sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Copo do Dia - Lavagem Dogmática ou Memórias de um peixinho dourado

Ia a passar com o carro pela lavagem automática que se tornou o tempo em Lisboa.
Um tempo que lava ruas e enlameia as pernas transeuntes. Chuva que limpa tejadilhos e chapéus-de-chuva e de vez em quando arranca árvores de raízes podres.
É uma lavagem peremptória da civilização corrompida.
São corpos corruptos pelo passar dos anos, as partes flácidas e perdidas. Os olhos tenebrosamente ladeados pelas olheiras do cansaço de mil dias de trabalho em poucas horas. Os químicos que usamos para lavar as almas e pulmões, que nos deixam a morte a levedar.

Todos os dias, sem falta (Sábados e Domingos que também são dias), fosse qual fosse o tempo, ias para o teu lugar primoroso de vendedora de roupa numa loja barulhenta onde os meus olhos deambulavam sempre à procura da promoção do casaco espetacular, na altura em que me apaixonava pelas roupas e não pelas pessoas que as envergam.
A minha era feita a perseguir-te pela loja na vez mensal em que lá ia. Via-te gira, mas olhava mais para o casaco.
Eras morena. Outras vezes não. 
Uma vez olhos verdes, noutra castanhos. Eras uma presença constante. Mesmo os piercings que de vez em quando usavas, não te tiravam o mérito que me fazia perseguir-te. Mas para sempre foste uma memória à espera de acontecer. Nunca foste presente na minha existência a não ser como intermediária para o meu desejo de um cachecol ou de uma encharpe. 
Nem sempre eras simpática. Nem sempre estavas bonita. Mas eu não ligava a isso. No final de contas o que interessa nisto é que davas a troco, o que eu queria.
De vez em quando, algumas encarnações tuas sorriam-me e outras mesmo riam-se da minha boa maneira. Outras queriam apenas que eu saísse da loja, com ou sem artigos, para poderem ir à sua vida de comtemplar preços e roupas que as enrola e enojam.
A tua verdade é que amavas tanto esse teu trabalho como a mim, que não conhecias. Eu era apenas um cartão ou dois (com o de cliente) que surgiam ocasionalmente a aliviar o peso da arrumação. E pagar-te uma ninharia pelo tempo que me davas.
Eras uma prostituta temporal. Que vendias a tua atenção ao minuto ao tamanho L ou XL. E o resto é a memória que se perde nos cinco minutos que se seguem a pores um par de calças num saco.
Quem era tu? Que loja era?
Não sei.

Nunca soube. Vocês eram-me iguais, sendo diferentes. 
Memórias de um peixinho dourado...

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Copo do dia - Leio Mal

Leio mal.

Leio mal o que escrevo. 
Leio mal o que escreves. 
Já me disseste para mudar as lentes.
E leio lento.
Mudar a cor do ecrã, a resolução, do tamanho de letra, o tamanho da palavra que se perde no meu pensamento.

Mas leio bem o mundo que me passa por ti.

Ias frondosamente pela rua.
Todos os passos ecoando.
Deixando um rasto perfumado pela chapa metálica torcida nos acidentes que causas pelo decote que deixas leve.
Bamboleias esse traseiro que inveja causa nas mulheres que passam. Mas eu vejo-te mal. Sobretudo ao perto. De perto nem te vejo de facto. Pareces-me opaca.
Fico abimbalhado, com vontade pouco cavalheiresca de te tocar com a audácia sobretudo porque és mulheraça.
Sim, não obstante termos 3 filhos e um casamento feliz, ver-te o centro do mundo, fazendo do torpor dos outros, o combustível, dava-me gozo infindável.
Não por seres o centro do mundo, mas porque o mundo se centrava em ti. Como o meu olhar. Adorava ver os transeuntes que conheço como a palma que vagueia os dias pelos mesmos ventos, vergarem-se pela tua entourage de olhares perdidos e suplicantes de cruzamento. Ver solteiros e casados sem vergonha ou demasiada, a perderem o tino com afinco, pisando os presentes que a chuva deixava, encharcados até aos ossos pelo instante com que te cruzas com as suas órbitas excêntricas.

Mulher, desvario. 
Cujo o único som é o calcar das pedras.
E ainda bem…

Não gostaria que se perdessem na tua voz também.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Copo do dia - Somos todos iguais

Somos todos iguais

Somos todos iguais é algo que passo a vida a dizer-me em voz alta.
Aliás, sou tão igual ao tipo que gregoria na cela ao lado da minha. 
Não me lembro de ter insultado a agente da autoridade. Mas eles andam com mão pesada no cassetete e leve na carteira.
Como recusei obedecer, ganhei estadia em quarto com 5 estrelas. Dois por tráfico, dois por roubo e eu por ofensa à autoridade.
Os tipos eram pessoas normais diga-se. Simplesmente tinham alguns hábitos socialmente reprováveis pelos agentes da autoridade e pela maior parte de nós.
Confesso também que estava bem bebido com Whiskys e Cubas Libres… 
Era sexta. 
Mas pronto, nada que aquela agente de autoridade já não tivesse ouvido.
Ok, confesso. Também lhe apalpei o rabo. 

Esqueci-me de dizer que era uma loira rija de corpo? 
E bem articulada de palavra? 
Que levou ao chão sem que percebesse como?

Os companheiros de cela, irmanaram-me logo. 
Dizem que gostavam de «foder» o juízo das autoridades. 
Mas que eu tinha mesmo tentado fazê-lo. À séria. 
Tornei-me um herói improvável.

Quando o hotel se ia tornar de sete estrelas, os meus irmãos de cela trataram logo de dizer aos recém chegados que «naquele copinho de leite não tocas, senão és naifado até seres gaja…» 

(Juro! foi o que percebi!).

A verdade é que o meu acto irreflectido tinha-me ganho a admiração da rapaziada. E um olho roxo. Um braço dorido. 

Mas que belo rabo. E o distintivo que ficava bem assente. E os olhos...

Já perto das 6 da manhã, a minha captora veio buscar-me.
Pensei que um dos meus amigos,antes ébrios,  entretanto sóbrios, me tivesse pago a fiança. 
Acontece que tinha de ser presente ao juiz para que isso pudesse acontecer. E isso ainda não tinha acontecido.

A Helena, assim se chamava a agente que havia ofendido, olhou para mim. 
Conduziu-me para o átrio da esquadra. 
Pediu a um colega para me vigiar, sem no entanto ter-me algemado. 
Achei estranho. 
Mas acho que um apalpão não merece algemas. Mesmo que seja legitimo trazer essas pulseiras de metal naquele ambiente.
Disse que já voltava.
Regressou, já sem farda. 
Agarrou-me, acenou ao colega em agradecimento e saímos.
‒ Já estás mais sóbrio?
‒ Acho que sim. Agora vamos ao juiz, não?
‒ De certa forma vais ser julgado.
‒ Como assim?
Não houve mais diálogo. 
Agarrou-me na mão.
Encostou-a ao seu seio. 
Beijou-me.

Voltei a casa dois dias depois.


Felizmente preso.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Copo do dia - O vestido Vermelho

O vestido vermelho

Arrastei-te para as compras.
Sim, o homem da casa.
Independentemente da atribuição dos papéis sociais que a nossa sociedade pré-industrial e pós-modernista tem, abrigando os bigodes farfalhudos (com crucifixos a capear peitos felpudos) e ao mesmo tempo o homem de barba rala (tornado símbolo máximo do sexy) tudo debaixo do mesmo tecto…
Sim, levei-te às compras.
Queria ver o que te assentava bem, para além de mim.
Experimentas-te vestidos longos, custos. Às bolinhas amarelas sem Biquini. Lisos, com padrão, com estolas de pelo. Os teus cabelos castanhos, longos e lisos, eram adorno em qualquer um deles. Favoreciam o teu olhar. Ou teu movimento. O teu caminhar com o ondular do vento.

Sim, rolavas cada vestido com a maré de pessoas que entrava e saia das lojas. Cada questão atirada na tua direcção, soava a vento a restolhar nas folhas dos salgueiros. Cada novo vislumbre das tuas costas, dos teus seios aconchegados no soutien simples, com renda parca, arrepiavam com o orvalho matinal, encontrado à beira rio.
Cada novo passo, novo vestido, que abraçava o teu corpo, ferviam-me os olhos a ponto de os enevoar.
Acabaste por escolher o vestido que vestia a ideia que tinhas de ti, a sedutora morena, quente, que engraçou rapazinho gay da loja, como pequeno elfo natalício a trocar-te incessantemente os adereços que queria levar…
E eu a uma distância respeitável, perguntei?
- Já decidiste? É este?
- Sim, querido!
Paguei-o, com o cartão negro… Com o ilimitado sentido do dinheiro que não se gasta…
Saímos da loja…
- Amanhã quero-te ver assim.
- Amanhã estarei. E hoje?
- Sabes bem para onde tenho de ir agora...

- Sim! Família. Os teus filhos. A tua mulher...

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Copo do dia - Matas-me de Amor

Amas-me? 
Sim. Amo. Todos os dias. Todas as mensagens que recebo, todos os momentos em que não me deixas respirar. Todo o tempo que passa sem que veja a cor da cama, das páginas dos livros, dos jornais, dos ecrãs onde escrevo.
Sim amo-te. Amo-te que cedo o meu tempo a tudo o que queres fazer, mesmo que não seja.
Não te percebo. Como amas alguém que desaparece absorvido pelos desejos.

Os últimos dias da nossa fase de solteiros passaram num ápice. Os preparativos para o casamento consumiram cabelo, couro, contas bancárias, olheiras e tudo o mais. A maquilhagem obscurece os danos do evento por realizar.
Anuncias-me que vamos ser quatro e não dois. Penso em gémeos. 
Falas-me em Pais. 
Por pouco tempo. 
Vejo a noite de núpcias, como um espectáculo de futebol, onde a bola não entra, só vai à barra. Vejo os meus dias estragados pela presença de fantasmas… Questiono a razão.
Dizes-me que são obras em casa… Eu diria que faziam casa nova. À nossa custa. Antevejo o divórcio em pouco tempo. Suportar os sogros é a segunda maior razão de divórcio. A primeira é o casamento.
Faltam dias para o evento. Sinto-me um condenado à forca. Digo-te, num assomo de virilidade, há muito esbatida pelo «Sim, querida!» que não. Não há lugar num raio de mil metros para a presença inconveniente da paternidade e maternidade ascendentes. E se assim o quiseres, não há união… Desunião e recessão.

Dizes-me que vivemos juntos há anos. Há coisas impossíveis de negar. Mas agora era o fim do vínculo. Caímos no erro de salvar a união casando, quando isso marcava o fim e não o princípio.
Alinhei. Na esperança do que o futuro traria. E só via chuva da banda de fora da janela. Lamento disse eu.
Recupero agora as bolas da coragem e digo-te que o nosso tempo acabou.  Não te amo mais.
O caminho que fizeste, acabou por me matar. Mas tu… Tu estavas deliciada, perdida na fantasia de momentos belos.
Esqueceste-te de mim. Do que eu sentia. E eu deixei de sentir. Por ti. E por mim.
Perguntavas-me se era feliz. Eu dizia-te a melhor mentira que tinha, por ser uma questão: Mas dúvidas?
Libertas a última barragem de artilharia na minha terra de ninguém. Grávida. Gravidez preocupante. Apoio moral. Físico que não posso dar. Essa era razão verdadeira. Senti-me um pulha. Mas dissera a verdade. Acabou. Com gémeos adivinhados. Serei um bom pai. E um melhor marido. Não me caso. Saio de casa, com as armas minhas, nas tuas bagagens. Separo tudo. Torno-me eu de novo. Apenas com dois rebentos e uma pensão de alimentos acordada entre pessoas de honra.
Mataste-me de amor. 
De carinho.

E fui de carrinho. 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Copo do dia - Há dois caminhos

Há dois caminhos

Há sempre dois caminhos ladeados de árvores que vão dar às rotundas que tomamos por decisões.
São rotundas ilusões de caminhos a escolher, entre os dois caminhos que são um com dois sentidos.
Quando conheci a aquela miúda reguila, de cabelo cor de avelã, apresentada como filha aos seus cinco anos, percebi que a minha vida de solteirão mudara. Mudara porque nunca fora tipo de me esquivar a responsabilidades. E se tivera sustos na carreira de gestor de alegrias momentâneas, nunca fora confrontado com a vida criada pelo acto.
A verdade, essa verdade, é que agora era Pai. Aliás já era, mas desconhecia. A mãe, incauta mulher, cujas formas secas, agora abrangiam mais carne e cansaço, pedia-me encarecidamente com a voz em tom de ordem, que já era tempo de assumir o caminho da paternidade. Mesmo que entre ela e eu restasse apenas uma terna memória de uma noite perdida numa cama algures no "Porto Sentido" do Rui Veloso.
Dia 6 de Junho. Quase há 6 anos. Quase uma noite. Quase nada. Não me lembro de me levantar, agradecer o acolhimento, a noite que se gastou num entrelaçado de ossos e tendões.
Ainda houve mais uns telefonemas. Mais uns pedidos… Mais uns «Quando voltas ao Porto?»
Voltei. Mais vezes. Todas as semanas. Mas nunca mais a vi. Até ontem. Até me apresentar a pequena Luísa. Nome da Mãe, da tia da avô, nome perdido. Nome que gostava. Eu sei lá… fiquei enternecido quando a vi. Chocado quando me disse: É tua!
Vernáculo à moda do Porto. Imenso vernáculo contido na boca, como se fosse um vómito retido. Estômago às voltas como se não houvesse comida que se segurasse.
Qual chá…
Combinamos encontrar-mo-nos no Majestic!
Pedir um Cimbalino.
Não!
Pedir um Whisky duplo. Sem gelo. Bebê-lo de um trago. Não há café que segure a surpresa… Fazê-lo longe da miúda.
Apaixonar-me no instante antes. Angustiar no momento depois.
E agora?
Agora tenho uma filha. Vivo em Lisboa. Tenho as namoradas ocasionais a quererem ser mães de futuros rebentos… Isto vai ser complicado. Ou não…
Mas agora não penso noutra coisa.
Cor de avelã. Cabelos!
Azul do Mar. Olhos!
Sorriso! Meu, talvez!
Corpo da Mãe? Sei lá!
Filha minha? Após comprovação.
Filha minha? Se não for coração partido.
Paixão? De certeza.
Acordei ficar com ela um mês no Verão. Com as regras da casa transpostas. Se a Luísa se sentir mal, volta. Se quiser fica.
Começo a fazer planos.
A fazer caminhos.

A fazer o caminho em direcção à rotunda que só tem um sentido. 
Não vejo outro caminho. 
Também não quero.