segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Copo do Dia - O último lugar onde procuraste…

O último lugar onde procuraste…

O último lugar onde procurei a tua presença, foi na cama que ocupaste comigo, vidas antes. E algumas tardes também. Desloquei-me à sala onde a tua presença enquadrou um belo sofá desconfortável e também não lá estavas. Desloquei-me à cozinha, sentindo o cheiro das panquecas que tinhas feito há dois anos, ali, naquela frigideira. Podia ter dito que nunca a limpei depois disso. Mas tal seria um abuso. Limpei no momento seguinte, para a poder arrumar. Não pensei, alguma vez,  que uma das memórias que teria de ti fosse uma frigideira, uma sertã ou coisa que a valha em denominação. Aliás o cheiro que sinto, não é mais do que memória. Mais do que uma lembrança. Mesmo esta barriga que trago comigo, resultado de inúmeros jantares e almoços ricos em vitualhas, pobres em companhia, porque não te partilhava senão comigo.  A ruga que tenho no canto da boca por sorrir para ti, mesmo essa não é minha. É uma ruga externa que te pertence. E agora é uma prenda que me deixas.
Entre tudo isto, apenas fica na memória o bom que me deixas.
Não fica a memória dos momentos em que me reduzias a uma nota de rodapé, perante os teus amigos ou aqueles momentos em que jocosamente me ignoravas quando dizia algo que não compreendias ou não achavas importante. A verdade é que mulher bela que eras, foi-se diluindo na cabra gentil. E eu imbuindo da cegueira de quem ama, não vi nada disso. Ficava furioso no momento e depois esquecia… ou melhor guardava essa mágoa na gaveta «Respeitinho é bom . E eu gosto!» que se encontrava junto à gaveta «1002  maneiras de ter respeito por nós próprios e ignorar aquela gaja.»
Acabei por perceber tarde demais, que não me tinhas amor. Era um técnico que te mantinha em funcionamento. Fazia-te as revisões, media o óleo do corpo, punha a gasolina na boca,  travestida de iguarias deliciosas. Lavava o teu corpo de carroçaria coupé, ainda que pouco avantajada…
Servia-te para o Ego. Pouco mais. E um pouco mais depois deixei de o servir. Passei apenas a antigo locatário.

Chegaste um dia à minha casa e disseste-me: Afonso. Vou-me encontrei o meu amor de sempre, que conheci ontem. Virei buscar as minhas coisas assim que estiver noutra casa.
E ontem, senti a falta do teu corpo nesta casa. E comecei a abrir as gavetas onde guardei o respeito próprio, onde guardei as razões e a raiva. E ontem, num dia que durou um ano, limpei o meu corpo das memórias funestas.
Ficou apenas o bom…
O resto, o resto vai nas caixas que mando para reciclagem, porque insistes que ainda não poisaste. O teu amor que durou uma vida de seis meses disse-te adeus. Foi mais inteligente que eu.
Eu que te amei. E que agora amo-te. Mas apenas às boas memórias. O resto é o lixo de alma que foi ficando e agora reciclo em lenha.
Fica a tua memória. Todas as memórias. Arquivadas em duas outras gavetas: «A mulher que amei.» e « A mulher que amei, mas que era uma*****»
A ruga que era tua, agora já é só minha.

Umas das últimas coisas que me disseste, quando ainda pensava em ti como pessoa foi que o amor é algo que se encontra no último lugar em que se procura.
Uma banalidade gigante como o mundo…

Sobretudo quando se percebe que só mesmo uma pessoa estúpida, mas mesmo muito estúpida continua a procurar depois de o encontrar.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Copo do dia - As realidades paralelas

Cada dia que passa, em que acordo contigo, olhado para a sombra que a tua face faz sobre a almofada, questiono-me sobre quem ali está. Não sobre o que sinto por ti ou o que tu sentes por mim, mas quem és.
Todas as facetas da tua vida, resumidas num olhar, sugerem-me uma espécie de tristeza contida pela alegria que vais sentido nos pequenos momentos que atravessamos.  Mas a verdade que sinto nos olhos é que o amor que tens é por alguém que não está connosco. è uma mor por alguém pedido nos teus pensamentos, que usa o mesmo corpo, mas que em nada é como eu.
A verdade, já dita é essa.
E todos os dias acordo sem saber quem é aquela pessoa que me ama, porque todos os dias é outra pessoa.
Em dez anos, as camas que nos uniam, separaram-se. Foi crescendo um vale entre nós. E não soubemos construir os túneis ou pontes ou caminhos de nuvens sobre ele.
E assim, por obra e desgraça, perdi o conhecimento da mulher outrora, noiva, namorada e agora mais mãe.
O dia final de tudo isto chegou com um envelope. Pensei serem os papéis… Era um diagnóstico.
O meu… Teria a sorte de não assistir ao fim… Porque ele acabava comigo. Disseram-me que tinha sorte. A minha queda era rápida. Porque uma lenta seria cruel. E depois por momentos lembrei-me… Lembrei-me porque não lembrava… A maleita que me levava a memória, levara o amor que eu perdera todas as manhãs…
Não muito dias depois, não acordei mais.

Mas ainda em sonhos gritei o teu nome…

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Copo do Dia - Lavagem Dogmática ou Memórias de um peixinho dourado

Ia a passar com o carro pela lavagem automática que se tornou o tempo em Lisboa.
Um tempo que lava ruas e enlameia as pernas transeuntes. Chuva que limpa tejadilhos e chapéus-de-chuva e de vez em quando arranca árvores de raízes podres.
É uma lavagem peremptória da civilização corrompida.
São corpos corruptos pelo passar dos anos, as partes flácidas e perdidas. Os olhos tenebrosamente ladeados pelas olheiras do cansaço de mil dias de trabalho em poucas horas. Os químicos que usamos para lavar as almas e pulmões, que nos deixam a morte a levedar.

Todos os dias, sem falta (Sábados e Domingos que também são dias), fosse qual fosse o tempo, ias para o teu lugar primoroso de vendedora de roupa numa loja barulhenta onde os meus olhos deambulavam sempre à procura da promoção do casaco espetacular, na altura em que me apaixonava pelas roupas e não pelas pessoas que as envergam.
A minha era feita a perseguir-te pela loja na vez mensal em que lá ia. Via-te gira, mas olhava mais para o casaco.
Eras morena. Outras vezes não. 
Uma vez olhos verdes, noutra castanhos. Eras uma presença constante. Mesmo os piercings que de vez em quando usavas, não te tiravam o mérito que me fazia perseguir-te. Mas para sempre foste uma memória à espera de acontecer. Nunca foste presente na minha existência a não ser como intermediária para o meu desejo de um cachecol ou de uma encharpe. 
Nem sempre eras simpática. Nem sempre estavas bonita. Mas eu não ligava a isso. No final de contas o que interessa nisto é que davas a troco, o que eu queria.
De vez em quando, algumas encarnações tuas sorriam-me e outras mesmo riam-se da minha boa maneira. Outras queriam apenas que eu saísse da loja, com ou sem artigos, para poderem ir à sua vida de comtemplar preços e roupas que as enrola e enojam.
A tua verdade é que amavas tanto esse teu trabalho como a mim, que não conhecias. Eu era apenas um cartão ou dois (com o de cliente) que surgiam ocasionalmente a aliviar o peso da arrumação. E pagar-te uma ninharia pelo tempo que me davas.
Eras uma prostituta temporal. Que vendias a tua atenção ao minuto ao tamanho L ou XL. E o resto é a memória que se perde nos cinco minutos que se seguem a pores um par de calças num saco.
Quem era tu? Que loja era?
Não sei.

Nunca soube. Vocês eram-me iguais, sendo diferentes. 
Memórias de um peixinho dourado...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Copo do dia - Leio Mal

Leio mal.

Leio mal o que escrevo. 
Leio mal o que escreves. 
Já me disseste para mudar as lentes.
E leio lento.
Mudar a cor do ecrã, a resolução, do tamanho de letra, o tamanho da palavra que se perde no meu pensamento.

Mas leio bem o mundo que me passa por ti.

Ias frondosamente pela rua.
Todos os passos ecoando.
Deixando um rasto perfumado pela chapa metálica torcida nos acidentes que causas pelo decote que deixas leve.
Bamboleias esse traseiro que inveja causa nas mulheres que passam. Mas eu vejo-te mal. Sobretudo ao perto. De perto nem te vejo de facto. Pareces-me opaca.
Fico abimbalhado, com vontade pouco cavalheiresca de te tocar com a audácia sobretudo porque és mulheraça.
Sim, não obstante termos 3 filhos e um casamento feliz, ver-te o centro do mundo, fazendo do torpor dos outros, o combustível, dava-me gozo infindável.
Não por seres o centro do mundo, mas porque o mundo se centrava em ti. Como o meu olhar. Adorava ver os transeuntes que conheço como a palma que vagueia os dias pelos mesmos ventos, vergarem-se pela tua entourage de olhares perdidos e suplicantes de cruzamento. Ver solteiros e casados sem vergonha ou demasiada, a perderem o tino com afinco, pisando os presentes que a chuva deixava, encharcados até aos ossos pelo instante com que te cruzas com as suas órbitas excêntricas.

Mulher, desvario. 
Cujo o único som é o calcar das pedras.
E ainda bem…

Não gostaria que se perdessem na tua voz também.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Copo do dia - Somos todos iguais

Somos todos iguais

Somos todos iguais é algo que passo a vida a dizer-me em voz alta.
Aliás, sou tão igual ao tipo que gregoria na cela ao lado da minha. 
Não me lembro de ter insultado a agente da autoridade. Mas eles andam com mão pesada no cassetete e leve na carteira.
Como recusei obedecer, ganhei estadia em quarto com 5 estrelas. Dois por tráfico, dois por roubo e eu por ofensa à autoridade.
Os tipos eram pessoas normais diga-se. Simplesmente tinham alguns hábitos socialmente reprováveis pelos agentes da autoridade e pela maior parte de nós.
Confesso também que estava bem bebido com Whiskys e Cubas Libres… 
Era sexta. 
Mas pronto, nada que aquela agente de autoridade já não tivesse ouvido.
Ok, confesso. Também lhe apalpei o rabo. 

Esqueci-me de dizer que era uma loira rija de corpo? 
E bem articulada de palavra? 
Que levou ao chão sem que percebesse como?

Os companheiros de cela, irmanaram-me logo. 
Dizem que gostavam de «foder» o juízo das autoridades. 
Mas que eu tinha mesmo tentado fazê-lo. À séria. 
Tornei-me um herói improvável.

Quando o hotel se ia tornar de sete estrelas, os meus irmãos de cela trataram logo de dizer aos recém chegados que «naquele copinho de leite não tocas, senão és naifado até seres gaja…» 

(Juro! foi o que percebi!).

A verdade é que o meu acto irreflectido tinha-me ganho a admiração da rapaziada. E um olho roxo. Um braço dorido. 

Mas que belo rabo. E o distintivo que ficava bem assente. E os olhos...

Já perto das 6 da manhã, a minha captora veio buscar-me.
Pensei que um dos meus amigos,antes ébrios,  entretanto sóbrios, me tivesse pago a fiança. 
Acontece que tinha de ser presente ao juiz para que isso pudesse acontecer. E isso ainda não tinha acontecido.

A Helena, assim se chamava a agente que havia ofendido, olhou para mim. 
Conduziu-me para o átrio da esquadra. 
Pediu a um colega para me vigiar, sem no entanto ter-me algemado. 
Achei estranho. 
Mas acho que um apalpão não merece algemas. Mesmo que seja legitimo trazer essas pulseiras de metal naquele ambiente.
Disse que já voltava.
Regressou, já sem farda. 
Agarrou-me, acenou ao colega em agradecimento e saímos.
‒ Já estás mais sóbrio?
‒ Acho que sim. Agora vamos ao juiz, não?
‒ De certa forma vais ser julgado.
‒ Como assim?
Não houve mais diálogo. 
Agarrou-me na mão.
Encostou-a ao seu seio. 
Beijou-me.

Voltei a casa dois dias depois.


Felizmente preso.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Copo do dia - O vestido Vermelho

O vestido vermelho

Arrastei-te para as compras.
Sim, o homem da casa.
Independentemente da atribuição dos papéis sociais que a nossa sociedade pré-industrial e pós-modernista tem, abrigando os bigodes farfalhudos (com crucifixos a capear peitos felpudos) e ao mesmo tempo o homem de barba rala (tornado símbolo máximo do sexy) tudo debaixo do mesmo tecto…
Sim, levei-te às compras.
Queria ver o que te assentava bem, para além de mim.
Experimentas-te vestidos longos, custos. Às bolinhas amarelas sem Biquini. Lisos, com padrão, com estolas de pelo. Os teus cabelos castanhos, longos e lisos, eram adorno em qualquer um deles. Favoreciam o teu olhar. Ou teu movimento. O teu caminhar com o ondular do vento.

Sim, rolavas cada vestido com a maré de pessoas que entrava e saia das lojas. Cada questão atirada na tua direcção, soava a vento a restolhar nas folhas dos salgueiros. Cada novo vislumbre das tuas costas, dos teus seios aconchegados no soutien simples, com renda parca, arrepiavam com o orvalho matinal, encontrado à beira rio.
Cada novo passo, novo vestido, que abraçava o teu corpo, ferviam-me os olhos a ponto de os enevoar.
Acabaste por escolher o vestido que vestia a ideia que tinhas de ti, a sedutora morena, quente, que engraçou rapazinho gay da loja, como pequeno elfo natalício a trocar-te incessantemente os adereços que queria levar…
E eu a uma distância respeitável, perguntei?
- Já decidiste? É este?
- Sim, querido!
Paguei-o, com o cartão negro… Com o ilimitado sentido do dinheiro que não se gasta…
Saímos da loja…
- Amanhã quero-te ver assim.
- Amanhã estarei. E hoje?
- Sabes bem para onde tenho de ir agora...

- Sim! Família. Os teus filhos. A tua mulher...

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Copo do dia - Matas-me de Amor

Amas-me? 
Sim. Amo. Todos os dias. Todas as mensagens que recebo, todos os momentos em que não me deixas respirar. Todo o tempo que passa sem que veja a cor da cama, das páginas dos livros, dos jornais, dos ecrãs onde escrevo.
Sim amo-te. Amo-te que cedo o meu tempo a tudo o que queres fazer, mesmo que não seja.
Não te percebo. Como amas alguém que desaparece absorvido pelos desejos.

Os últimos dias da nossa fase de solteiros passaram num ápice. Os preparativos para o casamento consumiram cabelo, couro, contas bancárias, olheiras e tudo o mais. A maquilhagem obscurece os danos do evento por realizar.
Anuncias-me que vamos ser quatro e não dois. Penso em gémeos. 
Falas-me em Pais. 
Por pouco tempo. 
Vejo a noite de núpcias, como um espectáculo de futebol, onde a bola não entra, só vai à barra. Vejo os meus dias estragados pela presença de fantasmas… Questiono a razão.
Dizes-me que são obras em casa… Eu diria que faziam casa nova. À nossa custa. Antevejo o divórcio em pouco tempo. Suportar os sogros é a segunda maior razão de divórcio. A primeira é o casamento.
Faltam dias para o evento. Sinto-me um condenado à forca. Digo-te, num assomo de virilidade, há muito esbatida pelo «Sim, querida!» que não. Não há lugar num raio de mil metros para a presença inconveniente da paternidade e maternidade ascendentes. E se assim o quiseres, não há união… Desunião e recessão.

Dizes-me que vivemos juntos há anos. Há coisas impossíveis de negar. Mas agora era o fim do vínculo. Caímos no erro de salvar a união casando, quando isso marcava o fim e não o princípio.
Alinhei. Na esperança do que o futuro traria. E só via chuva da banda de fora da janela. Lamento disse eu.
Recupero agora as bolas da coragem e digo-te que o nosso tempo acabou.  Não te amo mais.
O caminho que fizeste, acabou por me matar. Mas tu… Tu estavas deliciada, perdida na fantasia de momentos belos.
Esqueceste-te de mim. Do que eu sentia. E eu deixei de sentir. Por ti. E por mim.
Perguntavas-me se era feliz. Eu dizia-te a melhor mentira que tinha, por ser uma questão: Mas dúvidas?
Libertas a última barragem de artilharia na minha terra de ninguém. Grávida. Gravidez preocupante. Apoio moral. Físico que não posso dar. Essa era razão verdadeira. Senti-me um pulha. Mas dissera a verdade. Acabou. Com gémeos adivinhados. Serei um bom pai. E um melhor marido. Não me caso. Saio de casa, com as armas minhas, nas tuas bagagens. Separo tudo. Torno-me eu de novo. Apenas com dois rebentos e uma pensão de alimentos acordada entre pessoas de honra.
Mataste-me de amor. 
De carinho.

E fui de carrinho. 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Copo do dia - Há dois caminhos

Há dois caminhos

Há sempre dois caminhos ladeados de árvores que vão dar às rotundas que tomamos por decisões.
São rotundas ilusões de caminhos a escolher, entre os dois caminhos que são um com dois sentidos.
Quando conheci a aquela miúda reguila, de cabelo cor de avelã, apresentada como filha aos seus cinco anos, percebi que a minha vida de solteirão mudara. Mudara porque nunca fora tipo de me esquivar a responsabilidades. E se tivera sustos na carreira de gestor de alegrias momentâneas, nunca fora confrontado com a vida criada pelo acto.
A verdade, essa verdade, é que agora era Pai. Aliás já era, mas desconhecia. A mãe, incauta mulher, cujas formas secas, agora abrangiam mais carne e cansaço, pedia-me encarecidamente com a voz em tom de ordem, que já era tempo de assumir o caminho da paternidade. Mesmo que entre ela e eu restasse apenas uma terna memória de uma noite perdida numa cama algures no "Porto Sentido" do Rui Veloso.
Dia 6 de Junho. Quase há 6 anos. Quase uma noite. Quase nada. Não me lembro de me levantar, agradecer o acolhimento, a noite que se gastou num entrelaçado de ossos e tendões.
Ainda houve mais uns telefonemas. Mais uns pedidos… Mais uns «Quando voltas ao Porto?»
Voltei. Mais vezes. Todas as semanas. Mas nunca mais a vi. Até ontem. Até me apresentar a pequena Luísa. Nome da Mãe, da tia da avô, nome perdido. Nome que gostava. Eu sei lá… fiquei enternecido quando a vi. Chocado quando me disse: É tua!
Vernáculo à moda do Porto. Imenso vernáculo contido na boca, como se fosse um vómito retido. Estômago às voltas como se não houvesse comida que se segurasse.
Qual chá…
Combinamos encontrar-mo-nos no Majestic!
Pedir um Cimbalino.
Não!
Pedir um Whisky duplo. Sem gelo. Bebê-lo de um trago. Não há café que segure a surpresa… Fazê-lo longe da miúda.
Apaixonar-me no instante antes. Angustiar no momento depois.
E agora?
Agora tenho uma filha. Vivo em Lisboa. Tenho as namoradas ocasionais a quererem ser mães de futuros rebentos… Isto vai ser complicado. Ou não…
Mas agora não penso noutra coisa.
Cor de avelã. Cabelos!
Azul do Mar. Olhos!
Sorriso! Meu, talvez!
Corpo da Mãe? Sei lá!
Filha minha? Após comprovação.
Filha minha? Se não for coração partido.
Paixão? De certeza.
Acordei ficar com ela um mês no Verão. Com as regras da casa transpostas. Se a Luísa se sentir mal, volta. Se quiser fica.
Começo a fazer planos.
A fazer caminhos.

A fazer o caminho em direcção à rotunda que só tem um sentido. 
Não vejo outro caminho. 
Também não quero.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Copo do dia - Há sonhos que não devemos realizar

Sinto uma dor enorme. Quase tão grande como a faca de cozinha que agora surge no meu peito, pela tua mão.
Na realidade a dor do corte profundo é maior pela traição que me fazes, do que pela morte que me chega.
Ainda por a razão pela qual o fazes é absurda. Fazes porque me amas? Há umas semanas quando me cruzei contigo 7 vezes num dia, assumi a coincidência. Só o podia ser. Finalmente autor reconhecido pelo mundo, só não sou famoso.
Mas no entanto lá estavas tu. Na última vez em que te vi nesse dia, trazias disfarçadamente um livro. Era o meu. Nem me reconheceste. Não podias. Mas eu reconhecia-te. Reconhecia a tua elegância aparente, o jeito de tocar o chão como se não houvesse, a suavidade com todos os fios de cabelos se ajustavam à tua cabeça.
E os olhos…os mesmo que olham para mim, enfeitiçaram-me.
Eras demasiado para deixar escapar… Passei eu a perseguir-te um à espera do momento certo…
- Gosta desse Livro?
- Sim. Mas só o comecei há pouco.
- Eu conheço o autor. É Bom tipo.
- Eu diria que o autor é você, pelo menos pela foto que se apresenta no livro.
- De facto sou o autor… Mas continuo a ser bom tipo.
- De facto, só após comprovação.
Depois de inúmeras ocasiões em que pude comprovar ser um bom tipo, começou a surgir na tua face uma ruga estranha, alucinada. Uma ruga, que causava arrepios. Uma ruga no corpo e na alma. A inveja e a posse.  O ciúme…E no entanto nada, mas nada havia mais do que as páginas do livro que escrevia agora.
O meu corpo começou a rejeitar a tua presença. A minha alma atemorizava-se. Os meus olhos viam o corpo divino, corrido a inteiro pela divisão entre o bem que me fazes e o mal que tens dentro de ti. Disse-te que era melhor reduzirmos a velocidade um pouco, que preciso de tempo para me compor…
O teu corpo retesou-se e o teu olhar cristalinos turvou-se com a fúria de uma mulher rejeitada. Mas não te rejeitava ainda. Nada disso.
De repente nas tuas mãos está um faca gigante. De cozinha. Eu digo-te simplesmente para a largares. Mas antes que o faça por completo, sinto-a a rasgar a minha carne e a embater nos ossos que me seguram…
- Se não te posso ter, ninguém te terá…
- Pareces uma linha de um mau filme.
Chama a emergência médica e resiste à tentação de me apunhalares outra vez…
Ao menos lavaste a faca depois de cortares a cebola ou pretendes refogar a minha carne nos infernos…

O estoicismo decresce com o sangue perdido. Vejo-o percorrer o meu peito. Vejo-te impávida. Bloqueada no tempo e nos espaço…
Só gritas: 
- Desculpa! Desculpa! Eu não…
Aí perdi os sentidos…
Perdi o tino.
Perdi-me na rua em que caminhava antes de chegar a casa…
Acordei na manhã em que vi a mesma rapariga 7 vezes no mesmo dia.
Na sétima levava o meu livro. Ainda tive a tentação de me aproximar dela. Mas uma dor no peito fez-me recuar.
Fora um sonho. Tudo um sonho. A marca da faca era sentida, mas invisível.

Há sonhos que não devemos realizar.

domingo, 26 de outubro de 2014

Copo do dia - Durante um ano e meio…

Durante um ano e meio de escrita, todos os dias me sentava na mesma esplanada virada para água do rio, a partir das 18 e 30.
Pedia religiosamente um copo de vinho, embora de etnia diferente e se me aprouvesse um scone, uma empada ou mesmo uma torrada. Ia ali para ver as ideias circular pelo pavimento, armadas de pés, pernas, coxas roladas, seios de todos o feitios, olhos escondidos atrás de lentes ou lentes que escondem a face… Ia ver as empregadas de mesa e as mesas cheias. Mas também as mesas vazias ou acabadas de vagar me enchiam a mente. Correspondendo aos turnos que faziam, uma dessas benditas empregadas, era a meu ver mal empregue. Reparava sempre nos seus olhos, com eyeliner preto em volta, realçando o azul límpido das águas de rio. Ia para a ver. Para a escrever. Ia, porque pelos acasos da vida, a minha mulher tinha escolhido estar com quem tinha obra publicada em vez de quem queria ter obra publicada. Podia aqui dizer que era um homem mais completo na altura do que o objecto do seu desejo, mas decerto não o era. Se a censuro? Mas claro. Tendo em consideração que um filho jovem estava na equação, censuro-a. Censuro-a ainda mais pelo facto de essa troca ter durado uns 6 meses. Pelo menos nunca quis regressar, fosse pelo esplendor do juízo ganho ou pela vergonha que ganhou finalmente. A vergonha era minha também. A vergonha de quem soube sempre ser um local de passagem e não um destino. E considerando que o sexo parecia obedecer ao cânone da Igreja, nesse sentido a gravidez dela foi o toque de finados para o nosso «entrosamento» diário… Convenhamos que era um prato sensaborão, comido na mesa da sala, no sofá, ou na cama… sempre insípido, como se fosse o picar de um bilhete para apanhar o comboio dos sonhos. Era deprimente. E a verdade era, que não queríamos ali estar. Um com o outro. Queríamos as pessoas dos sonhos que sonhávamos depois do mau sexo. O eyeliner preto em volta realçando o azul límpido das águas de rio, o escritor falhado, mas publicado… Esqueci-me de referir que esse autor, destruidor de lares destruídos, culpado por cronologia do que não tinha culpa era um escritor falhado. Publicado e destinado a publicar mais, mas dedicado à misoginia em busca de sentir-se humano. E ela esperava conseguir ser a musa…
Nunca mais quis saber dele. Dela, não passa um dia em que não pense. Até por causa do Diogo, nosso filho. Que tanto está comigo por três dias, como com ela.
Nesse ano e meio, só no último dia em decidira tudo acabar, ou melhor não voltar, levei o Diogo. Como pai extremoso, acautelei ficar no sítio abrigado da brisa. E deixei, com olhar previdente o infante com dois anos correr pelas madeiras de chão gasto, entremeadas pelas pedras decorativas que tanto fazem o género das esplanadas idealizadas pelo mesmo individuo.
As miúdas afoitas metiam conversa. O Diogo saia ao Pai. Giro. Risonho… como eu foram há muito anos… Cabelo dourado e olhos verdes. Como o Pai…
Ela aproximou-se. Perguntou se queríamos alguma coisa. E o Diogo, malvado, agarrou-se a ela. À perna e anca ligadas, com criança linda apensa. Apesar dos meus ténues convencimentos, Não libertou a bela cativa. Parecia ler a mente paternal. Ela, encavacada, Caitlin de seu nome, irlandesa e ruiva, pediu a uma colega para substituir enquanto convencia «the lovely little bugger that’s holding me» ou seja amorzinho que a agarra, a liberta-la.
As tantas intervenho com veemência, peço-lhe desculpas em duas línguas e mais um olhar… Agarro no Diogo e arranco-a… Ofereço-me para a compensar o incómodo, ou pelo menos oferecer-lhe um lugar na mesa, já que «o Diogo só tem olhos para si…». No seu português mais desenvolto do que o de muitos portugueses, diz que não pode ser, está a trabalhar… Ao que eu respondo que está num intervalo forçado e que insisto em que fique um pouco mais… Pelo acaso da bondade do destino a colega acaba por lhe dizer entre dentes e sorrisos, que fique um pouco mais (que noutro dia a compensa) … E de compensação em compensação, de palavra trocada em palavra trocada, a minha viagem de um ano e meio terminou. A partir daquele dia só iria para a ver. E ela, esperava eu, por mim aguardava. Não tardou que trocássemos mais do que apenas nomes. E o Diogo que ia crescendo, mantinha a sua paixão pela Caitlin. O Diogo acabou por ter uma irmã aos 5 anos. E manteve-se fiel... E eu, enquanto escrevo o meu terceiro romance, olho para a minha, que é a dele.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Copo do Dia - O Divã

Seria a minha última sessão. Os intermináveis anos, conjugados com as intermináveis visitas, haviam pago, sem desprezo, um belo carro e casa à minha amantíssima psicóloga e a mim, apenas longas horas de raiva perdidas nos pensamentos odiosos de quem se ama por inverso.
Cheguei a temer alguma sociopatia. Odiar as pessoas. O que de certa forma explicaria os auto-sentimentos que me cobriam antes.

O progresso anual cingia-se aos problemas do passado como explicação para o presente. E o futuro era mais um pneu do veículo. Aliás confesso que me faz confusão pagar a alguém para nos ouvir e fazer as perguntas certas, que um verdadeiro amigo nos faz em troca de um copo… E mesmo sem ele. O copo, diga-se.
Mas pronto, digamos que se trata de uma especialização. Ficar sentado, a enlouquecer, com as loucuras dos outros, taras e manias, o sexo dos anjos e os anjos que preferem não ter.
Todas as maluqueiras, desvios ou pertinências sãs, caem naqueles ouvidos.  E eles ressentem-se. Os olhos começam a transparecer a loucura que tenho na minha cabeça. Mas é a dela. A minha não é transferível embora me torne um pouco pegajoso com o tempo de vociferação.
Cheguei ao ponto em que preciso de me tornar independente de alguém mais maluco do que eu. Não me bastou casar com uma alcoólica em potência, ter um filho "teenager" cuja ideia de diversão é dar uma em tudo o que mexa e sem olhar a faixas etárias, mas indo sempre atrás da experiência dos anos… E sente-se nos píncaros.  
A mim, nem a amante paga que é a psicóloga, nem a secretária do ministério, uma boazona ruiva, que me teve duas ou três vezes na última semana, me fazem sentir mais ou melhor.
Pelo menos uma faz-me pagar bem o serviço, sem me fazer servicinho.
A verdade é que apesar de 220 anos a aturar…
Sim, disse 220 anos.
É o tempo de casamento que tenho, apesar de contado em anos de cão abandonado e comido pela vida… Voltando, 220 anos de união feliz e maravilhosa, em que o sentimento é igual a ter farpas de bambu espetadas por debaixo das unhas, enquanto nos obrigam a cantar o hino nacional e nos electrocutam os… Bem já perceberam…
A Maria, a minha esplendorosa esposa, que passou de um belo XS, com uma par convincente, para, ao fim do segundo rebento (dos quais apenas um é meu…oficialmente), L sem par algum de nota, nunca teve o meu amor. Teve o meu carinho. Mas se nesse sentido o carinho for amor, então menti na frase anterior…
Por mais que o meu abraço encontre dificuldade em contorna-la, a verdade é, que ela é o mais próximo que estive de construir uma família funcional. E funcional nos termos que o meu paizinho me incutiu, implica pelo menos uma amante…
Já agora, lição para o leitor: Amante sim. Por pouco tempo, mais do que uns meses e instala-se a ilusão do fim do matrimónio. E esta se calhar é prova de que não sou sociopata. Não as quero enganar, nem iludir. Confesso-lhes o medo (que não tenho) e sigo para a próxima. Exasperam um pouco pelo fim do sexo, digno de prémio (diga-se em boa verdade e modéstia). Mas de resto, recuperam depressa do momento de rejeição. Até porque as faço ver que sofro com a decisão… As crianças… As crianças… Certo e sabido…

Entretanto, a doida da psicóloga leva-me os segredos e o dinheiro. E sendo uma mulher com tudo no sítio certo, tem apenas uma cabeça tão destravada como a minha. Se calhar por vezes pressinto que esta era mulher certa para mim. Tão maluca ou mais. Mas portentosa…
Nunca me contou nada seu. Nem podia. Senão eu é que lhe cobrava o tempo.
Mas não adianta nada estar aqui. A falar para a boneca, quarentona enxuta. Vou acabar tudo com ela. Ou melhor, vou dizer-lhe que já não lhe pago mais nenhuma prestação do carro ou da casa ou da porcaria da máquina da comida por fazer que anda na moda.

Isto porque apesar de me ter conduzido a fazer as pazes internas, externamente sou um bimbo disfarçado tolhido por memórias compulsivamente inanimadas mas desagregadoras. Comporto-me como um «Fananzinho»: engato e desengato. E continuo vazio com isso.
Sinto-me vazio porque continuo a questionar, ao fim de uma vintena de séculos, porque é que a única mulher que amei e após a qual nunca mais nada senti, me disse: Não!
Pior, nunca tendo partilhado a cama e o beijo, o corpo dela sempre foi mapeado pelos meus dedos. E os seus olhos azulados como o mar de céu limpo, ladeado pelo sol feito fios…esses tiveram sempre o meu coração nas mãos…
Não preciso de uma boazona para me dizer isso. Talvez e somente para me dizer porque me casei com um futuro que não queria…
Em vez disso…
Foram cheques e cheques, com número de contribuinte na factura, desconto nas seguradoras, limpezas a seco, lavagens automáticas e recibo da mensalidade…
E eu, deitado num divã. Preparo-me para dizer, até nunca, acabou-se… E dou por mim a proferir: Até segunda…

Isto porque sou incapaz de dizer «Não!» a uma boa mulher!

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Copo do Dia - Há um ano...

Há um ano…

Lembro como se fosse ontem. Dizeres-me que tinhas de ir. Que não podias esperar mais. Era agora ou nunca. Deixares-me sozinho na cama, só pelo acaso da noite mal dormida. Despedir-me de ti sem o perceber… E perceber que tinhas ido sem mim, sem que a necessidade de partida fosse imediata.
 Querias-me poupar à sentença. À partida. Mas não tinha e ser assim. Tínhamos combinado que assim não seria. O Diogo e a Catarina não se puderam despedir de ti como queriam. Fazer-te uma festa. Como queriam. Como eu queria. Mostrar que este era o teu destino. Não o caminho por onde ias.
Atravessavas meio mundo para fazeres o que fazias melhor. E fizeste isso, connosco no outro meio mundo. Estavas sempre comigo. Haveria sempre uma peça de roupa tua, com o teu cheiro perdido. Aquela camisola de lã que se colava a ti, com o suor de quem tem calor demais para o frio e frio de mais para a neve. Dormi mil dias agarrado a essa camisola. Porque era tua, sem seres tu.
Fazes-me falta. Fazes-nos falta. A tua pele ainda se prende nos meus lábios. O teu sabor fica nos meus olhos. Ainda sinto na língua todos os altos e baixos do teu corpo. Ainda sinto isso como se o teu se colasse ao meu.
Mas partiste. E estavas longe. A meio mundo. Há um ano e um dia…
Mas há um ano, ainda entaramelado pelo sono, pelo aguardar de uma chamada, recebo uma visita.
Um gentil homem, um burocrata com boas intenções, solene e hirto, trazendo com ele notícias tuas. Que te perdeste na selva. Nas cidades desse fim de mundo. Raptada desta vida. Sem possibilidade de resgate.
Perguntam inutilmente se podem fazer algo mais. Apetece-me dizer-lhe que se vão foder. Mas essa acção não me parece nem construtiva nem apaziguadora.
Tenho de anunciar aos nossos miúdos que não vais poder voltar. Que vou ter de ir ao outro lado do mundo buscar-te…
E nessa viagem, há um ano menos 5 dias, encontro-te novamente. Uma réstia tua. Uma memória tua. Algo que és tu, sem o seres.
Não me aguento. Fujo de ti. Como fugi nunca. Não és o amor da minha vida. Não és a cinza do que resta de dez anos, 2 filhos e sonhos. Choro, copiosamente. Choro, profusamente. Choro sozinho, acompanhado dos olhares piedosos de quem sabe o que é perder
Parte de nós.
Recomponho-me…
Há um ano menos 10 dias despedi-me do teu corpo. Fiz das tuas fotos um memorial. Das tuas memórias uma catedral de vento. Fiz do teu amor uma capela imperfeita.
Fiz de ti local de visita. Primeiro todos os dias. Depois dia sim, dia não. As nossas conversas já não eram como antes. As tuas respostas eram divinações minhas. Há um menos 6 meses…deixei de poder ir. Havia dois seres, que eram nossos, que exigiam atenção. Não lhes custa não te ver. Custa-lhes não te ouvirem, não te cheirarem. Custa-lhes não te sentirem no beijo matinal, no abraço antes da escola…Acho que ainda têm esperança que regresses das tuas benditas viagens.   Até eu o espero.
Há um ano e um dia, perdi-te. Há um ano e dez dias entreguei-te. Há um dia comecei a chorar.

Hoje encontrei o amor que perdi. Encontrei-o na minha imaginação a dizer, o que sempre disseste antes de partir, excepto há um ano: Esperas o quê, seu tonto? Que a vida arranque sem ti? Levanta-te dessa cama onde fomos um e vai ser tu com o mundo que te espera. E agora deixa-me ir. O meu mundo espera. Amo-te! Até ao meu regresso.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Copo do dia - Odeio-te porque te amo

Odeio-te…
Odeio-te porque te amei. Odeio-te porque não me amaste. Odeio-te porque escolheste. Odeio-me porque aceitei.
Odeio odiar.
Ia começar por dizer que a verdade é… Mas sempre soube que não era. Afinal enganavas-me.  E eu a ti. Eram duas mentiras juntas que fazem uma verdade. Dois caminhos separados unidos  à força de braços. Pontes construídas e periclitantes. Sexo regularmente fortuito. Ou fortuitamente presente. Ou presente sem alma. Ou alma perdida pelo desprezo que temos um pelo outro que aparenta ser a verdade e no fundo são falsos amantes, amigos e confidentes.
É verdade que nunca nos casamos. Éramos dois seres casados com as melhores pessoas do mundo. E por isso mesmo, não casados um com o outro. Se definição houvesse do extra-conjugal, nós seríamos a figura representativa, se bem que pixelizada para omitir a nossa traição. A verdade, a verdadeira verdade é que ódio que temos é o nome que damos ao amor que temos. E dessa forma escondemos do mundo o segredo que não queríamos ter.
Sonhamos ser um só momento. Ter família. Juntos. Filhos. Nossos.  E na realidade tínhamos tudo isso, só que com as pessoas cujo o nosso amor deixou.
Amamos. Amámos. Continuamos. Continuámos. Somos. Amor. Um para o outro. E no entanto sendo um para o outro não somos mais do que um momento.  Não somos mais do que instante do que um orgasmo feito em rapidinha. Ou numa hora ou duas. Na cama, no sofá… Em cima da mesa, onde nos comíamos e jantávamos o retemperar de forças.
Não sei. Não sei mesmo como me vou aguentar sem ti. Nem sabia como me aguentava contigo.
Odeio-te tanto que me apetece morrer de amor.
Odeio-te tanto pelo caminho que para longe vai.
Odeio-te tanto por te sentir bem.
Odeio-te tanto pelo que me fizeste amar, pelo amor que me convenceu, pelo amor que me tenho agora.

Odeio-te porque te amo.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Copo do dia - Amantíssimo divórcio

Amantíssimo divórcio

Tenho uma nota de protesto a apresentar. Não faço questão de o fazer em papel formal, mas as palavras que utilizo falseiam o vernáculo.

A verdade da minha presença na tua presença é uma banal mentira que contamos a nós e aos outros. No momento em que a porta da Igreja se abriu e nela entramos, começámos a mentir um ao outro. E ouvimos as mentiras que os outros julgam ser verdades, usadas para celebrármos a nossa «Hostile Takeover». 

Sim. 
Hóstil.

Não houve momento em que as nossas dúvidas não salientassem o caminho que não queríamos tomar. Não houve instante em que os nossos corpos caminhavam na direcção oposta ao destino definido no nosso olhar.
Somos uma vergonha. Pior. Uma mentira. «Tadinhos» é algo que nos assenta como uma luva. Não sabemos que o somos, mas assumimos o papel.
Vergonha. Isto que nos une é uma vergonha. Nunca pensei dizer-te isto.
Amava-te demasiado para me casar contigo. Ainda te amo assim. Por isso quero o Divórcio.
Quero poder amar-te livremente destas regras bacocas que nos impedem de ser felizes.
Quero ser a pessoa que amaste um dia.
Quero… Muita coisa. Mas sei que não vais compreender este rumo. Nem percebes como te posso amar, sem estar contigo.
A verdade, outra das minhas, é que não só é possível, como inevitável. Assim não fosse não teria deixado o Alberto meter-se nas nossas vidas. E ao menos podias ter ido para um Hotel ou coisa vetusta que valesse poiso a amantes e não o leito sagrado do quarto que só serve para dormir.
Ao fim de dez anos é o te tenho a dizer… Isso e que havia outra. Outra mulher. Outra com a qual me deitava. Outra que era a que me ocupava todas as noites. E com a qual fazia amor. Todas as noites.
«Como?», pensas tu?
Se todas as noites me deitava contigo…
Sim verdade. 
E com ela também.
Deitava-me com a memória da mulher que foste, antes de serem minha.
E essa é a mulher que quero de volta.
Sei que não o vou conseguir.

Mas não posso estar com uma mulher que não amo, nomeadamente tu, amando perdidamente uma mulher, que foste tu.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Copo do Dia - Doidos

Somo todos doidos, já te disse.
Somos! Tenho a certeza.
Não jogamos com as cartas do baralho todo. 
E se alguém diz que joga, então é porque roubou as cartas a alguém.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Copo do Dia - Esquecer

Não consigo esquecer os olhos verdes que vi. Nem esquecer os meus olhos nos teus.
O teu beijo na minha face, a minha mão no teu braço.
As tuas ancas roladas, o teu passo fugidio.

Sim, são banalidades

Tal como dizer que o teu sorriso me interroga.
E que no mundo que foram aqueles minutos,
Estiveste mais perto do que queres e do que queres estar.
Banalidades.
Afinal, és apenas a minha imaginação.

Embora de carne aconchegada a osso.

Copo do Dia - Impossibilidades

A vida é uma sucessão de impossibilidades. Seja pela crença na Deusa da Impossibilidade ou pela impossibilidade de acreditarmos que as possibilidades são prováveis.

Alias tudo é provável. E possível. 
Depende apenas do caminho que se quer fazer. Decidi então esperar o improvável ao pé do momento impossível.

Esgueirei-me do trabalho, cedo o suficiente para ensaiar o momento de encontro ocasional. Atravessei meia cidade, olhando os teus nos meus olhos. Queria encontrar-te acidentalmente. Por acaso forçado. Desenhei um plano de espera descontraído, que demoraria as horas necessárias para ser fortuito. Combinei até com S. Pedro, para que uma torrente de lágrimas perdidas caísse do céu, para te poder abrigar debaixo de um aconchegante guardião. Exigi a Vulcano, Deus grego dos Infernos que desligasse as suas fornalhas, para que o frio invadisse o ambiente e o teu corpo encontrasse o meu. Infelizmente, acordei, de seguida, na cama. Sozinho com a locutora de rádio, que imagino ser uma esbelta mulher, pela voz doce e forte que tem. Imagino os seios roçando o teclado, quando tenta atingir o botão que silencia a sua voz. E acordo outra vez do sonho, perdido do sonho que sonhava. 
Ergo-me confuso da cama e vejo-te ali. Toco-te... Sinto a tua pele, o teu respirar doce. Um solitário bom dia, acabrunhado pelo espreguiçar que imita os gatos, como o que fazias nos meus sonhos. Rebolas-te para o meu lado e com um gesto pedes-me um afago no cabelo. 
Não resisto a beijar-te. Beijo-te testa, coberta pelo cabelo longo e alourado. Beijo cada uma das rugas que os teus olhos fazem, quando franzes o nariz, depois dele próprio beijado. Beijo cada um dos teus olhos, lagoas banhadas pelas pálpebras e pestanas alinhadas. 
Beijo cada uma das covas que surgem quando os teus lábios sentem os meus. Beijo-te. 
Beijo todos os teus recantos.
Fico com o teu sabor, na boca. Saboreio o resto da vida na tua pele, feita sensação, enrolada na minha língua. 
És o meu sustento. 
Pois nada mais sabe ao que sabe para os outros, porque tudo me sabe a ti. 

Fecho os olhos.
Sei que o sonho vai acabar e que vou acordar.
Deito-me novamente, abraçado ao teu corpo feito névoa. 
Oiço a tua voz ribombar no meu peito. Exiges-me dentro de ti. Para me sentires todo o dia. Toda a vida.

Cedo-te sem reticências. E as horas passam. E a música que a voluptuosa locutora passa, apaga-se nos nosso cheiros. Fazemos as nossas próprias letras. O nosso próprio compasso.
E adormeço em ti. Ou melhor, findo-me no meu sonho de ti.

Quando abro os olhos, esperando um tecto branco, uma cama vazia para além de mim...
Vejo-te a ti. 
A beijares. 
A beijares-me onde te beijei. a percorreres os meus recantos, a enrolares o meu sabor em ti.

Apercebo-me que não sonho. Não durmo. Não nada. A não ser tudo, tu!
E no abraço que me dás fico a saber, que nos meus sonhos não te encontrei, naquela rua onde te esperava, porque estavas comigo, na mesma cama, sonhando o mesmo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Copo do Dia - Desejos

«Quem me dera que as palavras se passeassem pela minha mente, com a elegância com que passas pelos meus olhos. 

 Que a elegância que tens nos teus olhos, se transformasse em palavras nos meus ouvidos.Ouvir das tuas mãos, a viagem pelo corpo imaginado junto. 
E viajar pela vida contigo, adormecida na distância entre ombro e boca que beija. 

 Quem me dera, que te desses, num momento em que a elegância que passa, seja a tua sombra junto à minha.»

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Copo do dia - A expectativa

«Não vale a pena criar uma expectativa de que me vou voltar a cruzar contigo.
Afinal de contas, sei bem que nunca mais me vou cruzar contigo. Não é um desejo, mas um anti-desejo que me leva a esse pensamento. Sentir o teu olhar tocar as minhas mãos que te agarram a alma e o sorriso, num misto de esmeralda verde água e carne tornada pele pálida,  Sentir o ar que movimentas, na elegância do momento que se dispersa pelo tempo em que me perco a olhar para a tua fotografia. Aquela que tirei com o meu coração e o meu cérebro transposta para um papel "matte", vindo do fundo da gaveta das memórias fotográficas que me vão alimentando o desespero de voltar a encontrar a mulher com a qual sei que nunca mais me vou cruzar…
Sim repito este esquema de alienação momentânea da realidade verde-água, tornada esmeralda, diamante. Garanto assim a sobrevivência do caminho sob os meus pés, aquele que aspira um dia ser o olhar que te abraça, verde celeste.
Sei que nunca mais te vou ver.
É a minha triste sina. 
Não. 
Não triste. 
Alegre. 
Vi-te!
Ver-te.
Sentir aquele instante mágico que dura o tempo em que os teus lábios tocaram a minha face, de barba por fazer…
Sim, esse momento dura.
Dura, sempre…

Mesmo que saiba que não te volto a ver.»

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Copo do Dia - Comunicação por sorrisos

O sorriso é na sua essência o momento de comunicação mais puro que existe, fora o olhar. Não é possível mentir sem que o sorriso não seja ele uma mentira. E não devemos confiar quem nele não consegue confiar. O sorriso, mesmo mentiroso, garante um grau de conforto que nenhuma outra mentira garante. Mas e este é um gigante mas, nem tudo o que arqueia os lábios é sorriso. Há expressões que se fazem passar por sorriso. Mas o são. São falsificações destinadas a dar a sensação de falsa segurança.
Convém diferenciar o sorriso mentiroso do falso. Um aconchega a alma, mesmo que por curto momento.
O falso, só causa desconforto.
A ausência de um sorriso honesto acaba sempre por matar o caminho. A sua presença traz paz…

Um sorriso é!

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Copo de shot - Um sorriso por dia

«A tua atitude faz apenas com haja menos um sorriso por dia, entre todos os que tenho para dar.»

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Copo rachado - Ode curta a uma perna engessada

Ode curta a uma perna engessada

Era uma vez uma perna engessada em pleno Verão. 

Aliás um conjunto de pernas engessadas em maior ou menor grau que decidiram tirar as férias aos seus utilizadores.

Talvez seja um sinal divinamente "pernal" ou mesmo pedal de que o ritmo com que tropeçamos na vida tem de abrandar.

Afinal de contas, a vida a correr, a pedalar ou mesmo a quebrar, passa tão rápido que por vezes,para nos darmos conta do evento, temos de ser acordados pelo imobilismo.

Uma perna partida, um pé dorido, um joelho contundido, uma cabeça amolgada são formas gentis de o universo dizer que o caminho que seguimos não é bem seguro. Ou pelo menos que o devemos fazer com um capacete.

Assisto assim, em meu redor, ao romper com a tradição de muitas pessoas, com os seus corpos a desfazerem-se por intervenção de um calhau metamórfico. Ou calhau bípede, conforme o momento.

E assim, agora remetidas ao descanso forçado, vivem numa prisão delimitada pelo movimento canadiano de apoio, quiçá "bengalar" almejando a libertação para um dia de sol.

Azar. 

Estais presas ao Gesso que vos envolve, como um abraço fatal. Não vos podeis queixar do frio da noite, nem as vossas extremidades intentam ser um movimento de libertação refrescante.

Por isso devo dizer-vos com humildade, que vos deveis divorciar dessa restrição. Aquece-vos para um inferno, agrilhoa-vos na vontade, serve apenas o propósito de nada fazer.

Sabendo que somos animais de hábitos, de movimento e que a inércia é um estádio reservado para os sofás digo: Libertem-se!

Chegou o momento de quebrar as correntes e não ossos.
Liberdade para os vossos tornozelos.
Liberdade para os vossos joelhos.
Deixai as tíbias respirar.
Que o vosso pé tímido seja um passo para o futuro brilhante dum Outono trocado Verão.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Copo do dia - «Embalar»

«Há momentos que ocupam a minha mente, tidos como uma traição do tempo que passa. Fazem pensar num tempo gasto, ambicionar sonhos rotos, deixar ventos passar pelos dedos que protegem a face. Há momentos que me trucidam a esperança, a vontade, o querer e o desejo. Que me desfazem nas componentes mais básicas do meu ser. E num desses momentos em absoluta simplicidade, olho para a primeira página em branco e descubro que há amores que se encontram e amores que se constroem. 
Os segundos são sempre a maior ilusão com o maior custo. 
Os primeiros não custam nada, a não ser tempo que deixamos de ter para imaginar os amores, para os ter embalados, encaixados nos braços.»

Copo Contínuo - «Tudo o que vou dizer é verdade»

«Todos os dias envio mensagens em garrafas. Espero respostas como qualquer outro. Espero o silêncio. Mas por vezes respondem e nesse momento perco a fé que o silêncio já tinha hipotecado. É difícil explicar esta motivação estranha. Afinal de contas não serve ao ego, nem ao futuro. Se calhar, porque espero que a resposta seja a que me arrebate.»

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Copo do Dia - Indefinido

«- Só queria dizer que não sei muito bem o que sinto por ti.
- Isso é simpático. E quem sabe então?
- Só te digo que EU, não sei.
- E esperas que faça o quê com essa revelação. 
Agora?

Recuei. Um passo atrás para dar dois passos em frente. Dizer-lhe que é a mulher por quem eu esperei toda minha vida, mas que... Que não é...É estranho. Aliás tão estranho que nem sei o que isso significa. Tentar definir o que sinto num piscar de olhos não é menos difícil do que pedir que um bebé em pranto se cale. E como esse infante, também eu estou em pranto. Mas silencioso. Afinal de contas tenho de dizer à mulher da minha vida, que não é a mulher da minha vida, apesar de o ser. A verdade é que ela pertence a uma vida passada, com a qual já não me identifico. Que não me diz nada. Que nada me é a não ser a memória.

E ela era o ideal de tudo o que sempre quis nessa vida. Mas eu mudei, Mudei de Vida. Fui para Londres trabalhar como corretor, como investigador, como professor, como qualquer coisa que pagasse os balúrdios que um aluguer custa. Conheci-a no East end. Falava como eu, sem sotaque. Tinha vindo do Porto. Cantora. Espadaúda. de seios ternurentos, olhar perdido no azul, voz ora doce, e à hora potente. Pernas elegantes encimadas por um pescoço. Feições curtas, maçãs salientes, queixo distinto, sobrancelhas cuidadas. Olhei para ela e apaixonei-me. 

Falei com ela, com a timidez do insucesso passado. Trouxe todas as armas de sedução afinadas pelos anos de perdas insustentáveis. Charmant, com humor refinado.  Arranquei sorrisos alegres à face sisuda. Convidei-a para um café, numa daquelas coffee shops que insistem em substituir as Tea Houses. Tea and scones, vs. Coffee and Bagels. Sendo eu o mais tradicional não nativo e ela a mais nativa não tradicional, escolhemos diferentes mundos. E fomos cruzando os caminhos do sabor. Nunca seríamos iguais. Seríamos sempre opostos. E isso fazia com que fossemos perfeitos. Excepto pelo facto de a vida ter-me feito deliciar com outros voos.

Amo-a sem a amar. Amo-a como a memória. Não. Nada disso. 
Não sei.
A minha mente é um nó górdio. Se ela o desfizer, afinal será presente.

- Amo-te. Mas amo-te como a pessoa que já não sou.
- Então és quem? - Perdendo a calma.- Foi este o homem que me arrebatou? Que me roubou sorrisos, como se fossem gotas de chuva. Dizes-me que não me amas. Ou melhor, que não és a pessoa que me ama? Sabes o Amor... Esse sentimento perversamente feliz, não chega!

- Como?
- Se ainda não percebeste isso, então o caminho que fizeste ainda não acabou, não achas?

A surpresa surgia ali. O click emancipador. O cérebro atrofiado voltava ao normal, Não era só amor. Só amar. E só quem o percebia estava no mesmo tempo que eu.
Beijei-a.

- Então casamos ou não? Sempre achei que seria eu a reticente.
- Panos e nódoas. E dúvidas.
- Cold feet, querida. 20 minutos para darmos o nó.» 


domingo, 31 de agosto de 2014

Copo do Dia - A Sabedoria que acontece...

«Providencialmente, tenho um livro sempre comigo. É uma espécie de guarda-costas. Ainda o prefiro, a usar um Smartphone para afugentar dumb people. Isto porque um livro também atrai smart people. Ou, pelo menos essa, é a minha fantasia.
A sua utilidade absoluta só surge com as mulheres. Nunca li o «Guerra e Paz» nem a Enciclopédia Luso-brasileira em 59 volumes. Mas todos os minutos, juntos, que esperei por uma mulher, abatendo todos os que elas esperaram por mim, contabilizam facilmente 4 ou 5 leituras dessas obras. A verdade é que sendo eu um devorador da companhia feminina, seria muito mais culto se sempre me fizesse acompanhar de um livro. Sei que se alguma delas ler isto vai contestar. Conteste! Conteste a seu contentamento. O relógio não pára neste jogo de xadrez. Bispo faz cheque ao Rei, Rei passa cartão de crédito à Rainha. Peão carrega as compras...

Cheguei ao local combinado. Pedi um «Latte Machiato». Pego numa nota e recebo uma quantia mais curta do que a que entreguei, mas transformada em moedas. Faço as contas. Se tivesse pedido um galão de certeza que era mais barato. 25% do preço está na tradução. Ou no lote café Kenya Suave.
Carrego herculeamente a chávena, o livro, a carteira entre-aberta, cheia de papéis de gasto e sem papel para gastar.
Sento-me.
Encaixo-me num sofá pouco confortável ao primeiro toque. Amanho a superficie do mesmo, como um gato ou cão ajustam a sua cama... Faço-o apenas pelo movimento de ancas.
Adoço o líquido. Admiro o rodopio da espiral celeste que se forma na espuma...
Recebo uma mensagem: «Estou atrasada.»

Já contava com isso. Respondi. «Tudo bem. Trouxe um livro.»
Leio.
Leio. Leio delícias.
Leio delícias escritas por uma mulher sobre homens.
E é mesmo assim.
Leio delícias escritas por uma mulher sobre mulheres.
E vejo-o assim.

Delício-me com as imagens do sexo. Do pós-coito. Do pré. Delicio-me com a ausência da palavra sexo nas cenas com ele.
Vejo o exercício fortuito de achar a descrição bela e a palavra feia.

Minto!
Não havia nada mais do que dois corpos entrelaçados. E o que acontecia depois era apenas movimento.

Recebo nova mensagem. «A Caminho»
Respondo. «A Ler»

Muitas páginas depois, chegas.
Falamos
Contas-me o motivo do atraso. As novidades. Os momento deliciosos. Sinto saudades do teu toque. Então toco-te, passando as mãos pelo teu cabelo. Nem o sentes. Afinal sou parte de ti, sempre o disseste. Apenas não partilhávamos mais do que uns minutos na eternidade.
Apenas o suficiente.

Conto-te as minhas novidades. A minha ausência de novidades. A ausência do futuro que sinto ter. Das oportunidades que não tenho.
Perguntas-me se tenho escrito.
- Pouco ou nada. Aliás escrevi um texto excelente. Queres ler...
Dou-to para a mão. Começas a lê-lo no ecra do telefone.
- Não gosto deste texto...
- Lê até ao fim.
- Não gosto do início.
- Lê. Eu sei que é triste.... Mas lê. Esta muito bom.
- Presunçoso.
- Não sou. Ou melhor... Ninguém o vai ser por mim.
- Não gosto do texto...
- Sabes que te levava mais a sério se não te risses...
- Mas não gosto.
- Então pára de mostrar que gostas...
- Que queres! És fantástico a escrever... Mas não gosto do texto. Mas adoro o que escreveste.
- Já ouviste falar de mensagens contraditórias?

Sim precisava de mais alegria.
De mais algo.
Precisava de estar ali.»

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Copo do dia - A lâmina feita carta

«Confesso que a minha vida ultimamente tem sido algo "pobre". Falta-lhe alguma coisa.
Mas infelizmente sei o que lhe falta. Todas as noites, duas mulheres cruzam o meu olhar. Certo é que há mais mulheres, mais homens, mais pessoas e animais. Mais imagens e ar que afectam o meu ser.
Mas uma é o amor da minha vida.
A outra podia ser.
O amor da minha vida é um símbolo supremo da elegância vestida de humana. Uma felina pura, de silhueta apurada, caminhar deslizante e silencioso. Isto até ao momento em que, provocada, a leoa se solta do corpo franzino, ribombando o chão com as suas passadas de caçadora, mas antiga delícia.
Foi e será sempre o amor da minha vida. De uma vida que escorreu pela minha alma, lavando-me dos pecados. Mas ela própria era um pecado. E continua a ser. O pecado que perdi. A primeira mulher que me disse as palavras mágicas. Que nos deu até dois anos de paixão, sendo que depois esta iria esmorecer. Mas não. Ainda não passam dois anos. E pelas minhas contas nunca irão passar.
Mas os meus pecados voltaram. Mais limpos é certo. E estou mais convicto dos mesmos. Esperando, no entanto, que tudo daí em diante fosse diferente. E foi. E é. Nem podia ser mais diferente. Jamais poderia voltar, por mais vontade que tenha. O tempo não pára por mim, apesar de termos uma amizade longa.
Recusei, por medo, o carinho que me davas em público, pensando proteger-te do mundo e das inquirições que te perturbavam. Ou, quis manter-te o meu segredo. Ou quis… Não quis… Fui cobarde. A verdade é essa.
Cobarde.
Podia ter-te abraçado pelo tempo em que podia tê-lo feito. E que me apetece ainda, todos os dias, fazer. Abraçar-te. Beijar. Tocar-te. Simplesmente encostar a minha cara na tua e dançarmos aquela melodia que nos surgia sempre que estávamos juntos, como se Deus se tornasse o DJ dos nossos dias e as músicas fossem as mais célebres compostas pelos nossos corpos.
Eram as que escrevíamos com cada passar de dedos. Com cada suspiro. Cada ranger da cama, estalar das madeiras falsas do fabricante de móveis que duram tanto tempo como tu previas que o nosso amor durasse.

Se calhar é por isso que se gasta tanto dinheiro em móveis maciços e caros que duram uma vida. Esperam que o amor tenha a mesma duração. Resista aos estragos, aos riscos, às crianças ao cão que rói, ao gato que arranha, ao prato lançado em fúria, ao acidente funesto com o amigo desajeitado, à traição na cama.
Móveis de amor, tornados lenha e serradura. Ou doados a quem os estime mais.
E tu estás mais estimada?
Nunca fui madeira. Fui criado na selva de betão. Baloiçava-me, não de árvores, mas mobiliário urbano. Sentia o cheiro a relva cortada ou molhada como exótico e sentia o odor do alcatrão como perfume normal. Era aço frio, por temperar.
E agora sem ti…
Sou… Aquecido, batido, dobrado.
Arrefecido…
E aquecido de novo…
Retomando um ciclo. Sempre com um novo ferreiro. Sempre com um novo martelo, nova forja, bigorna, a transformar-me na espada que corta sem perguntar, com a delicadeza que só uma alma, de aço ou de carne, pode ter.
Sou Katana receoso de o ser… Não estou nas tuas mãos cautelosas.
E sem ti sou meio fim.

E a mulher que podia ser?
Essa é ferro fundido. Ou confundido. Capaz de usar o meu aço com a menor delicadeza. Aliás, nada nela é delicado. Toda ela é um monumento ao ódio que sinto nutrir por mim.
Sim.
Sinto isso. Sinto um ódio feroz. Talvez um desprezo. Talvez um desejo oculto. Talvez uma vontade de fazer o contrário do que mostra. Mas, pelo menos em aparência, essa negativa sensação é um sinal de oxidação na minha lâmina. E sinto-a como tal.
Sinto-a como uma parede, fortaleza impenetrável. Nada feminina, em boa verdade. Mas que sinto que pode ser.
Não sei se imita um blindado, preparado para a guerra, por temer ou por tremer.

Penso que teme a delicadeza do meu fio. O poder que traz com ele. Aquele que lhe retira a blindagem. Que a torna nua perante a humanidade. Teme ser despida da máscara que traz. Que é.
Que se convenceu que é.
Mas…
A sua face, em ocasiões, ostenta um sorriso que surge acidentalmente. Um olhar doce, que luta para sobreviver. Por oposição, todos os seus movimentos escondem-se. E eu, perante esta figura imensa que afugentaria boas almas, sinto-me atraído. A verdade é que o desafio, mas também a perplexidade tornam-me curioso. Mais do que o sensato. E por isso o ocasional sorriso enganado, não construindo esperança, mantém-me atento.
Gostava sinceramente de ver a mulher por debaixo da armadura. Acho que lá está uma. E acho que gosta de dançar. E de rir. E de sonhar.
Será que sonhas?
Ou tens pesadelos? 
Comigo?
Eu, alma de aço, dobrada mil vezes, nas forjas do império dos nossos sentidos, não me dou ao luxo de ter pesadelos. Nem de ter sonhos…
Minto.

Não faço outra coisa senão sonhar.»