Nos últimos meses tenho-me despedido para sempre de um amigo e de uma Tia que estimava muito.
Outras pessoas têm-se despedido de mães, pais, avós de amigos próximos e de outros mais longe.
Este é o meu primeiro problema. Eu não sei lidar com despedidas. Ou dito com todas as letras: Com a morte.
Não sei lidar com a partida de um corpo e com a manutenção da memória. Não sei como mostrar empatia pela perda de outros, porque acho que referir o assunto será magoar o outro.
Não sei lidar com essa ausência. Nem sei lidar com esse assunto omnipresente.
Na realidade sinto-me perante a morte, tão perdido como me sinto perante a vida. Parte de mim está agarrado com argamassa imortal a outra pessoa. Mas aquela parte de mim que se esquiva a perguntas e que quer viver e fazer viver para além do momento, essa está atraiçoada pela sobrevivência que, sabemos nós, não é uma vida.
Não sei lidar com a morte física, embora já tenha lidado com muitas mortes emocionais.
Já disse adeus a muitas pessoas na minha vida, por razões tontas e por razões com peso. Já me disseram igualmente adeus, pelas mesmas razões.
Mas a verdade é que não sei o que é real. Não sei se muitas vezes disse adeus, porque não encarei a verdade ou porque muitas vezes se negaram (e me neguei) a encara-la.
Amar e perder, é melhor do que nunca ter amado. Quem disse isso nunca perdeu o suficiente. (Sim, sei que foi Tennyson.)
Deixo de ter razão?
E ele?
Deixa de a ter?
Deixamos de ter razão no nosso tempo e no nosso espaço separado por uma centena e muita de anos.
Ele tinha razão no seu tempo.
Eu tenho razão no meu.
Ele estava no seu Universo.
Eu, no meu, maior e mais pequeno.
Contínuo sem saber lidar com a perda.
Com a minha e com a dos outros.
Mas na verdade deixei de saber falar com as pessoas.
Falar para elas.
Escrever para elas.
Deixei de sonhar para elas.
Deixei-me cair no desespero de sobreviver até chegar a casa.
Mas não chega.
Não me chega estar três whiskeys adiantado. Não tenho fígado para isso.
Além de que isso não me alivia a dor. Nem a insatisfação.
Respiro. Abafado pela corrente de ar quente. Transpiro. Deixo as palavras falarem por mim. Deixo-as navegar na gota que corre pela minha testa.
O problema subsiste. Não sei lidar com fins. Porque me habituei a lutar pelo início.
E agora, ao fim de tanto tempo, percebo que não cresci o suficiente para lidar com o medeia esses dois pontos.
Afinal, só agora acordei, já o dia ia alto.