Sempre achei que ao mudar de
país, como fiz tantas vezes, a base das amizades que se constroem acaba por ser
muito ténue. Partilhar um espaço, um gosto particular, uma comida preferida,
uma mulher imaginada ou mesmo, uma língua.
O que nos torna comuns aos outros
une-nos.
Por isso sempre fiquei perplexo
com a minha amizade com ela. Nunca nada nos uniu. Nunca nada foi um denominador
mínimo com ela. Mas ele existia.
Confesso até ao momento em que
nos separamos ao fim de dez anos de uma união sem razão, que nunca tinha
pensado nisso.
Parece ser uma daquelas situações
que o ser humano decide algo com base numa boa sensação, mesmo que do outro
lado insistam em atropelar os sentimentos… Se calhar como eu fiz tantas vezes a
mim, mas nunca aos outros.
Comecei a pensar que o que tínhamos
em comum era esta vontade de ignorar o que sentimos em detrimento do que
queremos sentir.
Fomos apenas amigos sem razão
para o ser. Partilhamos tudo e mais alguma coisa, porque éramos estranhos um ao
outro. Julgamos tudo e todos pela nossa bitola, que não era nossa, nem
julgamento.
Separámo-nos, mas nunca estivemos
juntos, éramos estranhos unidos pela mesma língua, pela mesma terra e pela
mesma vontade.
Voltei a casar anos depois, feliz
com alguém com quem partilhava a vida, com um rebanho de filhos, com uma casa
longe e um coração perto. Ainda assim nunca esqueci esse mistério que para mim
era estar unido ao desconhecido.
Não tive possibilidade de fazer
reviver essa relação, nem de a perceber. A morte, o único elemento comum,
apenas não no tempo, chegou-lhe primeiro.
Não sei se na realidade houve alguma
alteração no seu estado límbico. Nem sei
se a emoção sentida à sua volta foi de alguma forma alterada pelo seu
falecimento.
Decerto, e espero, que sim.
Tenho alguma dificuldade em
explicar à Maria, a minha primeira filha, que agora fez 18 anos, as verdadeiras
razões pelas quais me separei da Maria, a Minha falecida mulher, pouco tempo
antes dela se passar para outra vida.
Ambas as Marias nunca me
perdoaram esse momento de franqueza feito de fraqueza.
No único momento em que houve algo
comum entre nós, eu fugi.
O fim assusta sempre.
Pior ainda vê-lo na nossa frente…
Custa-me dizer à Maria, que a única
coisa que tinha com a Maria, a Mãe, era ela.
Mais ainda porque os nossos
caminhos jamais se teriam cruzado não tivesse sido uma noite, num qualquer
jantar em casa de amigos…
Deveria ter terminado tudo no
momento em que loiça caiu ao chão e em vez disso começou…
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