terça-feira, 3 de novembro de 2015

Copo do dia - Humanidade à distância ( a ser revisto)

Humanidade à distância

Sempre imaginei que estar ao lado de alguém permitia ver-lhe nos olhos, a humanidade que traz sempre consigo, mas acabo por ver nos olhos de muitos, a que lhes falta.
Se a distância favorece a beleza, por inverso, favorece o desprendimento. O "Longe da Vista, longe do coração".
Um dia, não há muito, lembrei de uma pessoa que já não faz nem vista, nem coração. Lembrei-me dela como quem se lembra do sabor que as coisas tinham na infância. Como se tudo soubesse melhor na memória do que na boca.
Mesmo a amarga existência posterior, que durou o mesmo tempo que demora uma árvore a tornar-se adulta (pensemos eucalipto, para apressar a coisa), não me fez mudar a ideia de que as coisas sabiam melhor antes. Curiosamente, até esse amargo período se tornou mais doce pela passagem do tempo. Afinal evoluímos nas direcções opostas impostas pela vontade e pela virtude que é decidir.
As consequências disso nunca serão claras. Só num qualquer livro de memórias, que apenas um terá de escrever ou ditar. O outro fincará o pé no momento em que decidiu seguir a sua vida, eliminando tudo o que mal o outro lhe fez… Excepto o pormenor que mais mal nos fazemos do que nos fazem… (há excepções bem documentadas).
Maria, de seu nome. Mulher banal como todas as mulheres, o que faz dela única, sentiu-se abandonada sem saber bem porquê, pela filha do Sr. Dr. apelidada de Manuela, também ela Maria.
Esse amor desprendido entre duas mulheres, que ora se envolviam no acto de fazer amor, como na discussão sobre qual levava o vestido (felicidade e infelicidade de ambas vestirem o mesmo número) preferido de uma e amado por outra, não se configurava na idealizada relação em que havia sempre alguém que levava as calças… Ali eram ambas mulheres, ambas bissexuais. E ambas queriam estar uma com a outra. Melhor eram fieis. A elas próprias.
Amavam-se sem se prender. Queriam-se sem se tocar. Desejavam-se na distância. Deliciavam-se na proximidade.
Queriam ambas filhos. Ambas família feliz. Ambas queriam isso, uma com a outra. E ambas queriam-no ao mesmo tempo. O que gerava conflito. Uma delas queria mais do que a outra ser o início do Sonho comum. E ambas queriam-no.
Apareci eu. Era um pobre desalojado de emprego, sem casa emocional permanente, à procura de uma gaiola. De uma prisão dourada, enganadora, facilitadora da felicidade.
Conhecia Maria e Manuela. Era amigo de uma, nada à outra. Sempre soubera da inclinação sexual e sempre tratara isso com o mesmo desprendimento com que se vira uma folha do jornal de papel ou digital. Nunca fora coisa importante, para ser sincero.
Mas confesso que Maria era desejável. Demasiado para a proximidade que tinha com ela.
Um dia, após uma das típicas discussões do Eu quero mais que tu, Maria veio refugiar-se no pardieiro elegante que habitava em Alfama.
Chorou o suficiente para alagar o chão de tábua corrida. Soluçou o suficiente para abanar o piso por inteiro e a mim.
Abrira o seu coração e com isso fizera correr um rio no sentido oposto ao que queria.
Entre os olhos vermelhos, surgia um fascínio que enfeitiçou. Disfarcei o desejo latente com palavras sábias, quase como se quisesse afasta-la do meu regaço, onde se aninhara.
Maria olhou-me. Trespassou-me com a vontade de um beijo que fica pendurado. E num intante de quase insensatez quase que lhe fiz a vontade.
Era o desejo de ser desejada versus o meu desejo de dela. Uma situação perigosa e com um fim previsto.
Evitei. Evitei quanto pude. Acabou por ser ela a quebrar a barreira. E depois disso não houve mais nenhuma a quebrar.
Maria, ficou.
Mais 6 meses. Mais um ano. Ficou na minha pele.
Mas o corpo, esse, já preenchido, partiu quando mostrou que podia ser o que sonhara.
Nunca mais a vi. Nunca mais soube dela. Ainda tentei saber o porquê.
Esse soube-o hoje. Era pai.
Era, porque ela volta, num outro momento de desejo perdido, procurar um conforto de uma tarde, que se tornou desconhecida, para me dizer que lhe dera algo que não sabia, nem viria a saber.
Manuela fora com Teresa, o nome de uma criança perdida nos seus 5 anos, para a escola privada onde esta ensinava e um desvairado, armado de um super-desportivo, perde a mão e leva duas vidas num passeio.
Ainda não sei bem o que dizer disto.

Em 10 minutos e 5 anos perdi uma tarde, uma mulher, uma filha e uma vida que não sabia.
Perguntei-lhe com razão de todos os Deuses, porque me aparecia assim, à porta , com novas destas.
Com a vergonha da cara apagada pela dor de quem perde tudo, para me fazer perder algo que nunca tive.
– Desculpa, desculpa… Nunca te disse. Nunca quis muito. Sempre soube onde andavas. Mas nunca podia… Não podia.
Não podia? Mas…
Agarrei-lhe o braço com a delicadeza que não merecia. Arrastei-a atá à sala, fechando a porta da rua com a doçura que inventei naquele momento.
– Aquela noite deixou-me marcas que carrego. Fiquei sempre com a dúvida. E hoje recorro a ti, por causa dessa dúvida. Sim, tivemos uma filha. Sim, foi sempre minha. Mas amei-a como se fosse nossa.
– Nossa?
– Não me podes julgar pelo caminho sem saberes porque. Traía o meu amor, com um amor que me exigia não mais do que o momento.
– E julgas-me tu, que não te podia querer mais do que uma noite?
– Não sei. Nada devia ter acontecido. Nada era para acontecer.
Sentou-se, aproveitando a inércia da queda de um anjo no inferno da perda.
– Mas aconteceu. Aconteceu uma noite. E para mim muitas mais noites. Não consegui limpar o cheiro que deixaste na boca, por mil vezes que a lavasse.  Recusaste todas as minhas chamadas. Ainda tentei saber por onde andavas. Mas doía-me ver-te… Desisti.  Desisti de ti, porque senti, porque sabia que desististe de mim.
– Agora já não tenho nada que me prenda. Perdi tudo. Perdi o meu amor que já não era, o meu amor que nunca foi e o nosso amor, pela mão de um idiota.
Chorou, como o dia, quando a notícia se espalhou. O telefone não parava de piscar, com as chamadas e as mensagens. Do meu nem um pio.
Entrava no seu momento de luto. As forças franquejam… As pernas, delineadas como no dia que deu azo a este encontro, dobraram-se sem impedimento outro que não o meu abraço forçado.
E de novo, 5 anos depois, muitos minutos depois…Muitas vidas depois, o meu olhar tocou o dela. E chorei. Chorei 5 anos numa lágrima.
Chorei uma filha noutra.
Aguentei o que pude, de novo, quando ela, o amor que se fora, voltou…
Caída nos meus olhos, amparada pelo assento do sofá que ainda a conhecia, fez o que podia no momento em que se chora por ficar sem nada.
Atendi o telefone dela, quando a Mãe, senhora que não via há mais anos do que os dedos, ligou.
Disse-lhe que estava aqui.
Ela respondeu-me: Então já sabe!
Sei.
Sei, alguma coisa

Acrescentou: Temos de falar. Tem de perceber. Hoje todos perdemos alguém. Mesmo você…