terça-feira, 26 de agosto de 2025

Montes Claros

Caminhámos durante toda manhã até chegar ao topo da serra.

Ao topo de um parque desconhecido de todos os que nunca lá estiveram. 

Olhando para paisagem que nunca termina e para os pontos de referência de onde partimos na nossa vida.

Estávamos rodeados de árvores e de seres nem sabíamos que ali passeavam.

Sobressaltados pelos esquilos, que de silêncio pouco têm.

Assediados pelos gatos, perseguidos à distância.

Ignorados pelos patos reais, que como o nome indica, suas altezas não ligavam à plebe que os contemplava.

Dali todos os reinos se viam.

Os imaginários que cansam os meus olhos, os perdidos pela tristeza do tempo, os que ainda doem, marcados pelo abandono.

Ali, naquele pedaço de mundo, colado ao céu, Não esperava nada senão o calor e a sede de um dia de verão.

E no entanto, sabendo-te ali, esperava ver-te atrás de uma árvore. 

De uma folha perdida levada pelo vento. 

Na miragem que o pavimento fervente cria.

Mas não estás ali… apenas na cegueira que se apodera dos meus olhos cansados. Tiro os óculos para escrever. Já nem posso com as lentes que me auxiliam o foco.

Estou cansado de te ver em cada esperança.

E estou cansado de não saber que cara trazes contigo agora.

Quando a vida que terminou se foi com a partida de uma das tuas faces, demorei muito a erguer-me de novo. Fingi medianamente bem estar vivo.

Mas não estava. Estava preso ao instante perdido de uma esperança.

Uma das tuas faces, separada, recente, com um filho a ser criado, insatisfeita, pelo mundo que isso lhe traz, passa a vida num jogo que ela própria desconhece, mas que na minha fraqueza, de vez em quando traz-me ideias.

Outra face que partiu, por uma razão qualquer que lhe surgiu ou nasceu com ela, segue com a sua vida, deixando-me descartável…

A face que mais desejo hoje, neste instante, não se liberta da vida que tem, pela esperança de algo maior e mesmo ela vai partindo devagar, sem um beijo dado, ou que sinta por dar.

Depois disso, há outras faces momentâneas que me seguram nesta realidade. Que se fazem presentes, sem quererem estar sempre.

Na realidade entre tantas faces, qual a minha?

Sou também tantas as faces com que te vais cruzando comigo?

Sou o amor perdido do teu momento?

Serei o homem que nunca ligou?

O desentendimento que se desfez numa noite perdida num casino?

Onde os teus ciúmes, de todas as tuas faces, surgiram como se naquele momento me dissesses que este não é o caminho?

 

Todas as tuas faces… Todas as que me ocupam o coração, até nos meus sonhos dormidos, surgem.

De vez em quando as memórias surgem como se ainda fossem ser vívidas.

E de vez em quando acordo.

Lembro-me do que fui, nesses dias.

Do que sou neste dia.

Procuro o que resta.

 

Ficou uma escova e uma pasta, de uma criança que ela própria vai desparecer.

Daqui a pouco será mais uma face tua. Do que nunca construímos juntos.

Ou ainda me guardas uma surpresa?

Ainda me vais dizer: Olá! Por aqui?

Segui a tua linha de vida…

Estava um pouco quebrada, mas dei um nó. Juntei-a à minha.

 

Será isso que me espera amanhã?

Uma linha com nós que juntam.

Em que cada um dessas quebras a foi fortalecendo pela junção que surgia depois.

Não há momento da vida em que não me lembre de uma das tuas faces.

Até aprendi a respirar por uma delas.

A sonhar por outra.

E agora, espero, com paciência, por uma nova.

Olhando para o amanhã… sem o ver.

 

Subir aos montes claros da vida que tenho. Para me erguer da poluição que a mente traz. Para o cansaço que lava com os rios de suor…

Para as dores de corpo, que só emulam as da alma que já perdi.

Talvez te veja a dar nozes e outras coisas boas aos esquilos que se afoitam junto às estradas.

Ou talvez te veja em Coimbra, às 16 horas, passando a Torre da Almedina, na rua à direita, na Chocolataria, onde comprei um dia, o chocolate cuja memória me alimenta.

Porque estive lá, contigo. E com outra face tua.

E porque queria estar ali com outros momentos…

Será que um coração ainda bate, se não houver ninguém para o ouvir?

Será que um coração ainda bate, se não houver ninguém para o ouvir?

É a manhã a seguir. Deixaste-me sozinho perante o terrível destino. A morte circunda a nossa casa. E nada posso fazer quanto a isso, senão convidá-la a entrar.

Batem à porta. Já não há eletricidade há dias, a água começa a escassear. Ainda distribuem comida, mas mais uma semana, e já não haverá ninguém para partir o pão.

A morte circula lá fora. Silenciosa, por vezes. Vestida para matar. Caminha em saltos altos, em stilletos, metálicos.

Equilibra-se recorrendo a uma foice gigante. Não tem uma túnica negra, como a imaginávamos noutro tempo, mas um vestido vermelho. Usa cabelos louros e compridos, anormalmente bem cuidados, num tempo em que não há água para a beleza, nem para beber.

Os olhos penetrantes, cinzentos-claros, marcando uma ausência de cor. Lábios pintados eternamente.

Aproximo-me da porta. Abro-a.

- Olá! Voltaste cedo.

- Estou cansada. Convida-me a entrar.

- Cara "Grande Viajante", queira entrar!

- Tonto! 

Ela entrou... descalçou-se. Os pés nus arrastam-se pela casa.

- Nem um beijo me dás...

- Sabes bem que enquanto não tirar a "farda", os meus beijos matam.

- Morreria de bom grado, pela tua boca.

- Eu porventura, prefiro-te vivo. Por interesse, porque assim mantenho a carne colada aos meus ossos e porque prefiro-te vivo, com a tua carne colada aos teus ossos, para que os corpos se toquem e não apenas chocalhem os ossos.

- Estar com a Morte tem virtudes e defeitos. A maior virtude é o teu beijo e o teu olhar.

- O maior defeito é o "trabalho"!

Olhar que mudava, como a cor de um camaleão, viajando entre o cinza e o azul-celeste, reservado apenas aos Arcanjos.

- Mania a tua de mudar o assunto. És um arcanjo, casaste comigo e ainda andas a descobrir como me fazeres chegar ao céu.

- Lilith, posso levar-te ao Céu, mas terás de deixar esta tua profissão de gestão do espaço terrestre...Vulgo, seres a Morte que leva a vida. Quantos foram hoje? Alguns milhões?

- Sabes bem que o negócio é familiar. Não sou só eu. Mas também sou.

- Os nossos negócios são familiares. Nós levamos as almas, vocês os corpos.

As duas vidas que levamos, separadas pela vida. talvez unidas por um infindável fio vermelho...

É bom viver a piada cósmica, contigo.

Porque estás.

Existes ali, junto do meu ouvido, todas as manhãs.

E um dia talvez possa sentir a tua respiração, perto, pertinho.

Dar-te mais um batimento do meu coração, como se eles não fossem intermináveis.

Dizer-te "Bom Dia!", com outra distância.

Sentir-te perto, mentido pela proximidade que pele sente, mas o olhar detém.

Estás aqui. ao meu lado, a escrever a quatro mãos.


segunda-feira, 23 de junho de 2025

A necessidade de fazer coisas estúpidas.

 

A necessidade de fazer coisas estúpidas.

Tenho a necessidade de fazer coisas estúpidas.

Mandar uma mensagem a quem não me conhece.

Declarar uma paixão por uma personagem que não existe.

Imaginar algo sobre a imaginação de outro.

De criar problemas criativamente…

Imaginar uma vingança destruidora, como uma comédia.

De apagar as dores, com mais dores.

Coisas parvas.

 

Gostava de te dizer que a personagem que encarnas numa comédia que fui ver, é o meu abismo: inteligente, elegante, bonita, manipuladora, desleal.

Morreria ficticiamente por ela.

Espero que retenhas as melhores qualidades dela.

Não sei se serão as mesmas que eu vejo.

Ah não era desleal? Estava tudo à vista.

Talvez não vejamos a vida da mesma forma.

Mas aquela foi escrita para ser assim. E na vida real, escrevemos parte da história e não temos de o ser.

Seja como for, esse abismo, continua a aparecer.

Continua a deixar, sem pé, sem terra, sem ar.

Nem sequer foi a sugestão física que o faz.

Foi a voz.

Sempre a maldita voz.

Saberei quem serás na vida real, quando ouvir essa voz que me vai acolher.

Ando à procura da voz que vais calar todas as outras vozes, falando docemente.

 

Mas tenho a impressão que ando surdo…

quarta-feira, 28 de maio de 2025

O outro Silêncio

Há um silêncio que vive dentro de nós.

Um que apaga as vozes dissonantes que nos amarguram o dia. 

Que deixa viver o dia e o Sol.

Liberta a mente das dores infligidas. 

Que mata as dúvidas.

Esse silêncio exige árdua batalha. 

Elevação da alma. 

Resistir ao ímpeto destrutivo. 

Demanda amor pelo próximo e por ti.

Perpetua-se no perdão que ainda não foi aceite.

No sorriso que ainda há de vir.

Um dia esse silêncio será constante.

Será a Paz, antes de tudo voltar a acontecer.

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Sensores de proximidade

Estamos rodeados de sensores de proximidade.

As máquinas iluminam-se à nossa passagem.

Os telefones dizem-nos bom dia, como se soubesse que ali estamos. A inteligência artificial, na sua honestidade programada, diz-nos o tempo que está, e o que vai estar.

Os meus sensores de proximidade, não se têm ativado, excepto quando te digo: Bom dia!

Bom dia, de dez mil maneiras, acompanhado de um sorriso que não posso ver, mas que sinto, em proximidade.

A minha imaginação, por proximidade do coração, vê-te sempre a sorrir para mim.

Talvez por que assim o deseje. 

Mas não posso fazer muito mais do que isso. O teu coração e o teu corpo estão à guarda de outro. 

Talvez a tua cabeça, os teus ouvidos e olhos, sejam meus por breve momentos.

E que momentos.

Ouvir-te rir, falar, espreguiçar. Que delícia de momento. De vida. Que doce envolvência me deixas.

E, no entanto, nunca aqui estiveste.

A imaginação de ti, feita por ti. Pelas tuas palavras, é tão forte como a tua presença. 

Sorrio.

E sinto-me bem.

Falo contigo todos os dias que posso. 

Podia mais. Todos os dias.

Mas não posso, todos os dias.

Que vontade de imaginar o mundo quando falamos.

E sentir que o tornas mais azul, mais doce, mais humano.

E se te disser que nunca, na minha vida houve quem o fizesse como tu?

Que as cores com que pintas a vida, são vivas demais para estar presas num peito.

E se te disser que és maior do que a vida, mas envolver-te-ia num abraço.

As duas vidas que levamos, separadas pela vida. talvez unidas por um infindável fio vermelho...

É bom viver a piada cósmica, contigo.

Porque estás.

Existes ali, junto do meu ouvido, todas as manhãs.

E um dia talvez possa sentir a tua respiração, perto, pertinho.

Dar-te mais um batimento do meu coração, como se eles não fossem intermináveis.

Dizer-te "Bom Dia!", com outra distância.

Sentir-te perto, mentido pela proximidade que pele sente, mas o olhar detém.

Estás aqui. ao meu lado, a escrever a quatro mãos.

sexta-feira, 2 de maio de 2025

Amamos a beleza com a qual convivemos

Amamos a beleza com a qual convivemos.

Amamos a frequência. Os defeitos, que não passam de pequenas desilusões, são apagados. A toxicidade das decisões tomadas sem partilha, é transferida para o que mais sofre com ela.

A beleza constante desaparece com a ausência. A beleza permanece enquanto o papel mate aguentar a luz solar.

O Sol de uma beleza que partiu, apagou-se, enquanto esperava, com esperança, o que já era passado.

A virtude do passado é que deveria ser mais belo, apesar disso, é nele que visitamos a história narrada que antes ignorada, não tem mais correntes a prendê-la.

Foram os melhores tempos. E os piores tempos. Foram a felicidade com pés de barro. Não foram o barro que se ergue, para fazer uma obra de arte, ou uma vida. A roda de oleiro, gira e gira, sem fim… com as mãos do destino formando uma geometria desconhecida. Uma que foi perdendo pedaços. Sem vitrificação. Sem elementos pesados. E sem o calor que faria um futuro.

Esse amor por constância. Essa presença por eterno, fez-se pó, com estrondo silencioso. Com um grito mudo. Com uma brisa tintada pelos vapores do álcool. Pelo respirar de um fim.


sexta-feira, 11 de abril de 2025

Gosto de títulos pomposos

 Não dos que alimentam o Ego. 

Não quero senhor Doutor, Professor ou assim.

Falo dos títulos pomposos dos textos.

Das crónicas anunciadas.

Dos autos, das barcas e dos infernos.

Amores de perdição e Tragédias floridas, de mães e filhos que se amam, como não devem... E como isso é tão real nos dias que correm...

Porque já não se ama como se deve. 

Ama-se como se paga.

Amores por Multibanco. Por Tinders e Bumbles. Por “applicação”, quando não se aplicam.

Mais um título pomposo. "Amor por aplicação. Mas sem instruções para o fazer."

Amo-te por videoconferência. Escondido atrás do filtro que levanta as rugas.

Estou enraivecido. bato no monitor, quando o computador está ao lado... 

Transferência da dor para o inocente que só reflete o que tu queres ver. 

Estrago colateral da existência.

"Gosto de ti, como de gelado. Derretida por mim..." Piropo fácil. Ah não, que a “boaventura” dos piropos foi destruída pela autoconsciência das mulheres e do amor-próprio que têm. Onde já se viu tal coisa.

"Estou convencido de que me amas". Palavras de romance de cordel, onde grassa o poder escolha de uma das partes, mas não fé.

Gosto de títulos pomposos. "A vida".

Um livro sobre a vida. Como se apenas houvesse uma. A minha. A tua já não interessa.

"Todas as razões para te amar. Apenas uma para te deixar"

Às vezes nem isso.

"Morremos às mãos dos que nos deram vida. Vivemos, quando nos querem mortos."

Sempre em oposição.

"O meu propósito de vida é infernizar a tua". 

Ainda bem, que tens objetivos de vida.

Gosto de títulos pomposos...

Mas preferia que estivesses aqui.


quinta-feira, 10 de abril de 2025

Sei que não estás... Mas estás. E todas as outras também.

Sei que não estás... Mas estás. 

E todas as outras que vieram depois, também.

A minha realidade tem sido simples. Sinto que falhei. Falhei na nossa relação. Falhei em tudo.

Mesmo que não tenha culpa, responsabilidade ou o que for em denominação, é isso que sinto.

Porque sempre senti que levava o mundo, mesmo que isso fosse arrogância minha.

E agora em que parece que realmente o carrego, vejo no meu pseudo-sucesso, o falhanço miserável.

Não deixas de estar no meu coração. E nunca deixarás!

Mas quando partiste, deixaste de ser a razão pela qual ele batia!

Agora bate por hábito. 

E de vez em quando, pela esperança que rapidamente desaparece.

Acabo, com este bater assíncrono, de semi-sobressalto, sozinho.

Porque ninguém o ouve. 

E se ninguém encosta o seu ouvido ao teu peito, e o ouve...

Será que ainda estamos vivos?

Acho que estou vivo. 

As dores ainda persistem. 

As memórias ainda ferem. 

A tristeza à qual se diz até depois, regressa rapidamente.

De vez em quando, nesse sorriso que vai surgindo, naqueles momentos de esperança, se visto ao espelho começa um ciclo autoalimentado. 

Mas isso também termina, quando a energia se esvai. 

Afinal não há nada infinito. Nem tu, nem eu.

Só a memória do que fui contigo. 

Porque já nem posso dizer do que fomos.

Depois de ti apaixonei-me. 

Talvez até tenha amado...

Pelos breves momentos em que me deixaram ser um homem melhor do que fui.

Mas, a ironia não me escapa! 

Procurava um lugar onde talvez pudesse ter sido feliz, mas que repetidamente, hoje é feliz noutras mãos.

E, sem sobressalto, sem algo subitamente, deixei de ser quem era.

Tornei-me uma máquina. 

Que deixa os sentimentos para o seu silêncio, porque há poucos ou nenhuns que queiram escutar os nomes perdidos da esperança.

Claro que já me magoei profundamente ... 

Mas às tantas só se sente a tristeza da perda. 

Das perdas. 

Da sucessão amarga.

Até estar aqui a escrever é, não somenos, milagre. 

Porque me falta o dia de amanhã.

Até falta a imaginação, mas que não falte o copo meio cheio.

Porque o cheio ficou contigo, na tua jornada para outra vida longe de mim.

E o meio vazio está algures, perdido nas minhas mãos.