quarta-feira, 16 de março de 2016

Copo do Dia - Contrapeso e medida

Haverá, para um leitor, algo mais irritante do que um erro do escritor. E se desse pedaço de texto esperarmos ver o estado do mundo. Cada "jornalista", escritor ou emissor de palavras, mais tarde ou mais cedo cai no erro de errar. 

Mesmo na ofensa "vernacular", exige-se qualidade, o que nem sempre acontece. O uso do vernáculo exige um conjunto de capacidade que não está ao alcance de muitos. Há uma delicadeza a respeitar numa boa ofensa. De resto será apenas brutalidade, o que deverá ser sempre algo que deve repudiar. A ofensa é uma forma de arte. Exige interpretação e audácia...

Li, há dias, que "há que ter contrapeso e medida no que se faz na alimentação". 
Confesso o meu espanto pelo referido.
Afinal trata-se de uma nova expressão da alma. "Contrapeso e medida."
Algo que deturpa o verdadeiro o acto de medir o peso de algo. De avaliar. Ou seja, a expressão é de anulação.

Quando te conheci, em miúda,  de dois palmos de altura, ouvias tão bem, como falavas pelos cotovelos. 
Na inundação de letras que provocavas nada era mais evidente  do que a deturpação de alguns significados, sem no entanto o fazeres por insidioso engano. 
Eras uma inocente, com jeito para criares novas conjugações elementares e com significados obscurantistas. 
Talvez isso explique teres-te tornado uma autora de sucesso. Se um Nobel podia não escrever páginas inteiras com pontuação, tu não fazias sentido no que escrevias. E isso, de forma absurda faz...sentido. Escreves à medida do público que queres que te compre. O outro, o que lê horrorizado por não compreender o que se passa, esse, paga muito por pouco. 

Olha para a peso da palavra, não para sua leveza. 

Navegando no meio dos recifes perigosos que são as expressões "contrapeso e medida", "A galinha da vizinha é melhor que a vinha", "Uma andorinha não faz a primavera. Mas uma data delas fazem uma porcaria",  entre outras "delícias" ao fim de vinte anos, ainda não percebi se te perdes na imaginação ou o teu cérebro vê mesmo tudo assim. 

Nunca desisti de te entender... Mesmo quando casámos. Mesmo quando recriaste a tua infância em mais três pimpolhos, trigémeos, nascidos no meio de um tratamento de fertilidade.

Reproduziste neles, o teu hábito! "Mais vale um pássaro mão do que dois calhaus na rua."

Sempre me senti num quadro surrealista. Agora era tocado a 8 mãos em vez de duas.

Quando te foste embora da minha vida, deixando-me com a conta do caixão e do enterro virtual (isto porque querias ser cremada, ficando, pela tua expressão tostadinha como um Leite-creme, descobri uma verdade que nunca me ocorrera:

As frase inventadas eram uma forma simples de mudares o mundo, da essência banal que se resume a perdoar a ladrões, construir castelos nas nuvens e a pouco ou nada sonhar. 

Querias que eu sonhasse. Que criasse um rumo em direcção ao sol que podia ser o que tínhamos entre nós.
E sem me aperceber fui perdendo essa guerra. Não te percebia, aceitava a doidice pegada por ti, mas não a acolhia no coração.

Ia perdendo-te sem alguma vez o ter percebido.Porque não conseguia ver o mundo com as mesmas cores que tu. 

Eras uma daltónica literária. 
Como quem escreve deve ser. 

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