terça-feira, 15 de março de 2016

Copo do dia - O comediante sério e os palhaços tristes

“Do alto do cadeirão de onde dito estas palavras, posso afirmar-vos, com a voz que ouvem à cem anos neste programa, que por mais palhaços que tenhamos tido na política, houve sempre um comediante sério a fazer-nos rir e pensar sobre a nossa existência. Um homem da sátira. Alguém que goza com a delicadeza de veludo, acidez limonada e um picante de nos levar às lágrimas. Alguém que se expondo a ridículo, nos expõe ao ridículo de quem somos…
Mousieur de La Fontaine, fabulista… Escrevinhador de sátira de primeira água. Charles Chaplin, outro de primeira água. Ambos usavam de forma diferentes a comédia para nos consciencializar do nosso papel. Sim, nós somos dignos de…”

Desliguei a televisão. Nunca compreendi substituir a Igreja na Televisão, por um programa de comédia, quase evangélico. Um autêntico sermão aos peixes. E neste momento até os peixes têm défice de atenção.
Não temos, nem eles, paciência para o moralismo que nos diz que somos mais do que somos, quando na realidade somos apenas… Peixes fora de água.
Não sei. Não sei o que me passou para ter ido ali parar. 300 canais e só passa o vazio existência.
Renego e contesto veementemente este raciocínio pegado. Nós cidadãos, só o somos, quando cumprimos um serviço público. Foi a maneira que se arranjou para deixarem de dizer mal dos trabalhadores que servem o público. Passamos todos a sê-lo. De certa forma foi a reposição do serviço militar. Mas em vez de enfrentarmos um inimigo mortal, temos à nossa frente a Dona Ermelinda, que furiosa com a sua pensão, queixa-se de todos os órgão do governo, inclusive dos que dele não fazem parte.

Nos últimos 100 anos nada mudou. O estado é Pai, filho, enteado e Espírito Santo. Reparem porventura que o Estado não é nem Mulher, nem criança. Poupamos esse serviço para os homens. As mulheres agora, são militares. Como dizia, uma profissão bem mais segura. Uma bala mata. O público vai matando.
Os professores tornaram-se robots debitadores de matéria. Não, a sério. São Robots. Não fazem greves, ouvem os miúdos. Adaptam-se no ensino ao que têm mais dificuldades. E, verdade seja dita, preocupam-se mais com eles, do que os professores humanos. Porquê? Porque foram criados para aquilo. E os humanos vivem as suas angustias em excesso. A poluição no pouco ar que resta, talvez possa explicar isso. Não sei.
Lembra-se de ter falado num sermão aos peixes? Bem. Peixes ainda há. Em viveiros. Mas já não há oceanos. Secaram ou evaporaram-se. A água que ficou, mumifica instantaneamente quem lá tocar, de tão salgada.
Ainda me lembro de ver uma das últimas baleias, ser servida como petisco por uns nipónicos.
Disseram que era para investigação. Sim. Eu também gosto de investigar batatas fritas. Mas agora nem isso. Temos um sucedâneo feito à base de soja hidropónica, tão saboroso como um pedaço de cartão. E acho que tão nutritivo, não fosse faltar o papel.
Regressamos todos os dias aos domicílios pré-destinados, desde que nascemos. Eu moro no que representa a antiga cidade de Lisboa, num antigo país, agora deserto. Somos algumas centenas de milhões recolocados em minas profundas, aninhados uns nos outros, mas com direito à privacidade.

São cidades de cabeça para baixo. Os arranha-céus, tornaram-se arranha-chãos. Adoramos ter vistas uns para os outros, em vez de olharmos para a rocha quente, perto dos canais artificiais de magma que foram escavados para nos ir aquecendo nesta longa e triste noite.

Lá fora, ao céu laranja, o sol queima metal. E a carne que trazemos passa a carvão em poucas horas. Quando chove, a pouca água que resta, parece um ácido que corrói a alma.

E tudo isto porque houve um palhaço que ganhou umas eleições, há umas boas centenas de anos, num qualquer poderoso país e decidiu unir o mundo contra si…
E depois: Booom!
Democracia!

Essa coisa…tão fatal, quando elegemos o palhaço e não o comediante sério.

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