Será que um coração ainda bate, se não houver ninguém para o
ouvir?
É a manhã a seguir. Deixaste-me sozinho perante o terrível
destino. A morte circunda a nossa casa. E nada posso fazer quanto a isso, senão
convidá-la a entrar.
Batem à porta. Já não há eletricidade há dias, a água começa
a escassear. Ainda distribuem comida, mas mais uma semana, e já não haverá
ninguém para partir o pão.
A morte circula lá fora. Silenciosa, por vezes. Vestida para
matar. Caminha em saltos altos, em stilletos, metálicos.
Equilibra-se recorrendo a uma foice gigante. Não tem uma
túnica negra, como a imaginávamos noutro tempo, mas um vestido vermelho. Usa
cabelos louros e compridos, anormalmente bem cuidados, num tempo em que não há
água para a beleza, nem para beber.
Os olhos penetrantes, cinzentos-claros, marcando uma
ausência de cor. Lábios pintados eternamente.
Aproximo-me da porta. Abro-a.
- Olá! Voltaste cedo.
- Estou cansada. Convida-me a entrar.
- Cara "Grande Viajante", queira entrar!
- Tonto!
Ela entrou... descalçou-se. Os pés nus arrastam-se pela
casa.
- Nem um beijo me dás...
- Sabes bem que enquanto não tirar a "farda", os
meus beijos matam.
- Morreria de bom grado, pela tua boca.
- Eu porventura, prefiro-te vivo. Por interesse, porque
assim mantenho a carne colada aos meus ossos e porque prefiro-te vivo, com a
tua carne colada aos teus ossos, para que os corpos se toquem e não apenas
chocalhem os ossos.
- Estar com a Morte tem virtudes e defeitos. A maior virtude
é o teu beijo e o teu olhar.
- O maior defeito é o "trabalho"!
Olhar que mudava, como a cor de um camaleão, viajando entre
o cinza e o azul-celeste, reservado apenas aos Arcanjos.
- Mania a tua de mudar o assunto. És um arcanjo, casaste
comigo e ainda andas a descobrir como me fazeres chegar ao céu.
- Lilith, posso levar-te ao Céu, mas terás de deixar esta
tua profissão de gestão do espaço terrestre...Vulgo, seres a Morte que leva a
vida. Quantos foram hoje? Alguns milhões?
- Sabes bem que o negócio é familiar. Não sou só eu. Mas
também sou.
- Os nossos negócios são familiares. Nós levamos as almas,
vocês os corpos.
As duas vidas que levamos, separadas pela vida. talvez
unidas por um infindável fio vermelho...
É bom viver a piada cósmica, contigo.
Porque estás.
Existes ali, junto do meu ouvido, todas as manhãs.
E um dia talvez possa sentir a tua respiração, perto,
pertinho.
Dar-te mais um batimento do meu coração, como se eles não
fossem intermináveis.
Dizer-te "Bom Dia!", com outra distância.
Sentir-te perto, mentido pela proximidade que pele sente,
mas o olhar detém.
Estás aqui. ao meu lado, a escrever a quatro mãos.
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