quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Copo do dia - Matas-me de Amor

Amas-me? 
Sim. Amo. Todos os dias. Todas as mensagens que recebo, todos os momentos em que não me deixas respirar. Todo o tempo que passa sem que veja a cor da cama, das páginas dos livros, dos jornais, dos ecrãs onde escrevo.
Sim amo-te. Amo-te que cedo o meu tempo a tudo o que queres fazer, mesmo que não seja.
Não te percebo. Como amas alguém que desaparece absorvido pelos desejos.

Os últimos dias da nossa fase de solteiros passaram num ápice. Os preparativos para o casamento consumiram cabelo, couro, contas bancárias, olheiras e tudo o mais. A maquilhagem obscurece os danos do evento por realizar.
Anuncias-me que vamos ser quatro e não dois. Penso em gémeos. 
Falas-me em Pais. 
Por pouco tempo. 
Vejo a noite de núpcias, como um espectáculo de futebol, onde a bola não entra, só vai à barra. Vejo os meus dias estragados pela presença de fantasmas… Questiono a razão.
Dizes-me que são obras em casa… Eu diria que faziam casa nova. À nossa custa. Antevejo o divórcio em pouco tempo. Suportar os sogros é a segunda maior razão de divórcio. A primeira é o casamento.
Faltam dias para o evento. Sinto-me um condenado à forca. Digo-te, num assomo de virilidade, há muito esbatida pelo «Sim, querida!» que não. Não há lugar num raio de mil metros para a presença inconveniente da paternidade e maternidade ascendentes. E se assim o quiseres, não há união… Desunião e recessão.

Dizes-me que vivemos juntos há anos. Há coisas impossíveis de negar. Mas agora era o fim do vínculo. Caímos no erro de salvar a união casando, quando isso marcava o fim e não o princípio.
Alinhei. Na esperança do que o futuro traria. E só via chuva da banda de fora da janela. Lamento disse eu.
Recupero agora as bolas da coragem e digo-te que o nosso tempo acabou.  Não te amo mais.
O caminho que fizeste, acabou por me matar. Mas tu… Tu estavas deliciada, perdida na fantasia de momentos belos.
Esqueceste-te de mim. Do que eu sentia. E eu deixei de sentir. Por ti. E por mim.
Perguntavas-me se era feliz. Eu dizia-te a melhor mentira que tinha, por ser uma questão: Mas dúvidas?
Libertas a última barragem de artilharia na minha terra de ninguém. Grávida. Gravidez preocupante. Apoio moral. Físico que não posso dar. Essa era razão verdadeira. Senti-me um pulha. Mas dissera a verdade. Acabou. Com gémeos adivinhados. Serei um bom pai. E um melhor marido. Não me caso. Saio de casa, com as armas minhas, nas tuas bagagens. Separo tudo. Torno-me eu de novo. Apenas com dois rebentos e uma pensão de alimentos acordada entre pessoas de honra.
Mataste-me de amor. 
De carinho.

E fui de carrinho. 

Sem comentários:

Enviar um comentário