Seria a minha última sessão. Os intermináveis anos,
conjugados com as intermináveis visitas, haviam pago, sem desprezo, um belo
carro e casa à minha amantíssima psicóloga e a mim, apenas longas horas de
raiva perdidas nos pensamentos odiosos de quem se ama por inverso.
Cheguei a temer alguma sociopatia. Odiar as pessoas. O que
de certa forma explicaria os auto-sentimentos que me cobriam antes.
O progresso anual cingia-se aos problemas do passado como
explicação para o presente. E o futuro era mais um pneu do veículo. Aliás
confesso que me faz confusão pagar a alguém para nos ouvir e fazer as perguntas
certas, que um verdadeiro amigo nos faz em troca de um copo… E mesmo sem ele. O
copo, diga-se.
Mas pronto, digamos que se trata de uma especialização.
Ficar sentado, a enlouquecer, com as loucuras dos outros, taras e manias, o
sexo dos anjos e os anjos que preferem não ter.
Todas as maluqueiras, desvios ou pertinências sãs, caem
naqueles ouvidos. E eles ressentem-se. Os olhos começam a transparecer a loucura que tenho na minha cabeça. Mas é a
dela. A minha não é transferível embora me torne um pouco pegajoso com o tempo
de vociferação.
Cheguei ao ponto em que preciso de me tornar independente de
alguém mais maluco do que eu. Não me bastou casar com uma alcoólica em potência,
ter um filho "teenager" cuja ideia de diversão é dar uma em tudo o que mexa e sem
olhar a faixas etárias, mas indo sempre atrás da experiência dos anos… E
sente-se nos píncaros.
A mim, nem a amante paga que é a psicóloga, nem a secretária
do ministério, uma boazona ruiva, que me teve duas ou três vezes na última
semana, me fazem sentir mais ou melhor.
Pelo menos uma faz-me pagar bem o serviço, sem me fazer
servicinho.
A verdade é que apesar de 220 anos a aturar…
Sim, disse 220 anos.
É o tempo de casamento que tenho, apesar de contado em anos
de cão abandonado e comido pela vida… Voltando, 220 anos de união feliz e
maravilhosa, em que o sentimento é igual a ter farpas de bambu espetadas por
debaixo das unhas, enquanto nos obrigam a cantar o hino nacional e nos
electrocutam os… Bem já perceberam…
A Maria, a minha esplendorosa esposa, que passou de um belo XS,
com uma par convincente, para, ao fim do segundo rebento (dos quais apenas um é
meu…oficialmente), L sem par algum de nota, nunca teve o meu amor. Teve o meu
carinho. Mas se nesse sentido o carinho for amor, então menti na frase anterior…
Por mais que o meu abraço encontre dificuldade em
contorna-la, a verdade é, que ela é o mais próximo que estive de construir uma
família funcional. E funcional nos termos que o meu paizinho me incutiu,
implica pelo menos uma amante…
Já agora, lição para o leitor: Amante sim. Por pouco tempo,
mais do que uns meses e instala-se a ilusão do fim do matrimónio. E esta se
calhar é prova de que não sou sociopata. Não as quero enganar, nem iludir.
Confesso-lhes o medo (que não tenho) e sigo para a próxima. Exasperam um pouco
pelo fim do sexo, digno de prémio (diga-se em boa verdade e modéstia). Mas de
resto, recuperam depressa do momento de rejeição. Até porque as faço ver que
sofro com a decisão… As crianças… As crianças… Certo e sabido…
Entretanto, a doida da psicóloga leva-me os segredos e o
dinheiro. E sendo uma mulher com tudo no sítio certo, tem apenas uma cabeça tão
destravada como a minha. Se calhar por vezes pressinto que esta era mulher
certa para mim. Tão maluca ou mais. Mas portentosa…
Nunca me contou nada seu. Nem podia. Senão eu é que lhe
cobrava o tempo.
Mas não adianta nada estar aqui. A falar para a boneca,
quarentona enxuta. Vou acabar tudo com ela. Ou melhor, vou dizer-lhe que já não
lhe pago mais nenhuma prestação do carro ou da casa ou da porcaria da máquina
da comida por fazer que anda na moda.
Isto porque apesar de me ter conduzido a fazer as pazes
internas, externamente sou um bimbo disfarçado tolhido por memórias
compulsivamente inanimadas mas desagregadoras. Comporto-me como um «Fananzinho»: engato e desengato. E continuo vazio com isso.
Sinto-me vazio porque continuo a questionar, ao fim de uma
vintena de séculos, porque é que a única mulher que amei e após a qual nunca
mais nada senti, me disse: Não!
Pior, nunca tendo partilhado a cama e o beijo, o corpo dela
sempre foi mapeado pelos meus dedos. E os seus olhos azulados como o mar de céu
limpo, ladeado pelo sol feito fios…esses tiveram sempre o meu coração nas mãos…
Não preciso de uma boazona para me dizer isso. Talvez e somente
para me dizer porque me casei com um futuro que não queria…
Em vez disso…
Foram cheques e cheques, com número de contribuinte na
factura, desconto nas seguradoras, limpezas a seco, lavagens automáticas e
recibo da mensalidade…
E eu, deitado num divã. Preparo-me para dizer, até nunca,
acabou-se… E dou por mim a proferir: Até segunda…
Isto porque sou incapaz de dizer «Não!» a uma boa mulher!
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