sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Copo do Dia - O Divã

Seria a minha última sessão. Os intermináveis anos, conjugados com as intermináveis visitas, haviam pago, sem desprezo, um belo carro e casa à minha amantíssima psicóloga e a mim, apenas longas horas de raiva perdidas nos pensamentos odiosos de quem se ama por inverso.
Cheguei a temer alguma sociopatia. Odiar as pessoas. O que de certa forma explicaria os auto-sentimentos que me cobriam antes.

O progresso anual cingia-se aos problemas do passado como explicação para o presente. E o futuro era mais um pneu do veículo. Aliás confesso que me faz confusão pagar a alguém para nos ouvir e fazer as perguntas certas, que um verdadeiro amigo nos faz em troca de um copo… E mesmo sem ele. O copo, diga-se.
Mas pronto, digamos que se trata de uma especialização. Ficar sentado, a enlouquecer, com as loucuras dos outros, taras e manias, o sexo dos anjos e os anjos que preferem não ter.
Todas as maluqueiras, desvios ou pertinências sãs, caem naqueles ouvidos.  E eles ressentem-se. Os olhos começam a transparecer a loucura que tenho na minha cabeça. Mas é a dela. A minha não é transferível embora me torne um pouco pegajoso com o tempo de vociferação.
Cheguei ao ponto em que preciso de me tornar independente de alguém mais maluco do que eu. Não me bastou casar com uma alcoólica em potência, ter um filho "teenager" cuja ideia de diversão é dar uma em tudo o que mexa e sem olhar a faixas etárias, mas indo sempre atrás da experiência dos anos… E sente-se nos píncaros.  
A mim, nem a amante paga que é a psicóloga, nem a secretária do ministério, uma boazona ruiva, que me teve duas ou três vezes na última semana, me fazem sentir mais ou melhor.
Pelo menos uma faz-me pagar bem o serviço, sem me fazer servicinho.
A verdade é que apesar de 220 anos a aturar…
Sim, disse 220 anos.
É o tempo de casamento que tenho, apesar de contado em anos de cão abandonado e comido pela vida… Voltando, 220 anos de união feliz e maravilhosa, em que o sentimento é igual a ter farpas de bambu espetadas por debaixo das unhas, enquanto nos obrigam a cantar o hino nacional e nos electrocutam os… Bem já perceberam…
A Maria, a minha esplendorosa esposa, que passou de um belo XS, com uma par convincente, para, ao fim do segundo rebento (dos quais apenas um é meu…oficialmente), L sem par algum de nota, nunca teve o meu amor. Teve o meu carinho. Mas se nesse sentido o carinho for amor, então menti na frase anterior…
Por mais que o meu abraço encontre dificuldade em contorna-la, a verdade é, que ela é o mais próximo que estive de construir uma família funcional. E funcional nos termos que o meu paizinho me incutiu, implica pelo menos uma amante…
Já agora, lição para o leitor: Amante sim. Por pouco tempo, mais do que uns meses e instala-se a ilusão do fim do matrimónio. E esta se calhar é prova de que não sou sociopata. Não as quero enganar, nem iludir. Confesso-lhes o medo (que não tenho) e sigo para a próxima. Exasperam um pouco pelo fim do sexo, digno de prémio (diga-se em boa verdade e modéstia). Mas de resto, recuperam depressa do momento de rejeição. Até porque as faço ver que sofro com a decisão… As crianças… As crianças… Certo e sabido…

Entretanto, a doida da psicóloga leva-me os segredos e o dinheiro. E sendo uma mulher com tudo no sítio certo, tem apenas uma cabeça tão destravada como a minha. Se calhar por vezes pressinto que esta era mulher certa para mim. Tão maluca ou mais. Mas portentosa…
Nunca me contou nada seu. Nem podia. Senão eu é que lhe cobrava o tempo.
Mas não adianta nada estar aqui. A falar para a boneca, quarentona enxuta. Vou acabar tudo com ela. Ou melhor, vou dizer-lhe que já não lhe pago mais nenhuma prestação do carro ou da casa ou da porcaria da máquina da comida por fazer que anda na moda.

Isto porque apesar de me ter conduzido a fazer as pazes internas, externamente sou um bimbo disfarçado tolhido por memórias compulsivamente inanimadas mas desagregadoras. Comporto-me como um «Fananzinho»: engato e desengato. E continuo vazio com isso.
Sinto-me vazio porque continuo a questionar, ao fim de uma vintena de séculos, porque é que a única mulher que amei e após a qual nunca mais nada senti, me disse: Não!
Pior, nunca tendo partilhado a cama e o beijo, o corpo dela sempre foi mapeado pelos meus dedos. E os seus olhos azulados como o mar de céu limpo, ladeado pelo sol feito fios…esses tiveram sempre o meu coração nas mãos…
Não preciso de uma boazona para me dizer isso. Talvez e somente para me dizer porque me casei com um futuro que não queria…
Em vez disso…
Foram cheques e cheques, com número de contribuinte na factura, desconto nas seguradoras, limpezas a seco, lavagens automáticas e recibo da mensalidade…
E eu, deitado num divã. Preparo-me para dizer, até nunca, acabou-se… E dou por mim a proferir: Até segunda…

Isto porque sou incapaz de dizer «Não!» a uma boa mulher!

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