domingo, 31 de agosto de 2014

Copo do Dia - A Sabedoria que acontece...

«Providencialmente, tenho um livro sempre comigo. É uma espécie de guarda-costas. Ainda o prefiro, a usar um Smartphone para afugentar dumb people. Isto porque um livro também atrai smart people. Ou, pelo menos essa, é a minha fantasia.
A sua utilidade absoluta só surge com as mulheres. Nunca li o «Guerra e Paz» nem a Enciclopédia Luso-brasileira em 59 volumes. Mas todos os minutos, juntos, que esperei por uma mulher, abatendo todos os que elas esperaram por mim, contabilizam facilmente 4 ou 5 leituras dessas obras. A verdade é que sendo eu um devorador da companhia feminina, seria muito mais culto se sempre me fizesse acompanhar de um livro. Sei que se alguma delas ler isto vai contestar. Conteste! Conteste a seu contentamento. O relógio não pára neste jogo de xadrez. Bispo faz cheque ao Rei, Rei passa cartão de crédito à Rainha. Peão carrega as compras...

Cheguei ao local combinado. Pedi um «Latte Machiato». Pego numa nota e recebo uma quantia mais curta do que a que entreguei, mas transformada em moedas. Faço as contas. Se tivesse pedido um galão de certeza que era mais barato. 25% do preço está na tradução. Ou no lote café Kenya Suave.
Carrego herculeamente a chávena, o livro, a carteira entre-aberta, cheia de papéis de gasto e sem papel para gastar.
Sento-me.
Encaixo-me num sofá pouco confortável ao primeiro toque. Amanho a superficie do mesmo, como um gato ou cão ajustam a sua cama... Faço-o apenas pelo movimento de ancas.
Adoço o líquido. Admiro o rodopio da espiral celeste que se forma na espuma...
Recebo uma mensagem: «Estou atrasada.»

Já contava com isso. Respondi. «Tudo bem. Trouxe um livro.»
Leio.
Leio. Leio delícias.
Leio delícias escritas por uma mulher sobre homens.
E é mesmo assim.
Leio delícias escritas por uma mulher sobre mulheres.
E vejo-o assim.

Delício-me com as imagens do sexo. Do pós-coito. Do pré. Delicio-me com a ausência da palavra sexo nas cenas com ele.
Vejo o exercício fortuito de achar a descrição bela e a palavra feia.

Minto!
Não havia nada mais do que dois corpos entrelaçados. E o que acontecia depois era apenas movimento.

Recebo nova mensagem. «A Caminho»
Respondo. «A Ler»

Muitas páginas depois, chegas.
Falamos
Contas-me o motivo do atraso. As novidades. Os momento deliciosos. Sinto saudades do teu toque. Então toco-te, passando as mãos pelo teu cabelo. Nem o sentes. Afinal sou parte de ti, sempre o disseste. Apenas não partilhávamos mais do que uns minutos na eternidade.
Apenas o suficiente.

Conto-te as minhas novidades. A minha ausência de novidades. A ausência do futuro que sinto ter. Das oportunidades que não tenho.
Perguntas-me se tenho escrito.
- Pouco ou nada. Aliás escrevi um texto excelente. Queres ler...
Dou-to para a mão. Começas a lê-lo no ecra do telefone.
- Não gosto deste texto...
- Lê até ao fim.
- Não gosto do início.
- Lê. Eu sei que é triste.... Mas lê. Esta muito bom.
- Presunçoso.
- Não sou. Ou melhor... Ninguém o vai ser por mim.
- Não gosto do texto...
- Sabes que te levava mais a sério se não te risses...
- Mas não gosto.
- Então pára de mostrar que gostas...
- Que queres! És fantástico a escrever... Mas não gosto do texto. Mas adoro o que escreveste.
- Já ouviste falar de mensagens contraditórias?

Sim precisava de mais alegria.
De mais algo.
Precisava de estar ali.»

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