quarta-feira, 9 de março de 2016

Copo do Dia - O insustentável peso de um elefante numa loja de loiça

Já não restam muitas das lojas de loiça da nossa cidade. Foram todas corridas dos seus arrumos,  para dar lugar a spots turísticos. 
Porventura tornaram-se "bibelot shops", na pior acepção da palavra. Infelizmente para nós, nós gostamos... Somos turistas no nosso próprio quintal. Mas com o desejo de exclusividade.

O mesmo se passa com o gostinho perverso que os homens têm, quando de mulheres se fala. Querem uma mistura em partes desiguais de santa, (Devota ao nosso senhor que eles  se julgam) e algo que nos conseguiria tirar a caratonha séria, só com um olhar lambido nos lábios, revestido uma tal sensualidade, que deixaríamos de pensar fosse o que fosse.

Lábios indutores de paralisia mental.

Uma mistura de vestes de freira, com um decote até ao umbigo pontuado por dois “Olimpus Mons”, a caminho de vale luxuriante.

Na verdade, raramente se consegue um pacote completo. E por muito que o homens queiram, estes são brinquedos nas mãos certas…

Afinal de contas, se nos perdemos no olhar delas, nós é que perdemos a estação de comboio certa… Não elas.

Por outro lado, este efeito, igualmente cheio de uma perversidade delico-doce, afecta de igual forma o belo sexo…

O belo Sexo? 

Dir-se-ia que essa diminuição a objeto de admiração seria um crime contra o amor próprio das fêmeas da espécie. E no entanto, é também uma depreciação do próprio homem, na sua vertente de Homo Erectus ou Neanderthalensis, de peito feito, floresta para abate, barba que ora é sexual, ou assexual, consoante o efeito no objecto de amor.

Objecto de amor?

Daqueles objectos que vendem nas lojas e que substituem o toque humano? 
Daqueles seres que se vendem na rua, para por pão na boca?
Abjectos… 
os Seres? 
Os Objetos? 
Os serviços!

Os serviços, essa denominação inocente para o pior que se pode fazer seja a ser vivo ou a ex-ser vivo, chamado papel. Nela se englobam os hediondos crimes de quem sabe tudo e as questões de quem deixou tudo acontecer…

Isto hoje está desconexo. 

Maldigo o turismo, o dia que deviam ser dias, a falta de humanidade das pessoas…O esquecimento a que remetem o que querem ignorar...

Acho que me sinto como um elefante numa loja de loiças… 
Ao contrário do que se julga a cena seria trágico-cómica. Um gigantesco paquiderme, em local desconfortável, rodeado de frágeis objectos que procura evitar a custo, sendo grande demais para a delicadeza felina necessária para passar por entre tudo, sem partir um argumento.

Ao mesmo tempo, a sua própria existência e persistência provoca tal alteração que, por pouco que fizesse, o efeito será catastrófico.

Só conheço um outro ser capaz disto: O turista. Capaz de entrar em manada numa loja, deixar um rasto de cacos e dinheiro atrás de si, procurando as lojas de souvenir e bibelots que vão surgindo por aí e além, com os melhores representantes dos produtos locais “Made in China". Se calhar ainda vai dar pão a quem pede e cobra. 

E as lojas de loiças? As discotecas, as mulheres? Tudo isso?


Não sei de nada. Estou de trombas, no meio de turistas, no meio de uma loja, no meio de um país perverso em que se comemora tudo… 
Menos o que faz de nós um país!

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