segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Copo do dia - Há sonhos que não devemos realizar

Sinto uma dor enorme. Quase tão grande como a faca de cozinha que agora surge no meu peito, pela tua mão.
Na realidade a dor do corte profundo é maior pela traição que me fazes, do que pela morte que me chega.
Ainda por a razão pela qual o fazes é absurda. Fazes porque me amas? Há umas semanas quando me cruzei contigo 7 vezes num dia, assumi a coincidência. Só o podia ser. Finalmente autor reconhecido pelo mundo, só não sou famoso.
Mas no entanto lá estavas tu. Na última vez em que te vi nesse dia, trazias disfarçadamente um livro. Era o meu. Nem me reconheceste. Não podias. Mas eu reconhecia-te. Reconhecia a tua elegância aparente, o jeito de tocar o chão como se não houvesse, a suavidade com todos os fios de cabelos se ajustavam à tua cabeça.
E os olhos…os mesmo que olham para mim, enfeitiçaram-me.
Eras demasiado para deixar escapar… Passei eu a perseguir-te um à espera do momento certo…
- Gosta desse Livro?
- Sim. Mas só o comecei há pouco.
- Eu conheço o autor. É Bom tipo.
- Eu diria que o autor é você, pelo menos pela foto que se apresenta no livro.
- De facto sou o autor… Mas continuo a ser bom tipo.
- De facto, só após comprovação.
Depois de inúmeras ocasiões em que pude comprovar ser um bom tipo, começou a surgir na tua face uma ruga estranha, alucinada. Uma ruga, que causava arrepios. Uma ruga no corpo e na alma. A inveja e a posse.  O ciúme…E no entanto nada, mas nada havia mais do que as páginas do livro que escrevia agora.
O meu corpo começou a rejeitar a tua presença. A minha alma atemorizava-se. Os meus olhos viam o corpo divino, corrido a inteiro pela divisão entre o bem que me fazes e o mal que tens dentro de ti. Disse-te que era melhor reduzirmos a velocidade um pouco, que preciso de tempo para me compor…
O teu corpo retesou-se e o teu olhar cristalinos turvou-se com a fúria de uma mulher rejeitada. Mas não te rejeitava ainda. Nada disso.
De repente nas tuas mãos está um faca gigante. De cozinha. Eu digo-te simplesmente para a largares. Mas antes que o faça por completo, sinto-a a rasgar a minha carne e a embater nos ossos que me seguram…
- Se não te posso ter, ninguém te terá…
- Pareces uma linha de um mau filme.
Chama a emergência médica e resiste à tentação de me apunhalares outra vez…
Ao menos lavaste a faca depois de cortares a cebola ou pretendes refogar a minha carne nos infernos…

O estoicismo decresce com o sangue perdido. Vejo-o percorrer o meu peito. Vejo-te impávida. Bloqueada no tempo e nos espaço…
Só gritas: 
- Desculpa! Desculpa! Eu não…
Aí perdi os sentidos…
Perdi o tino.
Perdi-me na rua em que caminhava antes de chegar a casa…
Acordei na manhã em que vi a mesma rapariga 7 vezes no mesmo dia.
Na sétima levava o meu livro. Ainda tive a tentação de me aproximar dela. Mas uma dor no peito fez-me recuar.
Fora um sonho. Tudo um sonho. A marca da faca era sentida, mas invisível.

Há sonhos que não devemos realizar.

domingo, 26 de outubro de 2014

Copo do dia - Durante um ano e meio…

Durante um ano e meio de escrita, todos os dias me sentava na mesma esplanada virada para água do rio, a partir das 18 e 30.
Pedia religiosamente um copo de vinho, embora de etnia diferente e se me aprouvesse um scone, uma empada ou mesmo uma torrada. Ia ali para ver as ideias circular pelo pavimento, armadas de pés, pernas, coxas roladas, seios de todos o feitios, olhos escondidos atrás de lentes ou lentes que escondem a face… Ia ver as empregadas de mesa e as mesas cheias. Mas também as mesas vazias ou acabadas de vagar me enchiam a mente. Correspondendo aos turnos que faziam, uma dessas benditas empregadas, era a meu ver mal empregue. Reparava sempre nos seus olhos, com eyeliner preto em volta, realçando o azul límpido das águas de rio. Ia para a ver. Para a escrever. Ia, porque pelos acasos da vida, a minha mulher tinha escolhido estar com quem tinha obra publicada em vez de quem queria ter obra publicada. Podia aqui dizer que era um homem mais completo na altura do que o objecto do seu desejo, mas decerto não o era. Se a censuro? Mas claro. Tendo em consideração que um filho jovem estava na equação, censuro-a. Censuro-a ainda mais pelo facto de essa troca ter durado uns 6 meses. Pelo menos nunca quis regressar, fosse pelo esplendor do juízo ganho ou pela vergonha que ganhou finalmente. A vergonha era minha também. A vergonha de quem soube sempre ser um local de passagem e não um destino. E considerando que o sexo parecia obedecer ao cânone da Igreja, nesse sentido a gravidez dela foi o toque de finados para o nosso «entrosamento» diário… Convenhamos que era um prato sensaborão, comido na mesa da sala, no sofá, ou na cama… sempre insípido, como se fosse o picar de um bilhete para apanhar o comboio dos sonhos. Era deprimente. E a verdade era, que não queríamos ali estar. Um com o outro. Queríamos as pessoas dos sonhos que sonhávamos depois do mau sexo. O eyeliner preto em volta realçando o azul límpido das águas de rio, o escritor falhado, mas publicado… Esqueci-me de referir que esse autor, destruidor de lares destruídos, culpado por cronologia do que não tinha culpa era um escritor falhado. Publicado e destinado a publicar mais, mas dedicado à misoginia em busca de sentir-se humano. E ela esperava conseguir ser a musa…
Nunca mais quis saber dele. Dela, não passa um dia em que não pense. Até por causa do Diogo, nosso filho. Que tanto está comigo por três dias, como com ela.
Nesse ano e meio, só no último dia em decidira tudo acabar, ou melhor não voltar, levei o Diogo. Como pai extremoso, acautelei ficar no sítio abrigado da brisa. E deixei, com olhar previdente o infante com dois anos correr pelas madeiras de chão gasto, entremeadas pelas pedras decorativas que tanto fazem o género das esplanadas idealizadas pelo mesmo individuo.
As miúdas afoitas metiam conversa. O Diogo saia ao Pai. Giro. Risonho… como eu foram há muito anos… Cabelo dourado e olhos verdes. Como o Pai…
Ela aproximou-se. Perguntou se queríamos alguma coisa. E o Diogo, malvado, agarrou-se a ela. À perna e anca ligadas, com criança linda apensa. Apesar dos meus ténues convencimentos, Não libertou a bela cativa. Parecia ler a mente paternal. Ela, encavacada, Caitlin de seu nome, irlandesa e ruiva, pediu a uma colega para substituir enquanto convencia «the lovely little bugger that’s holding me» ou seja amorzinho que a agarra, a liberta-la.
As tantas intervenho com veemência, peço-lhe desculpas em duas línguas e mais um olhar… Agarro no Diogo e arranco-a… Ofereço-me para a compensar o incómodo, ou pelo menos oferecer-lhe um lugar na mesa, já que «o Diogo só tem olhos para si…». No seu português mais desenvolto do que o de muitos portugueses, diz que não pode ser, está a trabalhar… Ao que eu respondo que está num intervalo forçado e que insisto em que fique um pouco mais… Pelo acaso da bondade do destino a colega acaba por lhe dizer entre dentes e sorrisos, que fique um pouco mais (que noutro dia a compensa) … E de compensação em compensação, de palavra trocada em palavra trocada, a minha viagem de um ano e meio terminou. A partir daquele dia só iria para a ver. E ela, esperava eu, por mim aguardava. Não tardou que trocássemos mais do que apenas nomes. E o Diogo que ia crescendo, mantinha a sua paixão pela Caitlin. O Diogo acabou por ter uma irmã aos 5 anos. E manteve-se fiel... E eu, enquanto escrevo o meu terceiro romance, olho para a minha, que é a dele.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Copo do Dia - O Divã

Seria a minha última sessão. Os intermináveis anos, conjugados com as intermináveis visitas, haviam pago, sem desprezo, um belo carro e casa à minha amantíssima psicóloga e a mim, apenas longas horas de raiva perdidas nos pensamentos odiosos de quem se ama por inverso.
Cheguei a temer alguma sociopatia. Odiar as pessoas. O que de certa forma explicaria os auto-sentimentos que me cobriam antes.

O progresso anual cingia-se aos problemas do passado como explicação para o presente. E o futuro era mais um pneu do veículo. Aliás confesso que me faz confusão pagar a alguém para nos ouvir e fazer as perguntas certas, que um verdadeiro amigo nos faz em troca de um copo… E mesmo sem ele. O copo, diga-se.
Mas pronto, digamos que se trata de uma especialização. Ficar sentado, a enlouquecer, com as loucuras dos outros, taras e manias, o sexo dos anjos e os anjos que preferem não ter.
Todas as maluqueiras, desvios ou pertinências sãs, caem naqueles ouvidos.  E eles ressentem-se. Os olhos começam a transparecer a loucura que tenho na minha cabeça. Mas é a dela. A minha não é transferível embora me torne um pouco pegajoso com o tempo de vociferação.
Cheguei ao ponto em que preciso de me tornar independente de alguém mais maluco do que eu. Não me bastou casar com uma alcoólica em potência, ter um filho "teenager" cuja ideia de diversão é dar uma em tudo o que mexa e sem olhar a faixas etárias, mas indo sempre atrás da experiência dos anos… E sente-se nos píncaros.  
A mim, nem a amante paga que é a psicóloga, nem a secretária do ministério, uma boazona ruiva, que me teve duas ou três vezes na última semana, me fazem sentir mais ou melhor.
Pelo menos uma faz-me pagar bem o serviço, sem me fazer servicinho.
A verdade é que apesar de 220 anos a aturar…
Sim, disse 220 anos.
É o tempo de casamento que tenho, apesar de contado em anos de cão abandonado e comido pela vida… Voltando, 220 anos de união feliz e maravilhosa, em que o sentimento é igual a ter farpas de bambu espetadas por debaixo das unhas, enquanto nos obrigam a cantar o hino nacional e nos electrocutam os… Bem já perceberam…
A Maria, a minha esplendorosa esposa, que passou de um belo XS, com uma par convincente, para, ao fim do segundo rebento (dos quais apenas um é meu…oficialmente), L sem par algum de nota, nunca teve o meu amor. Teve o meu carinho. Mas se nesse sentido o carinho for amor, então menti na frase anterior…
Por mais que o meu abraço encontre dificuldade em contorna-la, a verdade é, que ela é o mais próximo que estive de construir uma família funcional. E funcional nos termos que o meu paizinho me incutiu, implica pelo menos uma amante…
Já agora, lição para o leitor: Amante sim. Por pouco tempo, mais do que uns meses e instala-se a ilusão do fim do matrimónio. E esta se calhar é prova de que não sou sociopata. Não as quero enganar, nem iludir. Confesso-lhes o medo (que não tenho) e sigo para a próxima. Exasperam um pouco pelo fim do sexo, digno de prémio (diga-se em boa verdade e modéstia). Mas de resto, recuperam depressa do momento de rejeição. Até porque as faço ver que sofro com a decisão… As crianças… As crianças… Certo e sabido…

Entretanto, a doida da psicóloga leva-me os segredos e o dinheiro. E sendo uma mulher com tudo no sítio certo, tem apenas uma cabeça tão destravada como a minha. Se calhar por vezes pressinto que esta era mulher certa para mim. Tão maluca ou mais. Mas portentosa…
Nunca me contou nada seu. Nem podia. Senão eu é que lhe cobrava o tempo.
Mas não adianta nada estar aqui. A falar para a boneca, quarentona enxuta. Vou acabar tudo com ela. Ou melhor, vou dizer-lhe que já não lhe pago mais nenhuma prestação do carro ou da casa ou da porcaria da máquina da comida por fazer que anda na moda.

Isto porque apesar de me ter conduzido a fazer as pazes internas, externamente sou um bimbo disfarçado tolhido por memórias compulsivamente inanimadas mas desagregadoras. Comporto-me como um «Fananzinho»: engato e desengato. E continuo vazio com isso.
Sinto-me vazio porque continuo a questionar, ao fim de uma vintena de séculos, porque é que a única mulher que amei e após a qual nunca mais nada senti, me disse: Não!
Pior, nunca tendo partilhado a cama e o beijo, o corpo dela sempre foi mapeado pelos meus dedos. E os seus olhos azulados como o mar de céu limpo, ladeado pelo sol feito fios…esses tiveram sempre o meu coração nas mãos…
Não preciso de uma boazona para me dizer isso. Talvez e somente para me dizer porque me casei com um futuro que não queria…
Em vez disso…
Foram cheques e cheques, com número de contribuinte na factura, desconto nas seguradoras, limpezas a seco, lavagens automáticas e recibo da mensalidade…
E eu, deitado num divã. Preparo-me para dizer, até nunca, acabou-se… E dou por mim a proferir: Até segunda…

Isto porque sou incapaz de dizer «Não!» a uma boa mulher!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Copo do Dia - Há um ano...

Há um ano…

Lembro como se fosse ontem. Dizeres-me que tinhas de ir. Que não podias esperar mais. Era agora ou nunca. Deixares-me sozinho na cama, só pelo acaso da noite mal dormida. Despedir-me de ti sem o perceber… E perceber que tinhas ido sem mim, sem que a necessidade de partida fosse imediata.
 Querias-me poupar à sentença. À partida. Mas não tinha e ser assim. Tínhamos combinado que assim não seria. O Diogo e a Catarina não se puderam despedir de ti como queriam. Fazer-te uma festa. Como queriam. Como eu queria. Mostrar que este era o teu destino. Não o caminho por onde ias.
Atravessavas meio mundo para fazeres o que fazias melhor. E fizeste isso, connosco no outro meio mundo. Estavas sempre comigo. Haveria sempre uma peça de roupa tua, com o teu cheiro perdido. Aquela camisola de lã que se colava a ti, com o suor de quem tem calor demais para o frio e frio de mais para a neve. Dormi mil dias agarrado a essa camisola. Porque era tua, sem seres tu.
Fazes-me falta. Fazes-nos falta. A tua pele ainda se prende nos meus lábios. O teu sabor fica nos meus olhos. Ainda sinto na língua todos os altos e baixos do teu corpo. Ainda sinto isso como se o teu se colasse ao meu.
Mas partiste. E estavas longe. A meio mundo. Há um ano e um dia…
Mas há um ano, ainda entaramelado pelo sono, pelo aguardar de uma chamada, recebo uma visita.
Um gentil homem, um burocrata com boas intenções, solene e hirto, trazendo com ele notícias tuas. Que te perdeste na selva. Nas cidades desse fim de mundo. Raptada desta vida. Sem possibilidade de resgate.
Perguntam inutilmente se podem fazer algo mais. Apetece-me dizer-lhe que se vão foder. Mas essa acção não me parece nem construtiva nem apaziguadora.
Tenho de anunciar aos nossos miúdos que não vais poder voltar. Que vou ter de ir ao outro lado do mundo buscar-te…
E nessa viagem, há um ano menos 5 dias, encontro-te novamente. Uma réstia tua. Uma memória tua. Algo que és tu, sem o seres.
Não me aguento. Fujo de ti. Como fugi nunca. Não és o amor da minha vida. Não és a cinza do que resta de dez anos, 2 filhos e sonhos. Choro, copiosamente. Choro, profusamente. Choro sozinho, acompanhado dos olhares piedosos de quem sabe o que é perder
Parte de nós.
Recomponho-me…
Há um ano menos 10 dias despedi-me do teu corpo. Fiz das tuas fotos um memorial. Das tuas memórias uma catedral de vento. Fiz do teu amor uma capela imperfeita.
Fiz de ti local de visita. Primeiro todos os dias. Depois dia sim, dia não. As nossas conversas já não eram como antes. As tuas respostas eram divinações minhas. Há um menos 6 meses…deixei de poder ir. Havia dois seres, que eram nossos, que exigiam atenção. Não lhes custa não te ver. Custa-lhes não te ouvirem, não te cheirarem. Custa-lhes não te sentirem no beijo matinal, no abraço antes da escola…Acho que ainda têm esperança que regresses das tuas benditas viagens.   Até eu o espero.
Há um ano e um dia, perdi-te. Há um ano e dez dias entreguei-te. Há um dia comecei a chorar.

Hoje encontrei o amor que perdi. Encontrei-o na minha imaginação a dizer, o que sempre disseste antes de partir, excepto há um ano: Esperas o quê, seu tonto? Que a vida arranque sem ti? Levanta-te dessa cama onde fomos um e vai ser tu com o mundo que te espera. E agora deixa-me ir. O meu mundo espera. Amo-te! Até ao meu regresso.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Copo do dia - Odeio-te porque te amo

Odeio-te…
Odeio-te porque te amei. Odeio-te porque não me amaste. Odeio-te porque escolheste. Odeio-me porque aceitei.
Odeio odiar.
Ia começar por dizer que a verdade é… Mas sempre soube que não era. Afinal enganavas-me.  E eu a ti. Eram duas mentiras juntas que fazem uma verdade. Dois caminhos separados unidos  à força de braços. Pontes construídas e periclitantes. Sexo regularmente fortuito. Ou fortuitamente presente. Ou presente sem alma. Ou alma perdida pelo desprezo que temos um pelo outro que aparenta ser a verdade e no fundo são falsos amantes, amigos e confidentes.
É verdade que nunca nos casamos. Éramos dois seres casados com as melhores pessoas do mundo. E por isso mesmo, não casados um com o outro. Se definição houvesse do extra-conjugal, nós seríamos a figura representativa, se bem que pixelizada para omitir a nossa traição. A verdade, a verdadeira verdade é que ódio que temos é o nome que damos ao amor que temos. E dessa forma escondemos do mundo o segredo que não queríamos ter.
Sonhamos ser um só momento. Ter família. Juntos. Filhos. Nossos.  E na realidade tínhamos tudo isso, só que com as pessoas cujo o nosso amor deixou.
Amamos. Amámos. Continuamos. Continuámos. Somos. Amor. Um para o outro. E no entanto sendo um para o outro não somos mais do que um momento.  Não somos mais do que instante do que um orgasmo feito em rapidinha. Ou numa hora ou duas. Na cama, no sofá… Em cima da mesa, onde nos comíamos e jantávamos o retemperar de forças.
Não sei. Não sei mesmo como me vou aguentar sem ti. Nem sabia como me aguentava contigo.
Odeio-te tanto que me apetece morrer de amor.
Odeio-te tanto pelo caminho que para longe vai.
Odeio-te tanto por te sentir bem.
Odeio-te tanto pelo que me fizeste amar, pelo amor que me convenceu, pelo amor que me tenho agora.

Odeio-te porque te amo.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Copo do dia - Amantíssimo divórcio

Amantíssimo divórcio

Tenho uma nota de protesto a apresentar. Não faço questão de o fazer em papel formal, mas as palavras que utilizo falseiam o vernáculo.

A verdade da minha presença na tua presença é uma banal mentira que contamos a nós e aos outros. No momento em que a porta da Igreja se abriu e nela entramos, começámos a mentir um ao outro. E ouvimos as mentiras que os outros julgam ser verdades, usadas para celebrármos a nossa «Hostile Takeover». 

Sim. 
Hóstil.

Não houve momento em que as nossas dúvidas não salientassem o caminho que não queríamos tomar. Não houve instante em que os nossos corpos caminhavam na direcção oposta ao destino definido no nosso olhar.
Somos uma vergonha. Pior. Uma mentira. «Tadinhos» é algo que nos assenta como uma luva. Não sabemos que o somos, mas assumimos o papel.
Vergonha. Isto que nos une é uma vergonha. Nunca pensei dizer-te isto.
Amava-te demasiado para me casar contigo. Ainda te amo assim. Por isso quero o Divórcio.
Quero poder amar-te livremente destas regras bacocas que nos impedem de ser felizes.
Quero ser a pessoa que amaste um dia.
Quero… Muita coisa. Mas sei que não vais compreender este rumo. Nem percebes como te posso amar, sem estar contigo.
A verdade, outra das minhas, é que não só é possível, como inevitável. Assim não fosse não teria deixado o Alberto meter-se nas nossas vidas. E ao menos podias ter ido para um Hotel ou coisa vetusta que valesse poiso a amantes e não o leito sagrado do quarto que só serve para dormir.
Ao fim de dez anos é o te tenho a dizer… Isso e que havia outra. Outra mulher. Outra com a qual me deitava. Outra que era a que me ocupava todas as noites. E com a qual fazia amor. Todas as noites.
«Como?», pensas tu?
Se todas as noites me deitava contigo…
Sim verdade. 
E com ela também.
Deitava-me com a memória da mulher que foste, antes de serem minha.
E essa é a mulher que quero de volta.
Sei que não o vou conseguir.

Mas não posso estar com uma mulher que não amo, nomeadamente tu, amando perdidamente uma mulher, que foste tu.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Copo do Dia - Doidos

Somo todos doidos, já te disse.
Somos! Tenho a certeza.
Não jogamos com as cartas do baralho todo. 
E se alguém diz que joga, então é porque roubou as cartas a alguém.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Copo do Dia - Esquecer

Não consigo esquecer os olhos verdes que vi. Nem esquecer os meus olhos nos teus.
O teu beijo na minha face, a minha mão no teu braço.
As tuas ancas roladas, o teu passo fugidio.

Sim, são banalidades

Tal como dizer que o teu sorriso me interroga.
E que no mundo que foram aqueles minutos,
Estiveste mais perto do que queres e do que queres estar.
Banalidades.
Afinal, és apenas a minha imaginação.

Embora de carne aconchegada a osso.

Copo do Dia - Impossibilidades

A vida é uma sucessão de impossibilidades. Seja pela crença na Deusa da Impossibilidade ou pela impossibilidade de acreditarmos que as possibilidades são prováveis.

Alias tudo é provável. E possível. 
Depende apenas do caminho que se quer fazer. Decidi então esperar o improvável ao pé do momento impossível.

Esgueirei-me do trabalho, cedo o suficiente para ensaiar o momento de encontro ocasional. Atravessei meia cidade, olhando os teus nos meus olhos. Queria encontrar-te acidentalmente. Por acaso forçado. Desenhei um plano de espera descontraído, que demoraria as horas necessárias para ser fortuito. Combinei até com S. Pedro, para que uma torrente de lágrimas perdidas caísse do céu, para te poder abrigar debaixo de um aconchegante guardião. Exigi a Vulcano, Deus grego dos Infernos que desligasse as suas fornalhas, para que o frio invadisse o ambiente e o teu corpo encontrasse o meu. Infelizmente, acordei, de seguida, na cama. Sozinho com a locutora de rádio, que imagino ser uma esbelta mulher, pela voz doce e forte que tem. Imagino os seios roçando o teclado, quando tenta atingir o botão que silencia a sua voz. E acordo outra vez do sonho, perdido do sonho que sonhava. 
Ergo-me confuso da cama e vejo-te ali. Toco-te... Sinto a tua pele, o teu respirar doce. Um solitário bom dia, acabrunhado pelo espreguiçar que imita os gatos, como o que fazias nos meus sonhos. Rebolas-te para o meu lado e com um gesto pedes-me um afago no cabelo. 
Não resisto a beijar-te. Beijo-te testa, coberta pelo cabelo longo e alourado. Beijo cada uma das rugas que os teus olhos fazem, quando franzes o nariz, depois dele próprio beijado. Beijo cada um dos teus olhos, lagoas banhadas pelas pálpebras e pestanas alinhadas. 
Beijo cada uma das covas que surgem quando os teus lábios sentem os meus. Beijo-te. 
Beijo todos os teus recantos.
Fico com o teu sabor, na boca. Saboreio o resto da vida na tua pele, feita sensação, enrolada na minha língua. 
És o meu sustento. 
Pois nada mais sabe ao que sabe para os outros, porque tudo me sabe a ti. 

Fecho os olhos.
Sei que o sonho vai acabar e que vou acordar.
Deito-me novamente, abraçado ao teu corpo feito névoa. 
Oiço a tua voz ribombar no meu peito. Exiges-me dentro de ti. Para me sentires todo o dia. Toda a vida.

Cedo-te sem reticências. E as horas passam. E a música que a voluptuosa locutora passa, apaga-se nos nosso cheiros. Fazemos as nossas próprias letras. O nosso próprio compasso.
E adormeço em ti. Ou melhor, findo-me no meu sonho de ti.

Quando abro os olhos, esperando um tecto branco, uma cama vazia para além de mim...
Vejo-te a ti. 
A beijares. 
A beijares-me onde te beijei. a percorreres os meus recantos, a enrolares o meu sabor em ti.

Apercebo-me que não sonho. Não durmo. Não nada. A não ser tudo, tu!
E no abraço que me dás fico a saber, que nos meus sonhos não te encontrei, naquela rua onde te esperava, porque estavas comigo, na mesma cama, sonhando o mesmo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Copo do Dia - Desejos

«Quem me dera que as palavras se passeassem pela minha mente, com a elegância com que passas pelos meus olhos. 

 Que a elegância que tens nos teus olhos, se transformasse em palavras nos meus ouvidos.Ouvir das tuas mãos, a viagem pelo corpo imaginado junto. 
E viajar pela vida contigo, adormecida na distância entre ombro e boca que beija. 

 Quem me dera, que te desses, num momento em que a elegância que passa, seja a tua sombra junto à minha.»

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Copo do dia - A expectativa

«Não vale a pena criar uma expectativa de que me vou voltar a cruzar contigo.
Afinal de contas, sei bem que nunca mais me vou cruzar contigo. Não é um desejo, mas um anti-desejo que me leva a esse pensamento. Sentir o teu olhar tocar as minhas mãos que te agarram a alma e o sorriso, num misto de esmeralda verde água e carne tornada pele pálida,  Sentir o ar que movimentas, na elegância do momento que se dispersa pelo tempo em que me perco a olhar para a tua fotografia. Aquela que tirei com o meu coração e o meu cérebro transposta para um papel "matte", vindo do fundo da gaveta das memórias fotográficas que me vão alimentando o desespero de voltar a encontrar a mulher com a qual sei que nunca mais me vou cruzar…
Sim repito este esquema de alienação momentânea da realidade verde-água, tornada esmeralda, diamante. Garanto assim a sobrevivência do caminho sob os meus pés, aquele que aspira um dia ser o olhar que te abraça, verde celeste.
Sei que nunca mais te vou ver.
É a minha triste sina. 
Não. 
Não triste. 
Alegre. 
Vi-te!
Ver-te.
Sentir aquele instante mágico que dura o tempo em que os teus lábios tocaram a minha face, de barba por fazer…
Sim, esse momento dura.
Dura, sempre…

Mesmo que saiba que não te volto a ver.»