domingo, 26 de outubro de 2014

Copo do dia - Durante um ano e meio…

Durante um ano e meio de escrita, todos os dias me sentava na mesma esplanada virada para água do rio, a partir das 18 e 30.
Pedia religiosamente um copo de vinho, embora de etnia diferente e se me aprouvesse um scone, uma empada ou mesmo uma torrada. Ia ali para ver as ideias circular pelo pavimento, armadas de pés, pernas, coxas roladas, seios de todos o feitios, olhos escondidos atrás de lentes ou lentes que escondem a face… Ia ver as empregadas de mesa e as mesas cheias. Mas também as mesas vazias ou acabadas de vagar me enchiam a mente. Correspondendo aos turnos que faziam, uma dessas benditas empregadas, era a meu ver mal empregue. Reparava sempre nos seus olhos, com eyeliner preto em volta, realçando o azul límpido das águas de rio. Ia para a ver. Para a escrever. Ia, porque pelos acasos da vida, a minha mulher tinha escolhido estar com quem tinha obra publicada em vez de quem queria ter obra publicada. Podia aqui dizer que era um homem mais completo na altura do que o objecto do seu desejo, mas decerto não o era. Se a censuro? Mas claro. Tendo em consideração que um filho jovem estava na equação, censuro-a. Censuro-a ainda mais pelo facto de essa troca ter durado uns 6 meses. Pelo menos nunca quis regressar, fosse pelo esplendor do juízo ganho ou pela vergonha que ganhou finalmente. A vergonha era minha também. A vergonha de quem soube sempre ser um local de passagem e não um destino. E considerando que o sexo parecia obedecer ao cânone da Igreja, nesse sentido a gravidez dela foi o toque de finados para o nosso «entrosamento» diário… Convenhamos que era um prato sensaborão, comido na mesa da sala, no sofá, ou na cama… sempre insípido, como se fosse o picar de um bilhete para apanhar o comboio dos sonhos. Era deprimente. E a verdade era, que não queríamos ali estar. Um com o outro. Queríamos as pessoas dos sonhos que sonhávamos depois do mau sexo. O eyeliner preto em volta realçando o azul límpido das águas de rio, o escritor falhado, mas publicado… Esqueci-me de referir que esse autor, destruidor de lares destruídos, culpado por cronologia do que não tinha culpa era um escritor falhado. Publicado e destinado a publicar mais, mas dedicado à misoginia em busca de sentir-se humano. E ela esperava conseguir ser a musa…
Nunca mais quis saber dele. Dela, não passa um dia em que não pense. Até por causa do Diogo, nosso filho. Que tanto está comigo por três dias, como com ela.
Nesse ano e meio, só no último dia em decidira tudo acabar, ou melhor não voltar, levei o Diogo. Como pai extremoso, acautelei ficar no sítio abrigado da brisa. E deixei, com olhar previdente o infante com dois anos correr pelas madeiras de chão gasto, entremeadas pelas pedras decorativas que tanto fazem o género das esplanadas idealizadas pelo mesmo individuo.
As miúdas afoitas metiam conversa. O Diogo saia ao Pai. Giro. Risonho… como eu foram há muito anos… Cabelo dourado e olhos verdes. Como o Pai…
Ela aproximou-se. Perguntou se queríamos alguma coisa. E o Diogo, malvado, agarrou-se a ela. À perna e anca ligadas, com criança linda apensa. Apesar dos meus ténues convencimentos, Não libertou a bela cativa. Parecia ler a mente paternal. Ela, encavacada, Caitlin de seu nome, irlandesa e ruiva, pediu a uma colega para substituir enquanto convencia «the lovely little bugger that’s holding me» ou seja amorzinho que a agarra, a liberta-la.
As tantas intervenho com veemência, peço-lhe desculpas em duas línguas e mais um olhar… Agarro no Diogo e arranco-a… Ofereço-me para a compensar o incómodo, ou pelo menos oferecer-lhe um lugar na mesa, já que «o Diogo só tem olhos para si…». No seu português mais desenvolto do que o de muitos portugueses, diz que não pode ser, está a trabalhar… Ao que eu respondo que está num intervalo forçado e que insisto em que fique um pouco mais… Pelo acaso da bondade do destino a colega acaba por lhe dizer entre dentes e sorrisos, que fique um pouco mais (que noutro dia a compensa) … E de compensação em compensação, de palavra trocada em palavra trocada, a minha viagem de um ano e meio terminou. A partir daquele dia só iria para a ver. E ela, esperava eu, por mim aguardava. Não tardou que trocássemos mais do que apenas nomes. E o Diogo que ia crescendo, mantinha a sua paixão pela Caitlin. O Diogo acabou por ter uma irmã aos 5 anos. E manteve-se fiel... E eu, enquanto escrevo o meu terceiro romance, olho para a minha, que é a dele.

Sem comentários:

Enviar um comentário