sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Copo do dia - Amantíssimo divórcio

Amantíssimo divórcio

Tenho uma nota de protesto a apresentar. Não faço questão de o fazer em papel formal, mas as palavras que utilizo falseiam o vernáculo.

A verdade da minha presença na tua presença é uma banal mentira que contamos a nós e aos outros. No momento em que a porta da Igreja se abriu e nela entramos, começámos a mentir um ao outro. E ouvimos as mentiras que os outros julgam ser verdades, usadas para celebrármos a nossa «Hostile Takeover». 

Sim. 
Hóstil.

Não houve momento em que as nossas dúvidas não salientassem o caminho que não queríamos tomar. Não houve instante em que os nossos corpos caminhavam na direcção oposta ao destino definido no nosso olhar.
Somos uma vergonha. Pior. Uma mentira. «Tadinhos» é algo que nos assenta como uma luva. Não sabemos que o somos, mas assumimos o papel.
Vergonha. Isto que nos une é uma vergonha. Nunca pensei dizer-te isto.
Amava-te demasiado para me casar contigo. Ainda te amo assim. Por isso quero o Divórcio.
Quero poder amar-te livremente destas regras bacocas que nos impedem de ser felizes.
Quero ser a pessoa que amaste um dia.
Quero… Muita coisa. Mas sei que não vais compreender este rumo. Nem percebes como te posso amar, sem estar contigo.
A verdade, outra das minhas, é que não só é possível, como inevitável. Assim não fosse não teria deixado o Alberto meter-se nas nossas vidas. E ao menos podias ter ido para um Hotel ou coisa vetusta que valesse poiso a amantes e não o leito sagrado do quarto que só serve para dormir.
Ao fim de dez anos é o te tenho a dizer… Isso e que havia outra. Outra mulher. Outra com a qual me deitava. Outra que era a que me ocupava todas as noites. E com a qual fazia amor. Todas as noites.
«Como?», pensas tu?
Se todas as noites me deitava contigo…
Sim verdade. 
E com ela também.
Deitava-me com a memória da mulher que foste, antes de serem minha.
E essa é a mulher que quero de volta.
Sei que não o vou conseguir.

Mas não posso estar com uma mulher que não amo, nomeadamente tu, amando perdidamente uma mulher, que foste tu.

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