Caminhámos durante toda manhã até chegar ao topo da serra.
Ao topo de um parque desconhecido de todos os que nunca lá estiveram.
Olhando para paisagem que nunca termina e para os pontos de referência
de onde partimos na nossa vida.
Estávamos rodeados de árvores e de seres nem sabíamos que ali
passeavam.
Sobressaltados pelos esquilos, que de silêncio pouco têm.
Assediados pelos gatos, perseguidos à distância.
Ignorados pelos patos reais, que como o nome indica, suas altezas
não ligavam à plebe que os contemplava.
Dali todos os reinos se viam.
Os imaginários que cansam os meus olhos, os perdidos pela tristeza
do tempo, os que ainda doem, marcados pelo abandono.
Ali, naquele pedaço de mundo, colado ao céu, Não esperava nada senão o calor e a sede de um dia de verão.
E no entanto, sabendo-te ali, esperava ver-te atrás de uma árvore.
De uma folha perdida levada pelo vento.
Na miragem que o pavimento fervente cria.
Mas não estás ali… apenas na cegueira que se apodera dos meus
olhos cansados. Tiro os óculos para escrever. Já nem posso com as lentes que me
auxiliam o foco.
Estou cansado de te ver em cada esperança.
E estou cansado de não saber que cara trazes contigo agora.
Quando a vida que terminou se foi com a partida de uma das
tuas faces, demorei muito a erguer-me de novo. Fingi medianamente bem estar
vivo.
Mas não estava. Estava preso ao instante perdido de uma
esperança.
Uma das tuas faces, separada, recente, com um filho a ser
criado, insatisfeita, pelo mundo que isso lhe traz, passa a vida num jogo que
ela própria desconhece, mas que na minha fraqueza, de vez em quando traz-me
ideias.
Outra face que partiu, por uma razão qualquer que lhe surgiu
ou nasceu com ela, segue com a sua vida, deixando-me descartável…
A face que mais desejo hoje, neste instante, não se liberta
da vida que tem, pela esperança de algo maior e mesmo ela vai partindo devagar,
sem um beijo dado, ou que sinta por dar.
Depois disso, há outras faces momentâneas que me seguram
nesta realidade. Que se fazem presentes, sem quererem estar sempre.
Na realidade entre tantas faces, qual a minha?
Sou também tantas as faces com que te vais cruzando comigo?
Sou o amor perdido do teu momento?
Serei o homem que nunca ligou?
O desentendimento que se desfez numa noite perdida num
casino?
Onde os teus ciúmes, de todas as tuas faces, surgiram como
se naquele momento me dissesses que este não é o caminho?
Todas as tuas faces… Todas as que me ocupam o coração, até
nos meus sonhos dormidos, surgem.
De vez em quando as memórias surgem como se ainda fossem ser
vívidas.
E de vez em quando acordo.
Lembro-me do que fui, nesses dias.
Do que sou neste dia.
Procuro o que resta.
Ficou uma escova e uma pasta, de uma criança que ela própria
vai desparecer.
Daqui a pouco será mais uma face tua. Do que nunca
construímos juntos.
Ou ainda me guardas uma surpresa?
Ainda me vais dizer: Olá! Por aqui?
Segui a tua linha de vida…
Estava um pouco quebrada, mas dei um nó. Juntei-a à minha.
Será isso que me espera amanhã?
Uma linha com nós que juntam.
Em que cada um dessas quebras a foi fortalecendo pela junção
que surgia depois.
Não há momento da vida em que não me lembre de uma das tuas
faces.
Até aprendi a respirar por uma delas.
A sonhar por outra.
E agora, espero, com paciência, por uma nova.
Olhando para o amanhã… sem o ver.
Subir aos montes claros da vida que tenho. Para me erguer da
poluição que a mente traz. Para o cansaço que lava com os rios de suor…
Para as dores de corpo, que só emulam as da alma que já
perdi.
Talvez te veja a dar nozes e outras coisas boas aos esquilos
que se afoitam junto às estradas.
Ou talvez te veja em Coimbra, às 16 horas, passando a Torre
da Almedina, na rua à direita, na Chocolataria, onde comprei um dia, o chocolate
cuja memória me alimenta.
Porque estive lá, contigo. E com outra face tua.
E porque queria estar ali com outros momentos…