Cada dia que passa, em que acordo
contigo, olhado para a sombra que a tua face faz sobre a almofada, questiono-me
sobre quem ali está. Não sobre o que sinto por ti ou o que tu sentes por mim, mas
quem és.
Todas as facetas da tua vida,
resumidas num olhar, sugerem-me uma espécie de tristeza contida pela alegria
que vais sentido nos pequenos momentos que atravessamos. Mas a verdade que sinto nos olhos é que o
amor que tens é por alguém que não está connosco. è uma mor por alguém pedido
nos teus pensamentos, que usa o mesmo corpo, mas que em nada é como eu.
A verdade, já dita é essa.
E todos os dias acordo sem saber
quem é aquela pessoa que me ama, porque todos os dias é outra pessoa.
Em dez anos, as camas que nos
uniam, separaram-se. Foi crescendo um vale entre nós. E não soubemos construir
os túneis ou pontes ou caminhos de nuvens sobre ele.
E assim, por obra e desgraça,
perdi o conhecimento da mulher outrora, noiva, namorada e agora mais mãe.
O dia final de tudo isto chegou
com um envelope. Pensei serem os papéis… Era um diagnóstico.
O meu… Teria a sorte de não assistir
ao fim… Porque ele acabava comigo. Disseram-me que tinha sorte. A minha queda
era rápida. Porque uma lenta seria cruel. E depois por momentos lembrei-me…
Lembrei-me porque não lembrava… A maleita que me levava a memória, levara o
amor que eu perdera todas as manhãs…
Não muito dias depois, não
acordei mais.
Mas ainda em sonhos gritei o teu
nome…
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