A vida é uma sucessão de impossibilidades. Seja pela crença na Deusa da Impossibilidade ou pela impossibilidade de acreditarmos que as possibilidades são prováveis.
Alias tudo é provável. E possível.
Depende apenas do caminho que se quer fazer. Decidi então esperar o improvável ao pé do momento impossível.
Esgueirei-me do trabalho, cedo o suficiente para ensaiar o momento de encontro ocasional. Atravessei meia cidade, olhando os teus nos meus olhos. Queria encontrar-te acidentalmente. Por acaso forçado. Desenhei um plano de espera descontraído, que demoraria as horas necessárias para ser fortuito. Combinei até com S. Pedro, para que uma torrente de lágrimas perdidas caísse do céu, para te poder abrigar debaixo de um aconchegante guardião. Exigi a Vulcano, Deus grego dos Infernos que desligasse as suas fornalhas, para que o frio invadisse o ambiente e o teu corpo encontrasse o meu. Infelizmente, acordei, de seguida, na cama. Sozinho com a locutora de rádio, que imagino ser uma esbelta mulher, pela voz doce e forte que tem. Imagino os seios roçando o teclado, quando tenta atingir o botão que silencia a sua voz. E acordo outra vez do sonho, perdido do sonho que sonhava.
Ergo-me confuso da cama e vejo-te ali. Toco-te... Sinto a tua pele, o teu respirar doce. Um solitário bom dia, acabrunhado pelo espreguiçar que imita os gatos, como o que fazias nos meus sonhos. Rebolas-te para o meu lado e com um gesto pedes-me um afago no cabelo.
Não resisto a beijar-te. Beijo-te testa, coberta pelo cabelo longo e alourado. Beijo cada uma das rugas que os teus olhos fazem, quando franzes o nariz, depois dele próprio beijado. Beijo cada um dos teus olhos, lagoas banhadas pelas pálpebras e pestanas alinhadas.
Beijo cada uma das covas que surgem quando os teus lábios sentem os meus. Beijo-te.
Beijo todos os teus recantos.
Fico com o teu sabor, na boca. Saboreio o resto da vida na tua pele, feita sensação, enrolada na minha língua.
És o meu sustento.
Pois nada mais sabe ao que sabe para os outros, porque tudo me sabe a ti.
Fecho os olhos.
Sei que o sonho vai acabar e que vou acordar.
Deito-me novamente, abraçado ao teu corpo feito névoa.
Oiço a tua voz ribombar no meu peito. Exiges-me dentro de ti. Para me sentires todo o dia. Toda a vida.
Cedo-te sem reticências. E as horas passam. E a música que a voluptuosa locutora passa, apaga-se nos nosso cheiros. Fazemos as nossas próprias letras. O nosso próprio compasso.
E adormeço em ti. Ou melhor, findo-me no meu sonho de ti.
Quando abro os olhos, esperando um tecto branco, uma cama vazia para além de mim...
Vejo-te a ti.
A beijares.
A beijares-me onde te beijei. a percorreres os meus recantos, a enrolares o meu sabor em ti.
Apercebo-me que não sonho. Não durmo. Não nada. A não ser tudo, tu!
E no abraço que me dás fico a saber, que nos meus sonhos não te encontrei, naquela rua onde te esperava, porque estavas comigo, na mesma cama, sonhando o mesmo.
Sem comentários:
Enviar um comentário