Amas-me?
Sim. Amo. Todos os dias.
Todas as mensagens que recebo, todos os momentos em que não me deixas respirar.
Todo o tempo que passa sem que veja a cor da cama, das páginas dos livros, dos
jornais, dos ecrãs onde escrevo.
Sim amo-te. Amo-te que cedo o meu
tempo a tudo o que queres fazer, mesmo que não seja.
Não te percebo. Como amas alguém
que desaparece absorvido pelos desejos.
Os últimos dias da nossa fase de
solteiros passaram num ápice. Os preparativos para o casamento consumiram
cabelo, couro, contas bancárias, olheiras e tudo o mais. A maquilhagem
obscurece os danos do evento por realizar.
Anuncias-me que vamos ser quatro e não
dois. Penso em gémeos.
Falas-me em Pais.
Por pouco tempo.
Vejo a noite de
núpcias, como um espectáculo de futebol, onde a bola não entra, só vai à barra. Vejo
os meus dias estragados pela presença de fantasmas… Questiono a razão.
Dizes-me que são obras em casa…
Eu diria que faziam casa nova. À nossa custa. Antevejo o divórcio em pouco
tempo. Suportar os sogros é a segunda maior razão de divórcio. A primeira é o
casamento.
Faltam dias para o evento.
Sinto-me um condenado à forca. Digo-te, num assomo de virilidade, há muito
esbatida pelo «Sim, querida!» que não. Não há lugar num raio de mil metros para
a presença inconveniente da paternidade e maternidade ascendentes. E se assim o
quiseres, não há união… Desunião e recessão.
Dizes-me que vivemos juntos há
anos. Há coisas impossíveis de negar. Mas agora era o fim do vínculo. Caímos no
erro de salvar a união casando, quando isso marcava o fim e não o princípio.
Alinhei. Na esperança do que o
futuro traria. E só via chuva da banda de fora da janela. Lamento disse eu.
Recupero agora as bolas da
coragem e digo-te que o nosso tempo acabou.
Não te amo mais.
O caminho que fizeste, acabou por
me matar. Mas tu… Tu estavas deliciada, perdida na fantasia de momentos belos.
Esqueceste-te de mim. Do que eu
sentia. E eu deixei de sentir. Por ti. E por mim.
Perguntavas-me se era feliz. Eu
dizia-te a melhor mentira que tinha, por ser uma questão: Mas dúvidas?
Libertas a última barragem de
artilharia na minha terra de ninguém. Grávida. Gravidez preocupante. Apoio
moral. Físico que não posso dar. Essa era razão verdadeira. Senti-me um pulha.
Mas dissera a verdade. Acabou. Com gémeos adivinhados. Serei um bom pai. E um
melhor marido. Não me caso. Saio de casa, com as armas minhas, nas tuas bagagens.
Separo tudo. Torno-me eu de novo. Apenas com dois rebentos e uma pensão de
alimentos acordada entre pessoas de honra.
Mataste-me de amor.
De carinho.
E fui de carrinho.
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