Fala-se sempre do bairro ou da casa com a luz vermelha, onde resistem as mães de muitos políticos. Mas da rua cor-se-rosa, dessa nunca houve ofensa que dela saísse enquanto rua.
Apenas mais uma rua com bares, cafés diurnos e nocturnos, restaurantes.
E em alguns dias da semana, vida demasiada para esse mesmo espaço.
Costumava parar lá todos os dias úteis. E os inúteis também. Cirandava, escolhia o local do costume, pendurava-me no balcão e pedia o Cimbalino só para, na minha mente, chatear!
«Em Lisboa é Bica.» mil vezes me diziam... Até desistirem... Por pouco tempo... É o que dá ser gente de têmpera...
A meio da ingestão do cafézinho ora quente, ora fervente, surgia sempre a vontadinha de um «cheirinho».
Acabava sempre por ficar com um brandy na mão e uma chávena na outra.
Mas confesso que não o fazia todos os dias.
Trabalhar naquela zona tinha o adágio de me proporcionar tempo para o convívio com almas que eram de longe tudo, menos cor-de-rosa.
Havia dias em que, para fugir às quatro mulheres que habitavam o «Domus Familiaris», ficava até mais tarde e ainda gozava um pouco dos poetas de rua, nessa rua cor-de-rosa, já escurecida pelo dia a passar..
Era giro ver os convencidos e os tímidos surgirem. Os olhos tolhidos gritarem. Os corpos bem delineados das donzelas ofendidas, que ofendem com a palavra, quem as deixou no altar da vida.
Mas mais do que isso, era elevar a alma. Sentir um bicho adormecido que me fazia martelar gentilmente o teclado da antiquada máquina de escrever uma cópia chinesa da Royal Quiet DeLuxe Portable de 1941, como a que Hemingway usava e que jazia no escritório como bibelot e centro de vida.
Hemingway...
Tal como ele e o seu mundo, o resto do meu mundo andava três whiskys atrasado.
A Ana estava farta de me ver martelar naquela máquina.
Não percebia o fascínio da antiguidade, quando tínhamos não um, mas dois portáteis excessivamente caros para servirem de pesa papeis.
Não sabia que escrevia o que alma me doía para escurecer os ruídos da vivência diária.
Para afastar a sua voz inquisidora dos meus destinos, os pedidos incessantes de leva-me ao Shopping, ou compra-me isto...Dá-me dinheiro...O Manel quer levar-me ao cinema...Posso?
Acedia a quase tudo, menos ao Manel. Supervisão paternal e um taco de Baseball fazem milagres aos mal comportados. Mas nunca o ameacei. Directamente...
Apenas olhava para o Bastão...
Era a minha fuga diária... Assustar um pato marreco armado em cisne. Beber um copo e um café. Ouvir poemas de amor, escárnio e mal-dizer.
Ouvir o amor da minha vida reclamar que já não o é.
Sentir o desejo das minhas filhas em estar comigo...
Ver a vida a passar, quando passo a vida com quem quero.
A verdade é que perco não muito mais de meia hora dos meus dias com estas iterações.
Chego e brinco com as miúdas.
Acabo e «brinco» com a Ana.
Fazemos o que podemos para viver bem. E viver Juntos.
Beijamo-nos.
Escrevendo num dos pesa-papeis.
Fazendo algumas brincadeiras com a minha Royal.
Já vou para o terceiro livro...
Mais um não «best-seller»...
Apenas «seller».
Querem convencer-me a ser mais comercial. Querem mas não conseguem.
Amo demais ser eu.
Porque é desse eu que vem a Ana e as miúdas. A Royal. O cimbalino numa mão, o brandy noutra. Os poemas que oiço. As palavras que me caem dos dedos...
Os passos que dou na rua Cor-de-Rosa.
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