segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Copo do dia - Num copo de papel

Tínhamos o hábito estranho de beber o café num copo de papel. Mais por conveniência do que por gosto. Aliás mais por preguiça, dado que nem sequer chávenas tínhamos comprado.  

No chão do quarto jazia um colchão, morto pelo uso extremo. Pelo movimento contínuo do rebolar dormido, mas não pelo sexo selvagem que todos os colchões almejam evitar. 
Percorria esse quarto, embora por mão nossa, uma cadeira simples. De dobrar. Que fazia as vezes de bengaleiro, cómoda e mesa-de-cabeceira, para uma cama que ainda havia de chegar.

Mas bastava.

Pela sala, descansava um sofá, felpudo, gasto pelo excesso de uso, cuja única ambição era sentir, mais um dia que fosse, um traseiro bem torneado...

Para gáudio da cadeira que vivia nas suas iterações no quarto, só metade dos traseiros que sentavam no triste sofá configuravam esse desejo. 
Para agravar a desigualdade, na cadeira, ninguém se sentava. 
Talvez por isso se sentisse melhor, diferente, mais importante do que mero assento.

A televisão, que era apanágio das casas normais, era assento para livros, tendo em conta a sua antiguidade e dimensão... Isso e o facto de se ter avariado no segundo dia da nossa vivência juntos.
De imagens em movimento restavam apenas o reflexo dos nossos, que por vezes pareciam ser dignos de um daqueles filmes que passavam nos cinemas desaparecidos da Baixa e dos Restauradores. 
Tornou-se uma mera espectadora do espectáculo. 
Mas já não o seria por muito mais. 
Duraria o tempo necessário a que a casa se compusesse num reflexo da ideia que tínhamos. 

Quando tal aconteceu, a casa que mudara, para nosso contento, já não era a casa que queríamos ter. 

Já tínhamos cama, com colchão novo! 
O velho foi dado ou reciclado. 
A cadeira com múltipla personalidade tornou-se apenas um bibelot esquecido numa arrecadação. 
O sofá, triste e felpudo,  foi refeito e reformado. Agora é de uma bela pele negra, confortável, com todas as molas inteiras. 
Mas faltando algo... 
A televisão, essa, foi substituída por um magnífico ecrã panorâmico que faz tudo e até pipocas... 
Até já tínhamos chávenas e máquina para café...

E no entanto, sentados neste sofá, com estes «novos» móveis, todos eles já desgastados por três filhas, 2 gatos e o ocasional peixinho dourado ou hamster, lembrámos com o carinho de quem sabe o que tem valor, o desconforto que os outros pedaços de madeira, tecido e metal representavam e o amor que por eles tínhamos.
Eramos felizes com um pequeno mundo.

Agora somos felizes, sempre a correr para um mundo que muda todos os dias. 
Sempre à procura de outro sofá, outra televisão ou maquineta, que preencha o vazio...
O vazio que existe quando as nossas três filhas, 7 netos, 2 genros e meio (que um deles ainda não se declarou, mas falta pouco) não estão na casa. 

Se calhar por isso relembro o tempo em éramos só dois, um sofá, uma cama e uma cadeira.
Só dois a caminho de cinco. 
Agora somos quinze, quase dezasseis.
Há sempre mais um a surgir...

Dei-me conta, enquanto olho para ti como se fosse o primeiro dia, que cedemos o desconforto de um passado, para criar um futuro maior do que tínhamos.
Só ainda não o sabíamos.

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