Começa mais um ano. Mais um conjunto de promessas que se
perdem no ar dos primeiros minutos de um dia, que para todos os efeitos apenas
a necessidade de esperarmos que a próxima translação da Terra seja melhor do
que esta última que passa. E no entanto tudo isto é uma mera ilusão concebida
apenas para criarmos a esperança de nada é para sempre e que a nossa vida é
apenas um rotação de 24 horas…
Se calhar devíamos mudar de planeta e procurar um onde as
horas do dia encontram a necessidade de momentos. E os anos que passam são uma
vida inteira ou um milénio inteiro.
Essa vontade de ver tudo terminar e recomeçar, para criar um
propósito de um fim e de princípio nas vidas que nada significam sem isso, só
faz sentido quando não temos tempo para tudo o que somos, para o que queremos
ser e para o caminho que temos pela frente. Até para caminhar na vida é preciso
tempo. Não daquele que se gasta no rumor do respirar ofegante de quem corre ou
termina a maratona na cama, mas naquele que faz de todos nós iguais, quando
acordamos, cegos pela luz, acabrunhados pelo frio da manha de Janeiro polar. O
tempo em que ainda sem ver, vemos tudo. O tempo em que o sonho se dissolve na
realidade.
É assim que me sinto todos os dias, ultimamente. A acordar
do sonho para realidade. A acordar com a sensação desconhecida de companhia
para a alma.
É uma sensação falsa.
Apenas resta uma almofada, que se remexe nas minhas mãos. Tu,
o resultado de mais uma translação, partiste com a chegada da presença humana
que dorme no outro quarto.
Nunca soube bem o que aconteceu. Num momento abraçava-te. No
outro desaparecias no meu encerrar de olhos, provocado pela violenta pancada
que um jipe vindo dos infernos, nos dava.
Não me lembro de muito mais… Dizem os que dizem muito sobre
estas coisas, sobretudo por assistentes de espectáculo macabro que gritava por
ti e por ela. Que não vos sabia…
Que não me sabia. Saí ileso e incautamente queria ver-vos.
Encontrar-te como te encontrei, ao que consta dos contadores, causou-me tanto
dano que não te ousei reconhecer. Dizia apenas que não eras…
Que a minha estava comigo no carro, a sair da cidade e que
eram as horas que já foram, menos 4 que as que eram ali.
Perdi o teu tempo. Perdi-me na memória. Senti-me perdido no
caminho…
Agora, 3 translações e meia, tenho uma boca para animar. Uma
lembrança de ti. E de nós juntos. E uma almofada que nada me diz mais do que o
caminho do acordar, da luz do sol que bate, já não esbarra na tua face e no teu
nariz.
Nunca mais dormi com os estores semi-corridos. Coisa que
fazia só para ver a tua sombra cobrir-me.
E agora escureço o quarto, tenebrosamente esperando o
amanhecer.
Já não tanto. A nossa filha não gosta do escuro. As maleitas
do acidente ainda se fazem sentir. Ia a dormir, na cadeira que a salva. Por
ideia materna, impingida pela criança, colocou-se atrás da cadeira do condutor.
Salva por uma teimosia infantil.
Uma sabedoria que nos ultrapassa, quem sabe.
Agora tenho-a a ela. O caminho faz-se com as suas
translações.
E em cada manhã, vejo nela o olhar que via em ti. E cada
anoitecer que passa, vejo o olhar que se fecha que era o teu.
Não lamento ver-te todos os dias.
Lamento que não o possas ver todos os dias…
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