Os meus dias passam-se ao pé de janelas a ver as outras
vidas passar, pelos pés calçados e descalços pelo tempo agreste.
São os meus momentos de inspiração divina, em que me finjo
maior e mais alto do que os homens banais que parecem pontos no pavimento. Adivinho os ruídos das máquinas rolantes, os sons do respirar da cidade, aguardando o
momento em que posso juntar aos restantes mortais.
Estou tão longe deles, agora! Acima do ar devoluto que os
circunda. E no entanto aspiro o momento em que sou igual. Em que sou mais um.
Decido sobre as vidas de muitos, quando olho pela janela. Auguro
o fim e o princípio de dificuldades que imponho. Faço-o com o desprezo
necessário, mesmo que me pese o coração.
Do alto da minha janela, naquele infame lugar a que
chamo trabalho, faço tortuosos caminhos, para sobreviver mais um dia.
A verdade é que prospero neste espaço. Sou rei, príncipe e mendigo.
Sou tudo e apenas mais um.
Já houve tempo em que aqui fazia uma vida. Construía uma
ideia e um caminho. Agora sou um bibelot humano, reduzido à essência de, mecanicamente,
dar opiniões sobre o caminho dos outros, preso num círculo infernal, longe
dos infernos da comédia.
Felizmente morri há anos. Reduzido a pó nos escombros de um
edifício derrubado em nome de alguma coisa parecida com uma doutrina que fazia
de mim o horrível ser que me julgo desde sempre ser.
Agora, fantasma, presença espírita, deambulo entre os vivos
que pisam os átomos do meu corpo, chorando-me e outros, como heróis de um época
em que éramos grandes.
E eu, na minha figura esbatida, réstia intemporal de uma
alma que pena, pelos pecados dos outros, olho-os com gozo. Afinal choram-me por
ser bom, quando nunca pude ser… Ou se calhar choram os outros milhares que
eram.
Não sei. Continuo a passear aqui. Apetece-me um cachorro
quente, mas nem dinheiro nem corpo tenho, para o saborear. De vez em quando
mergulho no espelho de água que criaram no espaço da minha torre preferida.
Chapinho um pouco, vejo o espanto da multidão por verem um fantasma nu…
Ou não o verem. Já sou um mito…
O vento que chora e levanta as águas…
De vez em quando vejo a Ally… Estávamos para casar.
Sento-me
ao lado dela. Agora já tem duas crianças. Nenhuma delas parecidas comigo. Só
com ela. E talvez com o marido. A sua presença faz-me companhia. A dos miúdos
também. Já são muitos anos que aqui vêm. Mas poucos em que finalmente se podem
sentar aqui…
Oiço-os falar e o meu coração, se batesse, sentir-se-ia
feliz. Já são quase 15 anos…
– Mãe, foi aqui que o Pai morreu?
– Sim, meu querido. Exactamente aqui onde me sento. Mas lá
no alto.
– Gostava de o ter conhecido. Falas-me tanto dele…
– Sim, acho que ele também teria ficado feliz por te
conhecer.
Não acreditei no que ouvi… Seria meu filho aquele ser que
ali estava…
Afinal…
– Bem-vindo de volta, Jack. Dormiste uma bela soneca. Agora
volta ao trabalho, que a nossa casa não se pinta sozinha... – Disse Ally.
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