Há demasiados dias que passam sem que a noite chegue acompanhada.
Este isolamento precário, deve-se mais ao temor da companhia do que à sua ausência.
A realidade é que sinto que muitos dos meus anos foram mentiras bem acabadas. Primorosamente envernizados... depois de serem lixados, com um grau de lixa a cada momento mais apurado.
É muito fácil olhar para trás, pensar que merecia mais. Que a vida me fora ingrata. E, no entanto, apenas e só, os sorrisos que surgiam na face eram mentiras piedosas futuras, ou verdades imediatas.
Do alto dos meus 150 anos de vida e morte, passados entre várias guerras pessoais e intransmissíveis e aquelas que todos lutamos de forma heroica, olho para o dia de amanhã, momento em que o meu último filho chega à maioridade.
Será a hora em que irei compartilhar com ele a maior sabedoria que tenho em mim e que aprendi a custo aos 50 anos.
Em todos os momentos da minha vida até fazer 38 anos, julgava que o que tinha valorizava a pessoa que era.
Uma casa, um carro, um bom fato, um bom emprego...
Aos 38 anos, comecei a aprender que nada disso era relevante. Que construir esse legado de coisas, sendo importante não era tanto quanto construir o legado de palavras e de amor próprio.
Aos 50 anos, sozinho à noite, revejo a vida e não lamento o que fiz ou deixei de fazer. Não lamento as relações tóxicas da minha vida e não deixo que a raiva que tinha, faça parte da minha vida.
Não deixei de a sentir, apenas não a deixo crescer. Aceitei os meus erros e os erros dos outros. E ao fazê-lo ganhei uma vida interna que se assegurou do meu futuro.
Fiz sempre o que julguei correto. E sobretudo o que achei justo. Mas também entendo que quem estava do outro lado não o achou, eventualmente.
Era um tonto. a ponto de ser justo, mesmo contra mim.
Insano, agora penso.
Mas a minha sanidade dependia disso.
Era essencial ser o mais justo dos homens que coabitava o meu espaço. Só assim, a luta e a derrota tremenda infligida seriam suportáveis.
Um século de vida passou. Já nem partilho o mesmo planeta onde lês estas palavras. Estou longe demais para um copo e perto demais para um beijo ou um carinho.
Estou a anos-luz da vida que tinha e a segundos-luz da que tenho pela frente. Deixo-me levar pelos ventos solares, que me afastam desse passado, que me levam pelos obstáculos que existem entre esta Terra e Marte, Neptuno e o limite do nosso universo desconhecido.
Fico à espera de encontrar a vida extraterrestre que olhe para o meu passado e simplesmente profira: “Entendo!!!” em vez de "Há muitos assuntos por encerrar"…
Sim… há.
Todos os assuntos estão por encerrar.
Ainda estou vivo.
Ainda vou cometer todos os doces erros, sofrer e magoar, ser feliz e comer uma nata! Beber um copo de bom vinho e outro de água.
Ou um mau e muitos copos de água.
Ou simplesmente tocar o céu, com um gelado de pistácio, “veramente italiano”.
Agora inspiro apenas ar reutilizado por tantos outros seres…
O que não difere nada do ar que na Terra respirei.
Naquele ano, respirei menos, mas respirei ar usado. Todo ele!
Usado por todos os seres. Lavado e passado a ferro pela fotossíntese, abusado pelos corredores de obstáculos. Poluído pelos movimentos pendulares de almas à procura de satisfação material.
Em busca da ilusão de ar puro e limpo como a manhã seguinte, depois da ditadura que morreu ainda não nascera e renascia de soslaio quando pensava nesses 50 anos.
A vida é um conjunto de problemas. Respirar é um problema. Até para isso é preciso ajuda, de vez em quando.
E depois há os outros problemas, alguns doces e alguns picantes. Todos um veneno que tomamos de bom grado.
Nada disto é simples. Tudo isto é pó das estrelas e pós-vida da matéria negra que nos segura no firmamento.
E amanhã será o mesmo ar… Na mesma cama. A anos-luz e a segundos depois.
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