terça-feira, 26 de agosto de 2025

Será que um coração ainda bate, se não houver ninguém para o ouvir?

Será que um coração ainda bate, se não houver ninguém para o ouvir?

É a manhã a seguir. Deixaste-me sozinho perante o terrível destino. A morte circunda a nossa casa. E nada posso fazer quanto a isso, senão convidá-la a entrar.

Batem à porta. Já não há eletricidade há dias, a água começa a escassear. Ainda distribuem comida, mas mais uma semana, e já não haverá ninguém para partir o pão.

A morte circula lá fora. Silenciosa, por vezes. Vestida para matar. Caminha em saltos altos, em stilletos, metálicos.

Equilibra-se recorrendo a uma foice gigante. Não tem uma túnica negra, como a imaginávamos noutro tempo, mas um vestido vermelho. Usa cabelos louros e compridos, anormalmente bem cuidados, num tempo em que não há água para a beleza, nem para beber.

Os olhos penetrantes, cinzentos-claros, marcando uma ausência de cor. Lábios pintados eternamente.

Aproximo-me da porta. Abro-a.

- Olá! Voltaste cedo.

- Estou cansada. Convida-me a entrar.

- Cara "Grande Viajante", queira entrar!

- Tonto! 

Ela entrou... descalçou-se. Os pés nus arrastam-se pela casa.

- Nem um beijo me dás...

- Sabes bem que enquanto não tirar a "farda", os meus beijos matam.

- Morreria de bom grado, pela tua boca.

- Eu porventura, prefiro-te vivo. Por interesse, porque assim mantenho a carne colada aos meus ossos e porque prefiro-te vivo, com a tua carne colada aos teus ossos, para que os corpos se toquem e não apenas chocalhem os ossos.

- Estar com a Morte tem virtudes e defeitos. A maior virtude é o teu beijo e o teu olhar.

- O maior defeito é o "trabalho"!

Olhar que mudava, como a cor de um camaleão, viajando entre o cinza e o azul-celeste, reservado apenas aos Arcanjos.

- Mania a tua de mudar o assunto. És um arcanjo, casaste comigo e ainda andas a descobrir como me fazeres chegar ao céu.

- Lilith, posso levar-te ao Céu, mas terás de deixar esta tua profissão de gestão do espaço terrestre...Vulgo, seres a Morte que leva a vida. Quantos foram hoje? Alguns milhões?

- Sabes bem que o negócio é familiar. Não sou só eu. Mas também sou.

- Os nossos negócios são familiares. Nós levamos as almas, vocês os corpos.

As duas vidas que levamos, separadas pela vida. talvez unidas por um infindável fio vermelho...

É bom viver a piada cósmica, contigo.

Porque estás.

Existes ali, junto do meu ouvido, todas as manhãs.

E um dia talvez possa sentir a tua respiração, perto, pertinho.

Dar-te mais um batimento do meu coração, como se eles não fossem intermináveis.

Dizer-te "Bom Dia!", com outra distância.

Sentir-te perto, mentido pela proximidade que pele sente, mas o olhar detém.

Estás aqui. ao meu lado, a escrever a quatro mãos.


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