domingo, 27 de setembro de 2015

Copo do Dia - Os fundamentos da beleza moderna ou Como pudeste comprar esse carro

É sabido que num qualquer casal há sempre a mesma discussão de novo rico. 
O homem gosta do novo Mercedes. 
A mulher, da elegância do novo BMW. 
Contentam-se em comprar o utilitário, que os serve ainda melhor. 
Passa-se o mesmo com casas, mala, mochilas, camisas, calças e todos os outros momentos de consumo puro.
Cervejas, vinhos e, ocasionalmente, preservativos, escapam a estas discussões.

Temos ainda de contemplar ou pomo de discórdia: A questão das cores.

 Azul - diz o Homem.
 Azul marinho ou bebé! Não, Azul cobalto! Oceano...

Não! 
É azul macramé, feito por um miúdo de 5 anos, por acidente, numa aula de metalomecânica na Micronésia do sul,  dada por um professor angolano.

Inverosímil?
Sim

Assim como os 16 milhões de cores que surgiam nos anúncios de monitores de PC… Nunca as vi e muito menos as contei. 
Não me causaram confusão. Imaginava sabe-las ali.

Mas não.  Na realidade de uma discussão em casal, isso não chega. 
Juntemos agora a estas prementes questões de tons, automóveis:
– Já viste! É lindo. Quero comprar um Mercedes. Em prata…
 Em prata, mas somos ricos? (Além disso, naquilo nem cabe a minha mala de mão...)
 A cor. Eram os Flechas de Prata nos anos 30… (E a bagageira é gigante. Cabe lá um corpo.)
– Anos 30? Mas deste em revivalista? (Não cabe. Além disso nem sequer sabes de que mala falo. Nem eu. São tão "poucas"...)
– Então em que cor queres? (Só se for uma do teu tamanho.)
– O BMW? (Estás a chamar-me gorda?)
– O Mercedes? (Não. És o meu esguio amor.).
 Não tínhamos discutido isso em casa? É aquele. (Cama ou Sofá? Escolhe!)
 Olha para isso compro qualquer outro carro. Incluindo aquele feio que nem tu, nem eu gostamos. (Olha que não embarco em ameaças veladas...)
 Já agora em Amarelo... (Nada aqui é velado...Estás a pedi-las)
 Sim... Para culminar o mau gosto. (Mas que queres que te diga...)

Ambos faxem uma birra...  Atéque a cabeça fria de algum diz:

– Agora que já discutimos o que queremos, que tal falarmos do que podemos ter? (desculpas-me? Passemos à frente?)



Entretanto, hoje vi um carro horrível, novo! 
Em amarelo… 
Parece-me que será de pessoa solteira.
(há gente com um gostinho...)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Copo do Dia - Prazer de escrever

Há um prazer indescritível em escrever com pena e papel.  
Ou melhor, é descritível. 
É descrito no próprio acto. Embora agora a única caneta que toco é aquela que escreve com a imaginação, imagino-a a borrar um pouco a página deixando-me algo desagradado pelo imprevisto.
Por outro lado, esse borrão obriga-me a reescrever noutra página imaginária, se calhar, o que sempre quis. 
A caneta que escreve fá-lo sem pretensão, sendo apenas instrumento de génios (e outros não...). Mas apenas o pretensioso acha que as palavras lhe pertencem, que as domina e que o pulso delas, é o seu. Esta pessoa não escreve. Demonstra, no papel, o seu ser. 

Escrever não é isso. (Ou também é?). 

Seja pelo facto ou pelo imaginado, tudo o que se passa no bico de uma esferográfica ou no aparo de uma caneta, é a visão de um mundo que temos atrás dos nossos olhos. Esse mundo deve ser dado a conhecer, não imposto. Deve ser uma dádiva, tanto para quem dá, como para quem recebe. E pelo qual não devemos esperar o elogio.

Os bons escritores escrevem para tocar pessoas. Seja pelas histórias ou pelo que despertam. Não para imporem regras ou um rumo, mas para, pela imaginação, as tocar. E assim, sem pudor, somos o que fazemos: 
Pessoas.

Há quem escreva mundos e espere estátuas. Há quem escreva para o mundo e espere um sorriso.

Conheci muitos escritores, direi mesmo autores, na minha curta estadia. Li-os. Mas também falei com eles. Em todos os verdadeiros escritores, havia a preocupação de contar uma história, não para um futuro, mas para um passado. Se almejavam algum reconhecimento? Sim, um pouco! 
Riqueza? Só de espírito! 
Escrever com alma? Todos os dias.
Invejam muitas vezes os técnicos da escrita. Aqueles que faziam páginas imensas de texto, muitas vezes apenas para denegrir ou, nem sequer isso, apenas para fazer palha para ser adquirida.
Não invejavam a produtividade. 
Invejavam a vida mais fácil. 
Uma vida sem a constante tortura de contar os tostões ou os minutos até os miúdos voltarem da escola. 

Não invejam as páginas cheias de tinta. 
Apenas o tempo. 
Nem sequer o dinheiro, porque tal não era importante... 
Essa tortura de alma, pela inveja mais inocente que concebo, era o âmago da sua honestidade intelectual. 
Sabiam que cada folha, repositório final da vida de um qualquer pinheiro ou eucalipto, merece mais do que palavras saídas em raiva ou código de máquina de escrever com coração empedernido, à procura da trama mais complexa para perder o rumo de quem compra, mas não sente. 

Os autores querem que quem os lê, sinta. 
Porque só isso lhes dá sentido. 

Porque há um sacrifício no acto de escrever e cada letra é uma vida que se perdeu num manto branco. 


Escrever... É um privilégio.