Sinto uma dor enorme. Quase tão grande como a faca de
cozinha que agora surge no meu peito, pela tua mão.
Na realidade a dor do corte profundo é maior pela traição
que me fazes, do que pela morte que me chega.
Ainda por a razão pela qual o fazes é absurda. Fazes porque
me amas? Há umas semanas quando me cruzei contigo 7 vezes num dia, assumi a
coincidência. Só o podia ser. Finalmente autor reconhecido pelo mundo, só não
sou famoso.
Mas no entanto lá estavas tu. Na última vez em que te vi
nesse dia, trazias disfarçadamente um livro. Era o meu. Nem me reconheceste.
Não podias. Mas eu reconhecia-te. Reconhecia a tua elegância aparente, o jeito
de tocar o chão como se não houvesse, a suavidade com todos os fios de cabelos
se ajustavam à tua cabeça.
E os olhos…os mesmo que olham para mim, enfeitiçaram-me.
Eras demasiado para deixar escapar… Passei eu a perseguir-te
um à espera do momento certo…
- Gosta desse Livro?
- Sim. Mas só o comecei há pouco.
- Eu conheço o autor. É Bom tipo.
- Eu diria que o autor é você, pelo menos pela foto que se
apresenta no livro.
- De facto sou o autor… Mas continuo a ser bom tipo.
- De facto, só após comprovação.
Depois de inúmeras ocasiões em que pude comprovar ser um bom
tipo, começou a surgir na tua face uma ruga estranha, alucinada. Uma ruga, que
causava arrepios. Uma ruga no corpo e na alma. A inveja e a posse. O ciúme…E no entanto nada, mas nada havia mais
do que as páginas do livro que escrevia agora.
O meu corpo começou a rejeitar a
tua presença. A minha alma atemorizava-se. Os meus olhos viam o corpo divino,
corrido a inteiro pela divisão entre o bem que me fazes e o mal que tens dentro
de ti. Disse-te que era melhor reduzirmos a velocidade um pouco, que preciso de
tempo para me compor…
O teu corpo retesou-se e o teu
olhar cristalinos turvou-se com a fúria de uma mulher rejeitada. Mas não te
rejeitava ainda. Nada disso.
De repente nas tuas mãos está um
faca gigante. De cozinha. Eu digo-te simplesmente para a largares. Mas antes
que o faça por completo, sinto-a a rasgar a minha carne e a embater nos ossos
que me seguram…
- Se não te posso ter, ninguém te
terá…
- Pareces uma linha de um mau filme.
Chama a emergência médica e resiste à tentação de me
apunhalares outra vez…
Ao menos lavaste a faca depois de cortares a cebola ou
pretendes refogar a minha carne nos infernos…
O estoicismo decresce com o sangue perdido. Vejo-o percorrer
o meu peito. Vejo-te impávida. Bloqueada no tempo e nos espaço…
Só gritas:
- Desculpa! Desculpa! Eu não…
Aí perdi os sentidos…
Perdi o tino.
Perdi-me na rua em que caminhava antes de chegar a casa…
Acordei na manhã em que vi a mesma rapariga 7 vezes no mesmo
dia.
Na sétima levava o meu livro. Ainda tive a tentação de me
aproximar dela. Mas uma dor no peito fez-me recuar.
Fora um sonho. Tudo um sonho. A marca da faca era sentida,
mas invisível.
Há sonhos que não devemos realizar.