Tínhamos o hábito estranho de
beber o café num copo de papel. Mais por conveniência do
que por gosto. Aliás mais por preguiça, dado que nem sequer chávenas tínhamos
comprado.
No chão do quarto jazia um colchão, morto pelo uso extremo. Pelo movimento contínuo do rebolar dormido, mas não pelo sexo selvagem que todos os colchões almejam evitar.
Percorria
esse quarto, embora por mão nossa, uma cadeira simples. De dobrar. Que fazia as
vezes de bengaleiro, cómoda e mesa-de-cabeceira, para uma cama que ainda havia
de chegar.
Mas
bastava.
Pela sala, descansava um sofá, felpudo, gasto pelo excesso de uso, cuja única ambição era sentir, mais um dia que fosse, um traseiro bem torneado...
Para gáudio da cadeira que vivia nas suas iterações no quarto, só metade dos traseiros que sentavam no triste sofá configuravam esse desejo.
Para
agravar a desigualdade, na cadeira, ninguém se sentava.
Talvez
por isso se sentisse melhor, diferente, mais importante do que mero assento.
A televisão, que era apanágio das casas normais, era assento para livros, tendo em conta a sua antiguidade e dimensão... Isso e o facto de se ter avariado no segundo dia da nossa vivência juntos.
De
imagens em movimento restavam apenas o reflexo dos nossos, que por vezes
pareciam ser dignos de um daqueles filmes que passavam nos cinemas
desaparecidos da Baixa e dos Restauradores.
Tornou-se
uma mera espectadora do espectáculo.
Mas já
não o seria por muito mais.
Duraria o
tempo necessário a que a casa se compusesse num reflexo da ideia que
tínhamos.
Quando
tal aconteceu, a casa que mudara, para nosso contento, já não era a casa
que queríamos ter.
Já tínhamos cama,
com colchão novo!
O velho
foi dado ou reciclado.
A cadeira
com múltipla personalidade tornou-se apenas um bibelot esquecido numa arrecadação.
O
sofá, triste e felpudo, foi refeito e reformado. Agora é de uma bela
pele negra, confortável, com todas as molas inteiras.
Mas faltando algo...
A
televisão, essa, foi substituída por um magnífico ecrã panorâmico que faz tudo
e até pipocas...
Até
já tínhamos chávenas e máquina para café...
E no
entanto, sentados neste sofá, com estes «novos» móveis, todos eles já
desgastados por três filhas, 2 gatos e o ocasional peixinho dourado ou hamster,
lembrámos com o carinho de quem sabe o que tem valor, o desconforto que os
outros pedaços de madeira, tecido e metal representavam e o amor
que por eles tínhamos.
Eramos felizes com um pequeno mundo.
Agora
somos felizes, sempre a correr para um mundo que muda todos os dias.
Sempre à
procura de outro sofá, outra televisão ou maquineta, que preencha o vazio...
O vazio
que existe quando as nossas três filhas, 7 netos, 2 genros e meio (que um deles
ainda não se declarou, mas falta pouco) não estão na casa.
Se calhar
por isso relembro o tempo em éramos só dois, um sofá, uma cama e uma
cadeira.
Só dois a caminho de
cinco.
Agora
somos quinze, quase dezasseis.
Há sempre
mais um a surgir...
Dei-me
conta, enquanto olho para ti como se fosse o primeiro dia, que cedemos o
desconforto de um passado, para criar um futuro maior do que tínhamos.
Só ainda
não o sabíamos.
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