segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Copo do Dia - Indefinido

«- Só queria dizer que não sei muito bem o que sinto por ti.
- Isso é simpático. E quem sabe então?
- Só te digo que EU, não sei.
- E esperas que faça o quê com essa revelação. 
Agora?

Recuei. Um passo atrás para dar dois passos em frente. Dizer-lhe que é a mulher por quem eu esperei toda minha vida, mas que... Que não é...É estranho. Aliás tão estranho que nem sei o que isso significa. Tentar definir o que sinto num piscar de olhos não é menos difícil do que pedir que um bebé em pranto se cale. E como esse infante, também eu estou em pranto. Mas silencioso. Afinal de contas tenho de dizer à mulher da minha vida, que não é a mulher da minha vida, apesar de o ser. A verdade é que ela pertence a uma vida passada, com a qual já não me identifico. Que não me diz nada. Que nada me é a não ser a memória.

E ela era o ideal de tudo o que sempre quis nessa vida. Mas eu mudei, Mudei de Vida. Fui para Londres trabalhar como corretor, como investigador, como professor, como qualquer coisa que pagasse os balúrdios que um aluguer custa. Conheci-a no East end. Falava como eu, sem sotaque. Tinha vindo do Porto. Cantora. Espadaúda. de seios ternurentos, olhar perdido no azul, voz ora doce, e à hora potente. Pernas elegantes encimadas por um pescoço. Feições curtas, maçãs salientes, queixo distinto, sobrancelhas cuidadas. Olhei para ela e apaixonei-me. 

Falei com ela, com a timidez do insucesso passado. Trouxe todas as armas de sedução afinadas pelos anos de perdas insustentáveis. Charmant, com humor refinado.  Arranquei sorrisos alegres à face sisuda. Convidei-a para um café, numa daquelas coffee shops que insistem em substituir as Tea Houses. Tea and scones, vs. Coffee and Bagels. Sendo eu o mais tradicional não nativo e ela a mais nativa não tradicional, escolhemos diferentes mundos. E fomos cruzando os caminhos do sabor. Nunca seríamos iguais. Seríamos sempre opostos. E isso fazia com que fossemos perfeitos. Excepto pelo facto de a vida ter-me feito deliciar com outros voos.

Amo-a sem a amar. Amo-a como a memória. Não. Nada disso. 
Não sei.
A minha mente é um nó górdio. Se ela o desfizer, afinal será presente.

- Amo-te. Mas amo-te como a pessoa que já não sou.
- Então és quem? - Perdendo a calma.- Foi este o homem que me arrebatou? Que me roubou sorrisos, como se fossem gotas de chuva. Dizes-me que não me amas. Ou melhor, que não és a pessoa que me ama? Sabes o Amor... Esse sentimento perversamente feliz, não chega!

- Como?
- Se ainda não percebeste isso, então o caminho que fizeste ainda não acabou, não achas?

A surpresa surgia ali. O click emancipador. O cérebro atrofiado voltava ao normal, Não era só amor. Só amar. E só quem o percebia estava no mesmo tempo que eu.
Beijei-a.

- Então casamos ou não? Sempre achei que seria eu a reticente.
- Panos e nódoas. E dúvidas.
- Cold feet, querida. 20 minutos para darmos o nó.» 


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