“Do alto do cadeirão de onde dito
estas palavras, posso afirmar-vos, com a voz que ouvem à cem anos neste
programa, que por mais palhaços que tenhamos tido na política, houve sempre um
comediante sério a fazer-nos rir e pensar sobre a nossa existência. Um homem da sátira.
Alguém que goza com a delicadeza de veludo, acidez limonada e um picante de nos
levar às lágrimas. Alguém que se expondo a ridículo, nos expõe ao ridículo de
quem somos…
Mousieur de La Fontaine,
fabulista… Escrevinhador de sátira de primeira água. Charles Chaplin, outro de primeira
água. Ambos usavam de forma diferentes a comédia para nos consciencializar do
nosso papel. Sim, nós somos dignos de…”
Desliguei a televisão. Nunca
compreendi substituir a Igreja na Televisão, por um programa de comédia, quase evangélico.
Um autêntico sermão aos peixes. E neste momento até os peixes têm défice de
atenção.
Não temos, nem eles, paciência para
o moralismo que nos diz que somos mais do que somos, quando na realidade somos
apenas… Peixes fora de água.
Não sei. Não sei o que me passou
para ter ido ali parar. 300 canais e só passa o vazio existência.
Renego e contesto veementemente
este raciocínio pegado. Nós cidadãos, só o somos, quando cumprimos um serviço
público. Foi a maneira que se arranjou para deixarem de dizer mal dos
trabalhadores que servem o público. Passamos todos a sê-lo. De certa forma foi
a reposição do serviço militar. Mas em vez de enfrentarmos um inimigo mortal,
temos à nossa frente a Dona Ermelinda, que furiosa com a sua pensão, queixa-se
de todos os órgão do governo, inclusive dos que dele não fazem parte.
Nos últimos 100 anos nada mudou.
O estado é Pai, filho, enteado e Espírito Santo. Reparem porventura que o
Estado não é nem Mulher, nem criança. Poupamos esse serviço para os homens. As
mulheres agora, são militares. Como dizia, uma profissão bem mais segura. Uma
bala mata. O público vai matando.
Os professores tornaram-se robots
debitadores de matéria. Não, a sério. São Robots. Não fazem greves, ouvem os
miúdos. Adaptam-se no ensino ao que têm mais dificuldades. E, verdade seja
dita, preocupam-se mais com eles, do que os professores humanos. Porquê? Porque
foram criados para aquilo. E os humanos vivem as suas angustias em excesso. A poluição
no pouco ar que resta, talvez possa explicar isso. Não sei.
Lembra-se de ter falado num
sermão aos peixes? Bem. Peixes ainda há. Em viveiros. Mas já não há oceanos.
Secaram ou evaporaram-se. A água que ficou, mumifica instantaneamente quem lá
tocar, de tão salgada.
Ainda me lembro de ver uma das
últimas baleias, ser servida como petisco por uns nipónicos.
Disseram que era para
investigação. Sim. Eu também gosto de investigar batatas fritas. Mas agora nem
isso. Temos um sucedâneo feito à base de soja hidropónica, tão saboroso como um
pedaço de cartão. E acho que tão nutritivo, não fosse faltar o papel.
Regressamos todos os dias aos
domicílios pré-destinados, desde que nascemos. Eu moro no que representa a
antiga cidade de Lisboa, num antigo país, agora deserto. Somos algumas centenas
de milhões recolocados em minas profundas, aninhados uns nos outros, mas com
direito à privacidade.
São cidades de cabeça para baixo.
Os arranha-céus, tornaram-se arranha-chãos. Adoramos ter vistas uns para os
outros, em vez de olharmos para a rocha quente, perto dos canais artificiais de
magma que foram escavados para nos ir aquecendo nesta longa e triste noite.
Lá fora, ao céu laranja, o sol
queima metal. E a carne que trazemos passa a carvão em poucas horas. Quando
chove, a pouca água que resta, parece um ácido que corrói a alma.
E tudo isto porque houve um
palhaço que ganhou umas eleições, há umas boas centenas de anos, num qualquer poderoso
país e decidiu unir o mundo contra si…
E depois: Booom!
Democracia!
Essa coisa…tão fatal, quando
elegemos o palhaço e não o comediante sério.
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