segunda-feira, 3 de junho de 2024

A lenta agonia da incerteza.

 - “A lenta agonia da incerteza” é o seu novo livro. Lançado há uma semana. É um livro sobre a vida e o amor, estou correta?

- Não é bem. É um livro sobre a agonia da incerteza, sobre o imponderável. Sobre a verdade que não dizemos, mas queremos dizer.

Sobre o amor que sentimos e escondemos do outro esperando que o outro saiba…E que sabendo, o sinta…E não o sentido, que nos deixe o amor que temos.

- Amores platónicos?

- Nem por isso. São amores correspondidos na medida exacta em que o seu limiar não é ultrapassado para ser liberto de todas as restrições. Daí a agonia ser lenta.

- Mas isso implica que este livro é na realidade sobre o amor medido e contido?

- Sim, de facto. Amor contido. Maturado pelo tempo. Aguardando uma oportunidade de sair e dizer “Eu estou aqui!”, como Pedro Abrunhosa canta...

- Mas também é uma história de amores perdidos…

- Sim! De todos os amores perdidos e por perder. De todos os beijos não dados. De todos os olhares no vazio. De todas as noites em claro. De todas os momentos em dor. De todos os abandonos. De todos os sorrisos. De todos os toques. Do arrepiar da pele. Do sexo e do amor carnal. E do amor que se sente no coração e se perde nas mãos.

É sobre uma existência marcada pelo momento decisivo em que se descobre que nunca se soube o que era ser amor. Porque sim, somos amor. Também amamos e somos amados. Mas somos amor. Assim como somos luz e escuridão.

Somos passado e futuro. E somos, simplesmente.

O livro é tudo isso.

- Baseia-se nas suas experiências de vida?

- Também. Posso escrever sobre um sítio com a paixão de um local, sem nunca lá ter estado. Mas não se pode escrever sobre amar, sem se ter amado. Nem sobre perda, sem se ter perdido.

- Assim como não se pode escrever sem ter ganho?

- Exacto. Mas o que é ganhar? É amar por uns minutos o beijo dado na inocência do momento?

O início do tempo que contem o seu fim?

A esperança, não de que o tempo passe, mas de que tu entendas que sempre estive aqui, desde que te conheci, à espera de que me visses com o mesmo olhar?

Que me desejasses com o mesmo desejo. Com a mesma fome de existir que tenho ao pé de ti?

- Denoto na sua resposta, uma pessoalização do sentimento?

- Seria de outra forma? Até as páginas deste livro serão mais amadas do que me senti alguma vez por ti!!!!

- Acho melhor terminar esta entrevista… Depois resumo-a para o jornal. Tenho algumas citações que posso…

- Podes usar,  para fugir de novo. Como tens feito há anos. Desde que te conheço.

- Já te disse que não. Não pode ser. Estou casada. Tenho uma criança. Não me vou envolver contigo.

- Estás casada? Não és casada? Que estranha sensação tenho… Como se o momento transitório desse compromisso tivesse sido abandonado pelo tempo. Transformado numa incerteza.

- Não… Não posso.  Não… Não quero…. Quero…

- Não podes, nem queres. Mas queres? Claro que queres. Ofereço-te tudo o que o teu corpo deseja e a tua alma anseia. Sou o teu céu e inferno. Sou a vida disposta perante ti e o corpo que se atira a proteger-te.

- Não te quero…Não te quero…

Afastas-te de mim, correndo, distanciando-te de mim depois de um beijo profundo e lânguido que me diz que me amas… Sem que as palavras sejam proferidas e que me deixa na lenta agonia da incerteza, aguardando novo beijo e nova corrida.

Não te posso ver. Não posso estar contigo! –  Gritas distante ao abraçares-me.

Tu és insuportável. Não te quero. Não te quero.

Beijas-me novamente.

Confesso-me confuso com tudo isto. Sou e não sou…

 

O sol entra pela frincha do estore e da janela.

Vejo o teu perfil por entre olhos entreabertos.

Beijo o teu ombro com a delicadeza do toque que arrepia.

Acordo devagar… toco o teu corpo com o meu.

Apercebo-me do sonho e do pesadelo.

Vejo agora o teu perfil desenhado pelo infortúnio da almofada.

O beijo dado não surte efeito, por ter sido no lençol enganador.

Levanto-me para me constatar sozinho novamente.

Não partiste sem me avisar…simplesmente não havias chegado.

Era um sonho.

Foi um sonho.

Nunca te cheguei a dizer-te que te amo…

E de todas as vezes em que não o disse, perdi-te um pouco mais.

Agora sim… a lenta agonia da incerteza… A lenta agonia da certeza.

Da vida.

Da distância.

Do que já não podes ser para mim.

 

Acordo em sobressalto!

Estás ao meu lado.

Sonhei dentro do sonho, dentro do pesadelo de não estares.

Abraço-te e acordo-te.

Aperto-te para não fugires.

Perguntas-me que se passa…

Digo-te que te quero e que te amo.

Que respiro melhor quando estou contigo.

 

Levantas-te, seminua.

Está calor demais para estares de pijama.

Dizes-me, jocosa:

- O anti-histamínico funciona. És um teimoso.

Debruças-te sobre a minha boca e deixas-me o mais doce  “...amo-te” …

Fecho os olhos deliciando-me…

 

Acordo novamente, sem ti na cama. Entras no quarto e dizes-me:

- Podes parar de sonhar comigo… Vamos viver os dois?  Estou com ciúmes da mulher sonhada que sou para ti!

terça-feira, 14 de maio de 2024

Cores

Nuvens de algodão branco ladeadas por cinzas de chuva,

Violetas pelo chão até ao palácio branco.

Estátuas alaranjadas pela ferrugem do tempo,

Pela humidade que faz crescer a erva verde por entre pedras pretas e brancas.

A estrada negra, os carros invariavelmente cinzentos,

O meu humor negro, perecido com uma disposição ela própria escura.

A pele rosada em cima do teclado creme, ao lado do candeeiro com todas as cores e nenhuma.

A mesa cor de madeira, como se madeira fosse cor e a mesa não fosse uma árvore fingida.

Os sapatos castanhos, a sola gasta.

A camisa mais celeste que o céu e o olhar que veríamos com todas as cores que quisesses.

Sim, não estou muito optimista hoje.

Não posso estar.

Não tenho o teu olhar.

E também não o quero.

Já não tenho o teu abraço.

E também não o quero.

Já não tenho o teu corpo…

E também não o quero.


Não quero nada do passado que foi.

Nem a saudade que já não me pertence…

És uma memória que me enche.

E que por comparação me faz parecer vazio...

Mas não estou!


Procuro, encontro e perco as vidas todas, procurando uma que se queira juntar.

Uma que me traga tristeza pela sua ausência e esperança pelo seu regresso.

O desejo de um acordar e de um deitar.

De não largar os lençóis que se tornam abraços,

E braços que envolvem um olhar.


De que cor é a esperança?

Terá todas as cores?

Terá a cor de olhos que trouxeres contigo?

Até os lábios têm cores diferentes,

Sabores diferentes, como se estivessem de alguma forma perfumados com os frutos mais vermelhos.

Ou mais ácidos.

Ou doces…

Ou nada.

A esperança tem a cor de um sorriso.

Quando esse sorriso não é dor escondida.

Procura de uma refeição que acalente…

De tudo o que aqueça, até o Sol, que é laranja no fim do dia e amarelo no seu nascer.


Cores, tantas cores…

E agora resta o café, cor de café, medianamente torrado pelo tempo…

Castanho, negro, amargo,  

Ou mesmo doce vindo das terras de sul.

Ou mesmo deslavado pela cor da água que o faz.


Haverá um que se queira deixar na chávena que todos os dias tomo,

para ter a energia para ver a cores?

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Óh Evaristo, a ponte está no sítio errado.

Ontem passei por uma garrafa de vinho, cujo rótulo interessante, satiricamente desenhado, colocava Santa Engrácia, ou seja, o Panteão Nacional e a Ponte 25 de Abril, na mesma imagem, olhando para Este.

Uma liberdade artística para turista ver. Ou para alguém que não vive em Lisboa. Ou não conhece os locais, o que é completamente verosímil.

Muito de nós nem se conhecem, quanto mais a uma cidade onde só habitam.

A delícia do desconhecimento é a descoberta. E há quem passe pela vida agredindo quem quer descobrir. 

Há quem distribua crueldade ou indiferença, que podem ser a mesma coisa, dependendo do contexto, como se fosse o simples acto de existir.

Há quem exista, sem querer mais do que ter o sossego de 2 minutos sentado sem ruído de fundo, sozinho nos seus pensamentos à espera de que lhe ocorra a resposta que a indiferença merece.

 Há quem olhe para essa indiferença e pense como chegámos aqui? Que aconteceu para que isto fosse assim?

Quem sou eu para tanto empenho? Sim, é preciso empenho para ser-se indiferente. Não há esforço mais inglório do que fingir ser indiferente. Até porque anunciar essa indiferença é denunciar esforço. 

Confesso que me chateia.

Mas há-de ser realmente indiferente. Sem esforço. Sem pensar nisso. Sem precisar de fazer pose. De fazer o que for... Será respirar, sem sequer ser fundo.

Ser indiferente requer um esforço indiferente. 

Viver em Lisboa, requer esforço. Assim como viver em qualquer outro lugar.

Requer o olhar atento para a riqueza que se esconde. E para ser indiferente à degradação humana. 

Aos que não têm tecto, que nos incomodam, tanto como nós lhes somos indiferentes.

Fingimos nós ser o que eles sentem sermos para eles. Excepto quando qualquer um de nós precisa do outro.

E nós precisamos do outro, sempre. Essa necessidade contacto humano, universal. De um olhar. De uma atenção.

De um cravo na lapela. De uma liberdade que não reconhecemos. De um protesto que podemos fazer. De um voto desperdiçado nos que furam e afundam nau livre.

Já passei pelo vinho, pelo amor e indiferença, pela cidade atrapalhada...

Sim passei pelo amor, como se ele me visse? Não deste conta?

Foi delicioso. Foi um acto de abrir a garrafa e cheirar um vinho, bom e mau.  Um vinho que partilhava contigo, a quem sou indiferente. 

Mas não me sou indiferente e na realidade é isso que é real.


quarta-feira, 17 de abril de 2024

Entre a piada cósmica e o buraco no tempo

Ouvi há muito de uma pessoa que passou de raspão pela vida, que conhecer-me naquele momento tinha sido uma piada cósmica. Sim, tinha... Para ela!

O Cosmos costuma presentear quem tudo deseja, com alguma coisa e quem pouco quer, sendo muito, com pouca ou nenhuma.

Queixava ela de ter escolha. De poder escolher o seu rumo. E eu escolhi por ela não fazer parte dessa escolha.

Não se chama autopreservação. Chama-se inteligência. O nosso tempo só deve ser jogado no casino da vida, se nós assim escolhermos.

Não é difícil fazer escolhas. Tomar decisões, quando o que está em jogo são meras horas de vida. Não há empenho e não há custo...

Certo...

Não há custo...

O custo de uma esperança que surge e acaba, correndo o risco de se desfazer no momento em que tomamos consciência disso. 

Ter esperança...

Na "Eneida" a determinada altura é dito que última esperança dos condenados é não terem esperança. E quando não se tem esperança apenas resta lutar.

A questão é que não estou condenado. Nem perdi a esperança. Estou apenas num buraco no tempo, onde tudo e nada acontece. 

Preso entre dois momentos, entre passado e futuro. Preso no instante imediatamente antes e no imediatamente depois. Impedido de seguir para onde quero e de regressar a onde estive.

Este purgatório temporal, prisão dourada, na realidade não custa nada, dado que não tem tempo para passar.

E não é estático, pois movimenta-se, avançando e recuando o tempo conforme o momento de alma.

E de longe não sendo parecido com estagnação, não é mais do que o momento que se repete, sem esperança de mudar, mantendo a vida que passa, que não pára de se mutar.

Haja humor cósmico...

 

 

 


quarta-feira, 10 de abril de 2024

Hoje, estou a selar um envelope.

Hoje, estou a selar um envelope.

A fechar uma vida entre duas folhas de papel.

A deixar que a memória fique entalada entre as boas intenções e o amor que já não está ali.

Gostava, queria, almejava, desejava que tudo tivesse sido diferente. Mas fomos dois diferentes que acabaram por deixar de estar na mesma página.

Tudo agora são as contas que a vida fez.

As noites que estão sozinhas, porque nelas já não durmo.

Os dias que se sentem abandonados, porque passo por eles, como se não estivessem lá.

Hoje, parece-me, sinto o coração pesado. O Ar carregado. Nem o ânimo do sol me deixa feliz.

Ainda aprecio a beleza. Amo a luz. Desejo mostrar ao mundo essa alegria. Mas hoje, até sair de uma casa que não sinto minha, custou-me.

Imagino um dia, amanhã, que esta tristeza opaca, que vou escondendo de vez em quando deixa de ser um peso, para ser uma lembrança.

Quero um dia próximo sentir Sol e dizer que me lembro de o gozarmos. De o sentirmos. De que a memória estava limpa da mágoa que não está aqui comigo.

Não tenho vida para tê-la. Tenho vida para refazer.

Para reerguer… Não para esse sentimento que arrasta o humor.

Não quer dizer que o meu direito absoluto de me sentir triste, não deva ser usado quando óbvio. Apenas quer dizer que o direito não faz com seja o caminho.

E gostava de ver se o caminho terá destino.

Mas não.

Não sei para onde vai.

E se não for, não saberei para onde foi. 


Nessa altura a única tristeza que terei, pela noite ausente e pelo dia esquecido, será da vida que deixei, sem respirar.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Segunda-Feira

 Hoje é segunda-feira, sem ter havido a primeira-feira.

Sem ter havido um passado que lhe desse intuito de ser segunda. Apenas é um estado de espírito.

Eternamente segunda, eternamente segundo. Eternamente entalado entre o descanso e o trabalho.

Entre o copo de vinho e a água sensaborona. Entre o doce olhar e a ausência.

A segunda-feira. Maldita segunda que é primeira de alguns dias. Que é o dia em que o meu corpo resiste ao sacrifício de se levantar do chão. Que mantem acordado com o impulso do café matinal.

O dia em que finalmente a manhã clara e limpa se começa a tornar a realidade pós-revolução…

Porque todos os dias após uma revolução são terças-feiras.

Porque todos os lamentos são quartas-feiras.

As quintas-feiras são a revolta que nos deixa o espírito.

As Sextas-feiras são um misto de resiliência brutal ao abismo e um abraço doce que nos envolve.

O sábado é sagrado… Em que a cama nos acolhe um pouco mais e o dia torna-se mais longo do que alguma vez foi e todos os outros.

O Domingo é um símbolo da resiliência. Da fé de que a Segunda-feira, afinal a primeira de todas é apenas mais um dia, em que espero por ti.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

A anos-luz e a segundos depois

Há demasiados dias que passam sem que a noite chegue acompanhada.

Este isolamento precário, deve-se mais ao temor da companhia do que à sua ausência.

A realidade é que sinto que muitos dos meus anos foram mentiras bem acabadas. Primorosamente envernizados... depois de serem lixados, com um grau de lixa a cada momento mais apurado.

É muito fácil olhar para trás, pensar que merecia mais. Que a vida me fora ingrata. E, no entanto, apenas e só, os sorrisos que surgiam na face eram mentiras piedosas futuras, ou verdades imediatas.

Do alto dos meus 150 anos de vida e morte, passados entre várias guerras pessoais e intransmissíveis e aquelas que todos lutamos de forma heroica, olho para o dia de amanhã, momento em que o meu último filho chega à maioridade. 

Será a hora em que irei compartilhar com ele a maior sabedoria que tenho em mim e que aprendi a custo aos 50 anos.

Em todos os momentos da minha vida até fazer 38 anos, julgava que o que tinha valorizava a pessoa que era.

Uma casa, um carro, um bom fato, um bom emprego...

Aos 38 anos, comecei a aprender que nada disso era relevante. Que construir esse legado de coisas, sendo importante não era tanto quanto construir o legado de palavras e de amor próprio.

Aos 50 anos, sozinho à noite, revejo a vida e não lamento o que fiz ou deixei de fazer. Não lamento as relações tóxicas da minha vida e não deixo que a raiva que tinha, faça parte da minha vida.

Não deixei de a sentir, apenas não a deixo crescer. Aceitei os meus erros e os erros dos outros. E ao fazê-lo ganhei uma vida interna que se assegurou do meu futuro.

Fiz sempre o que julguei correto. E sobretudo o que achei justo. Mas também entendo que quem estava do outro lado não o achou, eventualmente.

Era um tonto. a ponto de ser justo, mesmo contra mim.

Insano, agora penso.

Mas a minha sanidade dependia disso.

Era essencial ser o mais justo dos homens que coabitava o meu espaço. Só assim, a luta e a derrota tremenda infligida seriam suportáveis.

Um século de vida passou. Já nem partilho o mesmo planeta onde lês estas palavras. Estou longe demais para um copo e perto demais para um beijo ou um carinho.

Estou a anos-luz da vida que tinha e a segundos-luz da que tenho pela frente. Deixo-me levar pelos ventos solares, que me afastam desse passado, que me levam pelos obstáculos que existem entre esta Terra e Marte, Neptuno e o limite do nosso universo desconhecido.

Fico à espera de encontrar a vida extraterrestre que olhe para o meu passado e simplesmente profira: “Entendo!!!” em vez de "Há muitos assuntos por encerrar"…

Sim… há. 

Todos os assuntos estão por encerrar. 

Ainda estou vivo. 

Ainda vou cometer todos os doces erros, sofrer e magoar, ser feliz e comer uma nata! Beber um copo de bom vinho e outro de água. 

Ou um mau e muitos copos de água.

Ou simplesmente tocar o céu, com um gelado de pistácio, “veramente italiano”.

Agora inspiro apenas ar reutilizado por tantos outros seres… 

O que não difere nada do ar que na Terra respirei.

Naquele ano, respirei menos, mas respirei ar usado. Todo ele!  

Usado por todos os seres. Lavado e passado a ferro pela fotossíntese, abusado pelos corredores de obstáculos. Poluído pelos movimentos pendulares de almas à procura de satisfação material.

Em busca da ilusão de ar puro e limpo como a manhã seguinte, depois da ditadura que morreu ainda não nascera e renascia de soslaio quando pensava nesses 50 anos.

A vida é um conjunto de problemas. Respirar é um problema. Até para isso é preciso ajuda, de vez em quando.

E depois há os outros problemas, alguns doces e alguns picantes. Todos um veneno que tomamos de bom grado.

Nada disto é simples. Tudo isto é pó das estrelas e pós-vida da matéria negra que nos segura no firmamento.

E amanhã será o mesmo ar… Na mesma cama. A anos-luz e a segundos depois.


segunda-feira, 1 de abril de 2024

O sorriso que nunca o foi

Não sorrias, quando te vi pela primeira vez.

Sei que o imaginei.

Foi ilusão contínua, durante anos.

Sentia-o ali, ao tocar de lábios.

Mas os meus olhos, cegos pela ilusão, viam o que não estava.

Chamei-lhe várias coisas.

Vários nomes.

Dei-lhe vários corpos.

Afinal o teu sorria, ao ver-me,

como o meu sentia e respondia.

Afinal o sorriso nunca o fora.

A ilusão real.

A decepção completa.

O sorriso era a pena e  o reflexo do que queria ver  em ti,

Mas que tu não sabias sequer o que era.

Não querias saber.

Vivias a tua vida comigo,

Com a tolerância de quem não quer estar.

Beijavas com a passividade de quem finge,

Deste-me o teu corpo como cedência a uma invasão.

E depois, depois…

Nada era…

Nem aqui, nem na Lua,

Que por tua passava.

Cansada de fingir um dia,

Fugiste vários sóis depois.

E eu fiquei à espera do sorriso.

Daquele que, mesmo fingido,

Me aconchega nas noites frias.

Descobri depois,

Tão depois que nem o teu nome era meu.

Que nem os teus olhos, me viam.

Nem o teu toque existia,

 Como memória falsa,

 criada pela mente para preencher o vazio.

Sempre foste assim,

Sempre partiste assim.

Porque me não me podias dar o que eu queria,

Ou não te dava o que querias,

Pois fui quem te levantou,

E quem te atirou ao chão.

Sou o culpado do mundo, de todos os mundos e nosso também.

Acabo a pensar, sem pena minha,

Se serei demasiado para todos os sorrisos que passam por mim.

Ou simplesmente, os sorrisos que passaram por aqui,

Não se viam ao espelho?