Há um ano…
Lembro como se fosse ontem.
Dizeres-me que tinhas de ir. Que não podias esperar mais. Era agora ou nunca.
Deixares-me sozinho na cama, só pelo acaso da noite mal dormida. Despedir-me de
ti sem o perceber… E perceber que tinhas ido sem mim, sem que a necessidade de
partida fosse imediata.
Querias-me poupar à sentença. À partida. Mas
não tinha e ser assim. Tínhamos combinado que assim não seria. O Diogo e a
Catarina não se puderam despedir de ti como queriam. Fazer-te uma festa. Como queriam.
Como eu queria. Mostrar que este era o teu destino. Não o caminho por onde ias.
Atravessavas meio mundo para
fazeres o que fazias melhor. E fizeste isso, connosco no outro meio mundo. Estavas
sempre comigo. Haveria sempre uma peça de roupa tua, com o teu cheiro perdido.
Aquela camisola de lã que se colava a ti, com o suor de quem tem calor demais
para o frio e frio de mais para a neve. Dormi mil dias agarrado a essa
camisola. Porque era tua, sem seres tu.
Fazes-me falta. Fazes-nos falta.
A tua pele ainda se prende nos meus lábios. O teu sabor fica nos meus olhos. Ainda
sinto na língua todos os altos e baixos do teu corpo. Ainda sinto isso como se
o teu se colasse ao meu.
Mas partiste. E estavas longe. A meio
mundo. Há um ano e um dia…
Mas há um ano, ainda entaramelado
pelo sono, pelo aguardar de uma chamada, recebo uma visita.
Um gentil homem, um burocrata com
boas intenções, solene e hirto, trazendo com ele notícias tuas. Que te perdeste
na selva. Nas cidades desse fim de mundo. Raptada desta vida. Sem possibilidade
de resgate.
Perguntam inutilmente se podem
fazer algo mais. Apetece-me dizer-lhe que se vão foder. Mas essa acção não me
parece nem construtiva nem apaziguadora.
Tenho de anunciar aos nossos
miúdos que não vais poder voltar. Que vou ter de ir ao outro lado do mundo
buscar-te…
E nessa viagem, há um ano menos 5
dias, encontro-te novamente. Uma réstia tua. Uma memória tua. Algo que és tu,
sem o seres.
Não me aguento. Fujo de ti. Como
fugi nunca. Não és o amor da minha vida. Não és a cinza do que resta de dez
anos, 2 filhos e sonhos. Choro, copiosamente. Choro, profusamente. Choro
sozinho, acompanhado dos olhares piedosos de quem sabe o que é perder
Parte de nós.
Recomponho-me…
Há um ano menos 10 dias
despedi-me do teu corpo. Fiz das tuas fotos um memorial. Das tuas memórias uma
catedral de vento. Fiz do teu amor uma capela imperfeita.
Fiz de ti local de visita.
Primeiro todos os dias. Depois dia sim, dia não. As nossas conversas já não
eram como antes. As tuas respostas eram divinações minhas. Há um menos 6 meses…deixei
de poder ir. Havia dois seres, que eram nossos, que exigiam atenção. Não lhes
custa não te ver. Custa-lhes não te ouvirem, não te cheirarem. Custa-lhes não
te sentirem no beijo matinal, no abraço antes da escola…Acho que ainda têm
esperança que regresses das tuas benditas viagens. Até eu
o espero.
Há um ano e um dia, perdi-te. Há
um ano e dez dias entreguei-te. Há um dia comecei a chorar.
Hoje encontrei o amor que perdi. Encontrei-o
na minha imaginação a dizer, o que sempre disseste antes de partir, excepto há
um ano: Esperas o quê, seu tonto? Que a vida arranque sem ti? Levanta-te dessa
cama onde fomos um e vai ser tu com o mundo que te espera. E agora deixa-me
ir. O meu mundo espera. Amo-te! Até ao meu regresso.
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