terça-feira, 29 de março de 2016

Copo do Dia - A trágica vida de uma ressaca.

Junte-se um garrafão, (sim, daqueles como se via ser vendido o vinho mais pulhento, capaz de te dar um coice à traição), a uma aguardente caseira. Misture-se um copo e uma boca sedenta. Desta mistura resultam várias coisas: Uma ressaca, um dos melhores desinfectantes da alma e ou uma noite agarrado ao trono de um reino que ninguém quer.

Há uma estranha noção de que no vinho está a verdade. Quem o disse nunca provou daquela destilação de um qualquer cereal, tubérculo ou coisa afim, límpida e cristalina, capaz de cegar em excesso e de nos dar visão em excesso, quando apenas molhados os lábios.

Sim, esta é uma ode à bebedeira, que um copo (ou muitos) trazem consigo. Nesse estado nada surge sem uma razão e tudo tem uma. O acto mais inusitado justifica-se por ele próprio.

A bebedeira que vários copos trazem, é um alteração do estado de consciência. Um estado mais liberto das restrições. Aquele momento preciso em que Universo fala contigo. No entanto esse milissegundo antecede uma acção de devolução a esse mesmo Universo, que se apanha alguém pelo caminho é mais uma manifestação de Karma.

Porque discorro sobre 5 litros de combustível líquido para a alma e para um motor de veículo multi-fuel?

Por nada. Talvez porque nunca apanhei uma bebedeira de caixão ao céu. Porque por mais que o meu fígado insista, o meu estômago regista protestos atrás de protestos.

Ernest Hemingway dizia que o mundo estava três Whiskys atrasado.  Eu sinto que estou 4. Detesto perder a capacidade de escrever coerentemente. Por outro lado o sonho e a imaginação de uma bebida branca fazem-me falta (não fosse este texto demonstração disso).

Uma alma torturada escreve melhor. 
Uma alma torturada e com 40% de álcool no copo, escreveria melhor ainda, se as palavras não saíssem entarameladas.

É cruel viver assim, sem sonhar o sonho da aguardente.
É cruel viver assim, com o sonho da aguardente.
Ter uma ressaca de meio dia. 
De meia vida...

quarta-feira, 23 de março de 2016

Copo do dia - Poeminha na caminha

Poeminha na caminha
Sonolência acordada
Virtude de olhos entre-abertos,
Funestos desejos.
O sexo dos dias,
Em posições mais pias.
Rezar pelo sono,
Ausência na mostra nua.
E o aconchego no monte.
Oiço o rio bater,
O revirar dos cabelos.
O vento que fazes quanto te moves…

Poeminha na cama,
Com calma,
Nas manias d'acordar

Um doce recordar 
Numa manhã.

JMM -22 - 23/03/2016

terça-feira, 22 de março de 2016

Copo do Dia - Pela União

(Toujours contre le terrorisme, pas selement un jour dans ma vie).

Nunca cheguei a ver o olhar perdido,
Por entre o pó levantado
Pela fé e a maldade dos homens, que
Invocam um direito divino de tirar a vida,
Quando estas nem a Deus pertencem.

Dedos cruéis que carregam no fim,
Das vozes infiéis  ao dogma,
Que vivem para deixar viver,
Que não morrem, por ficarem sem carne.

Corpos que matam,
defeitos no pó que não merecem,
Misturam vítimas e carrascos,
Numa massa ignóbil, inquinada pela mão do terror.

E a inocência fica derramada no chão.

Amanhã será dia de verter o meu sangue.
Porque este é um horror que nos faz companhia,
E hoje choramos,
amanhã continuamos.
Porque "La Union Fait la Force".

JMM - 22/03/2016



segunda-feira, 21 de março de 2016

Copo do dia - Um poema num dia de chuva...

Tenho um poema para ti.
Hoje é o teu dia.
Sabes bem que é!
No meio do tempo que faz e do tempo que passa,
Por entre o manto branco inesperado.
Mesmo a chuva feita pedra gelada,
toca com a delicadeza poética na lona dos chapéus.
Cai desamparada no chão que não seca…
E cada uma delas que toca, faz “tac, tac tap”,
Discorrendo sobre a sua existência curta neste mundo.

Chove no dia da Poesia.
No meio disto, escrevo uma, como já não sentia.
É preciso a cidade branca ficar coberta,
Para que a minha alma seja lavada dos pecados,
E as palavras voltem a cair como chuva!

JMM - 21-03-2016

Copo do Dia - Os inconsequentes...

Olho para o presente e vejo o passado. E isso faz-me apertar o coração.

Certamente começou o dia, como sempre. Folheou o último jornal impresso em papel (mesmo que seja e-paper) e percorreu-o até à página do obituário. Algo que lhe ficou dos tempos de misógino, decerto.

Sempre foi algo que me impressionou. As nossas conversas,  à volta desse assunto, são difíceis de esquecer. Corriam todas na direcção do mesmo mar:
— Já andas a ver os obituários? Ao menos espera até teres cabelos brancos...
— Epá! Isto agora virou moda?
— O quê? Morrer?
— Mais ou menos isso. 
— Mas estás parvo? Mas porque estás ver isso. É mórbido. E devias estar estudar para o exame de Anatomia II...
— Tenho tempo. Além disso nos enterros há sempre alguém a querer consolo - Dizia com um bizarro orgulho.
— Tu é mesmo um filho da mãe, ao dizeres tal coisa. É momento de respeito.
— Pá, eu vou atrás das vivas, não dos mortos... E os mortos, esses, não se ofendem. Até aposto contigo que se estiverem a ver, até gozam. Sempre seria prova de vida para além da morte.

Sempre fora assim. E pelo que presencio,  sempre seria.

No entanto a sua lógica, por muito falhada, era inatacável.
Ele entendia-o como um serviço público.

Ao fim de um tempo desistíamos de discutir e os rios separavam-se.
Havia que estudar. Tratar dos vivos.

As nossas conversas de café, foram sendo substituídas pelos jantares à base de sandochas no internato. 
Depois foram as especializações a construir barragens.
Os encontros cada vez mais espaçados e com menos tempo.
Estávamos ambos em cirurgia. Em especialidades diferentes.

Da última vez que o encontrei, contava eu já com três filhos dos quais mal sabia o nome e se tinham namoradas ou namorados. 
Tinha também três ex-mulheres, das quais só duas me levaram o couro, o cabelo e o carro da meia-idade.

Hoje, anos após, num dia como qualquer outro, encontrei-o. Na  sala comum.

Ele continuava, sentado a uma mesa, com um par de chávenas cheias de café, intocadas, à sua frente, a ver o obituário…

Vi-o tão velho como eu. Tão gasto como eu. Agarrado a um passado. Tantos anos e ainda se devia sentir um “servidor público”...

Chegara a casar, com uma rapariga que conhecera num funeral. Chegaram a ter filhos. Entretanto, ela morrera. Um deles também. Um acidente qualquer, numa estrada qualquer. Um atentado ou apenas uma incúria deixada da última guerra.

Estivemos todos no funeral. Ele também. Mas era como se não estivesse. Olhava incessantemente para o jornal. Mesmo ali. No funeral da família.

Não percebemos bem o que se passava e apesar da curiosidade, fizemos o oposto do que ele faria. Não o importunamos com isso. Há que haver respeito....

— Então, tantos anos passados e ainda contínuas a olhar para o jornal…

Não obtive resposta.

— Ele não lhe vai responder. — Lançou uma médica, novinha e tão bem feitinha que vontade dava de pecar.
— Então porquê? Já o conheço há anos...
— Ah. Fez o curso com ele. Desconfio que terá muito a contar sobre o meu pai.
— Pai?
— Sim. Francisca Pires – Disse sorrindo.
— Afonso. Afonso Lopes. – Retorqui, com os lábios a ladear dentes com o dobro da idade.
— E o Jaime, o seu pai…
— Fechou-se ao mundo no funeral do meu irmão e da minha mãe. Uma das últimas coisas que fez foi pedir aos meus avós que tratassem de mim. Que me criassem. Depois disso silêncio.
— E o jornal? Esse era um hábito antigo…
— Tem uma das últimas fotografias que tirámos, os quatro. Foi a foto escolhida para o obituário...
Devíamos ter ido. Os quatro. Ainda me lembro mais ou menos da conversa, mesmo sendo pequenina. Há coisas que nunca se esquecem:
— Jaime, tenho de ir a um funeral.
— Vais trocar-me?
— Não tonto. As pessoas morrem.
— Sim, de facto… Mas é algo que as pessoas fazem sem pensar…
— São umas inconsequentes… Já percebi que não vens. Aguentas-te com a pequena?
— Farei o que puder... E não te percas, ok?

A falecida era aparentada num grau tão infinitesimal, que apenas os meus avós sabiam quem era. 
Havia uma noção de que se deviam mostrar o respeito pelos mortos. Nunca soube bem porque o meu pai não foi.

— O seu pai achava tudo isso uma tolice. Que se deviam respeitar os vivos.
— Então continuamos vivos... Por isso... Não deixa de ter a sua ironia. Afinal os meus pais conheceram-se num desses "eventos"…

Senti vergonha…
Fiquei preso no mesmo passado.
Ele agarrado ao amor que partiu e que não podia largar.
Eu agarrado à ideia de um pulha, que afinal, morrera muito antes do que o seu amor.

Morrer é algo que as pessoas fazem sem pensar.
E às vezes respirar não é viver.



(Este texto não tem nada de pessoal, nem tem parecenças com a realidade. Bem... Isso não é bem verdade. Muitos dos melhores com os quais crescemos estão a desaparecer. Isso não quer dizer que não haja  agora ou que irão surgir. Só que estes são especiais...)

quarta-feira, 16 de março de 2016

Copo do Dia - Contrapeso e medida

Haverá, para um leitor, algo mais irritante do que um erro do escritor. E se desse pedaço de texto esperarmos ver o estado do mundo. Cada "jornalista", escritor ou emissor de palavras, mais tarde ou mais cedo cai no erro de errar. 

Mesmo na ofensa "vernacular", exige-se qualidade, o que nem sempre acontece. O uso do vernáculo exige um conjunto de capacidade que não está ao alcance de muitos. Há uma delicadeza a respeitar numa boa ofensa. De resto será apenas brutalidade, o que deverá ser sempre algo que deve repudiar. A ofensa é uma forma de arte. Exige interpretação e audácia...

Li, há dias, que "há que ter contrapeso e medida no que se faz na alimentação". 
Confesso o meu espanto pelo referido.
Afinal trata-se de uma nova expressão da alma. "Contrapeso e medida."
Algo que deturpa o verdadeiro o acto de medir o peso de algo. De avaliar. Ou seja, a expressão é de anulação.

Quando te conheci, em miúda,  de dois palmos de altura, ouvias tão bem, como falavas pelos cotovelos. 
Na inundação de letras que provocavas nada era mais evidente  do que a deturpação de alguns significados, sem no entanto o fazeres por insidioso engano. 
Eras uma inocente, com jeito para criares novas conjugações elementares e com significados obscurantistas. 
Talvez isso explique teres-te tornado uma autora de sucesso. Se um Nobel podia não escrever páginas inteiras com pontuação, tu não fazias sentido no que escrevias. E isso, de forma absurda faz...sentido. Escreves à medida do público que queres que te compre. O outro, o que lê horrorizado por não compreender o que se passa, esse, paga muito por pouco. 

Olha para a peso da palavra, não para sua leveza. 

Navegando no meio dos recifes perigosos que são as expressões "contrapeso e medida", "A galinha da vizinha é melhor que a vinha", "Uma andorinha não faz a primavera. Mas uma data delas fazem uma porcaria",  entre outras "delícias" ao fim de vinte anos, ainda não percebi se te perdes na imaginação ou o teu cérebro vê mesmo tudo assim. 

Nunca desisti de te entender... Mesmo quando casámos. Mesmo quando recriaste a tua infância em mais três pimpolhos, trigémeos, nascidos no meio de um tratamento de fertilidade.

Reproduziste neles, o teu hábito! "Mais vale um pássaro mão do que dois calhaus na rua."

Sempre me senti num quadro surrealista. Agora era tocado a 8 mãos em vez de duas.

Quando te foste embora da minha vida, deixando-me com a conta do caixão e do enterro virtual (isto porque querias ser cremada, ficando, pela tua expressão tostadinha como um Leite-creme, descobri uma verdade que nunca me ocorrera:

As frase inventadas eram uma forma simples de mudares o mundo, da essência banal que se resume a perdoar a ladrões, construir castelos nas nuvens e a pouco ou nada sonhar. 

Querias que eu sonhasse. Que criasse um rumo em direcção ao sol que podia ser o que tínhamos entre nós.
E sem me aperceber fui perdendo essa guerra. Não te percebia, aceitava a doidice pegada por ti, mas não a acolhia no coração.

Ia perdendo-te sem alguma vez o ter percebido.Porque não conseguia ver o mundo com as mesmas cores que tu. 

Eras uma daltónica literária. 
Como quem escreve deve ser. 

terça-feira, 15 de março de 2016

Copo do dia - O comediante sério e os palhaços tristes

“Do alto do cadeirão de onde dito estas palavras, posso afirmar-vos, com a voz que ouvem à cem anos neste programa, que por mais palhaços que tenhamos tido na política, houve sempre um comediante sério a fazer-nos rir e pensar sobre a nossa existência. Um homem da sátira. Alguém que goza com a delicadeza de veludo, acidez limonada e um picante de nos levar às lágrimas. Alguém que se expondo a ridículo, nos expõe ao ridículo de quem somos…
Mousieur de La Fontaine, fabulista… Escrevinhador de sátira de primeira água. Charles Chaplin, outro de primeira água. Ambos usavam de forma diferentes a comédia para nos consciencializar do nosso papel. Sim, nós somos dignos de…”

Desliguei a televisão. Nunca compreendi substituir a Igreja na Televisão, por um programa de comédia, quase evangélico. Um autêntico sermão aos peixes. E neste momento até os peixes têm défice de atenção.
Não temos, nem eles, paciência para o moralismo que nos diz que somos mais do que somos, quando na realidade somos apenas… Peixes fora de água.
Não sei. Não sei o que me passou para ter ido ali parar. 300 canais e só passa o vazio existência.
Renego e contesto veementemente este raciocínio pegado. Nós cidadãos, só o somos, quando cumprimos um serviço público. Foi a maneira que se arranjou para deixarem de dizer mal dos trabalhadores que servem o público. Passamos todos a sê-lo. De certa forma foi a reposição do serviço militar. Mas em vez de enfrentarmos um inimigo mortal, temos à nossa frente a Dona Ermelinda, que furiosa com a sua pensão, queixa-se de todos os órgão do governo, inclusive dos que dele não fazem parte.

Nos últimos 100 anos nada mudou. O estado é Pai, filho, enteado e Espírito Santo. Reparem porventura que o Estado não é nem Mulher, nem criança. Poupamos esse serviço para os homens. As mulheres agora, são militares. Como dizia, uma profissão bem mais segura. Uma bala mata. O público vai matando.
Os professores tornaram-se robots debitadores de matéria. Não, a sério. São Robots. Não fazem greves, ouvem os miúdos. Adaptam-se no ensino ao que têm mais dificuldades. E, verdade seja dita, preocupam-se mais com eles, do que os professores humanos. Porquê? Porque foram criados para aquilo. E os humanos vivem as suas angustias em excesso. A poluição no pouco ar que resta, talvez possa explicar isso. Não sei.
Lembra-se de ter falado num sermão aos peixes? Bem. Peixes ainda há. Em viveiros. Mas já não há oceanos. Secaram ou evaporaram-se. A água que ficou, mumifica instantaneamente quem lá tocar, de tão salgada.
Ainda me lembro de ver uma das últimas baleias, ser servida como petisco por uns nipónicos.
Disseram que era para investigação. Sim. Eu também gosto de investigar batatas fritas. Mas agora nem isso. Temos um sucedâneo feito à base de soja hidropónica, tão saboroso como um pedaço de cartão. E acho que tão nutritivo, não fosse faltar o papel.
Regressamos todos os dias aos domicílios pré-destinados, desde que nascemos. Eu moro no que representa a antiga cidade de Lisboa, num antigo país, agora deserto. Somos algumas centenas de milhões recolocados em minas profundas, aninhados uns nos outros, mas com direito à privacidade.

São cidades de cabeça para baixo. Os arranha-céus, tornaram-se arranha-chãos. Adoramos ter vistas uns para os outros, em vez de olharmos para a rocha quente, perto dos canais artificiais de magma que foram escavados para nos ir aquecendo nesta longa e triste noite.

Lá fora, ao céu laranja, o sol queima metal. E a carne que trazemos passa a carvão em poucas horas. Quando chove, a pouca água que resta, parece um ácido que corrói a alma.

E tudo isto porque houve um palhaço que ganhou umas eleições, há umas boas centenas de anos, num qualquer poderoso país e decidiu unir o mundo contra si…
E depois: Booom!
Democracia!

Essa coisa…tão fatal, quando elegemos o palhaço e não o comediante sério.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Copo Político - A cidade-Botox

Nasci em Lisboa. Cresci em Lisboa. Hei-de morrer em Lisboa. Fiz e farei viagens com partida nesta cidade branca e com regresso a ela marcada. Foi o meu primeiro amor, num coração que aceita muitas outras cidades, todas com o seu ar próprio. E como mulher cidade, decidiu tornar-se mais apetecível. Elimina uma ruga ali, um buraco na estrada acolá, fecha lojas abandonadas no tempo, renova-se perdendo um pouco da beleza, sem que crie uma nova. Apoio a transformação da cidade, em algo mais cosmopolita, sem que isso signifique perder a alma. Mas manter o velho e o antigo só porque são antigos e velhos, não é suficiente.

Encaro que vemos a cidade de Lisboa, como olhamos para os problemas. A violência contra mulheres e crianças, contra homens e idosos (uma vergonha escondida e ignorada, ainda)  reflecte como olhamos para a cidade. Afinal de contas sempre vamos ouvir que era uma pessoa tão calma, um café tão interessante, um salão de cabeleireiro tão catita... E quando foi a última vez que lá fomos? A última vez que nos colocamos entre os criminosos e a vítima.  Ignoramos e queremos ignorar. Não desejamos salvaguardar nem a vida, nem a bolsa, nem a nossa integridade moral....

É isso: Falsos moralistas.

Pessoas que afirmam que bater nas crianças é um crime, mas que quando vemos o evento (e assumindo que não é mais do que uma acção disciplinadora) não a denunciamos à polícia que certamente se iria rir (mentalmente),  mas faria por admoestar a  pessoa disciplinadora. Por outro lado o superior interesse da criança é tão superior, que muitas vezes acabam nas mãos dos que as vitimizam...

Ah sim... E depois temos esses criminosos: Os Turistas.

A culpa é deles. Queremos o seu dinheiro, que amem e adorem a nossa cidade e o nosso país. Até limpamos a ruas, para que se sintam mais à vontade. Pintamos as fachadas e escoramos as que vão cair. Permitimos dez mil Hotéis e Hostels que ficarão cheios, nem que seja por um ano. Tornamos caro viver na cidade, para que não tenha nada do que nos envergonhe. Mas de noite, quando ninguém há para ver, nada acontece. Lisboa morre ali.

E na noite também morrem mulheres e crianças, porque não são turistas, não são interessantes. Abandonadas por um sistema que não lhes permite ter segurança. porque isso não acontece. Como naquela região do país onde estar isolado numa casa no alto de um monte, é normal e aceite. Abandonado da civilização, com as visitas de quem se importa e quer ajudar, bem como dos que se querem ajudar à custa...

Não queremos saber. Há um novo "Macdonalds"? Vamos lá ver... Oh! era um salão de cabeleireiro... Não sabia. Pensava que era um tapume.

Podemos ser mais inteligentes do que isto. Podemos permitir que as coisas se façam, mas com regras. Podemos evitar mais mortes, se mostrarmos que quem deve ter vergonha são os que cometem crimes.

Há um provérbio que diz: "Vergonha é roubar  e ser apanhado."

Não deveria ser "Vergonha é roubar"?
Ou matar?
Ou violar?

Ao menos a cidade-mulher, deixa que todos lhe alisem as rugas com licença camarária. Se isso serve de algo...
E as crianças entregues aos violentadores, são-no com aval da justiça que não há...

Somos um país que exige justiça.
Mas que não sabe o que isso é!
Ou melhor, depende do ultraje da semana...

E a culpa?
A culpa é nossa.
Elegemos 4 ou 5 vezes um "Cavaco Silva"..
Cuja única virtude era ser "honesto" e nunca se enganar. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

Copo do Dia - Uma Janela

Os meus dias passam-se ao pé de janelas a ver as outras vidas passar, pelos pés calçados e descalços pelo tempo agreste.
São os meus momentos de inspiração divina, em que me finjo maior e mais alto do que os homens banais que parecem pontos no pavimento. Adivinho os ruídos das máquinas rolantes, os sons do respirar da cidade, aguardando o momento em que posso juntar aos restantes mortais.
Estou tão longe deles, agora! Acima do ar devoluto que os circunda. E no entanto aspiro o momento em que sou igual. Em que sou mais um.
Decido sobre as vidas de muitos, quando olho pela janela. Auguro o fim e o princípio de dificuldades que imponho. Faço-o com o desprezo necessário, mesmo que me pese o coração.
Do alto da minha janela, naquele infame lugar a que chamo trabalho, faço tortuosos caminhos, para sobreviver mais um dia.
A verdade é que prospero neste espaço. Sou rei, príncipe e mendigo.
Sou tudo e apenas mais um.
Já houve tempo em que aqui fazia uma vida. Construía uma ideia e um caminho. Agora sou um bibelot humano, reduzido à essência de, mecanicamente, dar opiniões sobre o caminho dos outros, preso num círculo infernal, longe dos infernos da comédia.
Felizmente morri há anos. Reduzido a pó nos escombros de um edifício derrubado em nome de alguma coisa parecida com uma doutrina que fazia de mim o horrível ser que me julgo desde sempre ser.
Agora, fantasma, presença espírita, deambulo entre os vivos que pisam os átomos do meu corpo, chorando-me e outros, como heróis de um época em que éramos grandes.
E eu, na minha figura esbatida, réstia intemporal de uma alma que pena, pelos pecados dos outros, olho-os com gozo. Afinal choram-me por ser bom, quando nunca pude ser… Ou se calhar choram os outros milhares que eram.
Não sei. Continuo a passear aqui. Apetece-me um cachorro quente, mas nem dinheiro nem corpo tenho, para o saborear. De vez em quando mergulho no espelho de água que criaram no espaço da minha torre preferida. Chapinho um pouco, vejo o espanto da multidão por verem um fantasma nu…
Ou não o verem. Já sou um mito…
O vento que chora e levanta as águas…

De vez em quando vejo a Ally… Estávamos para casar. 
Sento-me ao lado dela. Agora já tem duas crianças. Nenhuma delas parecidas comigo. Só com ela. E talvez com o marido. A sua presença faz-me companhia. A dos miúdos também. Já são muitos anos que aqui vêm. Mas poucos em que finalmente se podem sentar aqui…
Oiço-os falar e o meu coração, se batesse, sentir-se-ia feliz. Já são quase 15 anos…
– Mãe, foi aqui que o Pai morreu?
– Sim, meu querido. Exactamente aqui onde me sento. Mas lá no alto.
– Gostava de o ter conhecido. Falas-me tanto dele…
– Sim, acho que ele também teria ficado feliz por te conhecer.

Não acreditei no que ouvi… Seria meu filho aquele ser que ali estava…
Afinal…

– Bem-vindo de volta, Jack. Dormiste uma bela soneca. Agora volta ao trabalho, que a nossa casa não se pinta sozinha... – Disse Ally.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Copo do Dia - O insustentável peso de um elefante numa loja de loiça

Já não restam muitas das lojas de loiça da nossa cidade. Foram todas corridas dos seus arrumos,  para dar lugar a spots turísticos. 
Porventura tornaram-se "bibelot shops", na pior acepção da palavra. Infelizmente para nós, nós gostamos... Somos turistas no nosso próprio quintal. Mas com o desejo de exclusividade.

O mesmo se passa com o gostinho perverso que os homens têm, quando de mulheres se fala. Querem uma mistura em partes desiguais de santa, (Devota ao nosso senhor que eles  se julgam) e algo que nos conseguiria tirar a caratonha séria, só com um olhar lambido nos lábios, revestido uma tal sensualidade, que deixaríamos de pensar fosse o que fosse.

Lábios indutores de paralisia mental.

Uma mistura de vestes de freira, com um decote até ao umbigo pontuado por dois “Olimpus Mons”, a caminho de vale luxuriante.

Na verdade, raramente se consegue um pacote completo. E por muito que o homens queiram, estes são brinquedos nas mãos certas…

Afinal de contas, se nos perdemos no olhar delas, nós é que perdemos a estação de comboio certa… Não elas.

Por outro lado, este efeito, igualmente cheio de uma perversidade delico-doce, afecta de igual forma o belo sexo…

O belo Sexo? 

Dir-se-ia que essa diminuição a objeto de admiração seria um crime contra o amor próprio das fêmeas da espécie. E no entanto, é também uma depreciação do próprio homem, na sua vertente de Homo Erectus ou Neanderthalensis, de peito feito, floresta para abate, barba que ora é sexual, ou assexual, consoante o efeito no objecto de amor.

Objecto de amor?

Daqueles objectos que vendem nas lojas e que substituem o toque humano? 
Daqueles seres que se vendem na rua, para por pão na boca?
Abjectos… 
os Seres? 
Os Objetos? 
Os serviços!

Os serviços, essa denominação inocente para o pior que se pode fazer seja a ser vivo ou a ex-ser vivo, chamado papel. Nela se englobam os hediondos crimes de quem sabe tudo e as questões de quem deixou tudo acontecer…

Isto hoje está desconexo. 

Maldigo o turismo, o dia que deviam ser dias, a falta de humanidade das pessoas…O esquecimento a que remetem o que querem ignorar...

Acho que me sinto como um elefante numa loja de loiças… 
Ao contrário do que se julga a cena seria trágico-cómica. Um gigantesco paquiderme, em local desconfortável, rodeado de frágeis objectos que procura evitar a custo, sendo grande demais para a delicadeza felina necessária para passar por entre tudo, sem partir um argumento.

Ao mesmo tempo, a sua própria existência e persistência provoca tal alteração que, por pouco que fizesse, o efeito será catastrófico.

Só conheço um outro ser capaz disto: O turista. Capaz de entrar em manada numa loja, deixar um rasto de cacos e dinheiro atrás de si, procurando as lojas de souvenir e bibelots que vão surgindo por aí e além, com os melhores representantes dos produtos locais “Made in China". Se calhar ainda vai dar pão a quem pede e cobra. 

E as lojas de loiças? As discotecas, as mulheres? Tudo isso?


Não sei de nada. Estou de trombas, no meio de turistas, no meio de uma loja, no meio de um país perverso em que se comemora tudo… 
Menos o que faz de nós um país!