quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Copo do Dia - Mudar de Cara

Mudar de cara.

Confesso que desde o meu acidente aos 5 aninhos, sentia a minha face distorcida. 
Mal formada e causadora de grande dor visual.
Era, naturalmente, mais a impressão que a cicatriz que atravessa a face me fazia, do que aquela que fazia aos outros.
Apenas um mero adereço visual, não muito distante de um piercing no nariz, ou de um brinco. Era uma marca distintiva.
Conferenciei muitas vezes sobre se valia a pena remover essa marca. 
Sempre me perguntavam "Qual cicatriz?"
Fiz muitas consultas. Com cirurgiões simpatiquíssimos, que me diziam todos que o meu problema era facilmente resolúvel. Mas todos os acertos e correções eram em todos os locais menos onde estava essa cicatriz.
Era-me confuso ver tal coisa. Era visível na imagem do espelho. Os meus olhos, doutra forma perfeitos, sentiam-se feridos pela visão de tal entalhe na pele.
Não percebia a quantidade de defeitos que me apontavam onde tudo parecia normal. Parecia perfeito.
Comecei a falar deste desejo secreto, de mudar de pele, aos mais próximos amigos.
Comecei a ouvir as opiniões mais dura e mais doces sobre o rumo que queria.
Numa dessas conversas, com uma brutalidade doce, ela disse-me que era melhor que eu mudasse de olhos. Que procurasse o que me fazia perfeito. O que me fazia inteiro. Não os baixos-relevos da vida, marcados no corpo.
Ouvi com a paciência de quem não quer ouvir.
Deixei passar.
Continuei a minha viagem à procura de remendo bem feito.
Certo dia acordei acompanhado. Sem temor algum dessa companhia.
Era eu noutro corpo, olhando para mim.
Tinha outra voz. Outro toque.
E nesse outro corpo não via cicatriz que trouxe tantos anos.
O outro corpo, que sendo meu, tinha voz e maneirismos diferentes, dizia-me que também não via cicatriz alguma, no sítio onde lhe apontava.
Incrédulo olhei-me no espelho, no que reflectia a escuridão da alma perdida e o cabelo desgrenhado e procurei com afinco uma cicatriz que partiu.
Ali, na minha cara que segurava os olhos, não restava nada mais que uma doce planura.
Desapareciam as cicatrizes, cicatruzes, cica qualquer coisa…
Ficavam apenas caminhos.

As rugas de um sorriso.