O vestido vermelho
Arrastei-te para as compras.
Sim, o homem da casa.
Independentemente da atribuição
dos papéis sociais que a nossa sociedade pré-industrial e pós-modernista tem,
abrigando os bigodes farfalhudos (com crucifixos a capear peitos felpudos) e ao
mesmo tempo o homem de barba rala (tornado símbolo máximo do sexy) tudo debaixo
do mesmo tecto…
Sim, levei-te às compras.
Queria ver o que te assentava
bem, para além de mim.
Experimentas-te vestidos longos,
custos. Às bolinhas amarelas sem Biquini. Lisos, com padrão, com estolas de pelo.
Os teus cabelos castanhos, longos e lisos, eram adorno em qualquer um deles. Favoreciam
o teu olhar. Ou teu movimento. O teu caminhar com o ondular do vento.
Sim, rolavas cada vestido com a
maré de pessoas que entrava e saia das lojas. Cada questão atirada na tua direcção,
soava a vento a restolhar nas folhas dos salgueiros. Cada novo vislumbre das
tuas costas, dos teus seios aconchegados no soutien simples, com renda parca,
arrepiavam com o orvalho matinal, encontrado à beira rio.
Cada novo passo, novo vestido,
que abraçava o teu corpo, ferviam-me os olhos a ponto de os enevoar.
Acabaste por escolher o vestido
que vestia a ideia que tinhas de ti, a sedutora morena, quente, que engraçou
rapazinho gay da loja, como pequeno elfo natalício a trocar-te incessantemente
os adereços que queria levar…
E eu a uma distância respeitável,
perguntei?
- Já decidiste? É este?
- Sim, querido!
Paguei-o, com o cartão negro… Com
o ilimitado sentido do dinheiro que não se gasta…
Saímos da loja…
- Amanhã quero-te ver assim.
- Amanhã estarei. E hoje?
- Sabes bem para onde tenho de ir
agora...
- Sim! Família. Os teus filhos. A tua mulher...
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