domingo, 4 de janeiro de 2015

Copo do dia - O primeiro caminho do ano

Começa mais um ano. Mais um conjunto de promessas que se perdem no ar dos primeiros minutos de um dia, que para todos os efeitos apenas a necessidade de esperarmos que a próxima translação da Terra seja melhor do que esta última que passa. E no entanto tudo isto é uma mera ilusão concebida apenas para criarmos a esperança de nada é para sempre e que a nossa vida é apenas um rotação de 24 horas…
Se calhar devíamos mudar de planeta e procurar um onde as horas do dia encontram a necessidade de momentos. E os anos que passam são uma vida inteira ou um milénio inteiro.
Essa vontade de ver tudo terminar e recomeçar, para criar um propósito de um fim e de princípio nas vidas que nada significam sem isso, só faz sentido quando não temos tempo para tudo o que somos, para o que queremos ser e para o caminho que temos pela frente. Até para caminhar na vida é preciso tempo. Não daquele que se gasta no rumor do respirar ofegante de quem corre ou termina a maratona na cama, mas naquele que faz de todos nós iguais, quando acordamos, cegos pela luz, acabrunhados pelo frio da manha de Janeiro polar. O tempo em que ainda sem ver, vemos tudo. O tempo em que o sonho se dissolve na realidade.

É assim que me sinto todos os dias, ultimamente. A acordar do sonho para realidade. A acordar com a sensação desconhecida de companhia para a alma.
É uma sensação falsa.
Apenas resta uma almofada, que se remexe nas minhas mãos. Tu, o resultado de mais uma translação, partiste com a chegada da presença humana que dorme no outro quarto.
Nunca soube bem o que aconteceu. Num momento abraçava-te. No outro desaparecias no meu encerrar de olhos, provocado pela violenta pancada que um jipe vindo dos infernos, nos dava.
Não me lembro de muito mais… Dizem os que dizem muito sobre estas coisas, sobretudo por assistentes de espectáculo macabro que gritava por ti e por ela. Que não vos sabia…
Que não me sabia. Saí ileso e incautamente queria ver-vos. Encontrar-te como te encontrei, ao que consta dos contadores, causou-me tanto dano que não te ousei reconhecer. Dizia apenas que não eras…
Que a minha estava comigo no carro, a sair da cidade e que eram as horas que já foram, menos 4 que as que eram ali.

Perdi o teu tempo. Perdi-me na memória. Senti-me perdido no caminho…
Agora, 3 translações e meia, tenho uma boca para animar. Uma lembrança de ti. E de nós juntos. E uma almofada que nada me diz mais do que o caminho do acordar, da luz do sol que bate, já não esbarra na tua face e no teu nariz.
Nunca mais dormi com os estores semi-corridos. Coisa que fazia só para ver a tua sombra cobrir-me.
E agora escureço o quarto, tenebrosamente esperando o amanhecer.
Já não tanto. A nossa filha não gosta do escuro. As maleitas do acidente ainda se fazem sentir. Ia a dormir, na cadeira que a salva. Por ideia materna, impingida pela criança, colocou-se atrás da cadeira do condutor.
Salva por uma teimosia infantil.
Uma sabedoria que nos ultrapassa, quem sabe.
Agora tenho-a a ela. O caminho faz-se com as suas translações.
E em cada manhã, vejo nela o olhar que via em ti. E cada anoitecer que passa, vejo o olhar que se fecha que era o teu.
Não lamento ver-te todos os dias.

Lamento que não o possas ver todos os dias…

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