O último lugar onde procuraste…
O último lugar onde procurei a tua presença, foi na cama que
ocupaste comigo, vidas antes. E algumas tardes também. Desloquei-me à sala onde
a tua presença enquadrou um belo sofá desconfortável e também não lá estavas.
Desloquei-me à cozinha, sentindo o cheiro das panquecas que tinhas feito há
dois anos, ali, naquela frigideira. Podia ter dito que nunca a limpei depois
disso. Mas tal seria um abuso. Limpei no momento seguinte, para a poder arrumar.
Não pensei, alguma vez, que uma das memórias que teria de ti fosse uma frigideira, uma
sertã ou coisa que a valha em denominação. Aliás o cheiro que sinto, não é mais
do que memória. Mais do que uma lembrança. Mesmo esta barriga que trago comigo,
resultado de inúmeros jantares e almoços ricos em vitualhas, pobres em
companhia, porque não te partilhava senão comigo. A ruga que tenho no canto da boca por sorrir
para ti, mesmo essa não é minha. É uma ruga externa que te pertence. E agora é
uma prenda que me deixas.
Entre tudo isto, apenas fica na memória o bom que me deixas.
Não fica a memória dos momentos em que me reduzias a uma
nota de rodapé, perante os teus amigos ou aqueles momentos em que jocosamente
me ignoravas quando dizia algo que não compreendias ou não achavas importante.
A verdade é que mulher bela que eras, foi-se diluindo na cabra gentil. E eu
imbuindo da cegueira de quem ama, não vi nada disso. Ficava furioso no momento
e depois esquecia… ou melhor guardava essa mágoa na gaveta «Respeitinho é bom .
E eu gosto!» que se encontrava junto à gaveta «1002 maneiras de ter respeito por nós próprios e
ignorar aquela gaja.»
Acabei por perceber tarde demais, que não me tinhas amor.
Era um técnico que te mantinha em funcionamento. Fazia-te as revisões, media o
óleo do corpo, punha a gasolina na boca, travestida de iguarias deliciosas. Lavava o
teu corpo de carroçaria coupé, ainda que pouco avantajada…
Servia-te para o Ego. Pouco mais. E um pouco mais depois
deixei de o servir. Passei apenas a antigo locatário.
Chegaste um dia à minha casa e disseste-me: Afonso. Vou-me
encontrei o meu amor de sempre, que conheci ontem. Virei buscar as minhas
coisas assim que estiver noutra casa.
E ontem, senti a falta do teu corpo nesta casa. E comecei a
abrir as gavetas onde guardei o respeito próprio, onde guardei as razões e a
raiva. E ontem, num dia que durou um ano, limpei o meu corpo das memórias
funestas.
Ficou apenas o bom…
O resto, o resto vai nas caixas que mando para reciclagem,
porque insistes que ainda não poisaste. O teu amor que durou uma vida de seis
meses disse-te adeus. Foi mais inteligente que eu.
Eu que te amei. E que agora amo-te. Mas apenas às boas
memórias. O resto é o lixo de alma que foi ficando e agora reciclo em lenha.
Fica a tua memória. Todas as memórias. Arquivadas em duas
outras gavetas: «A mulher que amei.» e « A mulher que amei, mas que era
uma*****»
A ruga que era tua, agora já é só minha.
Umas das últimas coisas que me disseste, quando ainda
pensava em ti como pessoa foi que o amor é algo que se encontra no último lugar
em que se procura.
Uma banalidade gigante como o mundo…
Sobretudo quando se percebe que só mesmo uma pessoa estúpida,
mas mesmo muito estúpida continua a procurar depois de o encontrar.