segunda-feira, 14 de março de 2016

Copo Político - A cidade-Botox

Nasci em Lisboa. Cresci em Lisboa. Hei-de morrer em Lisboa. Fiz e farei viagens com partida nesta cidade branca e com regresso a ela marcada. Foi o meu primeiro amor, num coração que aceita muitas outras cidades, todas com o seu ar próprio. E como mulher cidade, decidiu tornar-se mais apetecível. Elimina uma ruga ali, um buraco na estrada acolá, fecha lojas abandonadas no tempo, renova-se perdendo um pouco da beleza, sem que crie uma nova. Apoio a transformação da cidade, em algo mais cosmopolita, sem que isso signifique perder a alma. Mas manter o velho e o antigo só porque são antigos e velhos, não é suficiente.

Encaro que vemos a cidade de Lisboa, como olhamos para os problemas. A violência contra mulheres e crianças, contra homens e idosos (uma vergonha escondida e ignorada, ainda)  reflecte como olhamos para a cidade. Afinal de contas sempre vamos ouvir que era uma pessoa tão calma, um café tão interessante, um salão de cabeleireiro tão catita... E quando foi a última vez que lá fomos? A última vez que nos colocamos entre os criminosos e a vítima.  Ignoramos e queremos ignorar. Não desejamos salvaguardar nem a vida, nem a bolsa, nem a nossa integridade moral....

É isso: Falsos moralistas.

Pessoas que afirmam que bater nas crianças é um crime, mas que quando vemos o evento (e assumindo que não é mais do que uma acção disciplinadora) não a denunciamos à polícia que certamente se iria rir (mentalmente),  mas faria por admoestar a  pessoa disciplinadora. Por outro lado o superior interesse da criança é tão superior, que muitas vezes acabam nas mãos dos que as vitimizam...

Ah sim... E depois temos esses criminosos: Os Turistas.

A culpa é deles. Queremos o seu dinheiro, que amem e adorem a nossa cidade e o nosso país. Até limpamos a ruas, para que se sintam mais à vontade. Pintamos as fachadas e escoramos as que vão cair. Permitimos dez mil Hotéis e Hostels que ficarão cheios, nem que seja por um ano. Tornamos caro viver na cidade, para que não tenha nada do que nos envergonhe. Mas de noite, quando ninguém há para ver, nada acontece. Lisboa morre ali.

E na noite também morrem mulheres e crianças, porque não são turistas, não são interessantes. Abandonadas por um sistema que não lhes permite ter segurança. porque isso não acontece. Como naquela região do país onde estar isolado numa casa no alto de um monte, é normal e aceite. Abandonado da civilização, com as visitas de quem se importa e quer ajudar, bem como dos que se querem ajudar à custa...

Não queremos saber. Há um novo "Macdonalds"? Vamos lá ver... Oh! era um salão de cabeleireiro... Não sabia. Pensava que era um tapume.

Podemos ser mais inteligentes do que isto. Podemos permitir que as coisas se façam, mas com regras. Podemos evitar mais mortes, se mostrarmos que quem deve ter vergonha são os que cometem crimes.

Há um provérbio que diz: "Vergonha é roubar  e ser apanhado."

Não deveria ser "Vergonha é roubar"?
Ou matar?
Ou violar?

Ao menos a cidade-mulher, deixa que todos lhe alisem as rugas com licença camarária. Se isso serve de algo...
E as crianças entregues aos violentadores, são-no com aval da justiça que não há...

Somos um país que exige justiça.
Mas que não sabe o que isso é!
Ou melhor, depende do ultraje da semana...

E a culpa?
A culpa é nossa.
Elegemos 4 ou 5 vezes um "Cavaco Silva"..
Cuja única virtude era ser "honesto" e nunca se enganar. 

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