terça-feira, 2 de junho de 2015

Copo do Dia - O mínimo denominador comum.

Sempre achei que ao mudar de país, como fiz tantas vezes, a base das amizades que se constroem acaba por ser muito ténue. Partilhar um espaço, um gosto particular, uma comida preferida, uma mulher imaginada ou mesmo, uma língua.

O que nos torna comuns aos outros une-nos.
Por isso sempre fiquei perplexo com a minha amizade com ela. Nunca nada nos uniu. Nunca nada foi um denominador mínimo com ela. Mas ele existia.
Confesso até ao momento em que nos separamos ao fim de dez anos de uma união sem razão, que nunca tinha pensado nisso.
Parece ser uma daquelas situações que o ser humano decide algo com base numa boa sensação, mesmo que do outro lado insistam em atropelar os sentimentos… Se calhar como eu fiz tantas vezes a mim, mas nunca aos outros.
Comecei a pensar que o que tínhamos em comum era esta vontade de ignorar o que sentimos em detrimento do que queremos sentir.
Fomos apenas amigos sem razão para o ser. Partilhamos tudo e mais alguma coisa, porque éramos estranhos um ao outro. Julgamos tudo e todos pela nossa bitola, que não era nossa, nem julgamento.
Separámo-nos, mas nunca estivemos juntos, éramos estranhos unidos pela mesma língua, pela mesma terra e pela mesma vontade.
Voltei a casar anos depois, feliz com alguém com quem partilhava a vida, com um rebanho de filhos, com uma casa longe e um coração perto. Ainda assim nunca esqueci esse mistério que para mim era estar unido ao desconhecido.
Não tive possibilidade de fazer reviver essa relação, nem de a perceber. A morte, o único elemento comum, apenas não no tempo, chegou-lhe primeiro.
Não sei se na realidade houve alguma alteração no seu estado límbico.  Nem sei se a emoção sentida à sua volta foi de alguma forma alterada pelo seu falecimento.
Decerto, e espero, que sim.
Tenho alguma dificuldade em explicar à Maria, a minha primeira filha, que agora fez 18 anos, as verdadeiras razões pelas quais me separei da Maria, a Minha falecida mulher, pouco tempo antes dela se passar para outra vida.
Ambas as Marias nunca me perdoaram esse momento de franqueza feito de fraqueza.
No único momento em que houve algo comum entre nós, eu fugi.
O fim assusta sempre.
Pior ainda vê-lo na nossa frente…

Custa-me dizer à Maria, que a única coisa que tinha com a Maria, a Mãe, era ela.
Mais ainda porque os nossos caminhos jamais se teriam cruzado não tivesse sido uma noite, num qualquer jantar em casa de amigos…


Deveria ter terminado tudo no momento em que loiça caiu ao chão e em vez disso começou… 

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