Ia a passar com o carro pela
lavagem automática que se tornou o tempo em Lisboa.
Um tempo que lava ruas e enlameia
as pernas transeuntes. Chuva que limpa tejadilhos e chapéus-de-chuva e de vez
em quando arranca árvores de raízes podres.
É uma lavagem peremptória da
civilização corrompida.
São corpos corruptos pelo passar
dos anos, as partes flácidas e perdidas. Os olhos tenebrosamente ladeados pelas
olheiras do cansaço de mil dias de trabalho em poucas horas. Os químicos que
usamos para lavar as almas e pulmões, que nos deixam a morte a levedar.
Todos os dias, sem falta (Sábados
e Domingos que também são dias), fosse qual fosse o tempo, ias para o teu lugar primoroso de vendedora de
roupa numa loja barulhenta onde os meus olhos deambulavam sempre à procura da
promoção do casaco espetacular, na altura em que me apaixonava pelas roupas e
não pelas pessoas que as envergam.
A minha era feita a perseguir-te
pela loja na vez mensal em que lá ia. Via-te gira, mas olhava mais para o
casaco.
Eras morena. Outras vezes não.
Uma vez olhos verdes, noutra castanhos. Eras uma presença constante. Mesmo os piercings que de vez em quando usavas, não te tiravam o mérito que me fazia perseguir-te. Mas para sempre foste uma memória à espera de acontecer. Nunca foste presente na minha existência a não ser como intermediária para o meu desejo de um cachecol ou de uma encharpe.
Nem sempre eras simpática. Nem sempre estavas bonita. Mas eu não ligava a isso. No final de contas o que interessa nisto é que davas a troco, o que eu queria.
Uma vez olhos verdes, noutra castanhos. Eras uma presença constante. Mesmo os piercings que de vez em quando usavas, não te tiravam o mérito que me fazia perseguir-te. Mas para sempre foste uma memória à espera de acontecer. Nunca foste presente na minha existência a não ser como intermediária para o meu desejo de um cachecol ou de uma encharpe.
Nem sempre eras simpática. Nem sempre estavas bonita. Mas eu não ligava a isso. No final de contas o que interessa nisto é que davas a troco, o que eu queria.
De vez em quando, algumas
encarnações tuas sorriam-me e outras mesmo riam-se da minha boa maneira. Outras
queriam apenas que eu saísse da loja, com ou sem artigos, para poderem ir à sua
vida de comtemplar preços e roupas que as enrola e enojam.
A tua verdade é que amavas tanto
esse teu trabalho como a mim, que não conhecias. Eu era apenas um cartão ou
dois (com o de cliente) que surgiam ocasionalmente a aliviar o peso da
arrumação. E pagar-te uma ninharia pelo tempo que me davas.
Eras uma prostituta temporal. Que
vendias a tua atenção ao minuto ao tamanho L ou XL. E o resto é a memória que
se perde nos cinco minutos que se seguem a pores um par de calças num saco.
Quem era tu? Que loja era?
Não sei.
Nunca soube. Vocês eram-me iguais, sendo diferentes.
Memórias de um peixinho dourado...
Memórias de um peixinho dourado...