último dias, entro e sento-me na sala. Era um anfiteatro. Cheio, por sinal.
Olhei em redor. Na primeira fila, estava uma giraça de cabelo moreno, comprido. Quando falava, ou perguntava, a sua voz era melodiosa, se bem que subia uma oitava de vez em quando. Senti-me puxado para ela, sem lhe ter visto a cara.
No fim da aula, fui ter com o meu Pai. Sentia-lhe a voz cansada ao longe. queria vê-la ao perto.
Quando cheguei, depois de cautelosamente descer a escadaria, essa morena estava de volta do meu velho. Era uma jovem de rosto ainda limpo. Se tinha rugas, escondia-as com um sorriso. Fiquei cativado naquele momento. Pendurados num limbo facial, ficavam dois lagos verdes, separados por um nariz delicioso.
Apresentou-se. Era Sofia. Era uma nova aquisição para o corpo docente. Ou seria. Ainda não havia sido apresentada. Fiquei espantado.
Emiti um " Não me parece que pareça ter idade para ser..."
"Pois não nem você" retorquiu.
Era respondona a menina.
1 ano depois, estava grávida da Catarina. E eu, de braços em redor.
O meu pai lembrou-se desta história, quando lhe lembrava ser seu filho.
Lembrou-se dos netos, antes de se perder, novamente, na memória do granito feito sorriso.
Na maior parte do tempo eu era um desconhecido afável, em vez do herdeiro genético da maleita que o afectava. Mas isso não era coisa que me preocupasse para já. Queria-o lembrado da sua vida cheia.
Tinha metade da sua idade. Mais três filhas que ele. Mais possibilidade de lhe prover um vida sem preocupação, fosse no seu tempo perdido, fosse no tempo em que vivemos.
Lamentava ouvir repetidas as histórias do sorriso de granito vezes sem conta. Mas lamentava ainda mais não as ouvir nos momentos em que o olhar cheio, se tornava perdido pela doença.
Era um neto a falar com um filho, sobre uma ideia de uma pessoa que existira noutra vida antes de, ou quase, qualquer um de nós. Numa das visitas mais lúcidas, lembrou-se do casamento. Não do meu, mas do seu. Com a minha primeira mãe. Ou melhor a minha madrasta número 1. Contou-me essa memória, como se eu não a conhecesse. Era a primeira mãe que tinha, tendo a minha desaparecido na depressão e nas drogas legais, até se vaporizar na terra de ninguém de que todos somos feitos.
Anabela, a minha mãe de coração, não de sangue, acolheu-me como seu, num casamento em que todos estávamos. Tinha eu 8 anos. Criança pura, adulto em plano, sofrido como um velho.
Como um pai que vê o filho e não se lembra dele.
Foi um dia muito feliz. Para todos. Mas também iria acabar. Algo de que o meu pai não se lembra é das infidelidades. Anabela era fiel. Boa mulher. Excelente mãe. Mas era mulher que precisava mais do que apenas um homem... ou dois, sendo um deles pequeno. Queria ter aventuras. Viver o risco de uma vida. O meu pai fez por não ver as indiscrições. Fez por ignorar. Acho que por minha causa. Mas Anabela ia esticando a corda... Esticando cada vez mais. Até um dia, em que tudo rebentou. Tinha eu doze anos. Chegava da Escola (naquela altura os miúdos podiam ir sozinhos para a escola. E voltar sozinhos). Vejo Anabela a chorar, com as malas à porta. O meu Pai escondia lágrimas, mas levantava a mão como nos filmes, dedo indicador hirto, marcando o destino selado.
Voltariam a ser amantes, alguns anos depois. Mas jamais unidos na mesma casa.
Perdi-a uma segunda mãe, sendo a primeira. Foi duro...
Tive mais duas madrastas. Estas mais fieis ao meu pai. Mais tudo. Menos mães para mim. Era amigas. Mas não eram o apoio nem a mão disciplinadora.
Na verdade, uma delas nem amiga. Apenas uma mulher que se queria insinuar em boas famílias. Uma escaladora social. Enganava-se no poder que via. Apesar de um reputado economista, o meu pai insistia em não se ligar demais à política. E tendo influência, tinha por princípio não a usar. Dizia que o verdadeiro poder está naqueles que não o querem usar. Nunca percebi tal coisa. Mas também nunca tive esse poder.
Acabou por ascender na cama de um qualquer poderoso, após mais um divórcio.
Esta não voltaria a ser amante do meu pai. E em boa verdade, tornou-se amante de todos os outros pais, sem nunca chegar ao topo, escorregando sempre mais um degrau...
o meu pai, reformou-se contragosto da Universidade. Da minha Universidade. Ensinar gerações e gerações de almas os princípios da boa governação era um prazer. E uma responsabilidade. E por isso acho que nunca se perdoou ter dado passagem por favor a um tal marmanjo que fora o primeiro ministro a arruinar um país governando pelo uso da literatura económica. Acho que foi aí que o meu pai começou a ter problemas. Sentia-se culpado pelo mundo que ajudara a criar. sem que isso fosse realmente culpa dele. E queria esquecer essa responsabilidade.
Disse-lhe mil vezes que nada disto era previsível. Que um gesto de boa venturança não poderia ser causa de tanto mal. Respondia-me que não há boa acção que não tenha um castigo associado.
No seu último ano de ensino, visitava-o mais. Quando podia. Preocupava-me. Já me tinha formado. Seguia-lhe as pisadas no ensino. Era Assistente do curso de Gestão. Era um puto de fato. Bem apessoado, mas imberbe e convencido de ter a verdade no bolso. Num desses último dias, entro e sento-me na sala. Era um anfiteatro. Cheio, por sinal.
Olhei em redor. Na primeira fila, estava uma giraça de cabelo moreno, comprido. Quando falava, ou perguntava, a sua voz era melodiosa, se bem que subia uma oitava de vez em quando. Senti-me puxado para ela, sem lhe ter visto a cara.
No fim da aula, fui ter com o meu Pai. Sentia-lhe a voz cansada ao longe. queria vê-la ao perto.
Quando cheguei, depois de cautelosamente descer a escadaria, essa morena estava de volta do meu velho. Era uma jovem de rosto ainda limpo. Se tinha rugas, escondia-as com um sorriso. Fiquei cativado naquele momento. Pendurados num limbo facial, ficavam dois lagos verdes, separados por um nariz delicioso.
Apresentou-se. Era Sofia. Era uma nova aquisição para o corpo docente. Ou seria. Ainda não havia sido apresentada. Fiquei espantado.
Emiti um " Não me parece que pareça ter idade para ser..."
"Pois não nem você" retorquiu.
Era respondona a menina.
1 ano depois, estava grávida da Catarina. E eu, de braços em redor.
O meu pai lembrou-se desta história, quando lhe lembrava ser seu filho.
Lembrou-se dos netos, antes de se perder, novamente, na memória do granito feito sorriso.
terça-feira, 21 de abril de 2015
Copo do dia - "O Continente Desconhecido"
O meu Avô era um fascista democrático. Achava que a Raça Portuguesa era superior, mas que todos os outros mereciam ascender ao nosso patamar... Era uma espécie de ditador iluminado, sem ditadura e mais tarde na vida, apenas dentadura. olhava para o futuro com a desconfiança de que nele tudo seria pior. Era um continente desconhecido que não tinha vontade de explorar, contrariando a boa raça portuguesa.
O meu avô tinha 4 vezes mais anos que eu. E sentia que ele me ia sobreviver, baseando-me na noção de que vaso ruim não quebra. E o homem era mais do que ruim. Faziam inveja aos Beras. Era duro como granito, de palavra pesada como chumbo e língua afiada não como sabre, mas como mulher coscuvilheira.
No tempo dele, que curiosamente ainda era o mesmo tempo que o meu, tudo fora melhor. Vivia-se como Reis descalços na rua. Circulavam pela ruas carros e carrinhos para todos os gostos, e os engarrafamentos aconteciam em frente às casas dos cafés, recheadas de um odor cafeínico e a doces de fazer buracos nos dentes a serem curados ou arrancados pelo carniceiro barbeiro cirurgião-dentista.
Ah sim, esses é que foram bons tempos. Bons caminhos para a alma dura do meu avô.
A casa que herdei por breves momentos, ali na Calçada da Palma, onde mais tarde viria a encontrar a mãe dos filhos que iria ter, estava prestes a arruinar-se como dentes embebidos em torrão de Alicante ou rebuçados de pinhão de Badajoz, delícias de um tempo em que o "El Corte Inglês" era um mito e não apenas mais uma loja.
Era uma sobra de um lar, que já fora local de brincadeira nos almoços da família , feitos religiosamente ao Domingo, sempre com muita carne na mesa, pão e vinho igualmente. Era uma gritaria organizada, que registava o único sorriso do meu avô. Era adorava o caos, por ele ordenado. E não era difícil soçobrar perante a dureza do granito e língua afiada.
A minha avó por seu lado era de raiz suíça. Ou melhor Pastelaria Suíça. Passava os seus finais de tarde solarengos, depois de sair do serviço (onde era secretária, uma das poucas profissões respeitáveis naqueles anos, para uma senhora de família isto é) e deliciava-se com os cheiros abaunilhados e caramelizados. Comprava, uma vez por semana, dois bolos. Um para ela e outro para o meu avô.
Era o seu doce do dia.
De fim de dia doce.
O meu Avô gostava de imitar Pessoa vestido, mas escrevendo alguns impropérios dignos de Bocage. Assumia-se como nome maior da língua, mesmo que ninguém lhe reconhecesse nem obra nem palavras suficientes. Mas fazia sucesso com as meninas. Corria, mau grado para minha avó, que algumas delas eram mais do que objecto de escrita, mas também mesas e papel, onde escrevia com a sua caneta (ou outra coisa) belos contos de escárnio e mal dizer, ou romances de cordel. A minha avó aguentava esses doces sem açúcar, enquanto ele voltasse para casa e pagasse as contas dos miúdos (entre eles o meu Pai).
O meu Avô era fiel à sua maneira.
A minha avó também.
O sorriso do meu avô, feito granito e língua afiada, excepto o que surgia ao domingo, desfez-se com a morte do seu amor verdadeiro. Ali perdeu o gosto de escrever, em página própria ou alheia. Perdeu o sorriso. Fora uma ou duas vezes por cada domingo em que dizia um tolice propositadamente para o fazer rir.
Eu gostava daquele velho...
E agora que estou quase na idade dele, honro-o tendo um sorriso de granito feito e língua romba como uma mulher.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Copo do dia - O Bufo
O bufo
Era uma vez Aristides. Era um
bufo. Um bufo real. Era um belo animal. Uma
Ave. Uma ave rara. Um bufo é uma ave de rapina. Oportunista mas também excelente caçador.
Faz uso da visão apurada e da eco-localização para saber onde anda o pobre roedor
que vai ver a sua vida dificultada.
Não tem peneiras em, com as suas
garras fortíssimas, desfazer uma presa. Mesmo que essa presa por incauta não mereça maior
atenção do que aquela que Aristides lhe dará.
Convenhamos que, no jogo da vida,
as verdades e mentiras que inventamos para nós e para os outros de nada
interessam. São apenas pormenores para garantir a boa convivência em conivência.
Ora Aristides, Ave rara e nocturna, pouco ou nada quer saber dessas convenções.
Quer ver o seu prato cheio. Nada mais, nada menos. E por isso caça.
Todos os indícios são perseguidos
por mais falsos que possam ser.
Mas Aristides, ave rara, ave nocturna
não esmorece. E muitos pequenos roedores, que vivem a sua vida calmamente, são
depredados por sua culpa, despedaçados pelas garras anónimas.
Aristides, ave rara, ave nocturna,
não terá dó para encher o seu estômago mesmo que em troca só dê ar.
Tenho pena que Aristides, ave
rara, ave nocturna seja uma pessoa e não o belo Bufo Real que vi pousado, uma
vez, ali para os lados de Mafra.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Copo do dia - A mentira pegada
Conheci
o Francesco há mais de uma década. Nunca me foi uma figura muito próxima, nem
muito longínqua. Admirava a sua arte e a presença. Era um cinéfilo, melómano, ávido
leitor, tentador fotógrafo, mas também um misógino gay. Para o mais banal dos
humanos esta combinação circularia entre o muito interessante ou muito
repelente, consoante a carga das convicções amorais que cada um de nós carrega.
No que me diz respeito, olhava para ele com a simpatia com que olhamos para os
defeitos nossos no espelho e não com a antipatia com olhamos para os nossos
defeitos nos outros. Francesco era um homem. Disso não tenho dúvidas. Mas
também gostava de homens. O que não fazia dele menos homem. Aliás uma despudorada
bicha, disse-lhe uma vez que ele, gay era uma vergonha, porque não assumia o
seu verdadeiro ser. Francesco demonstrou-lhe o seu verdadeiro lado, pelo menos
mais adequado. Conteve-ve para não ir à fuça, proferiu alguns impropérios
dignos de um trolha das obras, terminando, com o comentário mais machista gay
possível: “Queres mas é… minha … apan…”
Francesco,
misógino, gay, culto, foi naquele momento a mais peixeira das peixeiras com
barba… Se alguma vez houve disso.
‒
Posso ser gay ‒ dizia ele ‒
Mas nunca serei aquilo…
Concebo
que seria a sua própria intolerância, digna de qualquer “mainstream” vivente,
que falava assim, dos que viviam à margem do pensamento das pessoas conservadoras.
Sim,
Francesco era um devoto conservador. Visitante regular da Igreja, amigo do
Padre, que não o excomungava por partilhar da Fé no amor entre todos os seres,
em detrimento de alguns ensinamentos mais retrógrados.
Francesco
era um pilar da comunidade, que andava atrás de outros pilares, com uma
assustadora frequência.
Disse–me
certa vez que se os marinheiros tinham uma miúda em cada porto, ele tinha um
marinheiro. Era maneira masculina de dizer eu sou muito macho, porque tenho
outros machos. o que convenhamos que para um homem que gosta de mulheres, fazendo
o mesmo tipo de vã glorificação (nem sabes quem ando a comer….) , era ainda assim
estranho.
Francesco
gostava…não, amava viajar. Já estivera em todas as “photo ops”, encostara-se a
todas as obras, construções, edificações, esculturas e portentos naturais
feitos carne e osso… Mas havia outros locais que lhe faziam espécie. Aqueles
que olhavam para uma pessoa normal como ele, que tendo por único defeito amar a
sua espécie, ser excomungado civilmente, condenado a uma existência pária ou
mesmo encarcerados.
Não
sendo um grande activista, ainda assim não deixava de se sentir revoltado e com
vontade de um bruto homem de ir ao focinho a um qualquer quer desses “filhos de
uma grande…” Como fazia por referir junto do público feminino que o adorava,
apesar de dever muito à beleza e nada à Inteligência.
Francesco era feio como um tomada
antiga na parede, mas tinha um bom gosto digno do melhor prato, chefe ou
alfaiate. Pior. Tinha as posses para o demonstrar.
Francesco, tinha ainda mais uma idiossincrasia.
Chamava-se Abílio Manuel, que não
era nome de "bon vivant", sobretudo com as suas qualidades.
E por isso adoptara a "personna" de
Francesco. Um pseudo italiano, cinéfilo, melómano, ávido leitor, tentador fotógrafo,
mas também um misógino gay…
Mas também uma mentira pegada.
Sobretudo para ele.
Sobretudo para ele.
quinta-feira, 12 de março de 2015
Copo do dia - O cleptómano suave.
Alberto passara a sua vida modo clepto. Por onde passava
deixava lugares vazios. Corações empedernidos outrora, eram postos na mão há procura
da caneta antiga, do retrato minúsculo ou do relatório de contas que estava
para ser entregue na manhã seguinte.
Alberto era um cleptómano completo, que levava democraticamente
a todos, de tudo um pouco.
Um dia aconteceu-lhe que, nos bolsos do seu casaco que
chegava a casa sempre mais pesado do que saía, encontrou um pequeno papel, um
post it, que dizia apenas: Devolve-me!
Como clepto-honesto que era, sempre que encontrava objectos estranhos passíveis de ser devolvidos (a sua colecção de colheres de café, dos
vários cafés por onde passava chegou a ser monstruosa, a ponto de ser forçado a ir devolvendo em caixas, aos estabelecimentos que suponha serem os
leais proprietários e servidores da mistela castanha de espuma dourada) fazia-o sem demora.
Mas era a primeira vez que encontrava declaradamente um objecto que fazia questão de ser devolvido, com todas as letras: Devolve-me!
O maior problema era perceber de onde saíra aquele pequeno
papel, que tinha como única característica definidora ser de um verde claro e
profundo, claramente roubado dos olhos do oceano.
Refez os seus passos nesse dia, revisitou todos os lugares, tendo
o cuidado de comparar esse papelinho, com todos os que com ele se cruzavam.
Um outro e novo pormenor na sua viagem, surgira: Antes de sair de
qualquer casa, de qualquer espaço, do trabalho, revirava os bolsos.
O que deles caia repunha nos seus lugares. Quem o via, (sabendo da questão que já lhes roubara muito) sentia apenas a atenção ser levada. E por obra e graça começaram a surgir os agradecimentos pelo acto simples de nada ter nos bolsos excepto um papel a dizer "Devolve-me".
O que deles caia repunha nos seus lugares. Quem o via, (sabendo da questão que já lhes roubara muito) sentia apenas a atenção ser levada. E por obra e graça começaram a surgir os agradecimentos pelo acto simples de nada ter nos bolsos excepto um papel a dizer "Devolve-me".
Mais tarde nesse dia, com bolsos leves pela ausência mas de
semblante pesado pela interrogação, entra em casa.
Fala com Maria, mulher fantástica que Alberto dizia ter roubado de uma vida triste como indigente professoral nos confins do inferno distante chamado interior e pergunta-lhe, se tinha ideia, vislumbre ou
hipótese sobre o pequeno papel que com ele correu o dia.
Ela sorriu-lhe.
Ele questionou o sorriso.
Ela simplesmente disse-lhe:
– Esse papel era somente destinado
a devolver, quem o trazia.
– Como? Devolver-me mim?
– Passaste os anos a levar recordações de todas as casa e
caminhos por onde passaste. Erguemos prateleiras para veres as ideias passadas.
E de todos esses objectos nenhum te fazia sorrir. Eram medalhas de uma guerra
que te fazia preencher o vazio de pessoa que não tem nada.
E eu? Também sou um desses pequenos momentos que roubaste. E
que levaste por momentos. E tenho saudades dele... Do Alberto que me levou.
Há uns dias decidi que era altura de te devolveres a mim.
Coloquei-te um pedido de devolução no bolso que menos vês.
Obriguei-te, assim, a correres os trilhos que tantas vezes fizeste.
A devolver os objectos para ficares com
as recordações. Ouvires as palavras e os olhares que abraçam.
E em cada momento que foi devolvido, ficaste com a memória
que faz anos, mas que não envelhece e te faz inteiro.
E quem me roubou, surge de novo.
Alberto, clepto-honesto, continuou a levar objectos até à
ombreira da porta de cada mundo onde passava. Passou a devolve-los nesse
bendito local, onde foi roubando a amizade de outros para si, trocando roubo
por roubo.
Todas as manhãs levava emprestado umas horas de espera até
voltar a Maria.
Alberto, nunca mais levou nada que lhe lembrasse.
Levava só o que não se lembrava.
Levava só o que não se lembrava.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Copo do Dia - Mudar de Cara
Mudar de cara.
Confesso que desde o meu acidente
aos 5 aninhos, sentia a minha face distorcida.
Mal formada e causadora de grande
dor visual.
Era, naturalmente, mais a impressão
que a cicatriz que atravessa a face me fazia, do que aquela que fazia aos
outros.
Apenas um mero adereço
visual, não muito distante de um piercing no nariz, ou de um brinco. Era uma
marca distintiva.
Conferenciei muitas vezes sobre
se valia a pena remover essa marca.
Sempre me perguntavam "Qual cicatriz?"
Fiz muitas consultas. Com cirurgiões simpatiquíssimos, que me diziam todos que o meu problema era
facilmente resolúvel. Mas todos os acertos e correções eram em todos os locais
menos onde estava essa cicatriz.
Era-me confuso ver tal coisa. Era
visível na imagem do espelho. Os meus olhos, doutra forma perfeitos, sentiam-se
feridos pela visão de tal entalhe na pele.
Não percebia a quantidade de
defeitos que me apontavam onde tudo parecia normal. Parecia perfeito.
Comecei a falar deste desejo
secreto, de mudar de pele, aos mais próximos amigos.
Comecei a ouvir as opiniões mais
dura e mais doces sobre o rumo que queria.
Numa dessas conversas, com uma
brutalidade doce, ela disse-me que era melhor que eu mudasse de olhos. Que
procurasse o que me fazia perfeito. O que me fazia inteiro. Não os baixos-relevos
da vida, marcados no corpo.
Ouvi com a paciência de quem não
quer ouvir.
Deixei passar.
Continuei a minha viagem à
procura de remendo bem feito.
Certo dia acordei acompanhado.
Sem temor algum dessa companhia.
Era eu noutro corpo, olhando para
mim.
Tinha outra voz. Outro toque.
E nesse outro corpo não via
cicatriz que trouxe tantos anos.
O outro corpo, que sendo meu,
tinha voz e maneirismos diferentes, dizia-me que também não via cicatriz
alguma, no sítio onde lhe apontava.
Incrédulo olhei-me no espelho, no
que reflectia a escuridão da alma perdida e o cabelo desgrenhado e procurei com
afinco uma cicatriz que partiu.
Ali, na minha cara que segurava
os olhos, não restava nada mais que uma doce planura.
Desapareciam as cicatrizes, cicatruzes,
cica qualquer coisa…
Ficavam apenas caminhos.
As rugas de um sorriso.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Copo do dia - A rua cor-de-rosa
Fala-se sempre do bairro ou da casa com a luz vermelha, onde resistem as mães de muitos políticos. Mas da rua cor-se-rosa, dessa nunca houve ofensa que dela saísse enquanto rua.
Apenas mais uma rua com bares, cafés diurnos e nocturnos, restaurantes.
E em alguns dias da semana, vida demasiada para esse mesmo espaço.
Costumava parar lá todos os dias úteis. E os inúteis também. Cirandava, escolhia o local do costume, pendurava-me no balcão e pedia o Cimbalino só para, na minha mente, chatear!
«Em Lisboa é Bica.» mil vezes me diziam... Até desistirem... Por pouco tempo... É o que dá ser gente de têmpera...
A meio da ingestão do cafézinho ora quente, ora fervente, surgia sempre a vontadinha de um «cheirinho».
Acabava sempre por ficar com um brandy na mão e uma chávena na outra.
Mas confesso que não o fazia todos os dias.
Trabalhar naquela zona tinha o adágio de me proporcionar tempo para o convívio com almas que eram de longe tudo, menos cor-de-rosa.
Havia dias em que, para fugir às quatro mulheres que habitavam o «Domus Familiaris», ficava até mais tarde e ainda gozava um pouco dos poetas de rua, nessa rua cor-de-rosa, já escurecida pelo dia a passar..
Era giro ver os convencidos e os tímidos surgirem. Os olhos tolhidos gritarem. Os corpos bem delineados das donzelas ofendidas, que ofendem com a palavra, quem as deixou no altar da vida.
Mas mais do que isso, era elevar a alma. Sentir um bicho adormecido que me fazia martelar gentilmente o teclado da antiquada máquina de escrever uma cópia chinesa da Royal Quiet DeLuxe Portable de 1941, como a que Hemingway usava e que jazia no escritório como bibelot e centro de vida.
Hemingway...
Tal como ele e o seu mundo, o resto do meu mundo andava três whiskys atrasado.
A Ana estava farta de me ver martelar naquela máquina.
Não percebia o fascínio da antiguidade, quando tínhamos não um, mas dois portáteis excessivamente caros para servirem de pesa papeis.
Não sabia que escrevia o que alma me doía para escurecer os ruídos da vivência diária.
Para afastar a sua voz inquisidora dos meus destinos, os pedidos incessantes de leva-me ao Shopping, ou compra-me isto...Dá-me dinheiro...O Manel quer levar-me ao cinema...Posso?
Acedia a quase tudo, menos ao Manel. Supervisão paternal e um taco de Baseball fazem milagres aos mal comportados. Mas nunca o ameacei. Directamente...
Apenas olhava para o Bastão...
Era a minha fuga diária... Assustar um pato marreco armado em cisne. Beber um copo e um café. Ouvir poemas de amor, escárnio e mal-dizer.
Ouvir o amor da minha vida reclamar que já não o é.
Sentir o desejo das minhas filhas em estar comigo...
Ver a vida a passar, quando passo a vida com quem quero.
A verdade é que perco não muito mais de meia hora dos meus dias com estas iterações.
Chego e brinco com as miúdas.
Acabo e «brinco» com a Ana.
Fazemos o que podemos para viver bem. E viver Juntos.
Beijamo-nos.
Escrevendo num dos pesa-papeis.
Fazendo algumas brincadeiras com a minha Royal.
Já vou para o terceiro livro...
Mais um não «best-seller»...
Apenas «seller».
Querem convencer-me a ser mais comercial. Querem mas não conseguem.
Amo demais ser eu.
Porque é desse eu que vem a Ana e as miúdas. A Royal. O cimbalino numa mão, o brandy noutra. Os poemas que oiço. As palavras que me caem dos dedos...
Os passos que dou na rua Cor-de-Rosa.
Apenas mais uma rua com bares, cafés diurnos e nocturnos, restaurantes.
E em alguns dias da semana, vida demasiada para esse mesmo espaço.
Costumava parar lá todos os dias úteis. E os inúteis também. Cirandava, escolhia o local do costume, pendurava-me no balcão e pedia o Cimbalino só para, na minha mente, chatear!
«Em Lisboa é Bica.» mil vezes me diziam... Até desistirem... Por pouco tempo... É o que dá ser gente de têmpera...
A meio da ingestão do cafézinho ora quente, ora fervente, surgia sempre a vontadinha de um «cheirinho».
Acabava sempre por ficar com um brandy na mão e uma chávena na outra.
Mas confesso que não o fazia todos os dias.
Trabalhar naquela zona tinha o adágio de me proporcionar tempo para o convívio com almas que eram de longe tudo, menos cor-de-rosa.
Havia dias em que, para fugir às quatro mulheres que habitavam o «Domus Familiaris», ficava até mais tarde e ainda gozava um pouco dos poetas de rua, nessa rua cor-de-rosa, já escurecida pelo dia a passar..
Era giro ver os convencidos e os tímidos surgirem. Os olhos tolhidos gritarem. Os corpos bem delineados das donzelas ofendidas, que ofendem com a palavra, quem as deixou no altar da vida.
Mas mais do que isso, era elevar a alma. Sentir um bicho adormecido que me fazia martelar gentilmente o teclado da antiquada máquina de escrever uma cópia chinesa da Royal Quiet DeLuxe Portable de 1941, como a que Hemingway usava e que jazia no escritório como bibelot e centro de vida.
Hemingway...
Tal como ele e o seu mundo, o resto do meu mundo andava três whiskys atrasado.
A Ana estava farta de me ver martelar naquela máquina.
Não percebia o fascínio da antiguidade, quando tínhamos não um, mas dois portáteis excessivamente caros para servirem de pesa papeis.
Não sabia que escrevia o que alma me doía para escurecer os ruídos da vivência diária.
Para afastar a sua voz inquisidora dos meus destinos, os pedidos incessantes de leva-me ao Shopping, ou compra-me isto...Dá-me dinheiro...O Manel quer levar-me ao cinema...Posso?
Acedia a quase tudo, menos ao Manel. Supervisão paternal e um taco de Baseball fazem milagres aos mal comportados. Mas nunca o ameacei. Directamente...
Apenas olhava para o Bastão...
Era a minha fuga diária... Assustar um pato marreco armado em cisne. Beber um copo e um café. Ouvir poemas de amor, escárnio e mal-dizer.
Ouvir o amor da minha vida reclamar que já não o é.
Sentir o desejo das minhas filhas em estar comigo...
Ver a vida a passar, quando passo a vida com quem quero.
A verdade é que perco não muito mais de meia hora dos meus dias com estas iterações.
Chego e brinco com as miúdas.
Acabo e «brinco» com a Ana.
Fazemos o que podemos para viver bem. E viver Juntos.
Beijamo-nos.
Escrevendo num dos pesa-papeis.
Fazendo algumas brincadeiras com a minha Royal.
Já vou para o terceiro livro...
Mais um não «best-seller»...
Apenas «seller».
Querem convencer-me a ser mais comercial. Querem mas não conseguem.
Amo demais ser eu.
Porque é desse eu que vem a Ana e as miúdas. A Royal. O cimbalino numa mão, o brandy noutra. Os poemas que oiço. As palavras que me caem dos dedos...
Os passos que dou na rua Cor-de-Rosa.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Copo do dia - Arco-íris no Retrovisor
No retrovisor vi um arco-íris do qual fugia,
Por entre as gotas de chuva que me passavam ao lado.
lembrei-me de nós.
Feitos de mil tijolos em mil cores feitas 7, deixados no horizonte.
Cada uma dessas, uma história que perdemos.
Um nome que foi correndo sem fim.
Cada cor perdida para sermos quem gostamos.
Acabo assim por ser um arco cheio de cores,
num céu escuro de chuva por cair.
Frente a um outro arco com cores diferentes,
partilhando o mesmo espaço.
Acho que vamos trocando cores antigas,
ajustando e arrumando assuntos antigos.
Tornando-as alicerces invisíveis, lavados pela chuva,
Quando antes foram lavados por lágrimas ou o vento de quem corre.
Somos dois arco-íris,
Dois arcos num céu.
Ou...
Se calhar somos apenas dois meios-arcos a encaixar o momento.
Por entre as gotas de chuva que me passavam ao lado.
lembrei-me de nós.
Feitos de mil tijolos em mil cores feitas 7, deixados no horizonte.
Cada uma dessas, uma história que perdemos.
Um nome que foi correndo sem fim.
Cada cor perdida para sermos quem gostamos.
Acabo assim por ser um arco cheio de cores,
num céu escuro de chuva por cair.
Frente a um outro arco com cores diferentes,
partilhando o mesmo espaço.
Acho que vamos trocando cores antigas,
ajustando e arrumando assuntos antigos.
Tornando-as alicerces invisíveis, lavados pela chuva,
Quando antes foram lavados por lágrimas ou o vento de quem corre.
Somos dois arco-íris,
Dois arcos num céu.
Ou...
Se calhar somos apenas dois meios-arcos a encaixar o momento.
Copo do dia - Num copo de papel
Tínhamos o hábito estranho de
beber o café num copo de papel. Mais por conveniência do
que por gosto. Aliás mais por preguiça, dado que nem sequer chávenas tínhamos
comprado.
No chão do quarto jazia um colchão, morto pelo uso extremo. Pelo movimento contínuo do rebolar dormido, mas não pelo sexo selvagem que todos os colchões almejam evitar.
Percorria
esse quarto, embora por mão nossa, uma cadeira simples. De dobrar. Que fazia as
vezes de bengaleiro, cómoda e mesa-de-cabeceira, para uma cama que ainda havia
de chegar.
Mas
bastava.
Pela sala, descansava um sofá, felpudo, gasto pelo excesso de uso, cuja única ambição era sentir, mais um dia que fosse, um traseiro bem torneado...
Para gáudio da cadeira que vivia nas suas iterações no quarto, só metade dos traseiros que sentavam no triste sofá configuravam esse desejo.
Para
agravar a desigualdade, na cadeira, ninguém se sentava.
Talvez
por isso se sentisse melhor, diferente, mais importante do que mero assento.
A televisão, que era apanágio das casas normais, era assento para livros, tendo em conta a sua antiguidade e dimensão... Isso e o facto de se ter avariado no segundo dia da nossa vivência juntos.
De
imagens em movimento restavam apenas o reflexo dos nossos, que por vezes
pareciam ser dignos de um daqueles filmes que passavam nos cinemas
desaparecidos da Baixa e dos Restauradores.
Tornou-se
uma mera espectadora do espectáculo.
Mas já
não o seria por muito mais.
Duraria o
tempo necessário a que a casa se compusesse num reflexo da ideia que
tínhamos.
Quando
tal aconteceu, a casa que mudara, para nosso contento, já não era a casa
que queríamos ter.
Já tínhamos cama,
com colchão novo!
O velho
foi dado ou reciclado.
A cadeira
com múltipla personalidade tornou-se apenas um bibelot esquecido numa arrecadação.
O
sofá, triste e felpudo, foi refeito e reformado. Agora é de uma bela
pele negra, confortável, com todas as molas inteiras.
Mas faltando algo...
A
televisão, essa, foi substituída por um magnífico ecrã panorâmico que faz tudo
e até pipocas...
Até
já tínhamos chávenas e máquina para café...
E no
entanto, sentados neste sofá, com estes «novos» móveis, todos eles já
desgastados por três filhas, 2 gatos e o ocasional peixinho dourado ou hamster,
lembrámos com o carinho de quem sabe o que tem valor, o desconforto que os
outros pedaços de madeira, tecido e metal representavam e o amor
que por eles tínhamos.
Eramos felizes com um pequeno mundo.
Agora
somos felizes, sempre a correr para um mundo que muda todos os dias.
Sempre à
procura de outro sofá, outra televisão ou maquineta, que preencha o vazio...
O vazio
que existe quando as nossas três filhas, 7 netos, 2 genros e meio (que um deles
ainda não se declarou, mas falta pouco) não estão na casa.
Se calhar
por isso relembro o tempo em éramos só dois, um sofá, uma cama e uma
cadeira.
Só dois a caminho de
cinco.
Agora
somos quinze, quase dezasseis.
Há sempre
mais um a surgir...
Dei-me
conta, enquanto olho para ti como se fosse o primeiro dia, que cedemos o
desconforto de um passado, para criar um futuro maior do que tínhamos.
Só ainda
não o sabíamos.
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