Humanidade à distância
Sempre imaginei que estar ao lado
de alguém permitia ver-lhe nos olhos, a humanidade que traz sempre consigo, mas
acabo por ver nos olhos de muitos, a que lhes falta.
Se a distância favorece a beleza,
por inverso, favorece o desprendimento. O "Longe da
Vista, longe do coração".
Um dia, não há muito, lembrei de
uma pessoa que já não faz nem vista, nem coração. Lembrei-me dela como quem se
lembra do sabor que as coisas tinham na infância. Como se tudo soubesse melhor
na memória do que na boca.
Mesmo a amarga existência
posterior, que durou o mesmo tempo que demora uma árvore a tornar-se adulta
(pensemos eucalipto, para apressar a coisa), não me fez mudar a ideia de que as
coisas sabiam melhor antes. Curiosamente, até esse amargo período se tornou
mais doce pela passagem do tempo. Afinal evoluímos nas direcções opostas
impostas pela vontade e pela virtude que é decidir.
As consequências disso nunca
serão claras. Só num qualquer livro de memórias, que apenas um terá de escrever
ou ditar. O outro fincará o pé no momento em que decidiu seguir a sua vida,
eliminando tudo o que mal o outro lhe fez… Excepto o pormenor que mais mal nos
fazemos do que nos fazem… (há excepções bem documentadas).
Maria, de seu nome. Mulher banal
como todas as mulheres, o que faz dela única, sentiu-se abandonada sem saber
bem porquê, pela filha do Sr. Dr. apelidada de Manuela, também ela Maria.
Esse amor desprendido entre duas
mulheres, que ora se envolviam no acto de fazer amor, como na discussão sobre
qual levava o vestido (felicidade e infelicidade de ambas vestirem o mesmo
número) preferido de uma e amado por outra, não se configurava na idealizada relação
em que havia sempre alguém que levava as calças… Ali eram ambas mulheres, ambas
bissexuais. E ambas queriam estar uma com a outra. Melhor eram fieis. A elas
próprias.
Amavam-se sem se prender.
Queriam-se sem se tocar. Desejavam-se na distância. Deliciavam-se na
proximidade.
Queriam ambas filhos. Ambas
família feliz. Ambas queriam isso, uma com a outra. E ambas queriam-no ao mesmo
tempo. O que gerava conflito. Uma delas queria mais do que a outra ser o início
do Sonho comum. E ambas queriam-no.
Apareci eu. Era um pobre
desalojado de emprego, sem casa emocional permanente, à procura de uma gaiola. De
uma prisão dourada, enganadora, facilitadora da felicidade.
Conhecia Maria e Manuela. Era
amigo de uma, nada à outra. Sempre soubera da inclinação sexual e sempre
tratara isso com o mesmo desprendimento com que se vira uma folha do jornal de
papel ou digital. Nunca fora coisa importante, para ser sincero.
Mas confesso que Maria era
desejável. Demasiado para a proximidade que tinha com ela.
Um dia, após uma das típicas discussões
do Eu quero mais que tu, Maria veio refugiar-se no pardieiro elegante que habitava
em Alfama.
Chorou o suficiente para alagar o
chão de tábua corrida. Soluçou o suficiente para abanar o piso por inteiro e a
mim.
Abrira o seu coração e com isso
fizera correr um rio no sentido oposto ao que queria.
Entre os olhos vermelhos, surgia
um fascínio que enfeitiçou. Disfarcei o desejo latente com palavras sábias,
quase como se quisesse afasta-la do meu regaço, onde se aninhara.
Maria olhou-me. Trespassou-me com
a vontade de um beijo que fica pendurado. E num intante de quase insensatez
quase que lhe fiz a vontade.
Era o desejo de ser desejada
versus o meu desejo de dela. Uma situação perigosa e com um fim previsto.
Evitei. Evitei quanto pude.
Acabou por ser ela a quebrar a barreira. E depois disso não houve mais nenhuma
a quebrar.
Maria, ficou.
Mais 6 meses. Mais um ano. Ficou
na minha pele.
Mas o corpo, esse, já preenchido,
partiu quando mostrou que podia ser o que sonhara.
Nunca mais a vi. Nunca mais soube
dela. Ainda tentei saber o porquê.
Esse soube-o hoje. Era pai.
Era, porque ela volta, num outro
momento de desejo perdido, procurar um conforto de uma tarde, que se tornou
desconhecida, para me dizer que lhe dera algo que não sabia, nem viria a saber.
Manuela fora com Teresa, o nome
de uma criança perdida nos seus 5 anos, para a escola privada onde esta
ensinava e um desvairado, armado de um super-desportivo, perde a mão e leva duas
vidas num passeio.
Ainda não sei bem o que dizer
disto.
Em 10 minutos e 5 anos perdi uma
tarde, uma mulher, uma filha e uma vida que não sabia.
Perguntei-lhe com razão de todos
os Deuses, porque me aparecia assim, à porta , com novas destas.
Com a vergonha da cara apagada
pela dor de quem perde tudo, para me fazer perder algo que nunca tive.
– Desculpa, desculpa… Nunca te
disse. Nunca quis muito. Sempre soube onde andavas. Mas nunca podia… Não podia.
Não podia? Mas…
Agarrei-lhe o braço com a delicadeza
que não merecia. Arrastei-a atá à sala, fechando a porta da rua com a doçura
que inventei naquele momento.
– Aquela noite deixou-me marcas
que carrego. Fiquei sempre com a dúvida. E hoje recorro a ti, por causa dessa dúvida.
Sim, tivemos uma filha. Sim, foi sempre minha. Mas amei-a como se fosse nossa.
– Nossa?
– Não me podes julgar pelo
caminho sem saberes porque. Traía o meu amor, com um amor que me exigia não
mais do que o momento.
– E julgas-me tu, que não te
podia querer mais do que uma noite?
– Não sei. Nada devia ter
acontecido. Nada era para acontecer.
Sentou-se, aproveitando a inércia
da queda de um anjo no inferno da perda.
– Mas aconteceu. Aconteceu uma
noite. E para mim muitas mais noites. Não consegui limpar o cheiro que deixaste
na boca, por mil vezes que a lavasse.
Recusaste todas as minhas chamadas. Ainda tentei saber por onde andavas.
Mas doía-me ver-te… Desisti. Desisti de
ti, porque senti, porque sabia que desististe de mim.
– Agora já não tenho nada que me
prenda. Perdi tudo. Perdi o meu amor que já não era, o meu amor que nunca foi e
o nosso amor, pela mão de um idiota.
Chorou, como o dia, quando a
notícia se espalhou. O telefone não parava de piscar, com as chamadas e as
mensagens. Do meu nem um pio.
Entrava no seu momento de luto. As
forças franquejam… As pernas, delineadas como no dia que deu azo a este
encontro, dobraram-se sem impedimento outro que não o meu abraço forçado.
E de novo, 5 anos depois, muitos
minutos depois…Muitas vidas depois, o meu olhar tocou o dela. E chorei. Chorei
5 anos numa lágrima.
Chorei uma filha noutra.
Aguentei o que pude, de novo,
quando ela, o amor que se fora, voltou…
Caída nos meus olhos, amparada
pelo assento do sofá que ainda a conhecia, fez o que podia no momento em que se
chora por ficar sem nada.
Atendi o telefone dela, quando a
Mãe, senhora que não via há mais anos do que os dedos, ligou.
Disse-lhe que estava aqui.
Ela respondeu-me: Então já sabe!
Sei.
Sei, alguma coisa
Acrescentou: Temos de falar. Tem de
perceber. Hoje todos perdemos alguém. Mesmo você…
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