Afinal gritas comigo...
Nunca desconfiei de tal coisa.
Eram gritos pequenos, baixos,
Atirados com leveza.
Mas gritos...Levemente gritos.
Não falo dos berros,
Do choro sem fim,
causador de surdez,
Daquele que se aprende a ignorar.
Gritas comigo.
Docemente.
Levemente com a pungência,
De um faca afiada que corta a alma.
O teu grito é um corte limpo.
Sem sangue.
Qualquer conversa deve ter um copo ou mais na mesa. Todos os assuntos na mesa, devem ser discutidos com copos meio vazios, para que não corram o risco de se tornarem demasiado sérios. Juntem-se à conversa. Tragam o vosso copo. O conteúdo é por minha conta.
terça-feira, 28 de junho de 2016
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Copo Redimido - Verdade no bolso e o lamento de uma ponte...
Já
há muito que não escrevo mais do que duas palavras ou abreviaturas num qualquer
papel. Trata-se de mera preguiça pois simplesmente escrever sobre a banalidade
dos dias não me satisfaz.
Nestes
últimos dias, esse figurino mudou. Falei com amigos que escrevem, sobre
escritores e sobre pessoas que vivem de fingir escrever. Ouvi o lamento rangido
de uma ponte atravessada pela humanidade entre duas margens. Senti na pele a
indiferença dos que não deveriam sê-lo e apercebi-me do pouco que posso fazer,
para além de aguentar os momentos em que subsiste uma estranha forma de
relacionamento entre pessoas.
Assumo uma vida
pobre, cheia de eventos em que me perco pela excessiva raiva pela humanidade que
trespassa.
Sou demasiado humano para estas pessoas que circulam em meu redor.
Sistemas solares
que trazem planetas que lentamente vão sendo tornados inabitáveis. Queimados
pela virtuosidade de quem se acha o centro.
Eu, por outro lado, sou um cometa gelado que passa por essas estrelas decadentes, desfazendo-se num rasto que lhe vai limpando a paciência e a força.
Torno-me
mero observador das verdades absolutas vendidas como absolutos racionais. Nem
se trata de ser algo com o que não concordo. É simplesmente incontestável.
Um
dogma patriarcal.
Sinto-me
cansado de passar a vida a lutar contra estes absolutos...
Há
muitos anos, estava envolvido numa relação a três. A pessoa com quem vivia,
estava, ela própria, com outro. Eu vivia na raiva de um abandono.
Bem,
talvez não fosse uma relação a três…
Se
calhar a seis.
Os
meus filhos, abandonados pela mãe, mas à qual o tribunal ainda ousou ponderar
dar a custódia (só perante factos inegáveis, de referenciada violência
psicológica, foi possível convencer a tacanha juíza...), a filha dela (da minha
amante), o amantes e nós. Pronto sete. Não esqueçamos a traição da minha antiga
esposa...
Em
todos os nossos momentos trazemos connosco o que faz-nos ser...o que somos. E
se essa banalidade não chega, tomemos outra com um, ou dois, Gin tónicos.
Somos
filhos de quem somos.
Se sujeitos a violência, somos violentos.
Se amados,
amamos.
Se
ignorados, sociopatas.
Por
volúpia ou drogas legais, Lara deixara-me a Catarina e o Daniel nas mãos.
Uma tarefa difícil, pior para um homem que
nunca se vira nem em papel social nem de perto como mãe e pai, o que no caso
das mulheres é frequente.
Anos
depois, saltaria de uma ponte para o desconhecido...
Nunca
se encontrou nada da mulher que viveu comigo e que gerou duas crianças que são
o meu olhar... Encontraram um corpo, algo geneticamente idêntico e mas
desconhecido.
Os
mesmos olhos, mas alojados numa concavidade. Maçãs do rosto salientes,
mas cheias de uma podridão inexplicável. Cabelos lavados pelo rio de
tonalidades que não lhe conhecia. Dentição incompleta pela subnutrição. Braços
que pareciam um coador...
Nem
sequer sombra...
Entretanto
Patrícia, que me partilhava com Alberto (embora não oficialmente, algo que
viria a ser posto a nú, literalmente, num dia em que chego cedo demais...),
aguentou o meu desvario, porque se o casamento acabou, a maternidade também, o
que se sente pela pessoa que nos dá filhos, não.
Nesses
seis meses, limitados no tempo por duas traições, andei perdido a tentar
encontrar um rumo, ao mesmo tempo que segurava a vida de dois miúdos que culpa
tinham de ser crianças felizes, apesar de tudo.
Restou–me
pouco depois disso. E isso foi benéfico. Fez-me construir as fundações. Os
caminhos. Construir um lar e uma casa. E não esquecer que duas almas, também
elas perdidas pelos afazeres da pouca idade, contavam comigo para segura-los na
rede que perdemos com os cabelos brancos.
Era
fiel da balança. Ou melhor aprendia a ter a minha verdade apenas no meu bolso.
De
vez em quando ainda atravesso a ponto, só para ouvir o seu lamento. Não oiço
nome nenhum, murmurado pelo som metálico. Mas oiço os meus pensamentos a relembrar
o caminho que já fiz e para o qual regressar é saltar de uma ponte.
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