quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Copo do dia - A lâmina feita carta

«Confesso que a minha vida ultimamente tem sido algo "pobre". Falta-lhe alguma coisa.
Mas infelizmente sei o que lhe falta. Todas as noites, duas mulheres cruzam o meu olhar. Certo é que há mais mulheres, mais homens, mais pessoas e animais. Mais imagens e ar que afectam o meu ser.
Mas uma é o amor da minha vida.
A outra podia ser.
O amor da minha vida é um símbolo supremo da elegância vestida de humana. Uma felina pura, de silhueta apurada, caminhar deslizante e silencioso. Isto até ao momento em que, provocada, a leoa se solta do corpo franzino, ribombando o chão com as suas passadas de caçadora, mas antiga delícia.
Foi e será sempre o amor da minha vida. De uma vida que escorreu pela minha alma, lavando-me dos pecados. Mas ela própria era um pecado. E continua a ser. O pecado que perdi. A primeira mulher que me disse as palavras mágicas. Que nos deu até dois anos de paixão, sendo que depois esta iria esmorecer. Mas não. Ainda não passam dois anos. E pelas minhas contas nunca irão passar.
Mas os meus pecados voltaram. Mais limpos é certo. E estou mais convicto dos mesmos. Esperando, no entanto, que tudo daí em diante fosse diferente. E foi. E é. Nem podia ser mais diferente. Jamais poderia voltar, por mais vontade que tenha. O tempo não pára por mim, apesar de termos uma amizade longa.
Recusei, por medo, o carinho que me davas em público, pensando proteger-te do mundo e das inquirições que te perturbavam. Ou, quis manter-te o meu segredo. Ou quis… Não quis… Fui cobarde. A verdade é essa.
Cobarde.
Podia ter-te abraçado pelo tempo em que podia tê-lo feito. E que me apetece ainda, todos os dias, fazer. Abraçar-te. Beijar. Tocar-te. Simplesmente encostar a minha cara na tua e dançarmos aquela melodia que nos surgia sempre que estávamos juntos, como se Deus se tornasse o DJ dos nossos dias e as músicas fossem as mais célebres compostas pelos nossos corpos.
Eram as que escrevíamos com cada passar de dedos. Com cada suspiro. Cada ranger da cama, estalar das madeiras falsas do fabricante de móveis que duram tanto tempo como tu previas que o nosso amor durasse.

Se calhar é por isso que se gasta tanto dinheiro em móveis maciços e caros que duram uma vida. Esperam que o amor tenha a mesma duração. Resista aos estragos, aos riscos, às crianças ao cão que rói, ao gato que arranha, ao prato lançado em fúria, ao acidente funesto com o amigo desajeitado, à traição na cama.
Móveis de amor, tornados lenha e serradura. Ou doados a quem os estime mais.
E tu estás mais estimada?
Nunca fui madeira. Fui criado na selva de betão. Baloiçava-me, não de árvores, mas mobiliário urbano. Sentia o cheiro a relva cortada ou molhada como exótico e sentia o odor do alcatrão como perfume normal. Era aço frio, por temperar.
E agora sem ti…
Sou… Aquecido, batido, dobrado.
Arrefecido…
E aquecido de novo…
Retomando um ciclo. Sempre com um novo ferreiro. Sempre com um novo martelo, nova forja, bigorna, a transformar-me na espada que corta sem perguntar, com a delicadeza que só uma alma, de aço ou de carne, pode ter.
Sou Katana receoso de o ser… Não estou nas tuas mãos cautelosas.
E sem ti sou meio fim.

E a mulher que podia ser?
Essa é ferro fundido. Ou confundido. Capaz de usar o meu aço com a menor delicadeza. Aliás, nada nela é delicado. Toda ela é um monumento ao ódio que sinto nutrir por mim.
Sim.
Sinto isso. Sinto um ódio feroz. Talvez um desprezo. Talvez um desejo oculto. Talvez uma vontade de fazer o contrário do que mostra. Mas, pelo menos em aparência, essa negativa sensação é um sinal de oxidação na minha lâmina. E sinto-a como tal.
Sinto-a como uma parede, fortaleza impenetrável. Nada feminina, em boa verdade. Mas que sinto que pode ser.
Não sei se imita um blindado, preparado para a guerra, por temer ou por tremer.

Penso que teme a delicadeza do meu fio. O poder que traz com ele. Aquele que lhe retira a blindagem. Que a torna nua perante a humanidade. Teme ser despida da máscara que traz. Que é.
Que se convenceu que é.
Mas…
A sua face, em ocasiões, ostenta um sorriso que surge acidentalmente. Um olhar doce, que luta para sobreviver. Por oposição, todos os seus movimentos escondem-se. E eu, perante esta figura imensa que afugentaria boas almas, sinto-me atraído. A verdade é que o desafio, mas também a perplexidade tornam-me curioso. Mais do que o sensato. E por isso o ocasional sorriso enganado, não construindo esperança, mantém-me atento.
Gostava sinceramente de ver a mulher por debaixo da armadura. Acho que lá está uma. E acho que gosta de dançar. E de rir. E de sonhar.
Será que sonhas?
Ou tens pesadelos? 
Comigo?
Eu, alma de aço, dobrada mil vezes, nas forjas do império dos nossos sentidos, não me dou ao luxo de ter pesadelos. Nem de ter sonhos…
Minto.

Não faço outra coisa senão sonhar.»

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