quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Copo do Ano - Boas intenções

O ano começa com boas intenções. 
Acaba de igual forma. 
Mas nos outros dias todos temos outras intenções.
Para muitos o ano que passou é algo que já deveria ter acabado há muito. 
Para outros deixa saudades de um tempo em que tudo foi bom demais para ser verdade. 
Alguns perdem o cargo, poleiro ou a casa que sempre quiseram, enquanto há quem comece o caminho de outro sonho.

Neste instante, em que no calendário mudamos de ano, mudamos pouco ou nada do que somos, nem do que queremos ser. Apenas imaginamos uma fronteira onde o que fica, fica e o que se constrói serve de inspiração para o futuro.

Opto por hoje tomar outro caminho. O amanhã é o que fui construindo ontem. E por isso devo festejar o que passou, não o que aí vem. 
Não temo os momentos desconhecidos mas agradeço os momentos que me fizeram.

Neste último ano escrevi. Pouco. 
Fotografei. Pouco. 
Viajei. Pouco. Menos que queria. 
Mas fi-lo. 
Comecei o longo trajecto de ser e fazer o que quero. 
Recebi o meu primeiro Hate-mail. 
Recebi os cumprimentos e o reconhecimento de quem importa e de quem não me conhece. 
Vi o futuro desenhar-se na minha frente, cabendo-me apenas agarrar essa oportunidade.

Vivi aventuras e escrevi-as no tempo.
Li pouco... muito pouco. 
Li por dia mais do que muitos lêem na vida. Mas o que li não me traz prazer, apenas trabalho. 
Centrei-me nas amantes todas e na mulher que me faz companhia e com a qual negoceio o passo seguinte.

Neste ano que passou, os dias foram uma espécie de aventura a quatro mãos, duas objectivas e muitos quilómetros, sempre numa contínua descoberta de quem somos, de onde vimos e para onde queremos ir.

Deixei de escrever poesia. Pelo menos na forma de verso. Comecei a escrever quando podia, porque a mente não chega aos dedos, ocupados com a burocracia diária.

Preocupei-me com o dinheiro que preciso, para não ter de precisar dele. Preocupei-me em gasta-lo no que faz chorar e sorrir.

Deixei que todas essas banalidades que se vão fazendo no dia-a-dia, se tornem especiais.
E tudo se compôs....
Se vai compondo!

O ano que passa foi muito bom. E muito mau. Foi uma vida delimitada por 365 dias e seis horas.
E no entanto não chega.
Quero mais!
Se calhar neste ano que vem...

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Copo do dia - Humanidade à distância ( a ser revisto)

Humanidade à distância

Sempre imaginei que estar ao lado de alguém permitia ver-lhe nos olhos, a humanidade que traz sempre consigo, mas acabo por ver nos olhos de muitos, a que lhes falta.
Se a distância favorece a beleza, por inverso, favorece o desprendimento. O "Longe da Vista, longe do coração".
Um dia, não há muito, lembrei de uma pessoa que já não faz nem vista, nem coração. Lembrei-me dela como quem se lembra do sabor que as coisas tinham na infância. Como se tudo soubesse melhor na memória do que na boca.
Mesmo a amarga existência posterior, que durou o mesmo tempo que demora uma árvore a tornar-se adulta (pensemos eucalipto, para apressar a coisa), não me fez mudar a ideia de que as coisas sabiam melhor antes. Curiosamente, até esse amargo período se tornou mais doce pela passagem do tempo. Afinal evoluímos nas direcções opostas impostas pela vontade e pela virtude que é decidir.
As consequências disso nunca serão claras. Só num qualquer livro de memórias, que apenas um terá de escrever ou ditar. O outro fincará o pé no momento em que decidiu seguir a sua vida, eliminando tudo o que mal o outro lhe fez… Excepto o pormenor que mais mal nos fazemos do que nos fazem… (há excepções bem documentadas).
Maria, de seu nome. Mulher banal como todas as mulheres, o que faz dela única, sentiu-se abandonada sem saber bem porquê, pela filha do Sr. Dr. apelidada de Manuela, também ela Maria.
Esse amor desprendido entre duas mulheres, que ora se envolviam no acto de fazer amor, como na discussão sobre qual levava o vestido (felicidade e infelicidade de ambas vestirem o mesmo número) preferido de uma e amado por outra, não se configurava na idealizada relação em que havia sempre alguém que levava as calças… Ali eram ambas mulheres, ambas bissexuais. E ambas queriam estar uma com a outra. Melhor eram fieis. A elas próprias.
Amavam-se sem se prender. Queriam-se sem se tocar. Desejavam-se na distância. Deliciavam-se na proximidade.
Queriam ambas filhos. Ambas família feliz. Ambas queriam isso, uma com a outra. E ambas queriam-no ao mesmo tempo. O que gerava conflito. Uma delas queria mais do que a outra ser o início do Sonho comum. E ambas queriam-no.
Apareci eu. Era um pobre desalojado de emprego, sem casa emocional permanente, à procura de uma gaiola. De uma prisão dourada, enganadora, facilitadora da felicidade.
Conhecia Maria e Manuela. Era amigo de uma, nada à outra. Sempre soubera da inclinação sexual e sempre tratara isso com o mesmo desprendimento com que se vira uma folha do jornal de papel ou digital. Nunca fora coisa importante, para ser sincero.
Mas confesso que Maria era desejável. Demasiado para a proximidade que tinha com ela.
Um dia, após uma das típicas discussões do Eu quero mais que tu, Maria veio refugiar-se no pardieiro elegante que habitava em Alfama.
Chorou o suficiente para alagar o chão de tábua corrida. Soluçou o suficiente para abanar o piso por inteiro e a mim.
Abrira o seu coração e com isso fizera correr um rio no sentido oposto ao que queria.
Entre os olhos vermelhos, surgia um fascínio que enfeitiçou. Disfarcei o desejo latente com palavras sábias, quase como se quisesse afasta-la do meu regaço, onde se aninhara.
Maria olhou-me. Trespassou-me com a vontade de um beijo que fica pendurado. E num intante de quase insensatez quase que lhe fiz a vontade.
Era o desejo de ser desejada versus o meu desejo de dela. Uma situação perigosa e com um fim previsto.
Evitei. Evitei quanto pude. Acabou por ser ela a quebrar a barreira. E depois disso não houve mais nenhuma a quebrar.
Maria, ficou.
Mais 6 meses. Mais um ano. Ficou na minha pele.
Mas o corpo, esse, já preenchido, partiu quando mostrou que podia ser o que sonhara.
Nunca mais a vi. Nunca mais soube dela. Ainda tentei saber o porquê.
Esse soube-o hoje. Era pai.
Era, porque ela volta, num outro momento de desejo perdido, procurar um conforto de uma tarde, que se tornou desconhecida, para me dizer que lhe dera algo que não sabia, nem viria a saber.
Manuela fora com Teresa, o nome de uma criança perdida nos seus 5 anos, para a escola privada onde esta ensinava e um desvairado, armado de um super-desportivo, perde a mão e leva duas vidas num passeio.
Ainda não sei bem o que dizer disto.

Em 10 minutos e 5 anos perdi uma tarde, uma mulher, uma filha e uma vida que não sabia.
Perguntei-lhe com razão de todos os Deuses, porque me aparecia assim, à porta , com novas destas.
Com a vergonha da cara apagada pela dor de quem perde tudo, para me fazer perder algo que nunca tive.
– Desculpa, desculpa… Nunca te disse. Nunca quis muito. Sempre soube onde andavas. Mas nunca podia… Não podia.
Não podia? Mas…
Agarrei-lhe o braço com a delicadeza que não merecia. Arrastei-a atá à sala, fechando a porta da rua com a doçura que inventei naquele momento.
– Aquela noite deixou-me marcas que carrego. Fiquei sempre com a dúvida. E hoje recorro a ti, por causa dessa dúvida. Sim, tivemos uma filha. Sim, foi sempre minha. Mas amei-a como se fosse nossa.
– Nossa?
– Não me podes julgar pelo caminho sem saberes porque. Traía o meu amor, com um amor que me exigia não mais do que o momento.
– E julgas-me tu, que não te podia querer mais do que uma noite?
– Não sei. Nada devia ter acontecido. Nada era para acontecer.
Sentou-se, aproveitando a inércia da queda de um anjo no inferno da perda.
– Mas aconteceu. Aconteceu uma noite. E para mim muitas mais noites. Não consegui limpar o cheiro que deixaste na boca, por mil vezes que a lavasse.  Recusaste todas as minhas chamadas. Ainda tentei saber por onde andavas. Mas doía-me ver-te… Desisti.  Desisti de ti, porque senti, porque sabia que desististe de mim.
– Agora já não tenho nada que me prenda. Perdi tudo. Perdi o meu amor que já não era, o meu amor que nunca foi e o nosso amor, pela mão de um idiota.
Chorou, como o dia, quando a notícia se espalhou. O telefone não parava de piscar, com as chamadas e as mensagens. Do meu nem um pio.
Entrava no seu momento de luto. As forças franquejam… As pernas, delineadas como no dia que deu azo a este encontro, dobraram-se sem impedimento outro que não o meu abraço forçado.
E de novo, 5 anos depois, muitos minutos depois…Muitas vidas depois, o meu olhar tocou o dela. E chorei. Chorei 5 anos numa lágrima.
Chorei uma filha noutra.
Aguentei o que pude, de novo, quando ela, o amor que se fora, voltou…
Caída nos meus olhos, amparada pelo assento do sofá que ainda a conhecia, fez o que podia no momento em que se chora por ficar sem nada.
Atendi o telefone dela, quando a Mãe, senhora que não via há mais anos do que os dedos, ligou.
Disse-lhe que estava aqui.
Ela respondeu-me: Então já sabe!
Sei.
Sei, alguma coisa

Acrescentou: Temos de falar. Tem de perceber. Hoje todos perdemos alguém. Mesmo você…

domingo, 27 de setembro de 2015

Copo do Dia - Os fundamentos da beleza moderna ou Como pudeste comprar esse carro

É sabido que num qualquer casal há sempre a mesma discussão de novo rico. 
O homem gosta do novo Mercedes. 
A mulher, da elegância do novo BMW. 
Contentam-se em comprar o utilitário, que os serve ainda melhor. 
Passa-se o mesmo com casas, mala, mochilas, camisas, calças e todos os outros momentos de consumo puro.
Cervejas, vinhos e, ocasionalmente, preservativos, escapam a estas discussões.

Temos ainda de contemplar ou pomo de discórdia: A questão das cores.

 Azul - diz o Homem.
 Azul marinho ou bebé! Não, Azul cobalto! Oceano...

Não! 
É azul macramé, feito por um miúdo de 5 anos, por acidente, numa aula de metalomecânica na Micronésia do sul,  dada por um professor angolano.

Inverosímil?
Sim

Assim como os 16 milhões de cores que surgiam nos anúncios de monitores de PC… Nunca as vi e muito menos as contei. 
Não me causaram confusão. Imaginava sabe-las ali.

Mas não.  Na realidade de uma discussão em casal, isso não chega. 
Juntemos agora a estas prementes questões de tons, automóveis:
– Já viste! É lindo. Quero comprar um Mercedes. Em prata…
 Em prata, mas somos ricos? (Além disso, naquilo nem cabe a minha mala de mão...)
 A cor. Eram os Flechas de Prata nos anos 30… (E a bagageira é gigante. Cabe lá um corpo.)
– Anos 30? Mas deste em revivalista? (Não cabe. Além disso nem sequer sabes de que mala falo. Nem eu. São tão "poucas"...)
– Então em que cor queres? (Só se for uma do teu tamanho.)
– O BMW? (Estás a chamar-me gorda?)
– O Mercedes? (Não. És o meu esguio amor.).
 Não tínhamos discutido isso em casa? É aquele. (Cama ou Sofá? Escolhe!)
 Olha para isso compro qualquer outro carro. Incluindo aquele feio que nem tu, nem eu gostamos. (Olha que não embarco em ameaças veladas...)
 Já agora em Amarelo... (Nada aqui é velado...Estás a pedi-las)
 Sim... Para culminar o mau gosto. (Mas que queres que te diga...)

Ambos faxem uma birra...  Atéque a cabeça fria de algum diz:

– Agora que já discutimos o que queremos, que tal falarmos do que podemos ter? (desculpas-me? Passemos à frente?)



Entretanto, hoje vi um carro horrível, novo! 
Em amarelo… 
Parece-me que será de pessoa solteira.
(há gente com um gostinho...)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Copo do Dia - Prazer de escrever

Há um prazer indescritível em escrever com pena e papel.  
Ou melhor, é descritível. 
É descrito no próprio acto. Embora agora a única caneta que toco é aquela que escreve com a imaginação, imagino-a a borrar um pouco a página deixando-me algo desagradado pelo imprevisto.
Por outro lado, esse borrão obriga-me a reescrever noutra página imaginária, se calhar, o que sempre quis. 
A caneta que escreve fá-lo sem pretensão, sendo apenas instrumento de génios (e outros não...). Mas apenas o pretensioso acha que as palavras lhe pertencem, que as domina e que o pulso delas, é o seu. Esta pessoa não escreve. Demonstra, no papel, o seu ser. 

Escrever não é isso. (Ou também é?). 

Seja pelo facto ou pelo imaginado, tudo o que se passa no bico de uma esferográfica ou no aparo de uma caneta, é a visão de um mundo que temos atrás dos nossos olhos. Esse mundo deve ser dado a conhecer, não imposto. Deve ser uma dádiva, tanto para quem dá, como para quem recebe. E pelo qual não devemos esperar o elogio.

Os bons escritores escrevem para tocar pessoas. Seja pelas histórias ou pelo que despertam. Não para imporem regras ou um rumo, mas para, pela imaginação, as tocar. E assim, sem pudor, somos o que fazemos: 
Pessoas.

Há quem escreva mundos e espere estátuas. Há quem escreva para o mundo e espere um sorriso.

Conheci muitos escritores, direi mesmo autores, na minha curta estadia. Li-os. Mas também falei com eles. Em todos os verdadeiros escritores, havia a preocupação de contar uma história, não para um futuro, mas para um passado. Se almejavam algum reconhecimento? Sim, um pouco! 
Riqueza? Só de espírito! 
Escrever com alma? Todos os dias.
Invejam muitas vezes os técnicos da escrita. Aqueles que faziam páginas imensas de texto, muitas vezes apenas para denegrir ou, nem sequer isso, apenas para fazer palha para ser adquirida.
Não invejavam a produtividade. 
Invejavam a vida mais fácil. 
Uma vida sem a constante tortura de contar os tostões ou os minutos até os miúdos voltarem da escola. 

Não invejam as páginas cheias de tinta. 
Apenas o tempo. 
Nem sequer o dinheiro, porque tal não era importante... 
Essa tortura de alma, pela inveja mais inocente que concebo, era o âmago da sua honestidade intelectual. 
Sabiam que cada folha, repositório final da vida de um qualquer pinheiro ou eucalipto, merece mais do que palavras saídas em raiva ou código de máquina de escrever com coração empedernido, à procura da trama mais complexa para perder o rumo de quem compra, mas não sente. 

Os autores querem que quem os lê, sinta. 
Porque só isso lhes dá sentido. 

Porque há um sacrifício no acto de escrever e cada letra é uma vida que se perdeu num manto branco. 


Escrever... É um privilégio.

domingo, 14 de junho de 2015

Copo do dia - Mensagens de pessoas que não existem

Maria recebeu uma mensagem matinal dando-lhe conta do falecimento do Alberto.
O único problema é que ela não conhecia Alberto algum.
Maria era uma mulher curiosa. Tão curiosa como um cão perante uma caixa fechada. Assim, armada em perdigueiro, tentou perceber quem era o Alberto. Não o fez pelo caminho mais óbvio, que seria responder à mensagem da pessoa que lhe remetera tal aviso. Não podia dar parte de fraca e como tal decidiu começar a telefonar ao seu grupo inestimável de “amigas” do trabalho, uma verdadeira fonte de conhecimento sobre as vidas alheias, sobre quem seria o Alberto.

Duas horas de conversa, dez rumores novos, três possíveis gravidezes e dois romances com uma chefia qualquer, salpicados com uma possível infidelidade e uma incoerência qualquer em termos de trabalho, um trabalho qualquer que deveria ter sido feito.

A verdade é que todos os Albertos estavam vivos… Aliás, apenas um, existia.
O mistério mantinha-se. Maria, tentou lembrar-se se teria conhecido algum nas suas saídas nocturnas… Se existiria algum nas suas conquistas… Não. Alberto era nome que não a seduzia e quem o trouxesse consigo não faria nada consigo.
Maria destacava-se do seu grupinho, por ser uma atípica mulher. Bem-feita, loira de olho azul. Voz suja, digna de cantar um jazz qualquer mais soturno e pesado e que, completando o estereótipo, tinha um enorme espaço para arrendar no topo do pescoço…
Confessa que o faz de propósito…
Não sabemos bem se é verdade. A sua “entourage”, aquela que vive do chamariz que Maria é, ou seja as morenas, todas elas mulheres completas e com mais charme, acaba por viver as consequências da “Trash culture”…
É bonito, vende-se! Não seduz num olhar, não presta.
Teresa, uma das morenas, foi a primeira vítima do questionário de Maria. Depois foi a Maria, a n.º 2, a Fátima, a Isabel, a Sofia, etc…
Nenhuma delas sabia ou reteve os restos do tubarão Maria que passava pelos homens, como pelas dietas milagrosas.
E de todas elas ouviu o mesmo conselho. “ Se não sabes quem é, responde à mensagem…”
Maria ainda tentou falar com ex-paixões e conquistas que, por razões que lhe escapavam, (mas não a eles) não queriam falar.
Sem outro recurso, respondeu à mensagem, quase um dia depois…
A resposta foi lacónica. Alberto fora o seu primeiro namorado. Aquele que ela invocava ser o padrão de toda a sua existência amorosa…
O problema foi o mais inverosímil. Não se lembrava do seu nome, apenas de que o amava. Perdidamente…
Quando tentou explicar tudo isto à sua melhor “amiga”, a Ana, esta olhou para ela como se Maria fosse portadora de uma pestilência…
Não lhe fazia sentido que um nome invocado mil vezes em mil dias fosse esquecido… A não ser que fosse uma mentira… E havendo uma mentira, o isco que era Maria, deixava de ser apetecível, para ser apenas fútil…
O isco que se usa, determina o peixe que se apanha.
O mundo de Maria perdia, ali, a sua primeira estrela.
As outras não tardariam a perder-se…
E, subitamente no escuro, trocando as companhias que atraí na noite, pela solidão que sente com elas, o espaço vazio em cima da cabeça fica repleto das memórias esquecidas…
E no dia seguinte ao funeral, tardiamente, chega a uma campa rasa, onde perdura um nome que amou e esqueceu, usando-o como desculpa para fugir da vida.
Maria morreu no mesmo dia que Alberto. Não o sabia ainda. Morreu a “femme fatale”, a caçadora, o tubarão em duas pernas…


E nesse vazio, que é o fim, encontrou-se!

terça-feira, 2 de junho de 2015

Copo do Dia - O mínimo denominador comum.

Sempre achei que ao mudar de país, como fiz tantas vezes, a base das amizades que se constroem acaba por ser muito ténue. Partilhar um espaço, um gosto particular, uma comida preferida, uma mulher imaginada ou mesmo, uma língua.

O que nos torna comuns aos outros une-nos.
Por isso sempre fiquei perplexo com a minha amizade com ela. Nunca nada nos uniu. Nunca nada foi um denominador mínimo com ela. Mas ele existia.
Confesso até ao momento em que nos separamos ao fim de dez anos de uma união sem razão, que nunca tinha pensado nisso.
Parece ser uma daquelas situações que o ser humano decide algo com base numa boa sensação, mesmo que do outro lado insistam em atropelar os sentimentos… Se calhar como eu fiz tantas vezes a mim, mas nunca aos outros.
Comecei a pensar que o que tínhamos em comum era esta vontade de ignorar o que sentimos em detrimento do que queremos sentir.
Fomos apenas amigos sem razão para o ser. Partilhamos tudo e mais alguma coisa, porque éramos estranhos um ao outro. Julgamos tudo e todos pela nossa bitola, que não era nossa, nem julgamento.
Separámo-nos, mas nunca estivemos juntos, éramos estranhos unidos pela mesma língua, pela mesma terra e pela mesma vontade.
Voltei a casar anos depois, feliz com alguém com quem partilhava a vida, com um rebanho de filhos, com uma casa longe e um coração perto. Ainda assim nunca esqueci esse mistério que para mim era estar unido ao desconhecido.
Não tive possibilidade de fazer reviver essa relação, nem de a perceber. A morte, o único elemento comum, apenas não no tempo, chegou-lhe primeiro.
Não sei se na realidade houve alguma alteração no seu estado límbico.  Nem sei se a emoção sentida à sua volta foi de alguma forma alterada pelo seu falecimento.
Decerto, e espero, que sim.
Tenho alguma dificuldade em explicar à Maria, a minha primeira filha, que agora fez 18 anos, as verdadeiras razões pelas quais me separei da Maria, a Minha falecida mulher, pouco tempo antes dela se passar para outra vida.
Ambas as Marias nunca me perdoaram esse momento de franqueza feito de fraqueza.
No único momento em que houve algo comum entre nós, eu fugi.
O fim assusta sempre.
Pior ainda vê-lo na nossa frente…

Custa-me dizer à Maria, que a única coisa que tinha com a Maria, a Mãe, era ela.
Mais ainda porque os nossos caminhos jamais se teriam cruzado não tivesse sido uma noite, num qualquer jantar em casa de amigos…


Deveria ter terminado tudo no momento em que loiça caiu ao chão e em vez disso começou… 

sábado, 30 de maio de 2015

Copo Político - Época de resignação.

Vivo uma época de resignação revoltada. Isto ao contrário dos resignados a serem revoltados. Vejo os campos de futebol cheios. Vejo os cofres cheios. Vejo na televisão que tudo vai mal, para ir bem, na notícia seguinte. Vejo um partido plantar candidatos. Vejo os senhores do futebol serem acusados. Vejo-me resignado a ser um instrumento do poder que finge ser benévolo.
Atiram-se cheques pela janela dos fundos… Mas na montra estão ideias sem cobertura.
Estou resignado a ver tudo do assento, em frente à televisão, em frente ao gira-discos herança nova de uma geração saudosista.
Oiço, com a raiva, políticos a falarem, pseudo-políticos afirmarem, pretendentes a deputados inventarem, todos em simultaneamente gritarem “eu sou a cura de todos os males…”
Apetece-me espetar-lhes com tachas pequenas, um rótulo de "Banha da Cobra fresquinha"... Ou mesquinha!

Estou resignado a escrever num teclado pequeno, grande ideias da minha mente que saem em letras pequenas, numa espécie de contrato que faço com estas constatações. Uma espécie de contrato de seguros... Pagamos para nunca recebermos... Pagamos....Pagamos... E quando se trata de receber algo... Ah ainda tem de pagar... E ficamos resignados...

Ou revoltados. 

Olho novamente para a televisão. Sinto-me afogado, no meio do mar, a dar a mão a um irmão. Tem outra cor é verdade, não diz nada que entenda. Mas também se falasse o que eu falo, eu entenderia ao contrário.
Porque eu não quero que tudo mude. Apenas o suficiente. Quero que as coisas mudem o seu turno, um milímetro para o lado certo da rua. Que o rio se afaste um metro e deixe-me passar por entre as gotas da chuva que falta.

Eu quero que olhar para o céu. Olhar para ele sem temor. Olhar para um céu de promessas que se cumprem…Que por isso não são promessas. Quero ver um sítio onde pagamos a conta do que se esqueceu. Oferecemos o café ao que ainda não chegou. Um sítio em que olhamos para um carro, como aqueles dos bons, ou novos e dizemos “ Um dia vou ter um destes” e não “Sacana que deves andar a roubar…”
Oiço amigos e inimigos falarem de mudar o mundo… Para que tudo fique na mesma…
Eu quero mudar tudo, mas só um bocadinho…
E com ele mudar-me também… Só um bocadinho.

Descubro com este texto, que mudarmos um pouco para sermos melhores, é mais difícil.

Mais difícil do que simplesmente revoltar-nos.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Copo do dia - "O Continente Desconhecido - Parte 2"

Hás uns dias, perguntando pela família desconhecida, o meu pai começou uma longa viagem até aos seus avós. Essa viagem longa tinha um motivo. Já raros eram, os momentos de lucidez e menores ainda os momentos em que a memória me traziam até ele.

Na maior parte do tempo eu era um desconhecido afável, em vez do herdeiro genético da maleita que o afectava. Mas isso não era coisa que me preocupasse para já. Queria-o lembrado da sua vida cheia. 
Tinha metade da sua idade. Mais três filhas que ele. Mais possibilidade de lhe prover um vida sem preocupação, fosse no seu tempo perdido, fosse no tempo em que vivemos.

Lamentava ouvir repetidas as histórias do sorriso de granito vezes sem conta. Mas lamentava ainda mais não as ouvir nos momentos em que o olhar cheio, se tornava perdido pela doença.

Era um neto a falar com um filho, sobre uma ideia de uma pessoa que existira noutra vida antes de, ou quase,  qualquer um de nós. Numa das visitas mais lúcidas, lembrou-se do casamento. Não do meu, mas do seu. Com a minha primeira mãe. Ou melhor a minha madrasta número 1. Contou-me essa memória, como se eu não a conhecesse. Era a primeira mãe que tinha, tendo a minha desaparecido na depressão e nas drogas legais, até se vaporizar na terra de ninguém de que todos somos feitos. 

Anabela, a minha mãe de coração, não de sangue, acolheu-me como seu, num casamento em que todos estávamos. Tinha eu 8 anos. Criança pura, adulto em plano, sofrido como um velho. 

Como um pai que vê o filho e não se lembra dele.

Foi um dia muito feliz. Para todos. Mas também iria acabar. Algo de que o meu pai não se lembra é das infidelidades. Anabela era fiel. Boa mulher. Excelente mãe.  Mas era mulher que precisava mais do que apenas um homem... ou dois, sendo um deles pequeno. Queria ter aventuras. Viver o risco de uma vida. O meu pai fez por não ver as indiscrições. Fez por ignorar. Acho que por minha causa. Mas Anabela ia esticando a corda... Esticando cada vez mais. Até um dia, em que tudo rebentou. Tinha eu doze anos. Chegava da Escola (naquela altura os miúdos podiam ir sozinhos para a escola. E voltar sozinhos). Vejo Anabela a chorar, com as malas à porta. O meu Pai escondia lágrimas, mas levantava a mão como nos filmes, dedo indicador hirto, marcando o destino selado.

Voltariam a ser amantes, alguns anos depois. Mas jamais unidos na mesma casa.
Perdi-a uma segunda mãe, sendo a primeira. Foi duro...

Tive mais duas madrastas. Estas mais fieis ao meu pai. Mais tudo. Menos mães para mim. Era amigas. Mas não eram o apoio nem a mão disciplinadora. 

Na verdade, uma delas nem amiga. Apenas uma mulher que se queria insinuar em boas famílias. Uma escaladora social. Enganava-se no poder que via. Apesar de um reputado economista, o meu pai insistia em não se ligar demais à política. E tendo influência, tinha por princípio não a usar. Dizia que o verdadeiro poder está naqueles que não o querem usar. Nunca percebi tal coisa. Mas também nunca tive esse poder.

Acabou por ascender na cama de um qualquer poderoso, após mais um divórcio.
Esta não voltaria a ser amante do meu pai. E em boa verdade, tornou-se amante de todos os outros pais, sem nunca chegar ao topo, escorregando sempre mais um degrau...

o meu pai, reformou-se contragosto da Universidade. Da minha Universidade. Ensinar gerações e gerações de almas os princípios da boa governação era um prazer. E uma responsabilidade. E por isso acho que nunca se perdoou ter dado passagem por favor a um tal marmanjo que fora o primeiro ministro a arruinar um país governando pelo uso da literatura económica. Acho que foi aí que o meu pai começou a ter problemas. Sentia-se culpado pelo mundo que ajudara a criar. sem que isso fosse realmente culpa dele. E queria esquecer essa responsabilidade.

Disse-lhe mil vezes que nada disto era previsível. Que um gesto de boa venturança não poderia ser causa de tanto mal. Respondia-me que não há boa acção que não tenha um castigo associado. 

No seu último ano de ensino, visitava-o mais. Quando podia. Preocupava-me. Já me tinha formado. Seguia-lhe as pisadas no ensino. Era Assistente do curso de Gestão. Era um puto de fato. Bem apessoado, mas imberbe e convencido de ter a verdade no bolso. Num desses último dias, entro e sento-me na sala. Era um anfiteatro. Cheio, por sinal.   

Olhei em redor. Na primeira fila, estava uma giraça de cabelo moreno, comprido. Quando falava, ou perguntava, a sua voz era melodiosa, se bem que subia uma oitava de vez em quando. Senti-me puxado para ela, sem lhe ter visto a cara. 
No fim da aula, fui ter com o meu Pai. Sentia-lhe a voz cansada ao longe. queria vê-la ao perto.

Quando cheguei, depois de cautelosamente descer a escadaria, essa morena estava de volta do meu velho. Era uma jovem de rosto ainda limpo. Se tinha rugas, escondia-as com um sorriso. Fiquei cativado naquele momento. Pendurados num limbo facial, ficavam dois lagos verdes, separados por um nariz delicioso.

Apresentou-se. Era Sofia. Era uma nova aquisição para o corpo docente. Ou seria. Ainda não havia sido apresentada. Fiquei espantado. 
Emiti um " Não me parece que pareça ter idade para ser..."
"Pois não nem você"  retorquiu.
Era respondona a menina.

1 ano depois, estava grávida da Catarina. E eu, de braços em redor.

O meu pai lembrou-se desta história, quando lhe lembrava ser seu filho.
Lembrou-se dos netos, antes de se perder, novamente,  na memória do granito feito sorriso.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Copo do dia - "O Continente Desconhecido"

O meu Avô era um fascista democrático. Achava que a Raça Portuguesa era superior, mas que todos os outros mereciam ascender ao nosso patamar... Era uma espécie de ditador iluminado, sem ditadura e mais tarde na vida, apenas dentadura. olhava para o futuro com a desconfiança de que nele tudo seria pior. Era um continente desconhecido que não tinha vontade de explorar, contrariando a boa raça portuguesa.

O meu avô tinha 4 vezes mais anos que eu. E sentia que ele me ia sobreviver, baseando-me na noção de que vaso ruim não quebra. E o homem era mais do que ruim. Faziam inveja aos Beras. Era duro como granito, de palavra pesada como chumbo e língua afiada não como sabre, mas como mulher coscuvilheira.

No tempo dele, que curiosamente ainda era o mesmo tempo que o meu, tudo fora melhor. Vivia-se como Reis descalços na rua. Circulavam pela ruas carros e carrinhos para todos os gostos, e os engarrafamentos aconteciam em frente às casas dos cafés, recheadas de um odor cafeínico e a doces de fazer buracos nos dentes a serem curados ou arrancados pelo carniceiro barbeiro cirurgião-dentista.

Ah sim, esses é que foram bons tempos. Bons caminhos para a alma dura do meu avô. 
A casa que herdei por breves momentos, ali na Calçada da Palma, onde mais tarde viria a encontrar a mãe dos filhos que iria ter, estava prestes a arruinar-se como dentes embebidos em torrão de Alicante ou rebuçados de pinhão de Badajoz, delícias de um tempo em que o "El Corte Inglês" era um mito e não apenas mais uma loja. 

Era uma sobra de um lar, que já fora local de brincadeira nos almoços da família , feitos religiosamente ao Domingo, sempre com muita carne na mesa, pão e vinho igualmente. Era uma gritaria organizada, que registava o único sorriso do meu avô. Era adorava o caos, por ele ordenado. E não era difícil soçobrar perante a dureza do granito e língua afiada.

A minha avó por seu lado era de raiz suíça. Ou melhor Pastelaria Suíça. Passava os seus finais de tarde solarengos, depois de sair do serviço (onde era secretária, uma das poucas profissões respeitáveis naqueles anos, para uma senhora de família isto é) e deliciava-se com os cheiros abaunilhados e caramelizados. Comprava, uma vez por semana, dois bolos. Um para ela e outro para o meu avô. 
Era o seu doce do dia. 
De fim de dia doce.

O meu Avô gostava de imitar Pessoa vestido, mas escrevendo alguns impropérios dignos de Bocage. Assumia-se como nome maior da língua, mesmo que ninguém lhe reconhecesse nem obra nem palavras suficientes. Mas fazia sucesso com as meninas. Corria, mau grado para minha avó, que algumas delas eram mais do que objecto de escrita, mas também mesas e papel, onde escrevia com a sua caneta (ou outra coisa) belos contos de escárnio e mal dizer, ou romances de cordel. A minha avó aguentava esses doces sem açúcar, enquanto ele voltasse para casa e pagasse as contas dos miúdos (entre eles o meu Pai). 
O meu Avô era fiel à sua maneira.  
A minha avó também.

O sorriso do meu avô, feito granito e língua afiada, excepto o que surgia ao domingo, desfez-se com a morte do seu amor verdadeiro. Ali perdeu o gosto de escrever, em página própria ou alheia. Perdeu o sorriso. Fora uma ou duas vezes por cada domingo em que dizia um tolice propositadamente para o fazer rir.

Eu gostava daquele velho...
E agora que estou quase na idade dele, honro-o tendo um sorriso de granito feito e língua romba como uma mulher.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Copo do dia - O Bufo

O bufo

Era uma vez Aristides. Era um bufo. Um bufo real. Era um belo animal. Uma Ave. Uma ave rara. Um bufo é uma ave de rapina. Oportunista mas também excelente caçador. Faz uso da visão apurada e da eco-localização para saber onde anda o pobre roedor que vai ver a sua vida dificultada.
Não tem peneiras em, com as suas garras fortíssimas, desfazer uma presa. Mesmo  que essa presa por incauta não mereça maior atenção do que aquela que Aristides lhe dará.
Convenhamos que, no jogo da vida, as verdades e mentiras que inventamos para nós e para os outros de nada interessam. São apenas pormenores para garantir a boa convivência em conivência. Ora Aristides, Ave rara e nocturna, pouco ou nada quer saber dessas convenções. Quer ver o seu prato cheio. Nada mais, nada menos. E por isso caça.
Todos os indícios são perseguidos por mais falsos que possam ser.
Mas Aristides, ave rara, ave nocturna não esmorece. E muitos pequenos roedores, que vivem a sua vida calmamente, são depredados por sua culpa, despedaçados pelas garras anónimas.
Aristides, ave rara, ave nocturna, não terá dó para encher o seu estômago mesmo que em troca só dê ar.

Tenho pena que Aristides, ave rara, ave nocturna seja uma pessoa e não o belo Bufo Real que vi pousado, uma vez, ali para os lados de Mafra.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Copo do dia - A mentira pegada

Conheci o Francesco há mais de uma década. Nunca me foi uma figura muito próxima, nem muito longínqua. Admirava a sua arte e a presença. Era um cinéfilo, melómano, ávido leitor, tentador fotógrafo, mas também um misógino gay. Para o mais banal dos humanos esta combinação circularia entre o muito interessante ou muito repelente, consoante a carga das convicções amorais que cada um de nós carrega. No que me diz respeito, olhava para ele com a simpatia com que olhamos para os defeitos nossos no espelho e não com a antipatia com olhamos para os nossos defeitos nos outros. Francesco era um homem. Disso não tenho dúvidas. Mas também gostava de homens. O que não fazia dele menos homem. Aliás uma despudorada bicha, disse-lhe uma vez que ele, gay era uma vergonha, porque não assumia o seu verdadeiro ser. Francesco demonstrou-lhe o seu verdadeiro lado, pelo menos mais adequado. Conteve-ve para não ir à fuça, proferiu alguns impropérios dignos de um trolha das obras, terminando, com o comentário mais machista gay possível: “Queres mas é… minha … apan…”
Francesco, misógino, gay, culto, foi naquele momento a mais peixeira das peixeiras com barba… Se alguma vez houve disso.
Posso ser gay dizia ele Mas nunca serei aquilo…
Concebo que seria a sua própria intolerância, digna de qualquer “mainstream” vivente, que falava assim, dos que viviam à margem do pensamento das pessoas conservadoras.
Sim, Francesco era um devoto conservador. Visitante regular da Igreja, amigo do Padre, que não o excomungava por partilhar da Fé no amor entre todos os seres, em detrimento de alguns ensinamentos mais retrógrados.
Francesco era um pilar da comunidade, que andava atrás de outros pilares, com uma assustadora frequência.
Disse–me certa vez que se os marinheiros tinham uma miúda em cada porto, ele tinha um marinheiro. Era maneira masculina de dizer eu sou muito macho, porque tenho outros machos. o que convenhamos que para um homem que gosta de mulheres, fazendo o mesmo tipo de vã glorificação (nem sabes quem ando a comer….) , era ainda assim estranho.
Francesco gostava…não, amava viajar. Já estivera em todas as “photo ops”, encostara-se a todas as obras, construções, edificações, esculturas e portentos naturais feitos carne e osso… Mas havia outros locais que lhe faziam espécie. Aqueles que olhavam para uma pessoa normal como ele, que tendo por único defeito amar a sua espécie, ser excomungado civilmente, condenado a uma existência pária ou mesmo encarcerados.
Não sendo um grande activista, ainda assim não deixava de se sentir revoltado e com vontade de um bruto homem de ir ao focinho a um qualquer quer desses “filhos de uma grande…” Como fazia por referir junto do público feminino que o adorava, apesar de dever muito à beleza e nada à Inteligência.
Francesco era feio como um tomada antiga na parede, mas tinha um bom gosto digno do melhor prato, chefe ou alfaiate. Pior. Tinha as posses para o demonstrar.
Francesco, tinha ainda mais uma idiossincrasia.
Chamava-se Abílio Manuel, que não era nome de "bon vivant", sobretudo com as suas qualidades.
E por isso adoptara a "personna" de Francesco. Um pseudo italiano, cinéfilo, melómano, ávido leitor, tentador fotógrafo, mas também um misógino gay…
Mas também uma mentira pegada.
Sobretudo para ele.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Copo do dia - O cleptómano suave.

Alberto passara a sua vida modo clepto. Por onde passava deixava lugares vazios. Corações empedernidos outrora, eram postos na mão há procura da caneta antiga, do retrato minúsculo ou do relatório de contas que estava para ser entregue na manhã seguinte.

Alberto era um cleptómano completo, que levava democraticamente a todos, de tudo um pouco.
Um dia aconteceu-lhe que, nos bolsos do seu casaco que chegava a casa sempre mais pesado do que saía, encontrou um pequeno papel, um post it, que dizia apenas: Devolve-me!

Como clepto-honesto que era, sempre que encontrava objectos estranhos passíveis de ser devolvidos (a sua colecção de colheres de café, dos vários cafés por onde passava chegou a ser monstruosa, a ponto de ser forçado a ir devolvendo em caixas, aos estabelecimentos que suponha serem os leais proprietários e servidores da mistela castanha de espuma dourada)  fazia-o sem demora.
Mas era a primeira vez que encontrava declaradamente um objecto que fazia questão de ser devolvido, com todas as letras: Devolve-me!
O maior problema era perceber de onde saíra aquele pequeno papel, que tinha como única característica definidora ser de um verde claro e profundo, claramente roubado dos olhos do oceano.
Refez os seus passos nesse dia, revisitou todos os lugares, tendo o cuidado de comparar esse papelinho, com todos os que com ele se cruzavam.
Um outro e novo pormenor na sua viagem, surgira: Antes de sair de qualquer casa, de qualquer espaço, do trabalho, revirava os bolsos. 
O que deles caia repunha nos seus lugares. Quem o via, (sabendo da questão que já lhes roubara muito) sentia apenas a atenção ser levada. E por obra e graça começaram a surgir os agradecimentos pelo acto simples de nada ter nos bolsos excepto um papel a dizer "Devolve-me".

Mais tarde nesse dia, com bolsos leves pela ausência mas de semblante pesado pela interrogação, entra em casa.
Fala com Maria, mulher fantástica que Alberto dizia ter roubado de uma vida triste como indigente professoral nos confins do inferno distante chamado interior e pergunta-lhe, se tinha ideia, vislumbre ou hipótese sobre o pequeno papel que com ele correu o dia.
Ela sorriu-lhe.
Ele questionou o sorriso.
Ela simplesmente disse-lhe: 
– Esse papel era somente destinado a devolver, quem o trazia.
– Como? Devolver-me mim?
– Passaste os anos a levar recordações de todas as casa e caminhos por onde passaste. Erguemos prateleiras para veres as ideias passadas. E de todos esses objectos nenhum te fazia sorrir. Eram medalhas de uma guerra que te fazia preencher o vazio de pessoa que não tem nada.
E eu? Também sou um desses pequenos momentos que roubaste. E que levaste por momentos. E tenho saudades dele... Do Alberto que me levou.
Há uns dias decidi que era altura de te devolveres a mim.
Coloquei-te um pedido de devolução no bolso que menos vês.
Obriguei-te, assim, a correres os trilhos que tantas vezes fizeste. A devolver os objectos para  ficares com as recordações. Ouvires as palavras e os olhares que abraçam.
E em cada momento que foi devolvido, ficaste com a memória que faz anos, mas que não envelhece e te faz inteiro.
E quem me roubou, surge de novo.

Alberto, clepto-honesto, continuou a levar objectos até à ombreira da porta de cada mundo onde passava. Passou a devolve-los nesse bendito local, onde foi roubando a amizade de outros para si, trocando roubo por roubo.
Todas as manhãs levava emprestado umas horas de espera até voltar a Maria.

Alberto, nunca mais levou nada que lhe lembrasse. 
Levava só o que não se lembrava.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Copo do Dia - Mudar de Cara

Mudar de cara.

Confesso que desde o meu acidente aos 5 aninhos, sentia a minha face distorcida. 
Mal formada e causadora de grande dor visual.
Era, naturalmente, mais a impressão que a cicatriz que atravessa a face me fazia, do que aquela que fazia aos outros.
Apenas um mero adereço visual, não muito distante de um piercing no nariz, ou de um brinco. Era uma marca distintiva.
Conferenciei muitas vezes sobre se valia a pena remover essa marca. 
Sempre me perguntavam "Qual cicatriz?"
Fiz muitas consultas. Com cirurgiões simpatiquíssimos, que me diziam todos que o meu problema era facilmente resolúvel. Mas todos os acertos e correções eram em todos os locais menos onde estava essa cicatriz.
Era-me confuso ver tal coisa. Era visível na imagem do espelho. Os meus olhos, doutra forma perfeitos, sentiam-se feridos pela visão de tal entalhe na pele.
Não percebia a quantidade de defeitos que me apontavam onde tudo parecia normal. Parecia perfeito.
Comecei a falar deste desejo secreto, de mudar de pele, aos mais próximos amigos.
Comecei a ouvir as opiniões mais dura e mais doces sobre o rumo que queria.
Numa dessas conversas, com uma brutalidade doce, ela disse-me que era melhor que eu mudasse de olhos. Que procurasse o que me fazia perfeito. O que me fazia inteiro. Não os baixos-relevos da vida, marcados no corpo.
Ouvi com a paciência de quem não quer ouvir.
Deixei passar.
Continuei a minha viagem à procura de remendo bem feito.
Certo dia acordei acompanhado. Sem temor algum dessa companhia.
Era eu noutro corpo, olhando para mim.
Tinha outra voz. Outro toque.
E nesse outro corpo não via cicatriz que trouxe tantos anos.
O outro corpo, que sendo meu, tinha voz e maneirismos diferentes, dizia-me que também não via cicatriz alguma, no sítio onde lhe apontava.
Incrédulo olhei-me no espelho, no que reflectia a escuridão da alma perdida e o cabelo desgrenhado e procurei com afinco uma cicatriz que partiu.
Ali, na minha cara que segurava os olhos, não restava nada mais que uma doce planura.
Desapareciam as cicatrizes, cicatruzes, cica qualquer coisa…
Ficavam apenas caminhos.

As rugas de um sorriso.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Copo do dia - A rua cor-de-rosa

Fala-se sempre do bairro ou da casa com a luz vermelha, onde resistem as mães de muitos políticos. Mas da rua cor-se-rosa, dessa nunca houve ofensa que dela saísse enquanto rua. 
Apenas mais uma rua com bares, cafés diurnos e nocturnos, restaurantes. 
E em alguns dias da semana, vida demasiada para esse mesmo espaço.
Costumava parar lá todos os dias úteis. E os inúteis também. Cirandava, escolhia o local do costume, pendurava-me no balcão e pedia o Cimbalino só para, na minha mente, chatear! 
«Em Lisboa é Bica.» mil vezes me diziam... Até desistirem... Por pouco tempo... É o que dá ser gente de têmpera... 
A meio da ingestão do cafézinho ora quente, ora fervente, surgia sempre a vontadinha de um «cheirinho».
Acabava sempre por ficar com um brandy na mão e uma chávena na outra.
Mas confesso que não o fazia todos os dias. 
Trabalhar naquela zona tinha o adágio de me proporcionar tempo para o convívio com almas que eram de longe tudo, menos cor-de-rosa. 
Havia dias em que, para fugir às quatro mulheres que habitavam o «Domus Familiaris», ficava até mais tarde e ainda gozava um pouco dos poetas de rua, nessa rua cor-de-rosa, já escurecida pelo dia a passar..
Era giro ver os convencidos e os tímidos surgirem. Os olhos tolhidos gritarem. Os corpos bem delineados das donzelas ofendidas, que ofendem com a palavra, quem as deixou no altar da vida.
Mas mais do que isso, era elevar a alma. Sentir um bicho adormecido que me fazia martelar gentilmente o teclado da antiquada máquina de escrever uma cópia chinesa da Royal Quiet DeLuxe Portable de 1941, como a que Hemingway usava e que jazia no escritório como bibelot e centro de vida.
Hemingway... 
Tal como ele e o seu mundo, o resto do meu mundo andava três whiskys atrasado.

A Ana estava farta de me ver martelar naquela máquina. 
Não percebia o fascínio da antiguidade, quando tínhamos não um, mas dois portáteis excessivamente caros para servirem de pesa papeis.
Não sabia que escrevia o que alma me doía para escurecer os ruídos da vivência diária.
Para afastar a sua voz inquisidora dos meus destinos, os pedidos incessantes de leva-me ao Shopping, ou compra-me isto...Dá-me dinheiro...O Manel quer levar-me ao cinema...Posso?

Acedia a quase tudo, menos ao Manel. Supervisão paternal e um taco de Baseball fazem milagres aos mal comportados. Mas nunca o ameacei. Directamente... 
Apenas olhava para o Bastão...

Era a minha fuga diária... Assustar um pato marreco armado em cisne. Beber um copo e um café. Ouvir poemas de amor, escárnio e mal-dizer.  
Ouvir o amor da minha vida reclamar que já não o é. 
Sentir o desejo das minhas filhas em estar comigo... 
Ver a vida a passar, quando passo a vida com quem quero.

A verdade é que perco não muito mais de meia hora dos meus dias com estas iterações. 
Chego e brinco com as miúdas. 
Acabo e «brinco» com a Ana. 
Fazemos o que podemos para viver bem. E viver Juntos.
Beijamo-nos.

Escrevendo num dos pesa-papeis.
Fazendo algumas brincadeiras com a minha Royal. 

Já vou para o terceiro livro... 
Mais um não «best-seller»... 
Apenas «seller». 
Querem convencer-me a ser mais comercial. Querem mas não conseguem. 
Amo demais ser eu. 
Porque é desse eu que vem a Ana e as miúdas. A Royal. O cimbalino numa mão, o brandy noutra. Os poemas que oiço. As palavras que me caem dos dedos...

Os passos que dou na rua Cor-de-Rosa.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Copo do dia - Arco-íris no Retrovisor

No retrovisor vi um arco-íris do qual fugia,
Por entre as gotas de chuva que me passavam ao lado.

lembrei-me de nós.

Feitos de mil tijolos em mil cores feitas 7, deixados no horizonte.
Cada uma dessas, uma história que perdemos.
Um nome que foi correndo sem fim.
Cada cor perdida  para sermos quem gostamos.

Acabo assim por ser um arco cheio de cores,
num céu escuro de chuva por cair.
Frente a um outro arco com cores diferentes, 
partilhando o mesmo espaço.

Acho que vamos trocando cores antigas, 
ajustando e arrumando assuntos antigos.
Tornando-as alicerces invisíveis, lavados pela chuva,
Quando antes foram lavados por lágrimas ou o vento de quem corre.

Somos dois arco-íris,
Dois arcos num céu. 

Ou...
Se calhar somos apenas dois meios-arcos a encaixar o momento.

Copo do dia - Num copo de papel

Tínhamos o hábito estranho de beber o café num copo de papel. Mais por conveniência do que por gosto. Aliás mais por preguiça, dado que nem sequer chávenas tínhamos comprado.  

No chão do quarto jazia um colchão, morto pelo uso extremo. Pelo movimento contínuo do rebolar dormido, mas não pelo sexo selvagem que todos os colchões almejam evitar. 
Percorria esse quarto, embora por mão nossa, uma cadeira simples. De dobrar. Que fazia as vezes de bengaleiro, cómoda e mesa-de-cabeceira, para uma cama que ainda havia de chegar.

Mas bastava.

Pela sala, descansava um sofá, felpudo, gasto pelo excesso de uso, cuja única ambição era sentir, mais um dia que fosse, um traseiro bem torneado...

Para gáudio da cadeira que vivia nas suas iterações no quarto, só metade dos traseiros que sentavam no triste sofá configuravam esse desejo. 
Para agravar a desigualdade, na cadeira, ninguém se sentava. 
Talvez por isso se sentisse melhor, diferente, mais importante do que mero assento.

A televisão, que era apanágio das casas normais, era assento para livros, tendo em conta a sua antiguidade e dimensão... Isso e o facto de se ter avariado no segundo dia da nossa vivência juntos.
De imagens em movimento restavam apenas o reflexo dos nossos, que por vezes pareciam ser dignos de um daqueles filmes que passavam nos cinemas desaparecidos da Baixa e dos Restauradores. 
Tornou-se uma mera espectadora do espectáculo. 
Mas já não o seria por muito mais. 
Duraria o tempo necessário a que a casa se compusesse num reflexo da ideia que tínhamos. 

Quando tal aconteceu, a casa que mudara, para nosso contento, já não era a casa que queríamos ter. 

Já tínhamos cama, com colchão novo! 
O velho foi dado ou reciclado. 
A cadeira com múltipla personalidade tornou-se apenas um bibelot esquecido numa arrecadação. 
O sofá, triste e felpudo,  foi refeito e reformado. Agora é de uma bela pele negra, confortável, com todas as molas inteiras. 
Mas faltando algo... 
A televisão, essa, foi substituída por um magnífico ecrã panorâmico que faz tudo e até pipocas... 
Até já tínhamos chávenas e máquina para café...

E no entanto, sentados neste sofá, com estes «novos» móveis, todos eles já desgastados por três filhas, 2 gatos e o ocasional peixinho dourado ou hamster, lembrámos com o carinho de quem sabe o que tem valor, o desconforto que os outros pedaços de madeira, tecido e metal representavam e o amor que por eles tínhamos.
Eramos felizes com um pequeno mundo.

Agora somos felizes, sempre a correr para um mundo que muda todos os dias. 
Sempre à procura de outro sofá, outra televisão ou maquineta, que preencha o vazio...
O vazio que existe quando as nossas três filhas, 7 netos, 2 genros e meio (que um deles ainda não se declarou, mas falta pouco) não estão na casa. 

Se calhar por isso relembro o tempo em éramos só dois, um sofá, uma cama e uma cadeira.
Só dois a caminho de cinco. 
Agora somos quinze, quase dezasseis.
Há sempre mais um a surgir...

Dei-me conta, enquanto olho para ti como se fosse o primeiro dia, que cedemos o desconforto de um passado, para criar um futuro maior do que tínhamos.
Só ainda não o sabíamos.