Mudar de cara.
Confesso que desde o meu acidente
aos 5 aninhos, sentia a minha face distorcida.
Mal formada e causadora de grande
dor visual.
Era, naturalmente, mais a impressão
que a cicatriz que atravessa a face me fazia, do que aquela que fazia aos
outros.
Apenas um mero adereço
visual, não muito distante de um piercing no nariz, ou de um brinco. Era uma
marca distintiva.
Conferenciei muitas vezes sobre
se valia a pena remover essa marca.
Sempre me perguntavam "Qual cicatriz?"
Fiz muitas consultas. Com cirurgiões simpatiquíssimos, que me diziam todos que o meu problema era
facilmente resolúvel. Mas todos os acertos e correções eram em todos os locais
menos onde estava essa cicatriz.
Era-me confuso ver tal coisa. Era
visível na imagem do espelho. Os meus olhos, doutra forma perfeitos, sentiam-se
feridos pela visão de tal entalhe na pele.
Não percebia a quantidade de
defeitos que me apontavam onde tudo parecia normal. Parecia perfeito.
Comecei a falar deste desejo
secreto, de mudar de pele, aos mais próximos amigos.
Comecei a ouvir as opiniões mais
dura e mais doces sobre o rumo que queria.
Numa dessas conversas, com uma
brutalidade doce, ela disse-me que era melhor que eu mudasse de olhos. Que
procurasse o que me fazia perfeito. O que me fazia inteiro. Não os baixos-relevos
da vida, marcados no corpo.
Ouvi com a paciência de quem não
quer ouvir.
Deixei passar.
Continuei a minha viagem à
procura de remendo bem feito.
Certo dia acordei acompanhado.
Sem temor algum dessa companhia.
Era eu noutro corpo, olhando para
mim.
Tinha outra voz. Outro toque.
E nesse outro corpo não via
cicatriz que trouxe tantos anos.
O outro corpo, que sendo meu,
tinha voz e maneirismos diferentes, dizia-me que também não via cicatriz
alguma, no sítio onde lhe apontava.
Incrédulo olhei-me no espelho, no
que reflectia a escuridão da alma perdida e o cabelo desgrenhado e procurei com
afinco uma cicatriz que partiu.
Ali, na minha cara que segurava
os olhos, não restava nada mais que uma doce planura.
Desapareciam as cicatrizes, cicatruzes,
cica qualquer coisa…
Ficavam apenas caminhos.
As rugas de um sorriso.
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