quinta-feira, 23 de abril de 2015

Copo do dia - "O Continente Desconhecido - Parte 2"

Hás uns dias, perguntando pela família desconhecida, o meu pai começou uma longa viagem até aos seus avós. Essa viagem longa tinha um motivo. Já raros eram, os momentos de lucidez e menores ainda os momentos em que a memória me traziam até ele.

Na maior parte do tempo eu era um desconhecido afável, em vez do herdeiro genético da maleita que o afectava. Mas isso não era coisa que me preocupasse para já. Queria-o lembrado da sua vida cheia. 
Tinha metade da sua idade. Mais três filhas que ele. Mais possibilidade de lhe prover um vida sem preocupação, fosse no seu tempo perdido, fosse no tempo em que vivemos.

Lamentava ouvir repetidas as histórias do sorriso de granito vezes sem conta. Mas lamentava ainda mais não as ouvir nos momentos em que o olhar cheio, se tornava perdido pela doença.

Era um neto a falar com um filho, sobre uma ideia de uma pessoa que existira noutra vida antes de, ou quase,  qualquer um de nós. Numa das visitas mais lúcidas, lembrou-se do casamento. Não do meu, mas do seu. Com a minha primeira mãe. Ou melhor a minha madrasta número 1. Contou-me essa memória, como se eu não a conhecesse. Era a primeira mãe que tinha, tendo a minha desaparecido na depressão e nas drogas legais, até se vaporizar na terra de ninguém de que todos somos feitos. 

Anabela, a minha mãe de coração, não de sangue, acolheu-me como seu, num casamento em que todos estávamos. Tinha eu 8 anos. Criança pura, adulto em plano, sofrido como um velho. 

Como um pai que vê o filho e não se lembra dele.

Foi um dia muito feliz. Para todos. Mas também iria acabar. Algo de que o meu pai não se lembra é das infidelidades. Anabela era fiel. Boa mulher. Excelente mãe.  Mas era mulher que precisava mais do que apenas um homem... ou dois, sendo um deles pequeno. Queria ter aventuras. Viver o risco de uma vida. O meu pai fez por não ver as indiscrições. Fez por ignorar. Acho que por minha causa. Mas Anabela ia esticando a corda... Esticando cada vez mais. Até um dia, em que tudo rebentou. Tinha eu doze anos. Chegava da Escola (naquela altura os miúdos podiam ir sozinhos para a escola. E voltar sozinhos). Vejo Anabela a chorar, com as malas à porta. O meu Pai escondia lágrimas, mas levantava a mão como nos filmes, dedo indicador hirto, marcando o destino selado.

Voltariam a ser amantes, alguns anos depois. Mas jamais unidos na mesma casa.
Perdi-a uma segunda mãe, sendo a primeira. Foi duro...

Tive mais duas madrastas. Estas mais fieis ao meu pai. Mais tudo. Menos mães para mim. Era amigas. Mas não eram o apoio nem a mão disciplinadora. 

Na verdade, uma delas nem amiga. Apenas uma mulher que se queria insinuar em boas famílias. Uma escaladora social. Enganava-se no poder que via. Apesar de um reputado economista, o meu pai insistia em não se ligar demais à política. E tendo influência, tinha por princípio não a usar. Dizia que o verdadeiro poder está naqueles que não o querem usar. Nunca percebi tal coisa. Mas também nunca tive esse poder.

Acabou por ascender na cama de um qualquer poderoso, após mais um divórcio.
Esta não voltaria a ser amante do meu pai. E em boa verdade, tornou-se amante de todos os outros pais, sem nunca chegar ao topo, escorregando sempre mais um degrau...

o meu pai, reformou-se contragosto da Universidade. Da minha Universidade. Ensinar gerações e gerações de almas os princípios da boa governação era um prazer. E uma responsabilidade. E por isso acho que nunca se perdoou ter dado passagem por favor a um tal marmanjo que fora o primeiro ministro a arruinar um país governando pelo uso da literatura económica. Acho que foi aí que o meu pai começou a ter problemas. Sentia-se culpado pelo mundo que ajudara a criar. sem que isso fosse realmente culpa dele. E queria esquecer essa responsabilidade.

Disse-lhe mil vezes que nada disto era previsível. Que um gesto de boa venturança não poderia ser causa de tanto mal. Respondia-me que não há boa acção que não tenha um castigo associado. 

No seu último ano de ensino, visitava-o mais. Quando podia. Preocupava-me. Já me tinha formado. Seguia-lhe as pisadas no ensino. Era Assistente do curso de Gestão. Era um puto de fato. Bem apessoado, mas imberbe e convencido de ter a verdade no bolso. Num desses último dias, entro e sento-me na sala. Era um anfiteatro. Cheio, por sinal.   

Olhei em redor. Na primeira fila, estava uma giraça de cabelo moreno, comprido. Quando falava, ou perguntava, a sua voz era melodiosa, se bem que subia uma oitava de vez em quando. Senti-me puxado para ela, sem lhe ter visto a cara. 
No fim da aula, fui ter com o meu Pai. Sentia-lhe a voz cansada ao longe. queria vê-la ao perto.

Quando cheguei, depois de cautelosamente descer a escadaria, essa morena estava de volta do meu velho. Era uma jovem de rosto ainda limpo. Se tinha rugas, escondia-as com um sorriso. Fiquei cativado naquele momento. Pendurados num limbo facial, ficavam dois lagos verdes, separados por um nariz delicioso.

Apresentou-se. Era Sofia. Era uma nova aquisição para o corpo docente. Ou seria. Ainda não havia sido apresentada. Fiquei espantado. 
Emiti um " Não me parece que pareça ter idade para ser..."
"Pois não nem você"  retorquiu.
Era respondona a menina.

1 ano depois, estava grávida da Catarina. E eu, de braços em redor.

O meu pai lembrou-se desta história, quando lhe lembrava ser seu filho.
Lembrou-se dos netos, antes de se perder, novamente,  na memória do granito feito sorriso.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Copo do dia - "O Continente Desconhecido"

O meu Avô era um fascista democrático. Achava que a Raça Portuguesa era superior, mas que todos os outros mereciam ascender ao nosso patamar... Era uma espécie de ditador iluminado, sem ditadura e mais tarde na vida, apenas dentadura. olhava para o futuro com a desconfiança de que nele tudo seria pior. Era um continente desconhecido que não tinha vontade de explorar, contrariando a boa raça portuguesa.

O meu avô tinha 4 vezes mais anos que eu. E sentia que ele me ia sobreviver, baseando-me na noção de que vaso ruim não quebra. E o homem era mais do que ruim. Faziam inveja aos Beras. Era duro como granito, de palavra pesada como chumbo e língua afiada não como sabre, mas como mulher coscuvilheira.

No tempo dele, que curiosamente ainda era o mesmo tempo que o meu, tudo fora melhor. Vivia-se como Reis descalços na rua. Circulavam pela ruas carros e carrinhos para todos os gostos, e os engarrafamentos aconteciam em frente às casas dos cafés, recheadas de um odor cafeínico e a doces de fazer buracos nos dentes a serem curados ou arrancados pelo carniceiro barbeiro cirurgião-dentista.

Ah sim, esses é que foram bons tempos. Bons caminhos para a alma dura do meu avô. 
A casa que herdei por breves momentos, ali na Calçada da Palma, onde mais tarde viria a encontrar a mãe dos filhos que iria ter, estava prestes a arruinar-se como dentes embebidos em torrão de Alicante ou rebuçados de pinhão de Badajoz, delícias de um tempo em que o "El Corte Inglês" era um mito e não apenas mais uma loja. 

Era uma sobra de um lar, que já fora local de brincadeira nos almoços da família , feitos religiosamente ao Domingo, sempre com muita carne na mesa, pão e vinho igualmente. Era uma gritaria organizada, que registava o único sorriso do meu avô. Era adorava o caos, por ele ordenado. E não era difícil soçobrar perante a dureza do granito e língua afiada.

A minha avó por seu lado era de raiz suíça. Ou melhor Pastelaria Suíça. Passava os seus finais de tarde solarengos, depois de sair do serviço (onde era secretária, uma das poucas profissões respeitáveis naqueles anos, para uma senhora de família isto é) e deliciava-se com os cheiros abaunilhados e caramelizados. Comprava, uma vez por semana, dois bolos. Um para ela e outro para o meu avô. 
Era o seu doce do dia. 
De fim de dia doce.

O meu Avô gostava de imitar Pessoa vestido, mas escrevendo alguns impropérios dignos de Bocage. Assumia-se como nome maior da língua, mesmo que ninguém lhe reconhecesse nem obra nem palavras suficientes. Mas fazia sucesso com as meninas. Corria, mau grado para minha avó, que algumas delas eram mais do que objecto de escrita, mas também mesas e papel, onde escrevia com a sua caneta (ou outra coisa) belos contos de escárnio e mal dizer, ou romances de cordel. A minha avó aguentava esses doces sem açúcar, enquanto ele voltasse para casa e pagasse as contas dos miúdos (entre eles o meu Pai). 
O meu Avô era fiel à sua maneira.  
A minha avó também.

O sorriso do meu avô, feito granito e língua afiada, excepto o que surgia ao domingo, desfez-se com a morte do seu amor verdadeiro. Ali perdeu o gosto de escrever, em página própria ou alheia. Perdeu o sorriso. Fora uma ou duas vezes por cada domingo em que dizia um tolice propositadamente para o fazer rir.

Eu gostava daquele velho...
E agora que estou quase na idade dele, honro-o tendo um sorriso de granito feito e língua romba como uma mulher.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Copo do dia - O Bufo

O bufo

Era uma vez Aristides. Era um bufo. Um bufo real. Era um belo animal. Uma Ave. Uma ave rara. Um bufo é uma ave de rapina. Oportunista mas também excelente caçador. Faz uso da visão apurada e da eco-localização para saber onde anda o pobre roedor que vai ver a sua vida dificultada.
Não tem peneiras em, com as suas garras fortíssimas, desfazer uma presa. Mesmo  que essa presa por incauta não mereça maior atenção do que aquela que Aristides lhe dará.
Convenhamos que, no jogo da vida, as verdades e mentiras que inventamos para nós e para os outros de nada interessam. São apenas pormenores para garantir a boa convivência em conivência. Ora Aristides, Ave rara e nocturna, pouco ou nada quer saber dessas convenções. Quer ver o seu prato cheio. Nada mais, nada menos. E por isso caça.
Todos os indícios são perseguidos por mais falsos que possam ser.
Mas Aristides, ave rara, ave nocturna não esmorece. E muitos pequenos roedores, que vivem a sua vida calmamente, são depredados por sua culpa, despedaçados pelas garras anónimas.
Aristides, ave rara, ave nocturna, não terá dó para encher o seu estômago mesmo que em troca só dê ar.

Tenho pena que Aristides, ave rara, ave nocturna seja uma pessoa e não o belo Bufo Real que vi pousado, uma vez, ali para os lados de Mafra.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Copo do dia - A mentira pegada

Conheci o Francesco há mais de uma década. Nunca me foi uma figura muito próxima, nem muito longínqua. Admirava a sua arte e a presença. Era um cinéfilo, melómano, ávido leitor, tentador fotógrafo, mas também um misógino gay. Para o mais banal dos humanos esta combinação circularia entre o muito interessante ou muito repelente, consoante a carga das convicções amorais que cada um de nós carrega. No que me diz respeito, olhava para ele com a simpatia com que olhamos para os defeitos nossos no espelho e não com a antipatia com olhamos para os nossos defeitos nos outros. Francesco era um homem. Disso não tenho dúvidas. Mas também gostava de homens. O que não fazia dele menos homem. Aliás uma despudorada bicha, disse-lhe uma vez que ele, gay era uma vergonha, porque não assumia o seu verdadeiro ser. Francesco demonstrou-lhe o seu verdadeiro lado, pelo menos mais adequado. Conteve-ve para não ir à fuça, proferiu alguns impropérios dignos de um trolha das obras, terminando, com o comentário mais machista gay possível: “Queres mas é… minha … apan…”
Francesco, misógino, gay, culto, foi naquele momento a mais peixeira das peixeiras com barba… Se alguma vez houve disso.
Posso ser gay dizia ele Mas nunca serei aquilo…
Concebo que seria a sua própria intolerância, digna de qualquer “mainstream” vivente, que falava assim, dos que viviam à margem do pensamento das pessoas conservadoras.
Sim, Francesco era um devoto conservador. Visitante regular da Igreja, amigo do Padre, que não o excomungava por partilhar da Fé no amor entre todos os seres, em detrimento de alguns ensinamentos mais retrógrados.
Francesco era um pilar da comunidade, que andava atrás de outros pilares, com uma assustadora frequência.
Disse–me certa vez que se os marinheiros tinham uma miúda em cada porto, ele tinha um marinheiro. Era maneira masculina de dizer eu sou muito macho, porque tenho outros machos. o que convenhamos que para um homem que gosta de mulheres, fazendo o mesmo tipo de vã glorificação (nem sabes quem ando a comer….) , era ainda assim estranho.
Francesco gostava…não, amava viajar. Já estivera em todas as “photo ops”, encostara-se a todas as obras, construções, edificações, esculturas e portentos naturais feitos carne e osso… Mas havia outros locais que lhe faziam espécie. Aqueles que olhavam para uma pessoa normal como ele, que tendo por único defeito amar a sua espécie, ser excomungado civilmente, condenado a uma existência pária ou mesmo encarcerados.
Não sendo um grande activista, ainda assim não deixava de se sentir revoltado e com vontade de um bruto homem de ir ao focinho a um qualquer quer desses “filhos de uma grande…” Como fazia por referir junto do público feminino que o adorava, apesar de dever muito à beleza e nada à Inteligência.
Francesco era feio como um tomada antiga na parede, mas tinha um bom gosto digno do melhor prato, chefe ou alfaiate. Pior. Tinha as posses para o demonstrar.
Francesco, tinha ainda mais uma idiossincrasia.
Chamava-se Abílio Manuel, que não era nome de "bon vivant", sobretudo com as suas qualidades.
E por isso adoptara a "personna" de Francesco. Um pseudo italiano, cinéfilo, melómano, ávido leitor, tentador fotógrafo, mas também um misógino gay…
Mas também uma mentira pegada.
Sobretudo para ele.